Bancos apenas engatinham rumo à construção de um mundo sustentável
26/04/2007 - Apesar de os grandes bancos brasileiros estarem mostrando preocupação crescente com o desenvolvimento sustentável, criando programas de microcrédito e critérios de financiamento a empresas que não gerem danos ambientais ou sociais, segundo estudiosos e críticos, as estratégias ainda são marginais ao negócio e estão longe de contribuir para a sustentabilidade.
A discussão esquentou o painel “Bancos e Desenvolvimento Sustentável – Finanças sustentáveis: o papel indutor dos bancos para o desenvolvimento sustentável”, realizado no dia 26 de abril, no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, dentro das atividades do Sustentável 2007.
O painel contou com a presença de diversos líderes de bancos, que contaram sua experiência com a sustentabilidade. José Berenguer, vice-presidente de tesouraria e produtos do Banco Real, explicou como a sustentabilidade foi inserida em três dimensões do banco: no mercado (oferecendo aos clientes uma avaliação de riscos socioambientais alinhada aos riscos financeiros antes da concessão do crédito; linhas de acesso ao microcrédito para comunidades de baixo poder aquisitivo; e Fundo Ético); na gestão (desenvolvimento de projetos de ecoeficiência); e em sua ação social (como o Programa Amigo Real, que estimula a doação aos fundos da criança e do adolescente).
Antonio Francisco de Lima Neto, presidente do Banco do Brasil, disse que o Desenvolvimento Regional Sustentável é uma estratégia negocial para o banco que, por exemplo, investe R$ 10 bilhões em agricultura familiar. O financiamento a projetos de consórcios familiares, segundo Lima Neto, diminui os riscos do Banco do Brasil, ao mesmo tempo em que promove a sustentabilidade.
Fábio Nehme, da International Finance Corporation (IFC), que integra o Banco Mundial, contou que, depois de passar por uma abordagem negativa da sustentabilidade, na qual ela era trabalhada como gestão de riscos, seguida de uma abordagem da sustentabilidade como oportunidade de negócios (sobretudo para projetos de energia eólica, solar, crédito de carbono), hoje a IFC dá ênfase à abordagem setorial, isto é, à união de diversas empresas do mesmo setor para criar projetos sustentáveis de grande escala e impacto. Nesse sentido, ele diz que o banco deve funcionar como indutor do desenvolvimento sustentável.
Já Antonio Vives, gerente do Departamento de Desenvolvimento Sustentável do Banco Interamericano de Desenvolvimento, preferiu discorrer sobre como um banco comprometido com a sustentabilidade deveria ser. Ele lembrou que todo banco tem uma dívida com a sociedade, pois usa o dinheiro das próprias pessoas para emprestar, e por isso tem diversos tipos de responsabilidade.
Como corporação, o banco tem a responsabilidade de pagar impostos, salários justos, cuidar dos empregados e consumidores. Como intermediário financeiro, deve evitar a corrupção, a especulação financeira, ser transparente e promover a governança corporativa. Deve ser ético nas transações, educar seus clientes quando faz grandes empréstimos, e emprestar pouca quantidade, sobretudo nos países emergentes, às pessoas de baixo aquisitivo. No caso dos bancos públicos, que gerenciam o dinheiro das pessoas que pagam impostos, devem se ainda mais responsáveis. Não devem financiar projetos que não sejam lucrativos, e devem emprestar dinheiro para áreas que outros não estão emprestando, de forma ética, e garantindo a transferência de renda para pessoas certas.
Roberto Smeraldi, diretor da organização da sociedade civil da Amigos da Terra, provocou os colegas de mesa, afirmando que apesar das iniciativas descritas, os bancos estão pouco preparados para aproveitar os nichos e oportunidades de negócio que se abrem diante da sustentabilidade. Disse que os bancos ainda estão analisando apenas os impactos diretos de um determinado negócio para oferecer financiamento, quando a ênfase deveria ser nos impactos indiretos. E comentou que não existe transparência sobre os condicionantes que o cliente vai ter que cumprir para poder trabalhar com os bancos, nem uma visão de negócio criada a partir do capital natural. Para ele, não basta mitigar o impacto de uma atividade, é preciso que ela seja produtiva.
O professor Mario Monzoni, professor da Faculdade Getúlio Vargas, concordou com as críticas e afirmou que as instituições financeiras, apesar do reconhecimento - inclusive internacional -, não deveriam estar satisfeitas com o que têm feito, pois suas iniciativas de apoio à sustentabilidade representam muito pouco em relação à carteira total. Na avaliação do especialista, esse tipo de atividade, ao contrário, deveria ser vislumbrado como grande oportunidade de se tornar o principal negócio dos bancos.

