Relatório apresenta 50 casos de negócios inclusivos
14/7/2008 – Em julho de 2008, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) lançou o Relatório Creating Value for All: Strategies for Doing Business With the Poor. O documento seleciona 50 casos bem-sucedidos de negócios inclusivos que ajudam a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Três iniciativas brasileiras foram destacadas: Natura, Sadia e Votorantim Celulose e Papel (VCP).
O estudo é o primeiro de uma série inspirada na iniciativa Criando Negócios Inclusivos, do Pnud, que tem como objetivo estabelecer diálogo entre o setor privado, governos nacionais e sociedades civis para integrar a população pobre à cadeia produtiva, como consumidora, empregada ou produtora. A proposta é reverter números como os que indicam que pelo menos uma entre três pessoas no mundo sobrevive com menos de dois dólares por dia.
“O objetivo do relatório é apresentar soluções para as populações que tradicionalmente ficam à margem do processo de desenvolvimento”, afirma Cláudio Boechat, professor da Fundação Dom Cabral (FDC). Boechat foi o responsável pela elaboração dos três casos brasileiros, produzidos em co-autoria com Roberta Paro, Nísia Werneck e Letícia Miraglia, pesquisadores do Núcleo de Sustentabilidade e Responsabilidade Corporativa, da FDC. Ele conta que as iniciativas brasileiras, mesmo possuindo características próprias, representam situações típicas no país. São elas:
- Natura – em 2000, a empresa lançou a estratégia de utilizar materiais naturais da flora brasileira como plataforma para seus produtos. Para dar escala à produção local e garantir extração sustentável, a empresa construiu um novo modelo de negócios, envolvendo pequenas comunidades, organizações da sociedade civil e governos locais. Todos os parceiros envolvidos na cadeia produtiva recebem lucros que variam entre 15% e 30% do investimento. Leia o caso completo, em inglês.
- Sadia – o Programa para Produção de Carne Suína Sustentável foi desenvolvido para reduzir as emissões de gás metano. Os mais de 3,5 mil produtores da cadeia produtiva da empresa receberam orientação para que a mudança esteja de acordo com o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kyoto. A diminuição ainda pode render a venda de créditos de carbono. Leia o caso completo, em inglês.
- Votorantim Celulose e Papel (VCP) – a companhia iniciou um programa de expansão de áreas florestais no Rio Grande do Sul baseado em um modelo de negócios que inclui as comunidades locais como parceiros na produção de eucaliptos. A empresa também estabeleceu parceria com o banco ABN AMRO Real para facilitar a obtenção de crédito por fazendeiros locais. Leia o caso completo, em inglês.
Segundo Boechat, o desenvolvimento de processos e ferramentas que lidam com a inclusão no campo, com a exploração racional da floresta amazônica ou com a criação de alternativas energéticas atende às expectativas internacionais em relação ao Brasil, normalmente relacionadas ao potencial agrícola e ambiental do país. “Nós não conseguimos emplacar uma tecnologia de solução de problemas sociais urbanos”, afirma. “Temos centenas de iniciativas neste sentido, mas nenhuma que se destaca como o microcrédito em Bangladesh, a capacitação de indianos para a produção de software ou a dos chineses para a produção industrial”.
Condições ideais
Muito do trabalho no desenvolvimento de negócios inclusivos é realizado por grandes corporações, como os três exemplos brasileiros. O relatório, porém, também apresenta o trabalho de pequenas e médias empresas, que podem inserir populações pobres no mercado global por meio de cadeias produtivas inclusivas ou fair trade. “A força local de uma pequena empresa também pode ser encarada como um diferencial competitivo e trabalhar para a inclusão”, aponta Boechat.
Além disso, a criação de projetos integrados entre governo, sociedades e empresas também é fundamental para o aparecimento de mercados com novas prerrogativas. Os governos podem desenvolver políticas tributárias que estimulem ações desta natureza. As organizações sem fins lucrativos, provedoras de serviços públicos e instituições de microcrédito, que já trabalham com populações pobres, devem desenvolver tecnologias sociais.

