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Perfil: Joaquim Melo, um empreendedor social que atua na luta pelo desenvolvimento comunitário

03/11/2011 – O ex-seminarista transformou a vida dos moradores do Conjunto Palmeiras, na periferia de Fortaleza, com a criação do Banco Palmas, instituição que alavancou o crescimento econômico da comunidade.

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Com muita fé no poder transformador da comunidade, o ex-seminarista Joaquim Melo construiu o primeiro Banco Comunitário do Brasil. A tecnologia social criada por ele, juntamente com a comunidade do Conjunto Palmeiras, se disseminou e hoje já está presente em vários pontos do território brasileiro por meio de 67 instituições semelhantes. O modelo agora está sendo multiplicado para a implantação de programas de geração de trabalho e renda, utilizando o sistema de economia solidária.

A história teve início no final da década de 70, quando o então seminarista Joaquim Melo começou a se engajar nos movimentos políticos. Nessa época, em Belém, começou a estudar a Teologia da Libertação com Leonardo Boff e João Batista Libânio, seus tutores. Foi nesse momento que começou a se envolver com as comunidades de base da Igreja Católica. Em 1980, em Fortaleza, o cardeal dom Aloísio Lorscheider estava começando um projeto chamado “Padres na favela”. Quando soube dessa experiência, Joaquim entrou nesse projeto.

Em janeiro de 1984, Joaquim foi para Fortaleza fazer trabalhos comunitários em um lixão. “Morei durante oito meses com os catadores de lixo. Não deve ter situação mais difícil para o ser humano que morar no lixão. Foi lá que eu radicalizei a minha opção. Queria trabalhar com os pobres e dedicar a minha vida à militância social.”

Na mesma época, conheceu o Conjunto Palmeiras, que era uma grande favela. A maioria dos moradores de lá trabalhava no lixão. Em outubro de 1984, Joaquim se mudou para o conjunto para realizar um trabalho com os moradores e criar a Associação dos Moradores do Conjunto Palmeiras (Asmoconp). Organizou mutirões comunitários para trazer água e energia elétrica. Aos poucos, conseguiram melhorias para o bairro. Além disso, Joaquim fazia todos os trabalhos de padre, como casamentos e batizados, com a autorização do bispo.

Em 1988, terminou os estudos de teologia. Estava tão comprometido com a associação, com os mutirões e com o bairro que acabou não se ordenando padre. Construiu sua vida no Conjunto Palmeiras. Dois anos depois, se casou com uma pessoa da comunidade e continuou sua história no bairro, com as lutas e reivindicações.

Nascimento do Banco Palmas
Em 1997, depois que o conjunto se organizou, as pessoas começaram a ir embora porque não tinham dinheiro para pagar as contas de água, luz e IPTU. Em janeiro desse mesmo ano, em uma reunião na associação, Joaquim e outros moradores começaram a se questionar: “Por que somos pobres?” A resposta era: “somos pobres porque não temos dinheiro”. Era tão óbvia a resposta, que não poderia ser verdade. Então, fizeram a primeira pesquisa que é utilizada até hoje, o “Mapa da produção e do consumo local”.   No final dessa pesquisa, eles perceberam que a comunidade gastava R$ 1,2 milhão em compras mensais. Na época, 25 mil pessoas moravam no conjunto.

Fizeram uma assembleia e mostraram esse número para a população. Perceberam que 80% do que consumiam vinha de fora do bairro. A partir daí, tinham a resposta certa: “Nós não somos pobres porque não temos dinheiro, somos pobres porque perdemos o dinheiro que temos, todo o nosso dinheiro vai embora para fora do bairro.”

Em janeiro de 1998, foi criado o Banco Palmas. “Conseguimos R$ 2 mil emprestados. Naquela época, não se falava de microcrédito, nem de economia solidária, abrimos o banco apenas com esse dinheiro. Na primeira noite fizemos cinco empréstimos e acabou todo o dinheiro do banco. Costumo brincar que o banco quebrou no dia que abriu. Mas as pessoas pagaram e parceiros nacionais e internacionais foram surgindo.”

Em 2003 o Banco Palmas deixou de ser apenas um banco e se transformou no Instituto Banco Palmas, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Nesse mesmo ano, conseguiram o primeiro convênio com o governo federal por meio da Secretaria Nacional de Economia Solidária para criar outros bancos comunitários no Brasil. Foi um ano de grandes mudanças, firmaram uma parceria com o Banco do Brasil para microcrédito e se tornaram correspondes bancários da própria instituição.

Multiplicação dos bancos
Com a visibilidade, a experiência começou a se disseminar no Brasil. Hoje, existem 67 bancos comunitários no País. Em 2006, criou-se a Rede Brasileira de Bancos Comunitários, que integra todos os bancos. Apesar de não serem filais, para integrar a rede o banco precisa passar por um rigoroso processo de formação e ganhar um selo de certificação.

Cada banco comunitário tem a sua moeda social local circulante. No caso do Banco Palmas, o nome da moeda é palmas. Cada palma equivale a R$ 1. Nenhum comerciante é obrigado a aceitar, mas cerca de 240 estabelecimentos aceitam a moeda local no Conjunto Palmeiras. A circulação é restrita. 

O objetivo da moeda é estimular o consumo local. O morador tem acesso à moeda fazendo um empréstimo em palmas, que não tem juros (em reais existe a taxa de juros). Ele também pode trocar reais por palmas no próprio banco, para consumir com descontos de 5 a 10% nos estabelecimentos credenciados. Outra forma é receber parte do salário em palmas.
 
O “Mapa da produção e do consumo local” é atualizado a cada dois anos. Em 2011, a pesquisa mostrou que 93% dos recursos da comunidade é consumido no próprio bairro. Há 13 anos, esse índice era de 20%. “Esse é o grande objetivo”, afirma Melo. “Há também o lado pedagógico, de valorizar o que é produzido aqui, não só produto, mas arte e cultura. Aprender a gostar do seu espaço, do seu território, isso é importante.”

Atualmente, o Banco Palmas tem R$ 3 milhões em sua rede produtiva. Já emprestou cerca de R$ 2 milhões para 3.800 pessoas (dados do mês de junho).  São três tipos de microcrédito. O individual pode ser solicitado por qualquer pessoa da população. A modalidade grupo solidário que é usada quando 2 a 5 pessoas fazem o empréstimo juntas e um é fiador do outro. Já o empréstimo para compras conjuntas reúne profissionais de uma mesma área para comprar matéria-prima, nesse caso, não é dado o dinheiro em mãos. É feita a compra na loja e o banco paga diretamente ao fornecedor e os juros são bem mais baixos.

Transformação
Em 2010, foi realizada uma pesquisa pela Universidade Federal do Ceará (UFCE) de avaliação e impacto gerado pelo Banco Palmas. O levantamento mostrou que 90% dos entrevistados melhoraram sua condição de vida, 25% conseguiram um emprego e 23% montaram um pequeno negócio. O comércio local aumentou em 80% suas vendas. Foram gerados 2,2 mil postos de trabalho e criadas seis empresas comunitárias.

Joaquim comemora todas as conquistas da comunidade. “O Conjunto Palmeiras deixou de ser visto como um local dos perigosos, dos marginais. Hoje é um bairro visitado internacionalmente, por governos, por universidades e por pessoas que querem aprender como desenvolver essa tecnologia social. Temos muito orgulho disso, essa tecnologia dos bancos comunitários não foi criada em Harvard, nem na Fundação Getúlio Vargas ou em outro centro de excelência. Foi criada pelos moradores, na favela, nos grotões do Nordeste. São os pobres, estudando juntos a solução dos seus problemas, que pensaram nesse mecanismo.”

Em dezembro, será lançado o Centro Palmas de Referência, escola para criar multiplicadores na metodologia de bancos comunitários, iniciativa apoiada pela Fundação Banco do Brasil. “Nossa meta para 2014 é criar pelo menos mil bancos comunitários. O papel do Banco Palmas, hoje, não é só abrir novos bancos, como criar multiplicadores.”

(Fotos: Arquivo Pessoal - Joaquim Melo)

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