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Evento em SP discute Sustentabilidade Corporativa

07/12/2006 - Refletir sobre a sustentabilidade corporativa e as práticas das empresas nessa temática foi o propósito do evento Seminários sobre Sustentabilidade Corporativa, realizado pelo IDIS, em parceria com o WWF-Brasil, em 6 de dezembro de 2006, no auditório da BASF, em São Bernardo do Campo (SP). O evento fechou a série de discussões, que esteve presente também em Porto Alegre e no Rio de Janeiro.


O ponto de partida das discussões foi o debate sobre o conceito de sustentabilidade e suas transformações ao longo do tempo. Marcos Kisil, diretor-presidente do IDIS explicou que, sobretudo a partir dos anos 60, quando houve uma aceleração das mudanças mundiais – climáticas, sociais, tecnológicas– acompanhadas de inúmeros desafios, o ser humano teve que repensar suas práticas, para evitar o colapso dos biomas terrestres. Nesse contexto, foram lançados, em 1972, os princípios da sustentabilidade, quando o Clube de Roma apresentou o relatório “Os Limites do Crescimento”, alertando que o crescimento acelerado e desordenado da indústria e da população ocasionaria um esgotamento dos recursos naturais não-renováveis, a degradação irreversível do meio ambiente e um aumento insuficiente da produção alimentar.

A questão era discutida por poucas pessoas até que, em 1983, a Organização das Nações Unidas criou a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Presidida pela norueguesa Gro Harlem Brundtland, o objetivo da Comissão era examinar as questões críticas relativas ao meio ambiente, formular novas propostas e promover a cooperação internacional nessa área. Em 1987, a Comissão lançou o relatório “Nosso Futuro Comum”, que ficou conhecido como Relatório Brundtland, no qual apresenta a idéia de “desenvolvimento sustentável”, entendido como “aquele que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade de as gerações futuras suprirem suas próprias necessidades”.

O relatório eclode durante a segunda Conferência Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como ECO 92 ou Rio 92. A partir daí, surge uma série de documentos sobre o clima e meio-ambiente, entre eles o Protocolo de Kyoto. A temática passa a disseminar-se pela sociedade em geral e, em 1999, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, ciente de que as 25 maiores corporações mundiais contribuíam com o PIB mundial mais do que muitos países, sugere que as grandes empresas do mundo assinem um Pacto Global para alavancar a prática da responsabilidade social empresarial, visando uma economia global mais sustentável e inclusiva.

Segundo Kisil, essa foi uma estratégia muito inteligente, pois ao recomendar às grandes empresas que passassem a atuar de forma sustentável, atentando para a questão em toda sua cadeia produtiva, desde fornecedores até consumidores, a idéia passou a influenciar uma grande variedade de pessoas e organizações.


Papel das Empresas

No campo corporativo, a idéia da sustentabilidade foi costurada com o conceito do “Triple Bottom Line”, isto é, com o entendimento de que a empresa está inserida numa sociedade e tem, portanto, responsabilidade para com ela e para com as próximas gerações. Por isso, a empresa não pode ficar atenta apenas à sua dimensão econômica. Deve também buscar o incremento de suas esferas social e ambiental, monitorando o impacto de suas ações e criando mecanismos de desenvolvimento sustentável.

Mas transpor essas idéias para a realidade concreta das empresas não é fácil, até porque elas não fazem parte do core business da empresas. Trata-se de uma mudança de cultura, que exige tempo, paciência, cautela, inovação e o trabalho integrado com as partes interessadas. Então, aos poucos, as corporações estão repensando seus valores, códigos de ética e de conduta, o modelo de produção e atuação, inserindo elementos como capital humano e social, licença da comunidade para operar, impacto social e ambiental junto a elementos tradicionais como redução de custos, aumento de produtividade, gestão de risco e qualidade.

Marcos Kisil avalia que as empresas estão cientes da sustentabilidade corporativa e estão se engajando nesse processo. Algumas poucas entram por convicção, por assumir a responsabilidade como um valor que orienta sua gestão. Nesse caso, não é preciso convencê-las, apenas ajudar a encontrar o espaço em que vão atuar. Outras empresas entram por conveniência: percebem que o concorrente está fazendo e que o consumidor está exigindo essa postura, então, para não perder mercado, começam a atuar de forma responsável. Outras entram porque estão sofrendo coerção decorrente do não cumprimento de uma determinada regulamentação. Mas o especialista afirma que não importa o motivo pelo qual a empresa queira implantar sua sustentabilidade, o que é preciso fazer é trabalhar para que esse seja um compromisso assumido no longo prazo.

Nesse sentido, foi apresentado o caso da Klabin, empresa líder na produção de papéis para embalagens. Wilberto Lima, diretor de Comunicação e Responsabilidade Social da Klabin, diz que o conceito de desenvolvimento sustentável está presente nas atividades da empresa e que a empresa sempre olha para o ambiente e para as comunidades do entorno onde está instalada. “Está ficando cada vez mais difícil que as empresas não olhem para sua realidade. Não interessa o tamanho da empresa. Se há consciência, uma empresa de qualquer tamanho pode praticar desenvolvimento sustentável. A empresa tem que dar lucro. E isso não é vergonha. A vergonha vai ser no futuro se as empresas não tiverem consciência de que têm um papel social”, afirmou

Assim, Wilberto contou que, dos 371 mil hectares de áreas florestal da Klabin, 192 mil são de florestas plantadas e 135 mil de mata nativa preservada. Como as florestas plantadas são homogêneas, o que reduz a diversidade, optou-se por fazer o manejo em mosaico, misturando a mata nativa com a plantada, para a que diversidade seja preservada. Para evitar o êxodo rural, a Klabin tornou-se avalista de empréstimos para os pequenos e micro produtores rurais. Além disso, a madeira que produz é certificada pela FSC (Forest Stewardship Council), tem um programa de educação ambiental pelo qual já passaram 88 mil pessoas e desenvolve, junto com as comunidades nas quais a empresa opera, um importante projeto de formação de jovens agentes de desenvolvimento comunitário.


“Vírus bom”

De acordo com Vitor Seravalli, diretor industrial da BASF, que apresentou a Pesquisa de Responsabilidade Social (RS) das Indústrias de São Bernardo do Campo, realizada com 48 indústrias da região, o Brasil tem alguns casos de sucesso na área da RS, mas ainda precisa avançar. A BASF, por exemplo, olhando para a sua sustentabilidade e revendo seu processo produtivo, conseguiu reduzir o custo de sua matéria-prima, utilizando 60 milhões de garrafas PET que seriam descartadas, diminuir 250 mil litros de água em seu processo de produção e gerou 35 empregos nessa ação. É sem dúvida um caso de sucesso, que tem atraído a atenção de outros empresários, mas que ainda não é muito freqüente entre as empresas. Infelizmente, ele pontuou que existem muitas ações assistencialistas, empresários que sequer cumprem as leis e, por isso, é fundamental continuar espalhando o que chamou de “vírus bom” da responsabilidade, e saber aproveitar as boas oportunidades por ele criadas.

Analisando as empresas de São Bernardo, Vitor Seravalli afirmou que ela ainda não conseguiram inserir a diversidade entre seus colaboradores. Praticamente não têm funcionários com deficiência, não incluem de forma equilibrada nem mulheres, nem negros, nem pessoas com mais de 60 anos no corpo de colaboradores, e apenas 4,2% oferecem oportunidade de trabalho para ex-detentos. Na área ambiental, embora 100% das empresas façam o monitoramento de seu impacto, as pequenas não se preocupam com essa questão. Na questão do voluntariado as empresas maiores estimulam seus funcionários a desenvolverem trabalho voluntário, mas as pequenas não. Na avaliação de Seravalli, portanto, aí estão importantes oportunidades de colaboração entre grandes e pequenas empresas. Outro dado de destaque é que 90% das grandes empresas desenvolvem ações sociais, mas 78% delas são iniciativas pontuais e assistencialistas, como doação de materiais. 85% das empresas nunca publicaram balanços sociais.


Pegada Ecológica

Como disse Marcos Kisil, a sustentabilidade é um conceito que depende de todos: governos, empresas, sociedade civil, indivíduos. Mônica Rennó, diretora de Marketing e Relações Corporativas da WWF/Brasil, contou como a WWF trabalha a sustentabilidade, apresentando projetos próprios, influenciando políticas públicas e estabelecendo parcerias com empresas. Segundo Mônica, todos os projetos do WWF são realizados com empresas já comprometidas com a melhoria de seus impactos ambientais, e sempre de forma colaborativa.

Mônica afirmou sentir que a dimensão da responsabilidade social está mudando nas empresas. Antes, as corporações sentiam que tinham cumprido seu papel ao assinarem um cheque. Hoje, parecem querer contribuir mais ativamente e estar abertas ao diálogo com organizações sociais. O desafio agora é fazer com que a sustentabilidade entre como princípio do negócio, de forma a diminuir ou erradicar os impactos negativos.

Para concluir, Mônica apresentou um exercício lúdico de identificação do tamanho da “Pegada Ecológica” dos participantes do evento. Criado em 1996, por William Rees e Mathis Wackernagel, o conceito da Pegada Ecológica corresponde ao tamanho das áreas produtivas de terra, mar, ar e energia necessárias para produzir e sustentar determinado estilo de vida (compra de roupas, alimentos, móveis, uso de água, forma de transporte, atividades de lazer etc). É uma forma de traduzir, em hectares, a extensão de território aproximada que uma pessoa ou toda uma sociedade "precisa" ou “usa”, em média, para se sustentar. Hoje, a Terra é capaz de sustentar uma “pegada” de 2 hectares por habitante. A média da população européia, no entanto, é de 6 hectares e a da norte-americana, de 10 hectares. Isso significa que, se todos os cidadãos do mundo consumissem tanto quanto o que consome a população dos Estados Unidos, hoje, seriam necessários cinco planetas. O exercício pode ser encontrado no site.

Confira as apresentações dos palestrantes:


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