Francisco Azevedo fala sobre nova estratégia do Instituto Camargo Corrêa
9/9/2008 – Diretor executivo do Instituto Camargo Corrêa, Francisco de Assis Azevedo acredita que alinhar investimento social privado a políticas públicas direcionadas é a receita para o sucesso de iniciativas de investimento social privado. A estratégia de atuação fica evidente nos programas que o Instituto desenvolve desde o ano passado.
A organização atua na defesa dos direitos da primeira infância, no fortalecimento da qualidade da educação básica e para o aumento de oportunidades e geração de renda para jovens nas regiões onde o Grupo Camargo Corrêa está presente. Além de promover o engajamento de funcionários da empresa. Em entrevista exclusiva ao portal do IDIS, o executivo fala sobre os primeiros resultados do novo modelo de investimento social corporativo do instituto e a respeito deste momento, que ele acredita ser propício para o reposicionamento de empresas, governos e terceiro setor.
IDIS - Qual foi a ruptura que você imprimiu ao Instituto Camargo Corrêa em relação à política anterior de investimento social privado?
Francisco Azevedo - A nova forma de atuação do Instituto Camargo Corrêa é fruto de um longo processo de planejamento estratégico, que aconteceu em 2006. Várias mudanças ocorreram, mas creio que a de maior impacto foi uma inversão na postura do Instituto em relação às empresas do grupo. O Instituto passou a estar a serviço das empresas e não o contrário. Ou seja, dissemos que a responsabilidade de ter um bom relacionamento com as comunidades do entorno e de contribuir para o seu desenvolvimento era das empresas e não do Instituto. O Instituto iria compartilhar com as empresas essa responsabilidade, daria todo o apoio necessário para que isto acontecesse: a orientação, as ferramentas, pessoal especializado, metodologias, estratégias etc. Porém, jamais atuaríamos em substituição às empresas.
IDIS - O Grupo Camargo Corrêa é enorme. Como unir e centralizar as iniciativas de investimento de todo o grupo?
Francisco - Não é tarefa fácil, mas é possível. Na verdade, procuramos unir, dar um norte para o investimento social e não centralizar as iniciativas. Criamos três programas que chamamos de estruturantes: Infância Ideal, que visa à defesa dos direitos da primeira infância, crianças de 0 a 6 anos; Escola Ideal, que visa contribuir para a melhoria da qualidade da gestão da escola pública de ensino fundamental, crianças e adolescentes de 7 a 16 anos; e o Programa Futuro Ideal, para jovens de 16 a 24 anos, que procura estimular o empreendedorismo e a geração de trabalho e renda. Um quarto programa que permeia os três chama-se Ideal Voluntário, que estimula a ação cidadã entre os funcionários. Cada empresa, a principio, assume um programa, cria um Comitê formado por lideranças da comunidade que, após o diagnóstico, define as prioridades de ação. Estamos criando redes de cidades que implantaram o mesmo programa para troca de experiências entre os diversos atores envolvidos.
IDIS - Uma das principais prerrogativas do investimento social privado é equilibrar os interesses públicos e privados em suas ações. Como isso ocorre na prática?
Francisco - A melhor maneira é definir um foco para o investimento social corporativo e alinhá-lo a políticas públicas. Em qualquer campo de atuação, sempre haverá como fortalecer uma política pública.
IDIS - É possível contabilizar os avanços em um ano de gestão?
Francisco - Em relação à área social um ano é pouco tempo para medir resultados, principalmente no modelo que adotamos de envolver sempre os funcionários e a comunidade na definição de prioridades e na implantação dos projetos. Porém, a velocidade com que as coisas acontecem tem sido bem maior do que imaginávamos. Constatamos um grande envolvimento e comprometimento das lideranças locais, tanto da empresa como da comunidade. Conseguimos construir parcerias importantes para a implantação dos programas e as próprias comunidades já desenvolveram vários projetos que estão em fase de implantação. No final deste mês fará um ano que lançamos o primeiro programa, ainda estamos em fase de testes e ajustes, porém muitos processos já estão consolidados e estratégias definidas. Creio que estamos inaugurando um novo jeito de caminhar em relação ao investimento social corporativo.
IDIS - Em vez de simplesmente financiar projetos, o Instituto Camargo Corrêa os desenvolve. Qual é o ganho que esta estratégia traz?
Francisco - Financiar projetos, apesar de ser importante, é muito pouco para uma empresa. Qualquer empresa tem condições de ir além do financiamento, de contribuir de forma mais efetiva para o desenvolvimento social. Na verdade, nós não desenvolvemos os projetos, quem os desenvolve são as comunidades. Nós apenas somos agentes facilitadores para que isto aconteça. O ganho é visivelmente maior porque este processo exige muita capacitação de lideranças, discussões entre governo e ONG’s, construção de parcerias e fortalecimento de organizações locais. Como resultado, as comunidades passam a conhecer melhor sua realidade. Para a empresa, este processo cria novos espaços de aproximação com a comunidade.
IDIS - Muito da estratégia do ICC está calcada na participação dos funcionários. Como desenvolver bons programas de voluntariado corporativo?
Francisco - Programas de voluntariado são sempre dos funcionários e não da empresa. O que fazemos é criar condições para que eles, caso queiram, participem de ações sociais, que em geral são complementares aos projetos desenvolvidos em cada comunidade. Creio que um bom programa considera a vontade dos voluntários, o seu tempo disponível e também que tenha ações que sejam prazerosas. Aquele prazer de sentir que o trabalho fez diferença para alguém. A cultura do voluntariado tem crescido muito nos últimos anos, mas o trabalho voluntário tem suas limitações e não deve ser visto como uma alternativa para resolver os graves problemas sociais de nosso país e sim como um complemento.
IDIS - Qual é a relação entre investimento social familiar e investimento social corporativo no Brasil?
Francisco - O investimento social familiar tem como motivação principal o espírito humanitário, e é algumas vezes ligado a causas que, de alguma forma, afetam ou afetaram a família. O investimento social familiar no Brasil, de forma sistemática, ainda é pouco conhecido, daí a dificuldade de identificarmos com clareza suas características. Quanto ao investimento social corporativo, constatamos grandes avanços nos últimos anos. Há um movimento crescente de mudança nas empresas que tradicionalmente preocupam-se com a área social. Elas estão saindo de uma ação com fortes traços de assistencialismo para o investimento social, ou seja, procuram aplicar seus recursos de forma mais efetiva, fazendo diagnósticos, definindo prioridades, monitorando os projetos e fazendo avaliação permanente dos resultados. Percebe-se também um aumento significativo no número de empresas que passam a fazer investimento social, principalmente no entorno de suas unidades de negócio.
IDIS - O Brasil apresenta uma vocação consolidada em investimento social corporativo?
Francisco - Não sei se podemos chamar o que estamos vivenciando de vocação, quanto mais consolidada. Acredito que as empresas estão mais conscientes de que seu papel na sociedade vai além de gerar riquezas, empregos e pagar impostos. Vivemos um momento de repensar papéis, não apenas das empresas, mas também do governo e do terceiro setor. Um momento muito rico, onde percebemos maior disposição para o diálogo, maior abertura e um significativo crescimento das parcerias intersetoriais. Tudo indica que não se trata de modismo e sim de um movimento sem volta, com tendências de rápido crescimento e de maior profissionalização.
IDIS - Você foi o idealizador do Fundo Amigo, iniciativa que se tornou nacional a partir de 2004. Quais são os principais desafios para incentivar o investimento social corporativo?
Francisco - O Fundo Amigo é um projeto que orienta e estimula as empresas a destinarem recursos incentivados aos Fundos da Infância e realmente tem tido um resultado surpreendente. A questão do investimento social corporativo é mais complexa, pois não existem incentivos fiscais que o estimulam. É necessário que haja uma consciência dos executivos sobre o papel das empresas e que percebam que o investimento social é importante também para o negócio. Do contrário, será apenas uma ação social baseada na visão filantrópica e dificilmente será transformadora. À medida que a sociedade passa a valorizar as empresas socialmente responsáveis e que se encontrem formas de apontar objetivamente que o investimento social é bom para a sociedade e também para a empresa certamente haverá um significativo aumento de empresas comprometidas com o investimento social.

