“Eu nasci investidor social”
19/7/2010 – Luís Norberto Pascoal, 63 anos, é presidente do Grupo Dpaschoal, empresa de serviços automotivos, e da Fundação Educar DPaschoal. Casado há 38 anos, pai de duas filhas, ele acredita firmemente que a educação é o meio para transformar a realidade brasileira. E contribui para isso como investidor social há mais de 20 anos.
Desde pequeno, aprendeu com os pais a importância da convivência com pessoas de diversas realidades. Ao lado deles, auxiliou asilos e orfanatos, principalmente por meio da caridade.
Sua mudança de postura para investidor social aconteceu nos anos 80, quando estudou na Universidade de Harvard (EUA). Um professor lhe disse: “A caridade é boa, mas não é construtiva. A educação pública é que faz a diferença”. Esse é um dos legados que ele conserva e tenta contaminar, no bom sentido, outros empresários para que colaborem na solução dos problemas brasileiros.
Esta entrevista desvenda o perfil desse cidadão, que não precisou vivenciar uma tragédia pessoal ou familiar para se engajar como um estrategista do setor.
Quem é o Luis Norberto Paschoal?
Luis Norberto Pascoal – Eu diria que sou como o Parreira, o técnico de futebol [Carlos Alberto Parreira]. Primeiro, ele cursou faculdade de Educação Física. Com sua formação, ajudava os times porque tinha capacidade de observar o jogo, o campo e a estratégia. Isso o tornou um dos melhores técnicos do mundo, sem nunca ter sido jogador de futebol. Eu sou um Parreira: não preciso ter uma filha doente ou passar por um sofrimento para sentir a dor e o sofrimento (do outro). Ter observado pessoas muito velhas ou muito jovens ao longo da minha vida foi a oportunidade para eu ter noção da dimensão social do mundo. Gosto de um bom problema, desde que eu possa resolvê-lo estrategicamente.
Como você decidiu se tornar um investidor social?
LNP – Eu não decidi, nasci [investidor social]. Meu pai, aos 21 anos, perdeu meus avós em um prazo de 20 dias. Na época, ele e os irmãos moravam em Campinas (SP) e foram ajudados por moradores de um asilo. Quando ele casou com minha mãe, logo após a cerimônia na igreja, foram comemorar com os idosos do asilo. A partir de então, auxiliaram asilos e orfanatos. Desde pequeno, eu os acompanhava nas visitas mensais à casa de repouso. Todo ano, realizávamos a ceia de Natal lá. Semanalmente, às quartas-feiras, também ia ao orfanato com minha mãe, para ajudar na costura da roupa das crianças e brincar. Parte do que sou é naturalmente isso. Minha história familiar fez com que a caridade permeasse a nossa empresa. Mas a caridade possui um grave defeito: constrói uma pessoa refém e dependente.
Em que momento aconteceu a mudança de paradigma?
LNP – Em 1986, um professor de política econômica que tive na Universidade de Harvard (EUA) fez uma palestra sobre caridade. Depois, numa conversa, me disse: “A caridade é boa, mas não é construtiva. A educação pública é que faz a diferença”. E, numa aula sobre 500 anos de história mundial, me mostrou como cada país investiu na área. Naquela época, ele vislumbrou que a Coreia do Sul, por conta de seu processo educativo, seria muito mais forte do que o Brasil em registro de patentes em 2000 – apesar de, na ocasião, estar muito aquém de nosso país. Ele me alertou que eu deveria utilizar a minha capacidade gestora para a educação pública. Demorei dois anos para compreender seu pensamento. Em 1988, numa avaliação própria, percebi que as 350 instituições que até então havíamos apoiado [via Federação das Entidades Assistenciais de Campinas] dependiam financeiramente. No ano seguinte, reuni a família e criamos a Fundação Educar, que depois passou a se chamar Fundação Educar DPaschoal. Somos uma fundação familiar, que recebe recursos dos 3,5 mil acionistas do grupo.
Qual o maior desafio de um investidor social?
LNP – Não diria desafio, mas o maior erro é ele considerar que sabe tudo e querer aplicar as técnicas da empresa no investimento social. Há uma ansiedade de se ter o retorno rápido. Outros erros comuns são fazer algo próprio apenas para ter o seu nome divulgado e reinventar a roda. O investimento social não pode ter essa figura mesquinha do indivíduo que deseja fazer algo apenas para aparecer. Quando você é bom em ganhar dinheiro, você ganha e contrata alguém para aplicar o que foi recebido. O mesmo deve acontecer no âmbito social: contrate um bom profissional que saiba investir socialmente ou apoie uma instituição que faça esse trabalho. Outro desastre é a vontade individual repentina de consertar o mundo, sem pesquisar, perguntar, respeitar o outro.
Na vida pessoal, quem são seus inspiradores? Você possui algum hobby?
LNP – Na realidade, às vezes eu me confundo, porque meu trabalho me inspira e não me sinto trabalhando neste mundo. Acho até que nunca trabalhei, quer seja nas empresas, na área social ou mesmo na cozinha. Aliás, adoro lavar pratos. Minha mulher e minha sogra, de 97 anos, são cozinheiras extraordinárias e as ajudo lavando os pratos após o jantar. São 30 minutos que me descansam. Ultimamente também tenho acompanhado campeonatos de golfe pela televisão. É um aprendizado ver a técnica envolvida, a força, o pensar nos obstáculos. Mas eu mesmo não jogo [risos]. O golfe é o esporte inteligente que te permite jogar com um desconhecido em qualquer lugar no mundo, de conhecer a pessoa com quem compartilha jogo e de ganhar aquela partida por conta do “handcap”, pelo seu passado.
O que faz você se emocionar?
LNP – Tudo o que as pessoas fazem para melhorar o mundo. Aquilo que é para o bem e agrega valor às pessoas. Por exemplo: a cada dez casamentos que vou, um me emociona. Ou porque o padre é perfeito, ou porque os noivos são felizes e se amam. Você olha e diz: “Este casamento vai perdurar”.
Que outros temas são importantes na existência humana?
LNP – Depois da família, vem a amizade. Fazer amigos é um pilar da vida. Transformar a família em seus amigos, também. Cultive os amigos. Telefone na época da quaresma para aqueles com quem estudou e que te ajudaram. Mantenha contato mesmo com aqueles que foram duros, fortes.
Você tem religião?
LNP – Tive a oportunidade de aprender muitas, com irmãos, freis, rabinos e pastores. Todas pregam o amor ao próximo e o ato de rezar, que é uma meditação. O indivíduo precisa estar pleno consigo próprio e com a família, os amigos, o trabalho, a comunidade, a sociedade, a nação e, agora, com a Natureza.
Qual você considera seu maior legado?
LNP – Somos frutos de heranças. Sou feliz ao sentir que o legado que venho recebendo em toda a minha vida pode e está sendo transmitido a outras pessoas. O que me machuca é saber que deixaremos para nossos netos uma sociedade e um planeta muito mais difíceis do que recebemos. Por egoísmo e ganância, estamos vivendo em castelos e guetos. Precisamos conviver na diversidade. Isso é a beleza do mundo.
Como reverter essa situação?
LNP – É necessário um choque de nação. O país precisa se projetar em 10 ou 15 anos e verificar como reverter esses castelos medievais [condomínios fechados de altos muros]. E deixar as pontes levadiças permanentemente abertas. Quem está pagando por isso é o empresário que criou uma sociedade gananciosa. Somente 1% ou 3% pensa no futuro. O restante desconta o futuro, abusando de presente.
De novo, como defendia seu professor, a educação é o caminho?
LNP – A educação é a única vacina para os problemas sociais. É a única forma de vacinar a sociedade contra ditaduras, perdas econômicas e castelos medievais. Se todos tiverem boa educação, você reduzirá muitos muros. Qual a chance de o Brasil se tornar uma Coreia do Sul em dez anos? Nenhuma. Se o país melhorar 10% a educação, será uma evolução extraordinária. A partir daí, quem se juntar na luta, poderá aprimorar muito mais do que os 10%.