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“Somos uma espécie de laboratório onde se geram novos conhecimentos que sempre estarão disponíveis para os interessados em reproduzi-los”, diz especialista venezuelana

24/10/2007 - A psicóloga venezuelana Alicia Pimentel, gerente de projetos da Fundación Empresas Polar, não hesita em afirmar que o investimento social privado não deve ser desvinculado das políticas públicas. No entanto, em épocas de instabilidade política e econômica, Pimentel diz acreditar que o planejamento estratégico de longo prazo é imprescindível para a sustentabilidade das ações de investimento social. Durante entrevista exclusiva concedida ao Portal IDIS, Pimentel analisa o investimento social na Venezuela de hoje. A seguir, leia os principais trechos da entrevista concedida durante o Fórum de Lideranças – O Futuro do Investimento Social Privado na América Latina, realizado pelo IDIS em parceria com a CAF, em setembro deste ano:

“Somos uma espécie de laboratório onde se geram novos conhecimentos que sempre estarão disponíveis para os interessados em reproduzi-los”, diz especialista venezuelana

Pimentel: "sempre há espaços para o investimento social privado"

IDIS – O modelo de governo proposto por Hugo Chávez se baseia, entre outras coisas, na idéia de que tanto as corporações como os ricos deveriam pagar impostos e que ao governo caberia a responsabilidade de prover os serviços de governo. Como a senhora analisa esse modelo de governo? Há espaço para as empresas investirem no social?

Alicia Pimentel – Várias leis foram sancionadas na Venezuela nos últimos dois anos. Quando elas não foram criadas exclusivamente com esse objetivo, elas vieram para vigiar ou regular a atuação das empresas com relação aos investimentos que elas devem realizar em diversos âmbitos da vida nacional, tanto por meio de pagamento de impostos, quanto através da implementação de políticas diversas que permitem adaptar parte de suas estruturas funcionais e operativas em determinadas áreas, como o desenvolvimento da ciência (Ley Orgánica de Ciencia, Tecnología e Innovación – LOCTI), a inserção no mercado de trabalho de pessoas com deficiência (Ley para Personas con Discapacidad), a prevenção do consumo de drogas ilícitas, bebidas alcoólicas, tabaco e similares (Ley Orgánica Contra el Tráfico Ilícito y el Consumo de Sustancias Estupefacientes y Psicotrópicas), o cuidado com o meio ambiente e com as condições de trabalho (Ley Orgánica de Prevención, Condiciones y Medio Ambiente de Trabajo), dentre outras. Essas leis podem ser vistas por dois ângulos. Por um lado, pode-se ver essas medidas como uma maneira do governo fiscalizar e regularizar os investimentos que empresas como a nossa vêm fazendo desde sua criação como parte de sua política de responsabilidade social empresarial. Por outro lado, as medidas podem ser vistas como um conjunto de leis que obrigam empresas venezuelanas que nunca ou pouco fizeram em relação à responsabilidade social a cumprir com o estabelecido pela lei para assegurar que elas financiem ações para o desenvolvimento mais eqüitativo e justo de todos os venezuelanos.
No nosso caso, o que nos resta é seguir fortalecendo o compromisso das Empresas Polar com a Venezuela, participando efetivamente na construção de um futuro melhor e reafirmando a nossa vontade de contribuir para o bem-estar coletivo ao país. Vemos nossa ação muito mais do que o cumprimento dessas leis, mas, acima de tudo, como iniciativas sustentáveis e inovadoras nas nossas três áreas de atuação social: desenvolvimento comunitário, educação e saúde.
 
IDIS – Qual o papel do investimento social privado na Venezuela de hoje?

Pimentel – As empresas privadas, tanto na Venezuela como em qualquer lugar do mundo, não podem por si só promover ações que impactem o desenvolvimento social, a menos que contem com o trabalho conjunto de governos e de sociedade civil. Só assim são geradas verdadeiras e promissoras alianças entre os três setores, que possibilitam a construção de redes de cooperação que envolvem esses três atores e que tragam soluções de fato para os problemas sociais, econômicos e ambientais existentes hoje em dia, tanto em nossos país, como no planeta como um todo. É por isso que desde a criação da Fundación Empresas Polar, focamos boa parte de nossos esforços no trabalho para cristalizar alianças entre os três setores, com o governo, a sociedade civil e as empresas privadas, tendo cada uma das partes sua responsabilidade. O governo, promovendo incentivos, promovendo a adoção de práticas socialmente responsáveis, implementando leis, mas, sobretudo, costurando e articulando ações que permitam gerar soluções aos problemas comuns. A sociedade civil participando na melhora das condições sociais e ambientais, trabalhando lado a lado com governos e empresas privadas para promover a adoção de boas práticas. E as empresas privadas, incorporando a sua estratégia de respeito por valores éticos pelos funcionários, pelo meio ambiente, pela comunidade, por seus consumidores e fornecedores, através de ações resultantes de um diálogo transparente com esses grupos de interesse.

IDIS – Existe algum tipo de intercâmbio de informação e de conhecimento entre os programas de investimento social da Fundación Empresas Polar com os programas sociais do governo e com a sociedade civil em geral?

Pimentel - Claro que sim. Como acabei de comentar, na Fundación Empresas Polar trabalhamos, na medida do possível, tanto com os governos central, regionais e locais, quanto com a sociedade civil. Sempre deixamos claro que nossos programas e projetos devem complementar o trabalho da sociedade civil e dos governos, sem competir com o objetivo desses, nem duplicá-los ou substituí-los. Por isso, temos sido obrigados a definir claramente nosso foco e nossas responsabilidades, o que nos tem permitido otimizar recursos, evitar possíveis mal entendidos e futuros problemas. Mas além do debate sobre iniciativas empresariais concretas, a questão-chave é como cada um dos atores pode contribuir para alcançarmos objetivos comuns, sem invadir nem ocupar espaços alheios. Desde nossa criação temos colocado nossos conhecimentos e os resultados de nossas investigações a serviço de todos, sejam os governos que têm se sucedendo ou as organizações da sociedade civil que os tenham requisitado.
Um exemplo é o programa Agricultura Tropical Sustentavel, orientado a capacitação e a investigação de técnicas agrícolas de produção sustentável do ambiente com independência de insumos externos e dos níveis de produtividade para pequenos e médios produtores, no qual recebemos semanalmente pessoas dos ministérios relacionados, assim como as distintas missões designadas pelo governo atual e pelas associações de produtores procedentes das diversas regiões do país.

IDIS – A senhora acha que o problema do desemprego na Venezuela, que muitos crêem que está na raiz dos problemas sociais, pode ser minimizado com programas de investimento social privado? Como?

Pimentel - Não acredito que o desemprego seja a raiz dos problemas pelos quais a Venezuela atravessa nesse momento. As causas são múltiplas.  Um problema como a pobreza, quiçá um dos mais complexos que temos a enfrentar, é absolutamente causado por uma série de fatores. E  o elemento do emprego ou ingresso no mercado de trabalho é somente um dos fatores que influenciam a pobreza. De qualquer maneira, nós acreditamos que é fundamental trabalhar em parceria com organizações de base e em sintonia com a política de desenvolvimento endógeno do atual governo. Fazemos isso sobretudo com aquelas comunidades que têm carências especificas, mas que também contam com ativos humanos, com os quais, com o devido apoio, têm a possibilidade de se tornarem mais produtivas, realizando trabalhos que sempre souberam fazer, mas que não puderam desenvolver por falta de capital, de infra-estrutura ou de capacitação. Sempre fomentamos e apoiamos grupos humanos com carências por meio do desenvolvimento de empreendimentos adotados a suas realidades sociais, culturais e econômicas para superar suas necessidades e fomentar iniciativas que gerem valor. Assim, podemos construir com eles um tecido social saudável, assim como favorecer o acesso ao conhecimento desses grupos, a fim de melhorar seu desempenho técnico e, com isso, influenciar em seu entorno para alcançar mudanças qualitativas em suas condições de vida. Esse âmbito de convergência tem se tornado uma oportunidade para fortalecer esses atores por meio da aprendizagem, do intercambio e de ações conjuntas. Como exemplos temos os projetos de Agricultura Tropical Sustentável e Processamento Artesanal de Bambu, ambos no estado de Yaracuy, Fogões de Lenha Melhorados, hortas escolares ecológicas e espaços domésticos produtivos, no estado de Sucre, o Projeto Vetiver, em onze estados do país, e o projeto Artesanato do Cacau Chocolates A Flor de Birongo, no estado de Miranda.

IDIS – Como evoluiu o investimento social privado na Venezuela nos últimos anos? Quais são os exemplos específicos da Fundación Empresas Polar que ilustram essa evolução?


Pimentel – Como no resto do mundo, na Venezuela a prática da Responsabilidade Social Empresarial tem mudado nas últimas décadas. De um enfoque que poderíamos considerar mais filantrópico, as empresas têm focado suas ações alinhadas às estratégias empresarias. No nosso caso, contamos hoje em dia com um portfólio de projetos que vão desde os mais filantrópicos, através de nossa área de saúde, com doações pontuais tanto a pessoas como a instituições, até iniciativas muito mais alinhadas as próprias necessidades das Empresas Polar, tendo sempre como norte o impacto social profundo e continuado.

IDIS – A senhora acha que é mais fácil fazer investimento social em uma Venezuela de esquerda ou em uma Venezuela governada pela direita? Por quê?

Pimentel - O copo sempre está metade vazio ou metade cheio, depende de como você o olha. Preferimos sempre vê-lo metade cheio, encontrando espaços para a colaboração com o Estado e com as organizações da sociedade civil. Independentemente de termos mais ou menos pontos em comum com o governo e com as organizações da sociedade civil em um determinado momento, temos um mesmo objetivo pelo qual devemos trabalhar, que é a Venezuela. Dou-te um exemplo relacionado a essas novas leis as quais me referi em uma das perguntas. Em relação à Lei de Pessoas com Deficiências, a qual ampara todas as pessoas com deficiência e que vale para todos os órgãos públicos e privados, nacionais e internacionais, que realizam atividades no território venezuelano, e que tem como objetivo regular os meios e mecanismos que garantem o desenvolvimento integral das pessoas com deficiência de uma maneira plena e autônoma. Nas Empresas Polar, temos realizados reuniões de trabalho com a equipe do Programa Nacional de Atenção à Saude para as Pessoas com Deficiência, do Ministério do Poder Popular para a Saúde, a fim de preparar a organização para a inclusão de pessoas com deficiência.Criamos nas Empresas Polar um comitê denominado “Sem Barreiras”, composto por pessoas das áreas de Recursos Humanos, de voluntariado corporativo, do departamento Jurídico e de Comunicações, a fim de desenhar e de implementar um programa estruturado de atenção a pessoas com deficiência que torne possível a inclusão social das mesmas, de acordo com a porcentagem estabelecida pela lei. Para isso, construímos alianças trisetoriais para otimizar benefícios potenciais de desenvolvimento a longo prazo, promovendo a responsabilidade compartilhada entre os diferentes setores da sociedade, complementando as habilidades e os recursos, apoiando aquelas áreas em que se tem um maior conhecimento e experiência, e progredindo em direção a um objetivo comum, o desenvolvimento sustentável.

IDIS – Em momentos de instabilidade política e/ou econômica, como a Fundación Empresas Polar tem mantido seus programas de investimento social?

Pimentel – Do mesmo jeito que começamos, há 30 anos, escutando sempre nossos beneficiários e nos adaptando ao dia-a-dia do país para poder dar respostas às necessidades reais e àquelas sentidas pela população. Assim, evoluímos com nossa realidade, entendemos as mudanças para nos adaptarmos a elas e para poder entender essas transformações e para atuar em sua conseqüência.

IDIS – Como elaborar programas de investimento social sustentáveis, que possam superar momentos instáveis sem prejudicar os beneficiários dos projetos?

Pimentel – Independentemente da conjuntura, os últimos que devem ser afetados negativamente são os beneficiários. Nós temos um compromisso com eles. E parte do que nos faz mantermos em uma realidade de tantas mudanças é justamente saber antecipá-las. Quando o estado normal da realidade é a crise, devemos ter flexibilidade suficiente para não ficarmos atrás. Em um momento em que se fala em novas formas de poder e de organização dos cidadãos, devemos fazer um esforço para entender o que se passa para poder responder às expectativas e às necessidades de nossos diversos grupos de interesse.

IDIS – Quais são suas perspectivas para o futuro do investimento social na Venezuela em curto e médio prazos?

Pimentel – Seguiremos trabalhando para criar valor social para a Venezuela e para os venezuelanos, em parceria com o governo, com as organizações da sociedade civil e com as
comunidades, entendendo que é por meio do trabalho conjunto que as comunidades encontram maior estabilidade social e inclusão, soluções novas a seus problemas, além de adquirirem, via parceria, ferramentas e capacidades gerenciais.
Quando empresa privada e organizações da sociedade civil trabalham juntas, essas organizações adquirem credibilidade e reputação, manutenção das próprias redes das empresas, profissionalização, novas ferramentas e maior extensão e cobertura de alcance. A empresa também ganha em valor. Melhora seu clima organizacional, fortalece o sentimento dos funcionários de pertencer à organização, aumenta seu conhecimento da realidade e aprende novas formas de abordagem da mesma, produz novos produtos e ganha novos clientes. O governo também ganha com o esses intercâmbios que ajudarão a se construir o tecido social necessário para potencializar capacidades, gerar as transformações necessárias e avançar de forma socialmente responsável para o desenvolvimento sustentável.

IDIS – A senhora acha que o modelo de investimento social adotado na Venezuela pode vir a ser um modelo para outros países da América Latina que têm governos de esquerda?

Pimentel - Cada país tem uma realidade. Nesse sentido, acho que seria perigoso falar de copiar modelos. Tendo mais a falar de aprender as melhoras praticas, adotando-as de acordo com as características próprias de cada lugar. E até no caso das melhores práticas, justamente o que podemos aprender com esses erros, mais do que com os acertos, porque esses dependem muito mais do enfoque particular que tenha. Em nosso caso particular, temos trabalhado para sistematizar nossas experiências de tal forma a colocá-las a serviço tanto dos governos central, como dos regionais e locais, assim como das organizações da sociedade civil. Vemos-nos como uma espécie de laboratório onde se geram novos conhecimentos que sempre estarão disponíveis para os interessados em reproduzi-los.

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