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Evento, em São Paulo, discute empregabilidade juvenil

Em 2015, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 660 milhões de jovens, entre 15 e 24 anos, ingressarão no mercado de trabalho mundial. Dado que, hoje, um em cada cinco jovens não está empregado (cerca de 88 milhões de pessoas), o que representa mais de 40% do total de desempregados, as perspectivas da inserção do jovem no mundo do trabalho não são otimistas.


No Brasil, a situação também é pouco promissora. A OIT aponta que, atualmente, 3,5 milhões de jovens (entre 16 e 24 anos) estão desempregados. A taxa é equivalente a 3,5 vezes o número de adultos fora do mercado. Comparando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1989 com os de 1998, o economista Marcio Pochmann, no livro “A Batalha do Primeiro Emprego”, indica que o desemprego juvenil cresceu 195% no período. Em 1989, o país contava 1 milhão de jovens sem emprego; em 1998, o número subiu para 3,3 milhões.

A fim de refletir sobre como reverter esse quadro, a International Youth Foundation (IYF), com o apoio do IDIS e do Instituto de Hospitalidade, realizou, em São Paulo, no dia 29 de agosto, o evento “entra 21 - Empregabilidade do Jovem e o Papel do Setor Privado no Brasil”. O encontro reuniu cerca de 60 pessoas - entre empresários, representantes de organizações sociais e do poder público brasileiro -, para pensar como os três setores poderiam se articular e criar soluções para o ingresso da juventude no mercado de trabalho.
 
 “O governo, as ONGs e o setor privado não vão resolver o problema da empregabilidade juvenil sozinhos. Será necessária uma atuação conjunta, interpretando essa massa de jovens que ingressará no mercado de trabalho como oportunidade, não como um simples desafio para o desenvolvimento mundial”, indicou William S. Reese, presidente e CEO da IYF, durante o evento. Nesse sentido, ele explicou que a IYF está presente em 70 países e desenvolve o Programa entra 21. A partir de parcerias com organizações sociais locais, os jovens são treinados para que desenvolvam talentos e habilidades como liderança, solução de conflitos, alfabetização financeira, trabalho em equipe, manejo do tempo, como se comportar no ambiente de trabalho, de forma a estarem preparados para ingressar no mercado de trabalho do século XXI, de maneira exitosa. Em paralelo, as organizações identificam empresas parceiras que possam receber os jovens, oferecendo-lhes estágios e, posteriormente, a oportunidade do primeiro emprego.

No caso do Brasil, o entra 21 é executado pelo Instituto de Hospitalidade, pelo Centro Profissionalizante Rio Branco (CEPRO) da Fundação de Rotarianos de São Paulo, pelo Instituto Aliança com o Adolescente e pelo Associação Hope Unlimited do Brasil. De acordo com Reese, na iniciativa desenvolvida pelo Instituto de Hospitalidade, 66% dos jovens foram inseridos no mercado de trabalho seis meses após a realização do curso. Na levada adiante pelos rotarianos, isso se deu com 51% dos jovens. O representante da IYF afirma que 100% dos empregadores dizem estar satisfeitos com os estagiários advindos do Programa e que 93% deles consideram os estagiários melhores do que os outros jovens.

Diálogo entre empresários e organizações sociais
Estabelecer a ponte entre o jovem e o empresário não é uma tarefa fácil. Conforme pontuou Susana Penteado, diretora do Centro de Ensino Profissionalizante (CEPRO) da Fundação de Rotarianos de São Paulo, faltam oportunidades para que os jovens, sobretudo os de baixa renda, possam mostrar o que têm a oferecer. É verdade que os jovens nem sempre recebem educação adequada em escolas públicas, mas Susasna pondera que, quando passam por uma capacitação como a oferecida pelo entra 21, rapidamente passam a contribuir com s empresas. Reinaldo Franco, presidente da Franco Sistemas Empresariais, que contrata jovens egressos dos cursos do CEPRO, concorda. Ele lembra que, embora sua empresa já tivesse a filosofia de aderir ao primeiro emprego, foi após a adesão ao entra 21 que houve uma aceleração na contratação de jovens. “Os meninos do Programa passaram a poupar tempo de treinamento e vinham com um conjunto de habilidades diferenciais”, argumenta. Hoje, 25% de seu quadro de funcionários é composto de jovens que vieram do entra 21.

Rafael Sanchez, diretor executivo do IH, por outro lado, reconhece que as organizações que trabalham com educação para o trabalho, embora tenham um projeto pedagógico consistente, nem sempre estão preparadas para facilitar a inserção do jovem no mercado. O próprio IH tinha essa dificuldade e, após o entra 21, aprendeu a atuar nas duas pontas. Ele destaca que outro desafio na implantação do Programa na Bahia, onde sua organização está sediada, foi a sensibilização - sobretudo das pequenas e médias empresas - para superar a premissa de que o jovem de baixa renda é  “problemático”.

O gerente geral do Holiday Inn de Salvador, Flávio Andrade, que há 32 anos está na empresa e começou lavando vidros, diz que 70% do treinamento que ele faria no hotel para os jovens já é dado pelo IH. “Quando esses jovens profissionais são aproveitados e acompanhados pelo coach da empresa, o resultado é muito rápido e reconhecido por vários clientes do hotel”, afirma. Ele conta que muitos jovens ajudaram-no a implantar o Holiday Inn em Salvador e, dos 12 jovens selecionados, 11 foram contratados após 15 dias de estágio, e depois promovidos na empresa. Ele estima que, a partir dessa estratégia, o hotel economiza de 30% a 40% com pessoal, pois a rotatividade é baixa.

Relações intersetoriais

A presidenta do Conselho Nacional de Juventude, Regina Novaes, também esteve no evento. Ela disse que o “casamento entre educação e trabalho”, no Brasil, “vai mal”. Se de um lado há jovens fora do mercado de trabalho porque não estão capacitados, estão fora da escola ou atrasados, de outro, existem jovens que chegam à universidade e também não conseguem se inserir. A incerteza, portanto, está muito mais presente, o que exige tanto novas formas de educação e mecanismos de inserção no mercado de trabalho.

Para superar essas dificuldades, ela acredita que é importante olhar para as experiências inovadoras desenvolvidas pelas organizações sociais. Mas, para que elas ganhem escala, é fundamental que o Estado assuma a liderança, estabelecendo parcerias também com o setor privado. E é aí que o diálogo se torna mais árduo. Nem sempre as demandas identificadas pelo Estado, bem como as regras que são estabelecidas, são aceitas pelos empresários.

No caso do Programa Primeiro Emprego, Regina Novaes afirma que o poder público propôs aos empresários que contratassem jovens com ensino fundamental. O setor privado, no entanto, não concordava e exigia que os jovens tivessem maior escolaridade. As parcerias também foram dificultadas porque, para criar diálogos com o poder público, é fundamental que as empresas estejam em dia com seus impostos e com a lei. O programa não avançou tanto, segundo a especialista, porque muitas instituições estão irregulares e têm medo de estabelecer parcerias. Por outro lado, quando os consórcios da juventude tentaram aplicar a capacitação profissionalizante dos jovens em parceria com ONGs, muitas não estavam preparadas para seguir os critérios do governo. “Ainda assim, acho que o Programa Primeiro Emprego trouxe muito aprendizado e deve ser reformulado, mas não renegado porque revelou que juventude e empresas protagonistas temos. Há um grande trabalho de mudança de cultura empresarial a ser feito e as ONGs também têm que se adaptar. (...) Mas o Estado também não fará nada se não conversar esses atores, entendendo que cada um tem responsabilidades e protagonismos diferentes”, defende.

Regina Novaes pondera que o tema da juventude faz despontar questões estruturais de grande relevância, como assuntos relacionados ao desemprego, violência e educação. Por isso, considera-o como uma “porta de entrada para arrumar a casa”. Um exemplo disso, como apontou Luís Norberto Pascoal, CEO da DPaschoal e fundador da Fundação Educar, é a organização da sociedade em torno do pacto “Todos pela Educação”. Lançado no último dia 6 de setembro, o compromisso reúne representantes do poder público, empresários e organizações sociais a fim de que, até 2022, toda criança e adolescente de 4 a 17 anos esteja na escola; saiba ler e escrever aos 8 anos; conclua o Ensino Fundamental e o Médio no tempo adequado; e o investimento na educação básica seja garantido e bem gerido. “É importante que as empresas que queiram participar saibam respeitar o lugar do outro. A visão de integração da sociedade é a única forma de enfrentar os graves problemas do Brasil”, afirmou.

Reflexões finais

Para concluir, Elenice Leite, consultora e pesquisadora em Políticas Públicas e Programas de Trabalho e Educação Profissional, ponderou que, nos últimos 20 anos, a questão da empregabilidade juvenil mudou radicalmente e que os problemas vividos pela juventude de hoje não são os mesmos dos que agora têm “cabelos grisalhos”.

Ela considera que houve um aprendizado grande nesse período. De modo geral, a oferta de capacitação profissional do jovem passou a estar associada à sua inclusão social, bem como à demanda do mercado. Os programas passaram a trabalhar, ao mesmo tempo, com a dimensão da educação e do trabalho. Também entenderam a importância do estabelecimento de alianças entre os diversos setores para viabilizá-los. A definição das leis, como a do Jovem Aprendiz e do Estágio, foram grandes avanços e os programas se adaptaram à realidade de que as vagas para trabalhadores assalariados são cada vez mais escassas, encaminhando os jovens para o setor de serviços.

No entanto, ainda é preciso melhorar em alguns aspectos. Para ela, é fundamental desenhar programas específicos para cada faixa etária, já que as demandas de um jovem de 18 anos são completamente diferentes das de um de 26. Até os 18 anos, o ideal é trabalhar a família, a escola e manter presente a noção de cidadania. Dos 20 aos 24, as palavras-chave são “emprego” e “carreira”. O jovem deve ter concluído seus estudos e passar a definir sua carreira. Entre os 25 e 29, ele quer ganhar sua independência, montar uma família. Todos esses aspectos devem ser levados em conta na hora de montar programas. Elenice ainda destacou que, atualmente, o Brasil investe 2% de seu PIB em programas de formação profissional e treinamento. O valor é próximo do montante de recursos investidos na Itália ou na Espanha. Portanto, o dinheiro existe. O que é preciso é gastá-lo bem.


Leia Mais:

Lei do Estágio

Lei da Aprendizagem

Decreto que regulamenta o Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego para os Jovens

Lei do Aprendiz, site elaborado pela Fundação Abrinq e pelo Instituto Ethos, que traz informações interessantes para a empresa que deseja contratar jovens

Publicação "Colaborando com Setor Privado - o caso de um projeto entra 21 em Salvador, Bahia, Brasil", elaborada pela International Youth Foundation

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