Investimento social privado pode influenciar políticas públicas
02/10/2007 - A conclusão é dos participantes da mesa de discussão sobre ISP e políticas públicas que aconteceu na no fim de setembro, durante o “Fórum de Lideranças – O Futuro do Investimento Social Privado na América Latina”, promovido pelo IDIS em parceria com a CAF (Charities Aid Foundation). O grau de influência, no entanto, depende de país para país.
“A parceria com o governo tem de ser construtiva, participativa e solidária”, disse Margareth Dicker Goldenberg, coordenadora da Cátedra Unesco/Instituto Ayrton Senna de Educação e Desenvolvimento Humano. “Fazemos nosso trabalho na área de educação com o governo, não o substituindo”, completou. No entanto, Goldenberg ressaltou que apesar de 90% da atuação do Instituto Ayrton Senna ser em parceria com o poder público, o instituto não doa recursos privados para órgãos governamentais, nem é financiado por recursos públicos. “Apenas orientamos como o recurso público deve ser investido”, disse. Segundo ela, parcerias com órgãos governamentais são fundamentais para aumentar o alcance dos projetos. “A educação no Brasil precisa chegar a todos com qualidade”, afirmou. “Nosso objetivo é levar qualidade com quantidade. Assim, as soluções educacionais do instituto tornam-se políticas públicas.”
Segundo Goldenberg, a parceria com governo envolve quatro aspectos fundamentais: vontade política, compromisso ético, competência técnica e confiança. No entanto, a paceria pode ser complicada, ainda mais quando há instabilidade e falta de vontade política, como afirma a gerente geral da Fundación Empresas Polar, da Venezuela, Graciela Pantin Angeli. “O desconto de impostos nao é um estimulo que se dá para criação de uma fundação na Venezuela”, disse. Segundo Angeli, a fundacao foi criada há 30 anos para complementar o papel do Estado. “Na Venezuela o importante não são os governos, são as pessoas”, afirmou.
Angeli disse que de mais de 130 fundacoes existentes na Venezuela nos anos 1990, hoje apenas tres sobreviveram. O segredo, segundo ela, é o planejamento estratégico. “Temos de atuar sobre as estruturas e não sobre as conjunturas”, disse. “Os governos passam, o país fica.” Segundo ela, nao ha receita para trabalhar com o governo. “Mas há espaço para a recomendação”, disse. O primeiro passo, segundo ela, é a transparência e a definicao do espaço de atuação da fundacao, de acordo com a legislacao. O segundo passo é identificar os espacos-chave e os grupos mais carentes. Nesse contexto, Angeli disse acreditar que é necessário a adequacao das fundacoes às mudancas sócio-politicas.
“As necessidades sociais nunca sao unidirecionadas. A Venezuela mudou. Portanto toda aquela instituição que não mude, não sobrevive. É necessário se redesenhar constantemente para se adequar aos entornos interno e externo”, disse. Há dois anos, a Fundacion Empresas Polar passou por um processo de reestruturacao, no qual de oito áreas de acao, a fundacao focou em tres delas: desenvolvimento comunitário, educacao e saude.
A Fundacion Empresas Polar tem procurado atuar mais com governos locais e com apoiando projetos pequenos. “Nos nao nos inserimos nas politicas publicas. Nao vamos substituir o Estado, mas temos espacos de convivencia importantes”, disse. “Enquanto o presidente [Hugo Chávez] busca terminar a governacao local. Nossa fundacao, por outro lado, visa fortalece os entornos onde estao nossas empresas. Buscamos fortalecer os espacos comunitarios onde, sim, ha condicoes de dialogo”, disse.
Segundo Angeli, há duas variáveis importantes para o investimento social privado ser efetivo: espaco e tempo. “Nao importa se o espaco é pequeno. O tempo tem de ser longo. Para o trabalho social o tempo é um luxo e temos que saber desfrutá-lo. O tempo é necessário. O caminho é longo e tortuoso”, concluiu.

