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Conservar o meio ambiente envolve atuar nos fatores sociais do desenvolvimento local

18/5/2010 – O gerente de Projetos Ambientais do Instituto Ecofuturo, Paulo Groke, afirma que uma das causas para a falta de investimento social no meio ambiente seria a “falsa dicotomia” entre homem e o local onde vive. A organização da sociedade civil de interesse público (Oscip) é mantida pela Suzano de Papel e Celulose.


Paulo_GrokeNesta entrevista exclusiva, Groke lembra a importância de se considerar todos os impactos da cadeia produtiva e os impactos ambientais que os projetos podem gerar na comunidade. Segundo a pesquisa Ação Social das Empresas, do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), as ações ambientais são os que menos recebem recursos dos investidores sociais.

Como o senhor avalia a adoção da gestão ambiental pelas empresas nos últimos anos?
Paulo Groke – É sem dúvida uma área em franco crescimento. As empresas estão incorporando em seus quadros um número crescente de profissionais das áreas ambientais ou da sustentabilidade, como mais usualmente se referem. O sistema de ensino superior vem se movimentando para atender a demanda. Em paralelo, observa-se que os sistemas de gestão ambiental e os processos de certificação sofreram evolução técnica e conceitual. No entanto, o cenário está muito longe do ideal. Parte do discurso sobre sustentabilidade virou padrão e a gestão ambiental de muitas empresas parece estar operando “no automático”, meramente reagindo às exigências dos clientes, consumidores ou de seus processos de certificação. Mais: canso de ver algumas empresas que instalam alguns pontos para a coleta seletiva de resíduos ou que “neutralizam” suas emissões de CO2 plantando algumas árvores, dizerem que são sustentáveis. Aí, surgem as perguntas que tanto incomodam: qual parcela do orçamento anual da área de meio ambiente é utilizada para o atendimento dos quesitos da certificação ou licenciamento ambiental? E o que sobra para pesquisas, análises e melhorias estruturais voltadas à melhoria dos processos socioambientais? Se amanhã forem eliminadas as exigências dos processos de certificação ou se a pressão das ONGs vier a diminuir, o esforço socioambiental da empresa irá se manter ou arrefecerá?
 
O que fazer para o investidor social avaliar o impacto ambiental da iniciativa apoiada em qualquer tipo de meio ambiente – seja ele urbano, rural, floresta, entre outros?
PG – Veja o exemplo dos projetos geridos pelo Instituto Ecofuturo. Quando as pessoas nos perguntam se não consideramos falta de foco o fato de atuarmos em áreas aparentemente distintas – como a de incentivo à leitura, educação ambiental e gestão de reservas florestais –, afirmamos enfaticamente que não. A sustentabilidade pressupõe interdisciplinaridade, conhecimento, engajamento e mudança. Como chegar a esse ponto em uma população assolada pelo analfabetismo funcional? Ao investir em programas de incentivo à leitura, esperamos ter como resultado indivíduos mais informados, críticos e participativos. Esse não é um importante passo para que as pessoas percebam, por exemplo, que elas não estão determinadas por uma força superior a viver sem saneamento básico? A leitura traz, além do conhecimento de outras realidades, a chave que poderá abrir a porta para um mundo mais digno, justo e gentil.
 
Na pesquisa do Ipea sobre a ação social das empresas, o investimento social em meio ambiente é o menos prioritário para estas instituições. Quais seriam os fatores?
PG – Talvez pela falsa dicotomia homem e ambiente, diretores, gerentes e até mesmo clientes e consumidores finais não enxergam claramente a relação entre toda a cadeia de produção com os grandes problemas ambientais que assolam nosso planeta: perda da biodiversidade, degradação dos recursos hídricos, poluição e aquecimento global. Ainda reina a concepção de que o risco de extinção dos ursos polares, dos esturjões, do nosso cervo do Pantanal ou do jacarandá da Bahia, são fatos que mantêm independência em relação ao modelo de vida da espécie humana. Não é raro ouvirmos um tipo de comentário: “credo, com tanta gente passando fome, por que eles estão gastando dinheiro para conservar um bicho feio como a anta?”. Uma frase de madre Teresa de Calcutá reforça essa fragilidade conceitual. Certa vez, ela disse: “Cuidemos dos pobres, pois da natureza Deus cuida.” Ora, esse tipo de postura é desastrosa. Como nem a empresa e tampouco os consumidores compreendem o quão responsáveis são pelos impactos ambientais, fica mais fácil projetar a imagem institucional, apoiando causas sociais notadamente localizadas no entorno direto destas empresas. Não estou dizendo que os investimentos diretos em meio ambiente sejam prioritários em relação aos programas sociais. Apenas estou tentando buscar uma justificativa para o fato de os investimentos na área de meio ambiente serem notadamente menores.
 
O que é necessário para reverter o quadro? Seria investir apenas em projetos que impactam na natureza (Amazônia, Cerrado etc.) ou pensar em todos os fatores sociais que também influenciam no desenvolvimento local em qualquer meio ambiente? Por quê?
PG –
É necessário pensarmos nos dois. Há muitas lacunas no conhecimento sobre a Floresta Amazônica e o Cerrado. Há também uma situação crítica em relação à Mata Atlântica. Assim temos que ampliar o nosso conhecimento para saber conservar ou restaurar o que resta. Mas é impossível conservar sem que trabalhemos fortemente sobre todos os fatores sociais que estão vinculados ao desenvolvimento local. Veja um fato recente ocorrido na Amazônia: a pressão contra o desmatamento resultou em desemprego e revolta da população. Isso não teria acontecido se os governos tivessem estimulado a criação e o desenvolvimento de cadeias produtivas locais, fundamentadas em produtos e serviços oriundos da própria floresta.

Como você avalia o grau de consciência hoje das empresas sobre sua responsabilidade nos impactos gerados pelo seu negócio?
PG – De forma não muito positiva. Muito se avançou nos últimos anos, mas as ações ainda são insuficientes e se resumem a obrigações legais e reação à pressão de mercado. Não é possível atuar apenas superficialmente na questão da sustentabilidade. Por exemplo, a estratégia para a sustentabilidade. Ela  obrigatoriamente implica, além de intensa busca por processos menos impactantes (ação “in door”), na necessidade do envolvimento e sensibilização de fornecedores e clientes e comunidade (ação “out door”). Nenhuma empresa é, sozinha, sustentável – é necessário que o planeta todo o seja.
 
É possível existir um binômio sustentabilidade-capitalismo? A Terra hoje parece mostrar que não. Precisa-se de um novo modo de produção?
PG – De fato não é possível pensarmos em sustentabilidade no atual modelo capitalista. Mas não vejo nisso motivos para “derrubarmos o sistema”. O Sergio Abranches, cientista político e articulista de meio ambiente, costuma dizer que a sustentabilidade é um instrumento importante para aumentar a competitividade das empresas. Ele mostra que aquelas que trataram desse tema com mais seriedade, foram menos impactadas pela última crise econômica que abalou o mundo capitalista. A importância dessa postura ficará cada vez mais evidente. Temos que utilizar as mesmas armas do capitalismo para forçar a sua mudança.
A economia de baixo carbono será mais amigável para a natureza, mas não deixará de remunerar seus investidores. Por essa razão, parece-me um contra-senso tanto gasto de tempo para discutir um tema tão arcaico como a exploração do petróleo na camada pré-sal. Ainda mais se os recursos gerados nesta exploração não forem corretamente apropriados em uma estratégia de combate ao aquecimento global e no planejamento de ações para a mitigação dos efeitos das catástrofes naturais.
Em futuro breve, usaremos os recursos naturais restantes de forma mais parcimoniosa e os processaremos com metodologias mais seguras, limpas e com respeito às comunidades. Aprenderemos, mesmo que à força, que a especulação, o consumo desenfreado e o acúmulo irracional, molas do capitalismo atual, de fato não combinam com o a sobrevivência da nossa espécie.

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