Secretária geral da CIVICUS discute sociedade civil mundial
7/8/2008 – A secretária geral da CIVICUS: Aliança Mundial para a Participação Cidadã, Ingrid Srinath, fala em entrevista exclusiva ao Portal do Investimento Social sobre a importância do fortalecimento da sociedade civil internacional. A ativista indiana defende que os investidores sociais foquem esforços na defesa de direitos civis como garantia de transformação social de longo prazo.
Ingrid assumiu a Secretaria Geral da CIVICUS em maio de 2008, após passar quase uma década na direção da Child Rights and You (CRY), uma organização sem fins lucrativos com base na Índia que trabalha para restabelecer e guardar os direitos das crianças. À frente da CIVICUS, a indiana prevê os desafios de adaptar a atuação da organização às necessidades de seus múltiplos stakeholders, ganhar capilaridade mundial e aumentar a atenção mundial em relação à diminuição de legislações restritivas de liberdades.
A dirigente do CIVICUS esteve no Brasil durante o 5º Congresso Gife de Investimento Social e identificou a força da tradição corporativa do investimento social brasileiro. Ingrid alerta que a característica pode significar perigo ao papel da sociedade civil como guardiã de seus direitos. Leia os melhores momentos da entrevista.
IDIS – Por que modificar a forma de atuação da CRY, que passou de uma fundação de distribuidora de recursos para uma instituição de advocacy?
Ingrid Srinath – Na medida em que evoluiu, a CRY percebeu que a mudança sustentável apenas pode ser alcançada pelo confronto das causas mais profundas da pobreza e exclusão. Por isso, começamos a atuar cada vez mais na capacitação das comunidades para defender os direitos de suas crianças. Além disso, em um país com o tamanho e a complexidade da Índia, iniciativas privadas – sejam elas lucrativas ou não – não conseguem alcançar a escala necessária para atingir um impacto significativo e sustentável. É imperativo assegurar que o Estado cumpra as suas responsabilidades para termos resultados com a escala necessária.
IDIS - Como você avalia o papel de organizações da sociedade civil em relação ao investimento social?
Ingrid - Investidores sociais mais progressistas entendem que a filantropia que lida apenas com os sintomas da pobreza, ineqüidade e exclusão tem impacto sustentável limitado. Apesar disso, muitos investidores sociais são aprisionados em suas abordagens por suas origens, orientações políticas e fontes de recurso. Outro tipo de prisão é a avaliação de impacto. Sob a pressão de entregar eficiência, muitos investidores sociais limitam a suas intervenções aos programas onde o impacto pode ser facilmente monitorado e avaliado. Isto evita que eles apóiem iniciativas de advocacy ou influenciadoras de políticas públicas, que têm potencial de alcançar impacto sustentável em uma escala significativa.
IDIS – E a dinâmica entre doadores e executores de projetos de investimento social?
Ingrid - As dinâmicas de poder entre aqueles que oferecem recursos financeiros e aqueles que possuem conhecimento e acesso às comunidades sempre favorecem os primeiros. Investidores sociais que procuram realizar transformação efetiva devem construir capacitação local para assegurar diretos e utilizar seu acesso aos corredores de poder para advogar em prol de políticas centradas em pessoas e para ampliar as vozes dos mais silenciados em nossas sociedades.
IDIS - Qual é o papel de uma organização como a CIVICUS?
Ingrid - Desde que assumi este novo papel, a declaração que mais escutei foi que o papel da CIVICUS é mais crítico e importante hoje do que jamais foi. De fato, recentemente alguém me disse: “Se a CIVICUS não existisse, nós teríamos que inventá-la”. As razões para esta crença são duas. Primeiro, as ameaças à sociedade civil, especialmente nesta onda chamada “Guerra ao terror”, nunca foram maiores. Apenas em 2007, a CIVICUS apontou 85 países que aprovaram legislações restritivas às liberdades civis. Segundo, agora está se tornando evidente que até os assuntos locais são afetados por causas globais - como mudança climática, a crise de alimentos, a crise energética, o comércio global e governança global – e exigem um engajamento mundial.
IDIS – Neste sentido, quais são os principais desafios da organização?
Ingrid - Para uma organização relativamente nova e ainda pequena, a CIVICUS atingiu alcance, consciência e credibilidade respeitáveis. Isto é devido, sem favorecimento, ao meu predecessor como Secretário Geral, Kumi Naidoo, e a equipe que desenvolveram uma plataforma de atuação da sociedade civil nos principais fóruns e instituições globais. Os desafios, porém, estão relacionados a descobrir as necessidades e expectativas crescentes dos seus muitos stakeholders [a organização é formada por organizações e indivíduos de mais de 100 países] sem perder foco. A CIVICUS também precisa elevar o número de participantes globais para se tornar realmente representativo de todas as regiões, setores e temas. Finalmente, a organização precisa construir sistemas e recursos humanos para alcançar viabilidade de longo prazo.
IDIS - Como você analisa a sociedade civil brasileira? E os investidores sociais?
Ingrid - Embora eu não possa alegar conhecimento real ou familiaridade com as vibrantes tradições da sociedade civil brasileira, me parece que há carências nos níveis de proteção aos direitos humanos. O domínio do setor corporativo em investimento social impõe dificuldades para os trabalhos direcionados a causas profundas e limita a sociedade civil de assumir seu papel de cão de guarda do Estado e das forças de mercado.
IDIS - Os leitores do IDIS são investidores sociais. Qual mensagem você deixa a eles?
Ingrid - Em minha experiência na Índia e agora pelo mundo, eu aprendi que o melhor seguro de estabilidade, segurança, democracia e prosperidade é uma sociedade civil saudável e diversificada. Eu apelo aos investidores sociais brasileiros a focar seus esforços na garantia de que a sociedade civil local tenha todas as proteções a que tem direito. Países como o Brasil e a Índia têm a oportunidade para usar o seu status e poder emergente para influenciar instituições globais e políticas para construir um mundo mais justo. Investidores sociais no Brasil (como na Índia) podem aumentar seus recursos – econômicos, sociais e políticos – para fazer uma contribuição valiosa nesta direção.

