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Crise é período de teste para o movimento de Responsabilidade Social Empresarial

22/4/2009 - David Halley trabalha há 15 anos no Business in The Community (BiTC), uma organização britânica que apoia 900 empresas associadas a desenvolver práticas de Responsabilidade Social Empresarial (RSE). Ele é responsável por estabelecer parcerias internacionais com organizações com atuação similar à do BiTC, com o objetivo de trocar experiências e indicar os parceiros a clientes que desejam internacionalizar suas práticas de responsabilidade e investimento sociais. O especialista esteve na América Latina entre final de março e início de abril e encontrou diversos parceiros na Argentina, Brasil, Chile, Uruguai. Em São Paulo, visitou o IDIS e Instituto Ethos. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre o papel da RSE num ambiente de crise econômica, as diferenças entre a RSE no hemisfério norte e no sul e os desafios da globalização do investimento social.


Qual o papel da RSE e do investimento social privado na atual crise econômica mundial?

david_halleyDavid Halley – O que quer que as empresas façam na crise, devem fazê-lo de forma responsável. A preocupação é necessária porque, caso contrário, perderão sua credibilidade. Dependendo da atitude que tomarem na crise, a comunidade vai odiá-las e não comprará mais seus produtos quando a economia se recuperar. Até para demitir existem formas responsáveis. Se a empresa tiver 50 mil funcionários e precisar demitir 10 mil, tem que pensar em como preparar essas pessoas para que consigam empregos ou em como aconselhar suas famílias. A questão é fazer com que o choque da demissão e da crise seja menos doloroso, respeitando os direitos dos empregados e da comunidade. Isso evita até ataques da imprensa, o que se reflete na reputação da companhia. Considero que estamos numa estrada na qual, em breve, haverá uma bifurcação. Em uma direção está a RSE como marketing e filantropia, criando programas sem entender a importância da gestão socialmente responsável. Na outra, um crescente entendimento sobre a importância de gerir os negócios de forma responsável, criando um processo educativo. Espero que o segundo caminho prospere. A recessão é um teste importante para organizações como o BiTC e o IDIS.

Os empresários estão conscientes desse papel e atuando dessa forma?

DH – Alguns sim, outros não. No Reino Unido, por exemplo, muitos não estão preocupados em uma gestão socialmente responsável mesmo em tempos de crise. Mas a imprensa é muito crítica em relação a como as empresas estão respondendo a ela, sobretudo porque os bancos foram irresponsáveis e causaram-na.

Como a relação entre as empresas e as comunidades pode ser assegurada em períodos de crise?

DH – Simplesmente não pode ser assegurada. Isso depende totalmente da atitude da empresa. Algumas companhias são éticas, sabem que seus programas de investimento social comunitário são importantes para a forma como conduzem seus negócios e podem até reduzir os orçamentos dos programas, mas vão acabar mantendo as iniciativas. Outras dizem que, em tempos difíceis, os programas voluntários ou os patrocínios devem ser suspensos. O que tentamos fazer é mostrar para as empresas que a economia saudável dependerá de uma coalizão social e que elas também são responsáveis por isso.

Existem diferenças entre a RSE e o investimento comunitário feito em países desenvolvidos e em desenvolvimento?

DH – Na Europa existe um entendimento de que a RSE é uma maneira de gerir os negócios. Já no hemisfério sul, tenho a impressão de que ela ainda é vista apenas como filantropia. Além disso, existem enormes diferenças culturais e sociais entre os países. Quando uma empresa do Reino Unido se estabelece em outro país da Europa, em geral, encontra uma cultura mais ou menos parecida: Estados fortes, baixos índices de desemprego, baixos níveis de violência e é a esse contexto que ela deve se ajustar. Mas quando a mesma empresa vai para os países africanos, para a China ou para Índia, por exemplo, encontra culturas muito diferentes. Como uma empresa européia, que tem uma política de diversidade na contratação, se adapta ao sistema de castas indiano, que diz que a empresa não pode contratar um intocável, mesmo que ele seja qualificado? É um desafio!

Que oportunidades e desafios a globalização do investimento social traz?

DH – As multinacionais muitas vezes querem impor seus programas sociais a outras regiões, da mesma maneira que os desenvolvem em seus países de origem. Eles acabam dando errado porque não levam em conta o contexto e a cultura locais. As questões mais urgentes variam de região para região. Na África, o grande problema hoje é a AIDS. As empresas precisam, então, saber como aconselhar seus empregados ou como apoiar as famílias quando seu membro trabalhador morre. Além disso, sofrem com a ausência de mão de obra qualificada. Na Europa, o que preocupa é a empregabilidade dos jovens e o racismo. As empresas devem responder ao que aflige em cada região.

O que é a CSR 360, quando ela foi criada e quais seus objetivos?

DH – O BiTC tem 900 empresas associadas, muitas delas multinacionais, e que desejam atuar de forma socialmente responsável em suas filiais no exterior. Como o BiTC não conhece o ambiente fora do Reino Unido, passou a procurar parceiros que pudessem ajudá-las. Em 1997, o BiTC criou a CSR360, uma rede de organizações da sociedade civil, que têm a missão comum de ajudar as empresas a atuar na comunidade em que estão inseridas e a promover práticas de responsabilidade social. Hoje, a rede tem 100 organizações de 65 países. Para citar um exemplo no Brasil, podemos falar da Linklaters. Eles queriam desenvolver um trabalho em sua representação de São Paulo e indicamos o IDIS, que tinha as ferramentas para ajudá-los. Todos os integrantes da CSR360 assinam um termo de admissão e compromisso, concordando em compartilhar suas idéias e ferramentas.

Por que é importante compartilhar experiências nessa área?

DH - Se nossos associados querem fazer ações fora do Reino Unido, temos que ter certeza de que nossos parceiros internacionais têm as ferramentas, as competências e as habilidades para trabalhar com eles. Porque, se algo der errado, a companhia vai nos culpar. Isso seria suficiente para justificar a troca de experiências. Além disso, consideramos que temos uma obrigação moral de dividir nossos conhecimentos e as boas práticas.

O que mais o impressionou em sua visita à América Latina?

DH – A velocidade com que o movimento de práticas de responsabilidade social vem se espalhando. Tenho visitado a América Latina anualmente e o desenvolvimento de nossas organizações parceiras é rápido. O número de empresas que adere à RSE também é crescente.

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