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Especialista russa fala sobre a trajetória da filantropia e investimento social familiar

19/04/2007 - Olga Alexeeva é diretora da CAF Global Trustees, uma divisão da CAF focada no desenvolvimento mundial do investimento social de famílias e indivíduos. Olga trabalha diretamente com milionários da Rússia, Ucrânia, Brasil, Índia, China, apoiando o desenvolvimento de seus projetos de investimento social. Nesta entrevista exclusiva ao Portal do Investimento Social, a especialista, que introduziu o investimento social na Rússia, apresenta diversos conceitos da nova filantropia, discutindo o papel da nova geração de filantropos e como o contexto da globalização impactou a filantropia mundial.


Olga Alexeeva 1Você vem usando o conceito de filantropia 4.0. O que ele seria?

Na última semana, estive em Palo Alto, na Califórnia, EUA, durante Global Philanthropy Forum e a presidente da Fundação Rockefeller, Judith Rodin, falou sobre as mudanças da filantropia nos Estados Unidos, traçando sua trajetória. Ela chamou de “filantropia 1.0” a filantropia tradicional, que teve início com W. K. Kellogg e John D. Rockefeller, no começo do século XX. Essa filantropia que visava à criação de bibliotecas, hospitais, e alguns programas que tinham por objetivo criar a infra-estrutura que não existia no país. Então, veio a “filantropia 2.0”, quando essas fundações criaram fundos patrimoniais significativos e programas de financiamento não só nos Estados Unidos, mas em diversas partes do mundo, para apoiar financeiramente a mudança social mundial. A “filantropia 3.0”, seria a do “filantrocapitalismo”, mais recente, caracterizada por uma abordagem mais reativa, uso de princípios empresariais e de mecanismos de marketing e financeiros para atingir a mudança social.

Nesse momento, eu questionei se já não poderíamos falar em “filantropia 4.0”, para caracterizar uma filantropia que não só tem um alcance global, mas tem uma cara global. Essa nova forma de filantropia não se caracteriza mais pelo fluxo de fundos de países desenvolvidos para o leste e sul, mas pelo desenvolvimento da filantropia em países em desenvolvimento na Ásia, no leste europeu, na América do Sul, que sempre foram vistos como países receptores de dinheiro. Nesse novo modelo, empreendedores e filantropos locais trabalham juntos, casando resultados e idéias para atingir a transformação social. Por isso, trata-se de uma filantropia mais sustentável - não apenas financeiramente, já que o setor social depende menos de contribuições internacionais -, mas também no sentido de ser mais sensato com a cultura local, com sua identidade e com o passado do país. Não se trata mais de simplesmente copiar procedimentos do Ocidente, mas de levar em conta a cultura do país e respeitá-la.

Antes de continuar, você poderia definir o que é o filantrocapitalismo?

Esse é um termo cunhado por Matthew Bishop, editor da The Economist, nos Estados Unidos, que tenta definir os novos arranjos da filantropia e de sua relação com o mundo dos negócios, como o capitalismo. Então, é um termo que tenta dar conta dos novos modelos de investimento social, que apareceram nos últimos cinco ou dez anos. Se você olha para o mundo dos negócios nos últimos vinte ou dez anos, vai perceber que o conceito de responsabilidade social empresarial espalhou-se por todo o mundo, gerando novas idéias e novos comportamentos nas empresas. Os negócios também se tornaram mais globais, tendo contato com problemas que não existiam tão fortemente em seus países de origem, como a exclusão social e a pobreza.

Isso obrigou as empresas a repensarem seu papel. Por outro lado, houve o aparecimento de um consumo responsável. A classe média passou a exigir que as empresas assumissem o papel de atores da transformação social. Sem contar que os indivíduos empreendedores agora alcançam o sucesso aos trinta anos e, portanto, não se contentam mais em apenas destinar sua fortuna após a morte, registrando-a no testamento, mas desejam se engajar socialmente e engajar suas empresas ainda em vida. O filantrocapitalismo é, portanto, uma transformação de comportamento e que incorpora os princípios do negócio na intervenção social. É uma alternativa de convivência harmônica no capitalismo, decorrente do desencantamento com o Estado provedor dos Estados dos países nórdicos e da queda do comunismo como sistema alternativo ao capitalismo.

De que forma isso influenciou a filantropia? Quais as características da nova filantropia?

A nova filantropia é mais engajada, mais envolvida. Mas, às vezes, ultrapassa os limites, na ânsia de se preocupar com a gestão de todos os aspectos do investimento social, com a criação de projetos próprios, em lugar de apoiar iniciativas já existentes. A nova filantropia é a filantropia “dos vivos”, que querem ver a mudança social agora e não entendem a filantropia como um legado para as próximas gerações, algo que o doador em si não vai ver. É uma filantropia que requer mais responsabilidade, pois você vê os resultados durante sua vida. Agora, isso gera um desejo de controle por parte dos doadores engajados, que também pode ser um problema.

Nos países em desenvolvimento, é muito comum ver essa situação. Os novos filantropos decidem controlar tudo muito fortemente, ocupar-se da micro-gestão, encerrando dinheiro em projetos próprios. É o que chamamos de “micro-modo dos jovens”. Eles querem se engajar, mas também são muito, muito ocupados. Então, as coisas acabam fugindo de seu controle.

Os filantropos estão descrentes do setor sem fins lucrativos, acham que as ONGs tradicionais estão ultrapassadas e que a caridade tradicional dever ser substituída pela filantropia engajada. Mas, no Reino Unido, há 250 mil organizações sem fins lucrativos, na Rússia, 150 mil, no Brasil também são milhares. Quantos empreendedores e organizações elas não podem engajar? Então, você realmente precisa delegar, acreditar nesse setor sem fins lucrativos.

Além disso, é claro que as habilidades do mundo dos negócios são necessárias ao terceiro setor. Em muitos países, especialmente nos países em desenvolvimento, as ONGs são pouco profissionalizadas, têm pouca transparência e planejamento. Essas ferramentas são necessárias, mas, no final das contas, o importante é que as organizações sociais saibam lidar com crianças, tratar com dependentes químicos, proteger os direitos humanos. O conhecimento específico do setor social não pode ser substituído por habilidades de negócios. E mais: não se pode substituir a paixão! O setor sem fins lucrativos é sem fins lucrativos! As pessoas que trabalham aí muitas vezes recebem muito pouco e, se não são apaixonados pelo que fazem, com todo o conhecimento do mundo dos negócios, eles não vão permanecer por muito tempo.

Por isso, se alguém me apresenta uma organização muito bem gerenciada, com todos os papéis em ordem, com o plano de negócios, e tudo, e uma outra organização pobre, desorganizada, mas na qual as crianças estão felizes e vejo que seus olhos brilham, eu financio a segunda. Claro que eu os ajudaria a pintar as paredes dessa organização e a ter um contador melhor, um sistema de organização melhor, mas isso não substitui a paixão e o conhecimento sobre como fazer um programa social. E o problema do filantrocapitalismo e de toda essa filantropia engajada é que se criam projetos próprios, por não se acreditar em ONGs. Sem contar que também não se preocupa em influenciar o governo para a mudança das políticas públicas. Os investidores sociais têm medo de ir para essa área porque cairiam na agenda da política partidária. Mas, por mais que você faça um projeto engajado, se você não influenciar o governo, não haverá grandes mudanças.

Olga Alexeeva 2Esse é um fenômeno global?

Isso foi o que eu vi na semana passada nos Estados Unidos entre os novos filantropos. Eles simplesmente rejeitam as conquistas do setor sem fins lucrativos. E não vêem que o setor está mudando muito nos últimos 35 ou 40 anos. Você vê isso claramente no Reino Unido. Não são mais mulheres que doam pão. Há muitos programas inovadores. Na Rússia, as ONGs introduziram o tema da proteção social às crianças. Isso não existia! Se não fossem as ONGs, o governo não trabalharia com isso.

Os novos filantropos, então, querem promover uma mudança social fora do Estado, mas não acreditam nas organizações da sociedade civil e em seu poder...

Eles criam sua própria sociedade civil, bem gerenciada, bem controlada, uma “micro-sociedade civil”. Essa é uma visão radical, mas é o risco que eles podem criar. E isso não vai funcionar. Os novos filantropos precisam aceitar a realidade, que as ONGs com as quais eles trabalham podem não ser bonitas, nem saber falar a linguagem dos negócios, mas fazem enormes trabalhos. Não reconhecer isso é uma perda para o filantrocapitalismo global.

Qual o papel dos novos filantropos?

Um dos papéis principais é desafiar. Os jovens querem ser reconhecidos por ter conquistado algo por conta própria. Muitas vezes, eles não têm acesso à sua renda, mas podem desafiar seus pais, sua família, as práticas da empresa familiar, o ambiente em que trabalham e, se estão em outro país, podem ajudar a entender as prioridades da mudança social. Também podem ser mais abertos a temas mais arriscados, como os direitos humanos, Aids, questões ambientais, tentando enfrentá-los com projetos inovadores.

Com a profissionalização das empresas familiares, os donos da empresa estão cada vez mais distantes de seu negócio e por isso você defende que o investimento social não deveria ser feitos apenas no ambiente da empresa familiar. Como isso deveria ser feito?

Há diversas maneiras de se fazer: começando com fundações familiares, que fazem projetos familiares, selecionando organizações para apoiar diretamente; construindo instituições. Também se pode apostar em diversas iniciativas conjuntas: arriscar para tentar aumentar o retorno social. Como num investimento comercial, você sabe que pode perder, e não ter retorno. Mas pode tentar.

Nos Estados Unidos, cada vez mais programas desse tipo são populares. Então, você investe sua renda de forma socialmente responsável, cria sua fundação, investe em projetos de outros, criar uma fundação comunitária, usa seu dinheiro em políticas públicas – e não em politicagem. Há diversas maneiras! Eles poderiam se envolver mais nas políticas públicas! Na América do Sul, poucas famílias têm influência. O problema é que isso gira em torno de um conflito de interesses...

Gradualmente, com a pressão internacional e do mercado, as empresas entendem que precisam estender a responsabilidade social corporativa a seus empregados, às suas políticas ambientais, às relações com consumidores, aos acionistas. Então, mudam a cultura corporativa e as práticas do negócio. O mesmo pode acontecer com as famílias, sobretudo onde a riqueza está concentrada, como na América Latina, Índia e sudeste asiático. Porque tudo bem, você pode provocar a mudança social, fazer seu investimento social... Mas quero ver o que você faz quando vai para a arena política, como você se comporta em relação a seus tributos, às suas terras, a seu estilo de vida... Então, você deveria ser mais modesto, como as pessoas ricas da Europa. Os conflitos de interesse serão grandes e temos que pensar nisso. Acho que a filantropia familiar deveria impactar nas visões políticas, no modo de vida, e “sair das caixinhas”. Se isso acontecer, terá um impacto muito maior do que qualquer projeto filantrópico, porque mudaria o comportamento e a vida das pessoas.

É um caminho longo.
É longo, mas se você vê, por exemplo, que o que aconteceu nos Estados Unidos em 100 anos, na Rússia, aconteceu em cinco anos... As coisas estão andando muito mais rápido. Eles sofrerão pressão de outros países. E terão que mudar.

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