Venture philanthropy: inovação em investimento social privado
1/7/2009 - O IDIS está estudando venture philanthropy, uma nova tendência no Brasil de apoio a organizações sociais, baseado na adaptação de práticas de gestão estratégica aplicadas a investimentos sem fins lucrativos. O objetivo é alavancá-los, elevando suas taxas de retorno. A tendência tem como foco a construção de organizações sociais sólidas e não apenas o aporte de recursos.
A expressão ainda não tem tradução para o português e as primeiras iniciativas estão chegando ao país agora. Mas o venture philanthropy traz promessas de benefícios para o investidor social e para as organizações da sociedade civil (OSCs). O conceito baseia-se na dissociação entre filantropia e assistência social e na adaptação de estratégias de gestão corporativa para o setor social. Ocorre por meio da aplicação de princípios do venture capital, com investimentos de longo prazo, monitoramento e suporte proativo para maximização do retorno. O investimento social se dá tanto em termos financeiros como não-financeiros – como a utilização de horas de apoio técnico, estratégico e gerencial às necessidades das organizações.
No venture philanthropy, mais do que realizar o repasse financeiro, o investidor social participa do fortalecimento da instituição financiada, tornando-a capaz de gerar elevadas taxas de retorno social e eventualmente ganhos financeiros sobre o investimento realizado. Ou seja, seu apoio torna-se mais eficiente e eficaz, além do benefício adicional de promover mais engajamento dos investidores sociais.
A economista Martha Hiromoto, que encabeçou voluntariamente este estudo do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) sobre o tema, explica que um dos diferenciais dessa forma de investimento é a possibilidade de oferecer mais robustez às organizações financiadas. Isso porque ele junta o capital doado a um “pacote de gestão”. Dependendo do tipo de investimento adotado, o impacto na organização é diferenciado: o pacote pode variar do simples aconselhamento estratégico à seleção de funcionários, podendo interferir na estrutura da instituição.
Mudança de paradigma
O novo modelo exige uma alteração na lógica do investimento social tradicional: em vez de o apoio focar-se em uma ação ou projeto de curta duração, em geral com duração de um ano, ele é direcionado para a instituição como um todo. Para ter tempo hábil de gerar mudança na estrutura organizacional, a destinação de recursos ocorre por períodos longos, geralmente com a previsão de resultados após três ou cinco anos do início do contrato. Veja as principais diferenças no quadro.
Diferenças entre o Investimento Social Privado Tradicional e o Venture Philanthropy
| Recursos | Investimento por projeto | Investimento por projeto e institucional |
| Prazo de retorno | Projetos de 1 ano | Retorno esperado varia entre 3 e 7 anos |
| Monitoramento | À distância | Direto |
| Retorno | Social | Social e eventualmente financeiro |
| Avaliação | Processo e resultado de projeto | Processo, resultado e impacto |
| Nível de Engamento | Baixo | Alto |
Fonte: IDIS
Outro importante diferencial do venture philanthrophy é o fato de sempre prever a saída do investidor. “É um investimento com hora para acabar”, afirma a economista. A organização é preparada para continuar em busca de retornos sobre os investimentos por suas próprias capacidades, e em geral com sustentabilidade. Isso não significa que a mesma instituição não possa receber um novo aporte. Pelo contrário. Após determinado prazo, é possível obter mais recursos. “Mas o novo investimento ocorrerá a partir do estabelecimento de novos indicadores e metas”, completa Martha.
Experiência nacional
No Brasil, o venture philanthropy ainda é pouco praticado. Martha Hiromoto conta que o estudo que vem sendo executado pelo IDIS encontrou, até agora, apenas um caso desse tipo de investimento. Trata-se do Fundo Ninho, da organização Nonprofit Enterprise and Self-sustainability Team (NESsT), que oferece aporte financeiro e de capacitação para a criação de atividades empresariais sociais. A experiência é aplicada em outros nove países da Europa Oriental e das Américas Central e do Sul. O objetivo é ajudar as organizações apoiadas na busca de auto-financiamento, diminuindo a dependência por doações, que, geralmente, possuem muitas restrições para o uso do dinheiro além de serem realizadas por períodos curtos.
Em solo brasileiro, a NESsT ainda está finalizando seu primeiro edital, aberto em 2008, com patrocínio do Banco Real. O processo envolve uma formação com as instituições pleiteantes, dividida em etapas, com duração de 12 meses. O processo não é eliminatório: são as próprias organizações que optam por prosseguir. Entretanto, várias saem por falta de tempo, poucos recursos humanos etc. Entre as que conseguem chegar ao fim, as duas com melhor desempenho são escolhidas para ganhar o prêmio de 10 mil dólares. A previsão é que esse primeiro edital se encerre em agosto de 2009 e que um novo seja aberto em setembro, com apoio da Ashmore Foundation.
A gerente de desenvolvimento de empresas da NESsT no Brasil, Jennifer Iverson, conta que a experiência brasileira é muito recente para se pensar em resultados. Porém, analisa que os brasileiros são muito criativos na busca por soluções. Sobre os problemas enfrentados pelas organizações nacionais, ela enfatiza que são os mesmos existentes nos outros países em que a instituição atua, ou seja, desafios comuns aos mercados emergentes.
A falta de capacidade de gestão organizacional e financeira, a ausência de planejamento estratégico a longo prazo e o não estabelecimento de metas concretas são os maiores obstáculos para o sucesso das OSCs, segundo a gerente da NESsT. Ela avalia que o fato dessas organizações contarem com financiamentos de curto período – a maioria de apenas um ano – gera dificuldades em pensar no futuro. Por isso, Jennifer aposta que o venture philanthropy possa render bons frutos.



