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A Educação Infantil vai além dos muros da escola

9/10/2009 – O venezuelano Leonardo Yánez trabalha com educação há mais de 40 anos. Desde 2000, ele atua como oficial de Programas da Fundação Bernard van Leer.

A instituição, de origem holandesa, tem 60 anos de história em projetos com foco em desenvolvimento de crianças de menos de 8 anos. Atuou em mais de 70 países da América, África, Ásia e Europa. No Brasil, apoia o programa Redes pela Educação Infantil (REDINs), coordenado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS).

Nesta entrevista, Yánez explica a importância da ampliação do acesso e da melhoria da qualidade da aprendizagem para a primeira infância. “O mais importante é que as crianças tenham aprendizagem significativa, seja por meios formais ou não formais, impactando no seu desenvolvimento cognitivo”, afirma.

Quais as principais diferenças entre a Educação Infantil no Brasil e em outros países onde a Fundação Bernard van Leer atua?
Leonardo Yánez –
A Educação Infantil brasileira é muito parecida a de outros países da América Latina. No formato e no currículo, por exemplo, há muitas similaridades. Comparada à África e ao sul da Ásia, a América Latina possui grande vantagem tanto em cobertura quanto em qualidade. Em relação à Europa, à América do Norte e a Cuba, a região ainda não alcançou as mesmas metas. Para as crianças com menos de 6 anos, o objetivo mais difícil de alcançar é a universalização do acesso à Educação Infantil.

Portanto, o Brasil também enfrenta essa mesma dificuldade?
LY –
Sim, mas o país possui uma vantagem em relação a outras nações: há uma lei que garante o acesso ao serviço. Porém, a implantação tem sido difícil, porque há um problema crucial na compreensão daquilo que vem a ser o ingresso e a qualidade da Educação Infantil. Muitos políticos imaginam que a universalização se dará pela sua institucionalização, mas digo que a estratégia está em proporcionar oportunidades de aprendizagem incluindo a educação informal. Em Cuba, por exemplo, 75% das crianças de 0 a 4 anos recebem atenção e formação diretamente da família, com assessoria dos docentes pré-escolares da comunidade mais próximos. Só a partir dos 4 anos, a educação em escolas passa a ser obrigatória. Outros países como Venezuela, Colômbia e Peru desenvolvem programas educativos em que os cuidados diários com a criança pequena incluem componentes pedagógicos.

A importância dada à Educação Infantil está ligada tanto ao posicionamento do governo local quanto à postura da sociedade em relação ao tema?
LY –
A ambos. A maioria das pessoas pensa que a Educação Infantil ocorre apenas dentro da escola. O que ela realmente precisa é de espaços de aprendizagem para que a criança desenvolva suas habilidades, pensamento lógico, linguagem, capacidade de interação social e de solução de problemas. Isso é básico e se ocorre dentro ou fora da escola, fica em segundo plano. O mais importante é que as crianças tenham aprendizagem significativa, seja por meios formais ou não formais, impactando no seu desenvolvimento cognitivo. Não é só o governo que tem responsabilidade para com a educação das crianças pequenas, mas sim toda a sociedade.  A fundação procura cada vez mais chamar a atenção do setor corporativo e as comunidades para que sejam parte das soluções para a infância.


Qual o ponto fundamental para melhorar a Educação Infantil?
LY –
Creio que o ponto fundamental é garantir a aprendizagem das crianças. Para isso, é preciso treinar professores e adultos que cuidam diretamente das crianças. Um professor com recursos é muito mais efetivo que qualquer metodologia.  Além disso, é também útil empregar todos os meios possíveis ao nosso alcance para aprimorar a Educação Infantil. Há exemplos internacionais de ensino e aprendizagem reconhecidos, como a Vila Sésamo, um programa de televisão destinado a crianças pequenas cuja qualidade era muito melhor que o ensino oferecido por algumas escolas. A questão principal não é a existência da escola, mas a forma como se dá a atividade educativa, o ato de ensinar, o conteúdo de aprendizagem. Hoje, no Brasil, o canal Futura, da Fundação Roberto Marinho, tem potencial para cumprir esse papel.

O município é a instância mais importante para operacionalizar a Educação Infantil?
LY –
Estou totalmente convencido de que o município e a comunidade são as primeiras instâncias a atender a educação infantil. Ainda que seja necessário haver um compromisso no nível federal, a descentralização da operação é melhor, pois as prefeituras, a sociedade civil, as organizações sociais e as empresas juntas podem assumir o compromisso por uma sociedade educadora. É muito importante também que as crianças, independentemente da idade, participem da elaboração as políticas e sejam ouvidas.

O que é a sociedade educadora?
LY –
Para a Fundação Bernard van Leer, a sociedade educadora nunca deixa de lado a obrigação governamental de garantir o direito à educação. A ação educativa é compartilhada entre o Estado e a sociedade. Um país de dimensões continentais como o Brasil possui uma diversidade interna tão grande seria impossível homogeneizar a Educação Infantil. A própria sociedade precisa se manifestar, por meio de suas instituições e capacidades, para demonstrar seus anseios. A Fundação Bernard van Leer, por sua origem e filosofia, apoia a sociedade civil em seu desafio de sanar essas necessidades.

Se é um compromisso de toda a sociedade, o trabalho em rede pode ser mais efetivo?
LY –
Creio que sim. No Redins, do IDIS, que a Fundação Bernard van Leer apoia, penso que o trabalho em rede social comunitária é uma grande ajuda porque as pessoas que estão envolvidas por uma mesma causa trocam experiências. No Brasil, apoiamos a Rede Nacional Primeira Infância, que atua na promoção dos direitos das crianças de 0 a 6 anos, por meio de advocacy, influenciando e elaborando marcos legais. Também oferecemos apoio a experimentos regionais. Queremos mostrar, com nosso trabalho, que é possível atender à causa.

O Brasil garantiu, por lei, a destinação de verba para a área. Mesmo assim ainda não atende a todos. Onde estariam os entraves?
LY –
O problema da operacionalização está em questões que extrapolam a lei. Um exemplo é a força que outros setores da educação, como os Ensinos Fundamental e Médio, têm em relação à Educação Infantil. Um docente da Educação Infantil geralmente possui menos força política que os outros quando se trata em pressionar os investimentos nessa etapa. Os adolescentes do Ensino Médio têm muita força política e capacidade de reivindicação, assim como as crianças do Ensino Fundamental. Isso não ocorre com os meninos e meninas de pouca idade, primeiro porque a cobertura é baixa e, segundo, eles não conseguem se fazer ouvir e, consequentemente, não possuem poder político para também fazer valer seus direitos. Além disso, há uma confusão da sociedade, que tende a reconhecer somente os direitos ligados à saúde e aos cuidados diários.

Por mais que a Convenção dos Direitos da Criança e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevejam a participação da criança na formulação das políticas públicas, o que fazer para que realmente aconteça?
LY –
Esse é um problema estrutural para a primeira infância, pois, por serem crianças tão pequenas, sua linguagem ainda não consegue comunicar seus desejos e necessidades. O que poderia ser criada é a figura do ombudsman da causa, como já existe em alguns países. Trata-se de uma pessoa, com conhecimentos sobre os direitos infanto-juvenis, capaz de ser a voz dessas crianças e defender seus interesses junto ao Estado. Agora, se por meio de métodos e processos adaptados à capacidade cognitiva das crianças pequenas, o setor corporativo consegue testar ou descobrir a aceitação de determinados produtos, então é possível usufruir da mesma metodologia para que participem da formulação de políticas públicas. Consultar as crianças é a oportunidade de ouvirmos e entendermos os problemas sob o seu ponto de vista, buscando, assim, soluções mais adequadas.

O que a Fundação Bernard van Leer descobriu em suas experiências no Brasil?
LY –
Aprendemos muito por aqui, principalmente em relação aos programas pedagógicos. Primeiro, que a Educação Infantil não acontece apenas no ambiente escolar. Segundo, a qualidade do ensino se relaciona diretamente com a qualidade dos conteúdos – para tanto, a criança precisa de elementos que façam parte de sua realidade. Terceiro: um bom professor é melhor que qualquer escola ou método de ensino. Se formos para a Amazônia e ensinar como funcionam os sinais de trânsito do Rio de Janeiro, as crianças não entenderão qual a função daquilo na realidade delas. Mas, se ensinarmos quais são os tipos de plantas da floresta e suas aplicações no cotidiano, haverá um sentido. Os conteúdos educativos, portanto, precisam estar relacionados com o contexto da comunidade onde a criança vive, utilizando os elementos locais para a sua aprendizagem. A educação precisa responder às necessidades culturais e econômicas locais.

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