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Seminário Velho Amigo discute o cenário do idoso no Brasil e papel da sociedade civil

20/06/2006 - De acordo com o censo do IBGE de 2000, o Brasil tem 14,5 milhões de idosos, o que representa 9,1% da população. Em 1940, o percentual de brasileiros com mais de 60 anos era de 4,1%. Até 2020, estima-se que a taxa nacional suba para 12%. No mundo todo, serão cerca de dois bilhões de senhores e senhoras até 2050, 80% deles vivendo em países em desenvolvimento.


Especialistas discutem cenário do idoso no 
Brasil Os dados revelam, conforme apontou a Dra. Maria Lúcia Lebrão, coordenadora do Projeto SABE - Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (que estuda as condições de vida e de saúde dos idosos do município de São Paulo), que a população brasileira está ficando “grisalha”.

Durante o Seminário Velho Amigo, realizado no dia 16 de junho de 2006, no Hotel Intercontinental, em São Paulo, ela explicou que, nos últimos 65 anos, houve um acelerado processo de transição demográfica. O Brasil passou de um cenário de altas taxas de natalidade e mortalidade para baixas taxas de fecundidade e de mortalidade. Em média, cada mulher tinha 6,2 filhos em 1940; em 2000, o número foi para 2,3 filhos/mulher. A expectativa de vida também foi alterada significativamente: de 38,5 anos para 69,0 anos, no período. O mesmo movimento na Europa, segundo a especialista, durou cerca de 300 anos.

Essas mudanças já estão repercutindo e certamente vão cada vez mais ecoar nas políticas públicas de diversas áreas: saúde, trabalho, habitação, assistência etc. Para discutir a questão e o papel da sociedade civil nesse processo, o Seminário Velho Amigo reuniu também Eduardo Giannetti, cientista social e economista, Yeda Aparecida de Oliveira Duarte, professora do Departamento de Enfermagem Médico-cirúrgica da USP, e Mauricio Wajngarten, professor da Faculdade de Medicina da USP. A partir do levantamento de dados sobre os idosos no Brasil, o IDIS vai auxiliar o Projeto Velho Amigo a reestruturar suas ações, de forma a ampliar seu impacto.

“Muitas vezes achamos que a exclusão social começa pela criança, mas somos uma sociedade que conseguiu - com o seu grau de desagregação - fazer isso também com o velho. O problema tende a se agravar por causa da maior participação desse grupo etário na sociedade e por ser uma parcela da população que entra numa fase de consumo de serviços (particularmente serviços de saúde) maior do que as outras faixas etárias. A questão do idoso deve ser tratada como uma causa social, o que vai além do assistencialismo. Deve ser interpretada também como um processo natural, de uma sociedade que tende a acumular uma população mais idosa, como simples resultado de suas ações de desenvolvimento”, afirmou Marcos Kisil, presidente do IDIS.


A cara da velhice

De acordo com os especialistas, a velhice é feminina e pobre. Conforme apontou Maria Lúcia Lebrão, 6% dos idosos vivem com apenas um salário mínimo e 56,7% deles com até três salários mínimos. 33% sequer fazem três refeições por dia. “Os países desenvolvidos, primeiro ficaram ricos e depois, velhos. Os nossos estão ficando velhos antes de serem ricos”, resumiu.

Chama atenção também o fato de que, no ano de 2000, para cada 100 homens brasileiros entre 60 e 74 anos, havia 133 mulheres na mesma faixa etária. Mas se as mulheres têm uma sobrevida maior do que a os homens, esse período “a mais” é marcado por dificuldades, pois elas apresentam maior nível de vulnerabilidade social. Sua renda é menor do que a masculina e elas se casam pela segunda vez com menos freqüência. Assim, acabam vivendo sós, o que aumenta a chance de precisarem de cuidados que não serão atendidos.


Dever de quem?

De fato, Yeda Duarte levantou uma preocupação muito grande sobre quem vai cuidar dos idosos daqui para frente. Ela disse que, até agora, quem cuidou do velho foi a família (sobretudo filhos e netos). Entretanto, com a diminuição do número de crianças por casal e, com as mudanças nos arranjos familiares, não se sabe quem serão os futuros cuidadores dessas pessoas. Por outro lado, com o aumento da expectativa de vida, o número de idosos que vai precisar de ajuda em suas atividades diárias (como comer, tomar banho, ir ao banheiro ou se vestir) tende a crescer.  Hoje, apenas 1% dos idosos brasileiros é institucionalizado. E em nação alguma, a taxa ultrapassa os 10%.

Os números do Projeto SABE mostram que, felizmente, no município de São Paulo, a maioria dos idosos (80,7%), não apresenta limitações funcionais que impeçam seu auto-cuidado. No entanto, 200 mil pessoas (19,2%) dizem ter dificuldades nas atividades diárias e nem sempre receber ajuda. 70,5% afirmam que têm ajuda para comer, 65,6% para tomar banho, mas apenas 25,6% com a mobilidade, por exemplo. É interessante notar que os idosos que se dizem mais ajudados são os que vivem com não-familiares, sejam com outros idosos, cuidadores ou outras pessoas.

 “Há um hiato entre o que o idoso precisa e o que ele recebe”, afirmou Yeda Duarte. Por isso, o desafio é criar um modelo de saúde e de assistência, que centre a atenção no idoso e em seu cuidado integral; não na doença, como foi feito até agora. O ideal, na avaliação dela, é que o modelo permita às pessoas cuidarem de si mesmas. E quando isso não for possível, que os serviços necessários sejam disponibilizados. O atendimento deve ser feito por uma equipe multidisciplinar e o cuidado domiciliar prescrito em função da limitação do idoso, tendo em vista a autonomia e a qualidade de vida.

Nesse sentido, o professor Mauricio Wajngarten destacou que é papel de toda a sociedade, de todo cidadão, e não apenas do geriatra, preocupar-se com a questão do idoso. Ele lembrou que, no Brasil, existem apenas 0,037 geriatras/1000 habitantes com mais de 59 anos. A Organização Mundial da Saúde recomenda que haja , pelo menos, 1geriatra/1000 idosos. Como o número de geriatras é muito pequeno - e essa é uma característica mundial -, ele acredita que o papel desse profissional é educar, treinar outros médicos, pesquisar, criar modelos e ter liderança na discussão do idoso.

Diante da possibilidade de se viver 80, 90 anos, Eduardo Giannetti acrescentou que é preciso repensar como lidar com as incertezas do futuro e entender que a responsabilidade pela qualidade de vida na terceira idade é do próprio jovem que um dia esse idoso foi. Ele explicou que a expansão do ciclo de vida requer repensar valores, afetos, valores espirituais na juventude. Caso contrário, o idoso terá uma velhice amarga. Saber guardar uma poupança para a idade madura também é fundamental.

O Seminário Velho Amigo foi realizado pelo IDIS. Contou com o patrocínio da Citroën e do Banco Citroën, e com o apoio da Fiesp e do Hotel Intercontinental.

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