Global Fund discute conceito de fundação comunitária
2/8/2008 – Criado em uma parceria entre a Ford Foundation, a Mott Foundation, a Worldwide Initiative for Grantmakers Support (Wings) e o Banco Mundial, o Global Fund for Community Foundations (GFCF) funcionou durante dois anos como um projeto piloto da Wings e do European Foundation Centre (EFC). Hoje, depois de o fundo ter financiado mais de 83 projetos de desenvolvimento comunitário no mundo, as organizações incubadoras propõem que ele ganhe corpo próprio e se torne uma entidade independente. O movimento de institucionalização começou com um processo de consulta a stakeholders globais e revelou que o conceito de fundação comunitária ainda está em construção.
“Nós começamos o GFCF com uma noção muito clara do que eram fundações comunitárias, mas, à medida que o trabalho foi se desenvolvendo, caminhamos para a ampliação do conceito e para a identificação de novas formas de organizações comunitárias de investimento social privado”, afirma Fernando Rossetti, atual chairman da Wings.
Segundo ele, o estudo aponta que os formatos de fundação comunitária variam a partir da expectativa de horizontalidade dos diversos costumes políticos. “Esta forma de organização funciona de maneira qualitativamente diferente em termos de poder e de mobilização de recursos entre uma cultura e outra”, revela. Em países do hemisfério norte, em particular nos Estados Unidos e no Canadá, o estabelecimento destas iniciativas acontece quase organicamente. Nelas, uma comunidade reúne recursos e financia suas ações de desenvolvimento social obedecendo a três princípios gerais:
- mantêm independência de governos, doadores e outras organizações
- são dedicadas a melhorar a qualidade de uma área geográfica definida
- funcionam como catalizadoras de controle e processos de decisão locais
Já nas nações caracterizadas por culturas políticas verticais (ou top down), como as da América Latina, África, Ásia e Leste Europeu, o conceito parece funcionar com adaptações. No Brasil, as organizações de filantropia e investimento social comunitário (OFISCS) surgem como um modelo alternativo de ações em nível local em expansão no Brasil. As OFISCS estão alinhadas aos três princípios fundamentais das fundações comunitárias e agem a partir da estratégia de ação intersetorial. Esta característica aproveita a tradição nacional de investimento social corporativo e adota uma perspectiva ampla e positiva do envolvimento empresarial na comunidade.
Desde 1999, o IDIS tem experiência em estimular o desenvolvimento e fortalecimento de organizações desta natureza e possui resultados estabelecidos do Programa DOAR. As cidades paulistas de Botucatu, Guarulhos, Limeira, Penápolis, Santa Bárbara d’Oeste e São José dos Campos receberam apoio técnico do instituto para promover participação e empoderamento popular.
A principal diferença entre OFISCS e fundações comunitárias está relacionada a financiamento de projetos. As OFISCS não são distribuidoras de recursos. Isto porque a constituição de fundos patrimoniais (endowments), que financiam as ações, ainda é incipiente no país. Porém, assim como uma fundação comunitária, as organizações estabelecem elos entre os recursos financeiros existentes e as necessidades locais.
Para Rossetti, a eventual ampliação ou mudança de rumos do entendimento de fundações comunitárias do GFCF é aceitar a realidade. Afinal, o conceito proposto pelos Estados Unidos não se adapta todas as realidades. “Ele estava sendo visto como uma tecnologia social, uma metodologia que funciona em qualquer lugar”, aponta.
O apoio a este entendimento fica evidente no documento Global Fund for Community Foundations – Consultation process summary, lançado pela Wings em julho de 2008 e que mapeia as principais respostas à consulta global. No questionário, quase metade dos consultados defenderam o “estímulo ao desenvolvimento de novos e variados tipos de filantropia comunitária” e menos de um quarto das respostas apoiaram a difusão do modelo formal de fundações comunitárias.
O antagonismo das posições pode ser visto como o reflexo da experiência dos entrevistados. Dos mais de 500 profissionais de grandes e pequenas iniciativas em investimento social privado consultados, quase metade atua nos países do Sul, 35% no Leste Europeu e 15% nos países do Norte. Daí o debate da flexibilização do conceito ser marcado pela contraposição entre países do Norte e do Sul.

