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Evento no RJ discute sustentabilidade corporativa

Refletir sobre a sustentabilidade corporativa e as práticas das empresas nessa temática foi o propósito do evento Seminários sobre Sustentabilidade Corporativa, realizado pelo IDIS, em parceria com o WWF-Brasil, em 22 de agosto de 2006, no auditório da Firjan, no Rio de Janeiro, e que terá mais um encontro, em São Paulo, em data ainda a ser definida.


O ponto de partida das discussões foi o debate sobre o conceito de sustentabilidade e suas transformações ao longo do tempo. Marcos Kisil, diretor-presidente do IDIS explicou que os princípios da sustentabilidade foram lançados em 1972, quando o Clube de Roma apresentou o relatório “Os Limites do Crescimento”, alertando que o crescimento acelerado e desordenado da indústria e da população ocasionaria um esgotamento dos recursos naturais não-renováveis, a degradação irreversível do meio ambiente e um aumento insuficiente da produção alimentar.

Ele conta que a questão era discutida por poucas pessoas até que, em 1983, a Organização das Nações Unidas criou a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Presidida pela norueguesa Gro Harlem Brundtland, o objetivo da Comissão era examinar as questões críticas relativas ao meio ambiente, formular novas propostas e promover a cooperação internacional nessa área. Em 1987, a Comissão lançou o relatório “Nosso Futuro Comum”, que ficou conhecido como Relatório Brundtland, no qual apresenta a idéia de “desenvolvimento sustentável”, entendido como “aquele que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade de as gerações futuras suprirem suas próprias necessidades”. 

O relatório eclode durante a segunda Conferência Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como ECO 92 ou Rio 92. A partir daí, surge uma série de documentos sobre o clima e meio-ambiente, entre eles o Protocolo de Kyoto. A temática passa a disseminar-se pela sociedade em geral e, em 1999, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan sugere que as grandes empresas do mundo assinem um Pacto Global para alavancar a prática da responsabilidade social empresarial, visando uma economia global mais sustentável e inclusiva. 

Segundo Kisil, essa foi uma estratégia muito inteligente, pois ao recomendar às grandes empresas que passassem a atuar de forma sustentável, atentando para a questão em toda sua cadeia produtiva, desde fornecedores até consumidores, a idéia passou a influenciar um grande número e variedade de pessoas e organizações.  


Sustentabilidade Corporativa

No campo das empresas, a idéia da sustentabilidade foi costurada com o conceito do “Triple Bottom Line”, isto é, com o entendimento de que a empresa está inserida numa sociedade e tem, portanto, responsabilidade para com ela e para com as próximas gerações. Por isso, não pode ficar atenta apenas à sua dimensão econômica. Deve também buscar o incremento de suas esferas social e ambiental, monitorando o impacto de suas ações e criando mecanismos de desenvolvimento sustentável. “Para não esquecer o conceito do triângulo, é simples. Basta imaginar um banquinho: para que ele fique no chão, ele tem que ter três pernas; se tiver duas ele cai; se tiver uma, não pára. Ele só fica em pé com três pernas”, diz Marcos Kisil.

O especialista avalia que as empresas estão cientes da sustentabilidade corporativa e estão se engajando nesse processo. Algumas delas entram por convicção, por assumir a responsabilidade como um valor que orienta sua gestão. Nesse caso, não é preciso convencê-las, apenas ajudar a encontrar o espaço em que vão atuar. Outras empresas entram por conveniência: percebem que o concorrente está fazendo e que o consumidor está exigindo essa postura, então, para não perder mercado, começam a atuar de forma responsável. Uma grande parte, infelizmente, entra porque está sofrendo coerção decorrente do não cumprimento de uma determinada regulamentação. Nesses dois casos, é preciso fazer um esforço de transformação da organização, a fim de que ela tenha compromisso com o trabalho desenvolvido.

Nesse sentido, Marcos Kisil considera fundamental envolver as lideranças da empresa, para que entendam a sustentabilidade como um fator estratégico, que cria valor a longo prazo, contribui para um mundo sustentável e pode até dar legitimidade à empresa frente à comunidade em que está inserida. Marcelo Tôrres, responsável pela consultoria interna em sustentabilidade e negócios do Banco ABN AMRO Real, que apresentou o caso dessa organização no evento, concorda. “Se você não tiver esse comprometimento lá em cima, você vai montar um grupinho de ‘verdes’, um grupinho como nós, que já fomos apelidados no banco de playground da empresa”, conta.

Foi justamente a partir do engajamento de uma alta liderança que o Banco ABN AMRO Real passou a implantar o desenvolvimento sustentável na organização. Entre 1998 e 1999, um de seu líderes, Fábio Barbosa, percebeu que a lei do “leva-vantagem” não era mais tão valorizada pela sociedade e que, para satisfazer seus clientes e fazer crescer seus negócios, o banco devia atuar de forma ética e responsável. Marcelo Tôrres explica que, a partir desse desafio, a instituição passou a criar diversos programas, colocando a sustentabilidade em ações práticas. O processo foi construído de “dentro para fora” da empresa, reeducando os funcionários e stakeholders e provocando uma mudança de cultura na instituição. 

Marcelo afirma que foram criados três comitês de sustentabilidade no banco: um voltado para o mercado, outro para a gestão e outro para a ação social. O comitê de mercado desenhou programas de concessão de crédito que exigem do cliente o cumprimento de critérios socioambientais para a aprovação das operações, criou uma linha de crédito socioambiental para empresas que desejam melhorar sua atuação nessas áreas, além de linhas de financiamento para microcrédito. Na área da gestão, foram implantados programas de ecoeficiência como coleta seletiva, redução do consumo de água e de uso de papel reciclado. Já no comitê de ação social, foram desenhados projetos como o Projeto Escola Brasil, que incentiva o voluntariado em escolas públicas, o Amigo Real, que estimula funcionários e clientes a doarem parte de seu Imposto de Renda Devido aos Fundos Municipais da Infância e Adolescência, e o Projeto Rua ao Lado, que recuperou uma rua próxima de uma das agências, que estava tomada por traficantes.

O representante do banco explica que essas ações geraram resultados como o crescimento do nível de satisfação dos funcionários em trabalharem na organização e seu engajamento no processo. Em 2005, 98% dos empregados disseram ter orgulho de trabalhar no banco. Também identificou-se que a instituição passou de quinto para segundo lugar em atratividade para novos clientes. Quando se pergunta ao cliente se ele abriria uma conta num banco que não naquele em que ele já tem conta, o segundo banco mais citado é o ABN AMRO Real. Além disso, o banco recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais nos últimos anos. 


Outros atores

Mas a sustentabilidade, conforme pontuou Marcos Kisil, deve estar presente não apenas no ambiente corporativo. Deve ser um princípio de qualquer organização – seja a família, a escola, uma empresa de grande, médio ou pequeno portes, no governo... Assim, Mônica Rennó, diretora de Marketing e Relações Corporativas da WWF/Brasil, contou como a WWF trabalha a sustentabilidade, apresentando projetos próprios, formas de influenciar políticas públicas (sobretudo no fomento à criação de um comitê de bacias e de projetos de educação ambiental) e de estabelecer parcerias com empresas. 

Partindo do princípio que o planeta não pode ser sustentável se as empresas não o forem, o WWF estabeleceu parcerias com companhia, de forma a encontrar soluções sustentáveis. Ela diz que os projetos são realizados com empresas que já estão comprometidos com a melhoria de seus impactos ambientais, sempre de forma colaborativa. Um exemplo disso foi a iniciativa realizada junto a bancos brasileiros signatários dos Princípios do Equador. Na ocasião, foram feitos relatórios em cada um dos bancos, avaliando em que eles poderiam avançar. “A gente tenta ter um enfoque positivo, colaborador e baseado em soluções”, afirma.

A representante comenta que o equivalente ao triple bottom line utilizado pelo WWF é chamado de “Four Cs” (Quatro Cs): Conservation (conservação), Challenge for Change (desafio para a mudança), Cash (recursos) e Communication (comunicação). As parcerias são criadas, portanto, buscando o engajamento da empresa nesses quatro eixos. Mônica afirma sentir que a dimensão da responsabilidade social está mudando nas empresas. Antes, as corporações sentiam que tinham cumprido seu papel ao assinarem um cheque. Hoje, as empresas parecem querer contribuir mais ativamente e estão abertas ao diálogo com organizações sociais. O desafio agora é fazer com que a sustentabilidade entre como princípio do negócio, de forma a diminuir ou erradicar os impactos negativos. 

Para concluir, Mônica apresentou um exercício de identificação do tamanho da “Pegada Ecológica” dos participantes do evento. Criado em 1996, por William Rees e Mathis Wackernagel, o conceito da Pegada Ecológica corresponde ao tamanho das áreas produtivas de terra e de mar necessárias para produzir e sustentar determinado estilo de vida (compra de roupas, alimentos, móveis, uso de água, forma de transporte, atividades de lazer etc). É uma forma de traduzir, em hectares, a extensão de território aproximada que uma pessoa ou toda uma sociedade "precisa" ou “usa”, em média, para se sustentar. Hoje, a Terra é capaz de sustentar uma “pegada” de 2 hectares por habitante. A média da população européia, no entanto, é de 6 hectares e a da norte-americana, de 10 hectares. Isso significa que, se todos os cidadãos do mundo consumissem tanto quanto o que consome a população dos Estados Unidos, hoje, seriam necessários cinco planetas. O exercício pode ser encontrado no site.


Leia Mais:

Confira a apresentação dos palestrantes do evento:

Veja a programação do evento

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