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Diretor presidente do IDIS fala sobre investimento social no Brasil

15/7/2008 – Diretor presidente do IDIS, Marcos Kisil conversou com a jornalista Andréia Seganfredo, da Editora Expressão, sobre a evolução do investimento social no Brasil e o trabalho do instituto em quase uma década de atuação. O conteúdo vai ser utilizado na edição 2008 do Anuário Expressão de Gestão Sustentável, que tem como tema Uma Década de Desenvolvimento Sustentável no Brasil.

Marcos KisilBaseado na 5ª Pesquisa de Responsabilidade Social Empresarial da Região Sul, o anuário analisa a implantação de conceitos de responsabilidade social corporativa em empresas sulistas. As corporações responderam a 240 perguntas elaboradas a partir dos indicadores Ethos de Responsabilidade Social Empresarial, e tiveram seu desempenho classificado em sete temas: Valores, transparência e governança; Público interno; Meio ambiente; Fornecedores; Consumidores e clientes; Comunidade; Governo e sociedade. Confira os principais trechos da entrevista.

Editora Expressão - Em que contexto surge a consciência pela necessidade do investimento social privado?

Marcos Kisil - Ela surge nos anos 70 quando algumas fundações tradicionais dos Estados Unidos passam a trabalhar com as causas que afetam o atendimento dos direitos humanos. Esse movimento leva os doadores privados a considerar a necessidade de buscar a transformação da sociedade agindo nas causas que impedem o desenvolvimento social. Para que suas intervenções tenham efeito, criam um pensamento estratégico para determinar seu foco de atuação, agem baseados em diagnósticos de situações e problemas socioambientais,  propõem  mecanismos de ação tecnicamente possíveis e financeiramente viáveis e monitoram e avaliam seus processos, resultados e impactos.

Editora Expressão - Como Brasil se posiciona neste movimento? 

Kisil - Na última década, apresentamos um crescimento quantitativo e qualitativo da presença de investidores sociais privados. Empresas, famílias e indivíduos passaram a adotar progressivamente o entendimento de investimento social privado para suas doações. Porém, os valores investidos ainda são tímidos diante do potencial que temos e o entendimento de uma filantropia tradicional ainda perdura fortemente em nossa cultura doadora. Mas temos avançado mais do que os outros países latinoamericanos. Especial apoio veio do entendimento da responsabilidade social corporativa que se disseminou muito favoravelmente e que contempla também o investimento social que pode e deve ser realizado pelas empresas.

Editora Expressão - Como expandir o investimento social para além do modelo corporativo no Brasil?

Kisil - 90% das empresas nacionais são controladas por famílias. Estas, ao transferir a direção das corporações a profissionais, deixam de utilizar suas empresas como fonte de ação social. Antes de ser uma barreira, o movimento propicia a oportunidade de atuar socialmente em campos (ou problemas socioambientais) que não representavam áreas de interesse para a ação social da empresa. Esta situação permite ao IDIS estender sua ação e apoiar famílias na organização de seu investimento social.

Editora Expressão - Como isto se aplica ao investimento social comunitário?

Kisil - Nossas pesquisas mostram que a doação de pessoas é um importante contribuinte para a manutenção da vida comunitária, especialmente no atendimento de efeitos de problemas sociais. Baseados em boas práticas internacionais, passamos a apoiar comunidades a organizarem os seus investimentos sociais buscando melhor conhecer suas necessidades e oportunidades, desenvolverem um plano estratégico de atuação e se organizarem em redes sociais. A partir de programas de capacitação, elas aprendem a fazer o levantamento de fundos para os seus projetos, estabelecerem mecanismos de monitoramento e controle e divulgarem os resultados conseguidos de maneira transparente.

Editora Expressão - Qual foi a principal contribuição da atuação do IDIS no processo de evolução do investimento social? Quais as perspectivas do Instituto?

Kisil - O IDIS representa um grupo de profissionais que acumularam e acumulam importante conhecimento e prática no âmbito do investimento social privado, nacional e internacional. Quando foi criada, a organização se propôs a contribuir para que o investimento social privado fosse um instrumento para a transformação da sociedade. Em quase uma década de existência participamos da criação de dezenas de fundações e institutos de caráter empresarial, familiar e comunitário; além de ajudar redefinição estrutural e programática de muitas outras instituições nacionais e estrangeiras. São organizações que investem mais de 500 milhões de reais por ano em causas sociais.

Editora Expressão - Há um "jeito brasileiro" de desenvolvimento social? No que nos diferenciamos de outros países?

Kisil - O "jeito brasileiro" tem sido resultado muito mais da pró-atividade da sociedade civil e dos empresários, e muito menos do interesse dos governos, e mesmo do Estado brasileiro. Isto pode ser demonstrado pela absoluta dificuldade do governo aceitar a participação privada acenando com incentivos fiscais. As iniciativas neste sentido existentes no Brasil são significativamente menores do que as de outros países como Estados Unidos, Inglaterra, México ou Filipinas. Além disso, o próprio governo usa de políticas sociais paternalísticas para financiar ONGs sem critérios de distribuição ou monitoramento, sem licitações e sem transparência para o uso de recursos públicos. Assim, contribui para uma desconfiança crescente na sociedade sobre as organizações da sociedade civil, onde se encontram organizações respeitáveis, éticas, transparentes e altamente benéficas para a comunidade onde se encontram. O "jeito brasileiro" permite que o investidor social ainda acredite e participe ativamente no desenvolvimento social apesar das dificuldades.

Editora Expressão - Inicialmente a sustentabilidade estava muito vinculada à questão ambiental. Como as esferas social e econômica passaram a receber mais atenção dos investidores

Kisil - A explicação é simples: o conceito de desenvolvimento sustentável foi gerado dentro de uma visão ecológica de sustentação do planeta nos idos dos anos 70 e 80 e que se manifestaram mais fortemente na Conferência da ONU RIO 92. A visão do Triple Bottom Line, que incorpora conceitualmente as esferas social e econômica, passa a ser mais importante a partir da segunda metade dos anos 90. Hoje, existe o consenso de que as três dimensões devem ser colocadas no plano de negócio de qualquer empresa. Seu valor de mercado passa a depender de sua capacidade de conciliar o sucesso econômico-financeiro com a sua reputação como agente de um ambiente sustentável e de uma sociedade que apresenta melhores condições para o exercício dos direitos humanos.

Editora Expressão - As metodologias existentes para avaliação de resultados e de impacto de projetos e programas são satisfatórias?

Kisil - Infelizmente os instrumentos de coleta de informações para relatórios padronizados em seus quesitos como o GRI não devem ser tomados como instrumentos avaliativos em si. Eles devem ser entendidos como instrumentos para relatar os resultados de processos avaliativos. Assim, para gerar um bom relatório com base no GRI, por exemplo, as empresas devem, de maneira clara e objetiva, estabelecer processos avaliativos para suas ações sociais que transcendam o mero relato de atendimento. A experiência da equipe do IDIS de processos avaliativos tem progressivamente apontado a importância da utilização de diferentes métodos para atender as necessidades específicas de cada projeto.

Editora Expressão - Além de ter uma atuação prática forte, o IDIS Também é um centro de produção de conhecimento sobre investimento social?

Kisil - Atendemos centenas de convites para compartilhar nossas experiências e aprendizados em eventos nacionais e internacionais, publicamos livros e artigos, desenvolvemos um site especifico para investimento social. Fomos identificados pela Charity Aid Foundation (CAF) como a organização partner para a América Latina em seus esforços de globalização do investimento social privado. Tudo isto permite concluir que o IDIS, organização sem fins lucrativos, classificada como organização da sociedade civil de interesse público (oscip) pelo Ministério da Justiça, está cumprindo seu papel social. 

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