Fundação O Boticário investe na proteção do meio ambiente
19/11/2008 - Investimentos sociais ligados à preservação ambiental ainda são raros no Brasil. A afirmação é de Malu Nunes, diretora executiva da Fundação O Boticário. O paradoxo ligado à urgência dos temas e à constatação de que o terceiro setor ainda negligencia a atuação na área também se repete em outros países.
Segundo o relatório Green Philanthropy: Funding charitable solutions to enviromental problems, lançado no início deste ano pela New Philanthropy Capital (NPC), a discussão cada vez maior de temas como a mudança climática ou a escassez de recursos naturais não se reflete em apoio financeiro para organizações que lidam com a questão. Depois de ouvir as maiores organizações filantrópicas do Reino Unido, a NPC descobriu que menos de 2% dos 1,1 bilhão de libras gastos pelas cem maiores organizações em 2007 foi direcionado a causas ambientais.
No Brasil, o movimento é semelhante. A última versão do Censo GIFE (período 2007-2008) aponta a área como a sétima colocada entre 12 campos de atuação prioritários no Brasil. Dos 80 associados que responderam à pesquisa, 33 afirmaram desenvolver ações ligadas ao meio ambiente. Já a segunda edição da Pesquisa Ação Social das Empresas (2006), realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que apenas 7% das quase 10 mil organizações analisadas desenvolvem ações nesse sentido.
“Nós começamos a atuar em prol da conservação antes mesmo da Rio-92, quando a discussão ainda era bastante incipiente”, afirma Malu Nunes, diretora da Fundação O Boticário. Criada em 1990 pelo desejo do fundador da corporação Miguel Krigsner, a instituição que começou como financiadora de projetos hoje também desenvolve ações próprias para a proteção da biodiversidade brasileira. Um exemplo é a manutenção de duas reservas naturais – a de Salto Morato, no Paraná, e a de Serra do Tombador, em Goiás -, que protegem remanescentes da Mata Atlântica e do Cerrado.
Segundo Malu, o crescimento da preocupação pública sobre a questão ambiental ajudou a amadurecer algumas propostas e modelos de preservação, mas ainda não foi suficiente para criar um movimento consistente da atuação privada no nosso país. “No geral, não somos referência nem no desenvolvimento nem na aplicação de propostas de conservação”, revela. “Embora existam ações pontuais de destaque”, ressalva ao citar os contratos de premiação de bens e serviços ecossistêmicos.
Por meio dessa estratégia, as instituições oferecem apoio técnico e financeiro para a conservação de áreas naturais localizadas em propriedades particulares. Na Fundação O Boticário, o Projeto Oásis, que atua na proteção dos mananciais da região metropolitana de São Paulo, permite esse tipo de investimento. Em 2008, 13 propriedades que somam 628 hectares fizeram parte da iniciativa.
O objetivo é defender as funções desempenhadas pelos ecossistemas e, desta maneira, evitar que os benefícios diretos e indiretos precisem ser fornecidos artificialmente. “São vantagens objetivas como o controle de erosão e a manutenção da qualidade e do fluxo de água”, exemplifica Malu. Em 1997, o estudo The value of the world’s ecosystem services and natural capital, organizado pelo economista Robert Constanza, fez a conta e chegou à conclusão de que as benfeitorias propiciadas pelas áreas naturais ainda conservadas em todo o mundo valem 33 trilhões de dólares.
Posicionamento governamental
A diretora executiva também aponta a inconstância de políticas públicas que priorizem a questão ambiental, tanto na perspectiva de regulamentação quanto na de cumprimento da lei. “As novas propostas têm vindo sempre no sentido de flexibilizar a proteção e permitir a devastação”, afirma. Segundo ela, está se formando no país o senso comum de que a conservação é sempre radical. “Radical é a destruição”, defende.
As propostas nascem da percepção de que a proteção retarda iniciativas de desenvolvimento, quando o movimento é contrário. Estudos da Divisão para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que a destruição ambiental cria uma espiral viciosa de necessidades: buscando fugir da pobreza, moradores de regiões vulneráveis utilizam de forma predatória os recursos ambientais. Porém, o empobrecimento da natureza torna sua sobrevivência mais difícil e incerta. “O ciclo de pseudo-riqueza gerado pela devastação é pequeno e beneficia a poucos”, Malu explica.
Atuação dos investidores sociais
Para Bernard Mercer, fundador da NPC e autor do estudo sobre filantropia e meio ambiente, a timidez do mercado filantrópico em relação a iniciativas de preservação também é condicionada pela falta de informações sobre resultados e desempenho. A falha, que ainda é característica de outros campos do terceiro setor, inibe a ampliação das fontes de financiamento.
Ele indica o aumento de projetos colaborativos, o compartilhamento de informações e o investimento em organizações produtoras de conhecimento sobre o tema como medidas eficientes para fortalecer a filantropia orientada à preservação.

