Celso Varga discute papel do empresário na resolução de problemas sociais
Engenheiro especializado em finanças, Celso Varga passou a se interessar pela temática do investimento social a partir de seu envolvimento com as ações sociais realizadas pelas Varga Freios, empresa que pertencia a sua família. Ele conta que seu pai criara uma fundação para desenvolver ações sociais, apoiadas nos valores familiares, e que, aos poucos, foi se envolvendo nesses projetos e com a comunidade limeirense.
A interação constante com organizações da sociedade civil, empresários e outras pessoas interessadas no desenvolvimento na cidade mostrou a Celso Vargas que já existiam muitas organizações sociais na cidade, criadas sempre em função da vontade de se solucionar um problema social. No entanto, muitas delas estavam fragilizadas, pois não estabeleciam diálogos entre si, recebiam pouco apoio de empresas locais e raramente sabiam como se desenvolver.
A fim de reverter esse quadro, Celso Varga, com o apoio de outros empresários, fundou, em 1996, o Instituto de Desenvolvimento de Limeira (Ideli), cuja missão é “promover o desenvolvimento sustentável de Limeira e Região, potencializando ações empreendedoras, visando a melhoria da qualidade de vida da comunidade”.
Também presidente do Conselho Deliberativo do IDIS, nesta entrevista exclusiva, Celso Varga fala sobre investimento social, o papel do empresário na resolução dos problemas sociais, as vantagens e limitações das redes sociais, entre outros temas.
IDIS: Você começou a desenvolver ações sociais na empresa de sua família e até hoje atua com o investimento social. A forma de atuação mudou nesse período?
Celso Varga: Em geral, toda ação social no Brasil começa a partir de uma mentalidade assistencialista, no sentido de não de fornecer a solução para a causa do problema. Na empresa, nós também atuávamos nessa direção. Aos poucos, no entanto, percebemos que esse tipo de estratégia não é eficaz. Se você não vai à raiz dos problemas, se não atua na causa, os problemas continuam existindo. Desde o começo do Ideli, então, começamos a levantar essa idéia: trabalhar no sentido de mexer na estrutura e investir na causa, de forma que não se torne necessário investir recursos no problema.
No primeiro instante a idéia foi considerada estranha, mas decidimos que seria mais adequado que o Ideli não se empenhasse em resolver um problema específico, e sim trabalhasse uma questão genérica, que é a qualidade das organizações sociais.
IDIS: Como você definiria o que é o investidor social e qual o papel dele na sociedade atual?
Celso Varga: O investidor social é a pessoa que coloca algum recurso na sociedade, buscando resultado. No caso do investidor social, esse resultado é a solução de algum problema social. O recurso pode ser muita coisa: dinheiro, informação, recursos humanos, tempo, liderança. Tudo isso são recursos! Estamos acostumados a pensar no investidor apenas do campo dos negócios: aquele que coloca uma determinada quantidade de dinheiro no investimento e quer fazer lucro com isso. Mas esse conceito pode ser extrapolado para toda a sociedade. São pessoas colocando recursos e direcionando-os para a solução de um problema da sociedade. Eu acho que esse é o papel do investidor social, que cada vez está mais disseminado.
IDIS: Em geral, você acha que as pessoas estão conscientes dessa necessidade?
Celso Varga: Não, eu acho que isso está no começo. Não acho que exista uma consciência generalizada porque são conceitos que estão migrando de um determinado tipo de organização para outro. Esse conceito do investidor era um conceito empresarial e está sendo utilizado no sentido da solução de problemas sociais. Para haver essa transformação, você precisa que uma grande quantidade de empresas absorva este conceito.
IDIS: A visão do Ideli é contribuir para transformar Limeira numa das melhores cidades do Brasil para se viver. Como vocês pretendem alcançar isso?
Celso Varga: Na nossa reunião de planejamento, isso foi o mais discutido: como fazer? Eu acho que não existe uma ação única que vai levar a isso. Eu acho que a gente vai conseguir isso, conscientizando a sociedade de que ela não deve esperar pela solução dos problemas. Ela deve entender que ela mesma é geradora do seu desenvolvimento. Então, a primeira coisa que eu acho é isso: mobilizar a cidade para a ação, tirar a sociedade do comodismo e colocá-la como promotora das suas soluções.
IDIS: Nesse contexto, qual a importância da metodologia das redes sociais?
Celso Vargas: A idéia de rede é uma idéia extremamente importante porque traz mobilidade, fluidez, tira o enrijecimento que as estruturas normalmente têm. As estruturas organizacionais são, há muito tempo, extremamente rígidas, burocráticas, direcionadas para uma determinada função, que é repetida eternamente. A rede tira essa rigidez do sistema, faz com que o ele comece a ter capacidade de adaptação e, quando se encontra um problema, desenha-se sua solução. O mundo muda e a rede muda junto com o mundo.
No passado, o mundo era lento. Então, você tinha uma organização rígida e isso não fazia muita diferença, ela estava adequada àquilo. Mas, hoje, o processo de mudança se acelerou. Isso ficou muito claro nas organizações empresariais, pois empresas que eram consideradas padrões de organização desapareceram porque perderam a capacidade de mobilização, de se adaptarem às mudanças ambientais. Hoje, fazem sucesso as empresas que conseguem simular as pequenas estruturas, apoiando-as umas às outras, compartilhando recursos. Um exemplo de aplicação do modelo é a internet. É impressionante o que você consegue fazer sem ter uma estrutura burocrática. Mas ainda há uma confusão muito grande na cabeça das pessoas de como atuar em rede. As pessoas ficam perdidas porque foram “adestradas” a atuar em estruturas hierárquicas e burocráticas desde o tempo dos faraós, talvez antes. Quando se fala em organização, as pessoas pensam automaticamente em chefe, subordinado, denominação muito clara das atribuições. Então, quando se fala em rede, uma coisa nova, que questiona esse tipo de estrutura, funciona e surge como uma substituta para isso, você tem que fazer toda uma mudança, que é muito difícil na cabeça das pessoas.
IDIS: De onde vem essa capacidade de adaptação e dinamismo das redes?
Celso Varga: Da falta de hierarquia, da pluralidade, da facilidade de transferência de informação, do aproveitamento dos recursos escassos... As grandes estruturas burocráticas têm suas funções, mas têm um conjunto de disfunções, que às vezes se torna mais importante que o conjunto de funções. Um exemplo é o governo, que tem uma função muito específica, mas atua pela disfunção. As pessoas estão lá não para executar essa função, mas para exercer poder político e outras coisas que, teoricamente, não deveriam ser função daquela estrutura.
IDIS: O que você acredita que se dever fazer para motivar as pessoas a participarem de uma rede?
Celso Varga: As pessoas participam da rede por diversos motivos. Tem aquele que vai participar porque produziu um benefício para a sociedade e se vê extremamente satisfeito e motivado quando consegue isso. Tem aquele que quer fazer o investimento social, quer colocar o dinheiro, mas não quer participar; vai ficar contente se o dinheiro for bem utilizado e ele tiver uma participação de longe. Tem aquele que quer participar porque quer fazer propaganda da sua empresa e quer que sua empresa saia no jornal, dizendo que ele é um colaborador de uma rede. Então, o estímulo das pessoas é uma coisa plural. Acho que a gente tem que entender os motivos, segmentá-los, e tratar cada grupo conforme seu respectivo motivo. Porque não adianta insistir e tratar todo mundo igual.
IDIS: Você costuma falar da importância do empreendedor na sociedade atual. Por que valorizar tanto o empreendedorismo?
Celso Varga: Eu acho que o ser humano é o que é porque é empreendedor. Se não houvesse o empreendedor, estaríamos no tempo das cavernas. Tudo o que o ser humano constrói, de bom ou de ruim, vem do fato de querer fazer, conquistar, transformar, de querer alguma coisa diferente no futuro. E a figura que faz isso é a empreendedora. Se você tirar o empreendedor da sociedade, você tirou o principal elemento de transformação. O empreendedor é quem gera uma idéia, que vai atrás, ou pega a idéia de alguém, mas vai atrás do resultado que aquela idéia pode trazer. E isso é válido para qualquer tipo de atividade humana. Nós estamos acostumados a pensar no empreendedor como alguém que cria um negócio, ganha dinheiro com isso e, conseqüentemente, traz benefício para a sociedade. Esse é um tipo de empreendedor necessário, que tem que existir. Mas existem empreendedores em todo o tipo de atividade - no governo, dentro das organizações, dentro das escolas - que são aquelas pessoas que acabam liderando os processos de transformação social.