Aos 18 anos, Instituto C&A mostra como passou de doador a investidor social
25/8/2009 – Em 18 anos de história, completados em agosto, o Instituto C&A beneficiou 1 milhão de pessoas na área da educação e passou por grandes transformações. De grantmaker tradicional (típico doador de recursos financeiros), adquiriu o perfil de investidor social. A mudança não ocorreu por acaso: o instituto acompanhou e foi ator na evolução do conceito no Brasil.
Nesta entrevista, o diretor-presidente do instituto, Paulo Castro, explica a trajetória da organização e como ela se mantém sustentável, tanto no aspecto financeiro quanto no institucional.
Qual o balanço dos 18 anos de atuação do Instituto C&A?
Paulo Castro – Nesse período, a C&A compreendeu seu papel de investidor social, desenhou sua estratégia de atuação e teve clareza sobre o contexto brasileiro e a necessidade de diálogo com as organizações sociais. O tempo também nos permitiu construir uma grande rede de relacionamento, que tem sido decisiva para a nossa atuação. Sempre realizamos os projetos por meio de parcerias institucionais. Reconhecer as lideranças locais e nos associarmos a elas são nossos princípios norteadores. Quando olhamos para trás, vemos o grande número de organizações com quem criamos vínculos e desenvolvemos metodologias de educação. Realizamos mais de 1,4 mil projetos com mais de 800 organizações.
Existe diferença no papel que o instituto tinha no início e que assume hoje?
PC – Sim. No início, não fazíamos muitas articulações com o poder público. Com o passar do tempo, procuramos mudar essa realidade. Nos últimos dois anos, o tema ganhou espaço na agenda institucional e está entre as diretrizes estratégicas para os próximos anos. Hoje temos iniciativas realizadas em cooperação técnica com os governos. Um exemplo é o programa Prazer em Ler que, coordenado e integrado com a Secretaria de Educação do Município de São Paulo, resultou em um projeto de formação de mediadores de leitura nas Escolas Municipais da região de Capela do Socorro [na zona sul], para promover a leitura entre os moradores da região. Outro aspecto importante é a presença do instituto nos principais fóruns de discussão sobre temas relacionados à sua atuação.
Que avanços o instituto teve na prática de seu investimento social?
PC – Ao mesmo tempo em que analisávamos nossa prática, éramos influenciados pelo que acontecia no Brasil. No início da década de 90, quando nasceu o Instituto C&A, o investimento social privado não era como hoje. Em seus primeiros quatro anos, o instituto tinha o perfil de um grantmaker [doador] clássico, apenas destinando recursos financeiros. Em meados de 1990, o Instituto C&A ajudou a fundar o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife). Com todo o debate, repensamos nossa lógica de atuação para termos uma participação mais ativa e que contribuísse tecnicamente com os projetos apoiados. O perfil da organização foi ampliado: deixou de se restringir aos aportes financeiros e incorporou o apoio técnico como lógica de atuação. Isso gerou impactos na estrutura do instituto, que passou a contar com uma equipe técnica, processos administrativos e definições conceituais.
Por que, à época, a empresa identificou que a educação de crianças e adolescentes deveria ser a prioridade de atuação?
PC – Toda ação do instituto é fruto de uma análise de contexto: fazemos uma análise de cenário, identificamos as principais causas dentro da realidade brasileira e escolhemos uma para trabalhar. Infelizmente, nosso país possui inúmeras demandas sociais e, em 1991, a educação despontava como um dos grandes problemas. Entendemos (e ainda pensamos assim) que o desenvolvimento social do país passa pela educação. Na ocasião, a universalização do acesso à escola era a grande discussão. Desde 1997, a questão principal é a qualidade do ensino público. O Instituto C&A está a serviço dessa causa e não da estratégia comercial da empresa, ainda que seja uma estratégia corporativa e de relacionamento. Nosso desafio é colocar a força de uma marca a serviço de uma causa.
Como o instituto se manteve sustentável em 18 anos?
PC – A sustentabilidade é um desafio permanente. Ao longo dos anos, discutimos o que seria a sustentabilidade do Instituto C&A. Um pilar muito importante é a clareza de nossa identidade e nosso posicionamento frente à causa. Mas nos questionávamos sobre o que deveria nos orientar. Fizemos perguntas como: qual o conceito trabalhado, qual a lógica da intervenção e qual a proposta metodológica. Outros aspectos importantes para a sustentabilidade foram a construção e a gestão da rede de relacionamento e a articulação institucional com os diversos atores. A cooperação em rede institucional é fundamental para a perpetuação do Instituto C&A. O que nos ajuda também é termos institucionalizados e alinhados processos de gestão, como programas e projetos, comunicação e o conhecimento. A equipe técnica qualificada para colocar em curso os objetivos da organização foi, e ainda é, importante. A mobilização de recursos junto ao acionista e a potenciais financiadores é facilitada quando há integração e interação desses elementos.
Por quais evoluções administrativas o instituto passou?
PC – Nos últimos quatro anos, tivemos um aperfeiçoamento institucional grande ao reorganizarmos as ações difusas que tínhamos e ao adotarmos programas como forma de atuação. A implantação dos quatro processos de gestão é um avanço que temos experimentado e que trará retornos ao longo dos próximos anos. A gestão de programas é um deles, executada uniformemente pelas áreas. Na gestão da comunicação, leva-se em conta tanto o ponto de vista interno quanto o posicionamento da organização frente à causa. A gestão do conhecimento manifesta-se nos aprendizados e nas metodologias estruturadas e, posteriormente, disseminadas para a sociedade. Por fim, a gestão do relacionamento foca a maneira como lidamos com nossos stakeholders.
Como você analisa a evolução do investimento social no Brasil, em especial no atendimento a crianças e adolescentes?
PC – Nos últimos 15 anos, a compreensão do conceito do investimento social privado evoluiu muito. Por mais que ainda seja um conceito em aperfeiçoamento, ele entrou na pauta da sociedade, sendo tema de estudos nas universidades e de debates na imprensa. Não há como retroceder nessa discussão. Apesar de a crise econômica ter levado muitas empresas a diminuir o volume de recursos para o investimento social privado, sua existência está garantida. Desde 2008, o Instituto C&A mantém o mesmo patamar de apoio financeiro: 18 milhões de reais por ano, cujo valor deverá se repetir em 2010.
Qual a análise sobre o investimento no programa DOAR, iniciativa executada em Belo Horizonte pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS)?
PC – O investimento valeu, pois foi a oportunidade de levar o programa a Belo Horizonte, uma grande metrópole. Com a consolidação do projeto e disseminação do DOAR para outras cidades, surgiu o programa Redes pela Educação Infantil (REDINs). Essa última experiência de articulação com as instituições sociais locais e atuação em rede alimentou processos de outros projetos que desenvolvíamos na área da Educação Infantil. Isso foi muito importante para o Instituto C&A.
Quais as próximas metas do instituto para contribuir com a melhoria da qualidade da educação?
PC – No plano estratégico que o IDIS nos ajudou a construir [entre os anos de 2005 e 2006], temos diretrizes programadas até 2015, alinhadas com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio [metas de desenvolvimento da Organização das Nações Unidas]. Depois de discutir os objetivos estratégicos com a equipe técnica, com a equipe da consultoria do IDIS e com alguns stakeholders, queremos consolidar o papel e a abrangência do Instituto C&A enquanto investidor social na área de educação. Isso se dará por meio da articulação da nossa agenda com a do poder público, da ampliação do trabalho com outras redes e organizações sociais e do aprimoramento da nossa gestão de conhecimento. Pretendemos desenvolver ainda mais metodologias que possam ser compartilhadas e dar escala para investimentos advindos de outras instituições.