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Para especialista em doação de recursos, burocracia administrativa pode matar bom programa

Entre os dias 22 e 27 de outubro, Victoria Anderson, gerente de Doação de Recursos da Charities Aid Foundation (CAF), esteve no Brasil para um intercâmbio de experiências com o IDIS, que é parceiro institucional da CAF e seu representante para a América Latina. A especialista trouxe sua expertise de quinze anos trabalhando em fundos comunitários, no Save The Children Fund, na Help Age International, entre outros, e também pôde conhecer a experiência do IDIS.


Atuando na CAF desde 2001, Victoria Anderson é responsável pelo programa de doação de recursos da organização, que busca encontrar soluções criativas para cobrir as necessidades de financiamento e oferecer apoio ao terceiro setor. Seu objetivo é facilitar o processo de doação feito por indivíduos e empresas diretamente a organizações sem fins lucrativos, a causas ou comunidades, de maneira ética, e eficiente em termos fiscais.

Nesse sentido, ela diz que um programa de doação de recursos não pode ser complicado. Para ser eficiente, ele deve ser simples, ter visão clara sobre os benefícios sociais que pretende atingir, desenvolver um olhar criativo (tanto sobre os doadores quanto sobre as organizações e indivíduos que receberão os recursos), e estar focado nas necessidades. Deve fazer diagnóstico da sociedade, determinar uma meta social e escolher pessoas que tenham objetivos parecidos e que estejam na liderança das transformações, pois são os líderes do setor que podem realmente conduzir as mudanças.

Com esse diagnóstico em mãos, é preciso definir qual a melhor maneira de se trabalhar esses indivíduos - sem apostar em fórmulas mágicas. “Às vezes, há um programa exatamente como você precisa; às vezes é preciso conhecer a liderança, perguntar o que ela gostaria de ter e trabalhar com isso, sem burocracia”, explica.


Sem burocracia

A burocracia administrativa, segundo Victoria, pode matar um bom programa. “Há contratos que precisam disso, mas muitas pessoas envolvidas na doação de recursos colocam burocracia em programas que não precisam e que não deveriam ter isso. Se você está tentando trabalhar com jovens, não funciona se você começa a dizer: ‘aqui está tal formulário e você pode seguir esse procedimento...'. Por isso é preciso encontrar pessoas certas, que removam a burocracia. Não se pode ter trabalhadores comunitários envolvidos na burocracia, porque não é essa sua habilidade”, conclui.

Outro ponto que a especialista destaca para se ter um bom programa de doação de recursos é o gerenciamento do risco. Ela considera que os riscos devem ser assumidos, senão, não se atinge a mudança. Mas é preciso arriscar com cautela e, para isso, é importante estar consciente do risco e saber porque ele está sendo assumido. “A doação de recursos é um equilíbrio entre, de um lado, intuição e arte; de outro, ciência e técnica. Você tem que equilibrar o que está fazendo, avaliar processos, ver quem será ajudado e porque você decidiu apoiá-los. Num modelo de engajamento real, você quer realmente produzir mudanças, então tem que estar muito envolvido”, diz a especialista.

Além disso, ela acredita que é preciso monitorar todo o processo e aprender com seus erros e acertos, pois quanto mais se aprende e se muda o programa, mais se tem confiança para compartilhar o aprendizado com o setor e com os grupos comunitários apoiados.


Atenção ao contexto local

Para Victoria, todos esses pontos devem ser observados em qualquer programa, independente de onde são realizados. Mas, evidentemente, para montar um programa de doação, é preciso analisar o contexto local.

Assim, ela diz que, na Grã-Bretanha, por exemplo, seria pouco apropriado para a CAF (organização que conta com a estrutura de um banco e mais de 400 funcionários), trabalhar com doações muito pequenas em comunidades. É mais eficiente trabalhar com fundações locais ou organizações comunitárias. Em países de desenvolvimento tardio, também é preciso observar a infra-estrutura local, pois se as comunidades estão isoladas, se não existe um banco local ou se é muito difícil levar o dinheiro, o melhor é que o governo apóie pequenas organizações locais, que já fazem o trabalho na escala adequada. Ainda é importante respeitar a cultura local e não chegar simplesmente dizendo: “Aqui está! Faça isso! Você deve fazer isso desse jeito!”, senão perde-se a legitimidade.


Todos juntos!

Outro desafio comum à maioria dos programas de doação de recursos é trabalhar com causas que têm pouca visibilidade e, portanto, com mais dificuldade para arrecadar recursos. Na Grã-Bretanha, Victoria conta que é fácil mobilizar pessoas para doar recursos para desastres internacionais, bem como para projetos voltados para crianças, educação ou para pesquisas sobre o câncer. Mas para trabalhos voltados para as minorias étnicas, doenças mentais ou pessoas que estão presas porque cometeram algum tipo de crime sexual é muito difícil.

Para esses casos, ela acredita que organizações que trabalham com a mesma causa devem se unir, formar redes, e tentar levantar recursos conjuntamente. Embora isso ainda não seja comum, tem se tornado cada vez mais freqüente em seu país, pois quando organizações que tratam da mesma questão, de formas diferentes, se juntam, têm um argumento muito forte para dizer “Estamos aqui, fazemos isto e estamos juntos para contar a vocês sobre o nosso trabalho”.

Seguindo a mesma lógica, pequenas organizações também estão se juntando para repartir os custos de um profissional que se dedique à campanha de arrecadação de recursos. Dessa forma, as organizações não gastam tanto dinheiro com a própria estrutura, o que, normalmente, já consome grande parte das doações obtidas.

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