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Investimento social é uma questão de parceria, afirma Buchanan

18/10/2007 - O diretor de programas internacionais do Council on Foundations, sediado em Washington, nos Estados Unidos, Rob Buchanan é categórico ao afirmar que filantropia é uma questão de parcerias. Se por um lado o investidor social entra com dinheiro, por outro a comunidade contribui com conhecimento local. Buchanan é uma autoridade no assunto. Atuou dez anos na Oxfam América e na Earth Action. Também serviu como assessor do senado americano e para a casa de representativos em políticas internacionais. Ele é co-autor do livro “Making a Difference in Africa: Advice from Experienced Grantmakers”, publicado em 2004, nos EUA. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao portal IDIS em São Paulo, durante a realização do Fórum de Lideranças – O Futuro do Investimento Social Privado na América Latina.

IDIS – O senhor acredita que podemos implementar o mesmo modelo de investimento social que se pratica nos Estados Unidos em países como o Brasil?

Rob Buchanan – Não existe um único modelo específico de investimento social nos Estados Unidos. Investimento social pode significar diferentes coisas para diferentes pessoas. Mas, em geral, o investimento social preenche o espaço entre o setor privado e o setor sem fins lucrativos. É o espaço no meio, onde os dois juntam-se de maneiras inovadoras. Eu acho que os tipos de experiências que estão acontecendo nos EUA podem, com certeza, serem transferidos para o Brasil ou para outros países. Talvez no Brasil o debate sobre investimento social não seja ainda tão abrangente como nos EUA, mas percebe-se que o debate está evoluindo por aqui.


IDIS – Mas quando falamos em modelos de investimento social, e de desenvolvimento, em geral, há o debate que nós do Sul Global devemos achar nossa própria maneira de fazer as coisas. O senhor concorda com essa afirmação?

Buchanan – Concordo, sim, absolutamente. Eu acho que nós podemos aprender com vocês do Sul Global e vocês podem também aprender conosco. É uma via de mão dupla. Queremos trabalhar com outras organizações em outros paises para apoiar o setor filantrópico ali. Entendemos que vocês sabem o que fazer, mas há maneiras de como nossa experiência nos EUA pode ser transferida pra cá como, por exemplo, na estruturação de uma fundação, no relacionamento com o governo. Uma coisa que estamos aprendendo sobre investimento social nos EUA é que a maior chance de sucesso é quando as iniciativas partem da comunidade. As ações precisam ser apropriadas ao contexto da comunidade. Isso tem de acontecer em qualquer lugar do mundo. No Brasil também. Eu não acho que investimento social terá qualquer sucesso se as iniciativas forem geradas de cima para baixo, quando o investidor tem uma idéia e investe na comunidade sem a consultá-la. É necessário que o investimento social seja moldado pelos interesses e pelas necessidades da comunidade.  IDIS – Existe uma maneira de haver maior interação entre investidores sociais nos EUA e na América Latina?


IDIS – Isso, no entanto, levanta outra questão. Como podemos identificar as necessidades da comunidade sem influenciá-la?

Buchanan – A melhor maneira é fazer parcerias com organizações de base onde as vozes da comunidade se expressam. Mas é importante ressaltar que mesmo em uma comunidade não existe apenas uma única voz. Pode haver várias vozes e desacordos em relação às necessidades e ao que deve ser feito. Escutar as lideranças comunitárias e tentar perceber quais são as diferentes vozes dentro dessa comunidade são fundamentais. É importante se envolver com toda a diversidade da comunidade, com os mais velhos, com os jovens, com as mulheres. A partir daí é que se pode começar a ter noção de qual é a realidade da comunidade.


IDIS – E como identificar as verdadeiras lideranças na comunidade? Nem sempre o que se diz líder é reconhecido pela comunidade como legítimo, não?

Buchanan – É necessário falar com o maior número de pessoas possível na comunidade perguntando a elas quem é o líder ali. As respostas obtidas podem não ser tão óbvias para você. Eles podem pensar que as lideranças não são os diretores da organização ou até mesmo os líderes eleitos. Mas pode haver alguns líderes informais. O processo de identificação das lideranças é um processo demorado. Requer muita pesquisa, muita paciência e muita sensibilidade, principalmente se você está trabalhando em uma cultura diferente da sua.


IDIS – Quem deve se encarregar desse trabalho?

Buchanan – Se há organizações que já trabalham em determinada comunidade, o melhor é trabalhar com elas para ter acesso à comunidade. Em alguns casos, as empresas podem estar localizadas em determinadas áreas e não estarem trabalhando com a população de seu entorno. Ou pode não haver ONGs trabalhando no local. Então, a empresa deve ir direto à comunidade.


IDIS – Há um movimento recente de investimento social na região da África Austral, nas jovens democracias que estão despertando economicamente. Na sua opinião, a sociedade civil africana tem noção de seus direitos e da responsabilidade social empresarial?

Buchanan – É difícil generalizar a situação na África. Um dos problemas das comunidades pobres na África é que elas tendem a ter tantas necessidades que qualquer organização ou empresa que chegue lá e ofereça providenciar alguma solução, será aceita, incondicionalmente. E isso pode, algumas vezes, representar um problema. Há sempre uma liderança tradicional na comunidade africana e é importante trabalhar com a liderança tradicional. Eu acho que há uma dinâmica de poder quando trabalhamos em sistemas onde a comunidade é muito pobre. Trabalhei muito tempo ajudando fundações americanas a identificarem comunidades na África onde elas poderiam investir no social. É difícil entender a dinâmica do poder. Uma parte tem o dinheiro e a outra não tem nada. Mas é sempre possível se aproximar da comunidade local de uma maneira em que essa dinâmica de poder seja minimizada. Eu quero dizer que é necessário deixar bem claro que o investidor social não quer impor nada, que ele quer ajudar. E, em contrapartida, é necessário ouvir a opinião da comunidade sobre quais seriam as soluções para as causas dos problemas. Tudo está relacionado à confiança. Há muita desconfiança quando dinheiro está em questão. Mas eu sempre digo que construir uma relação de confiança com a comunidade que você deseja financiar não deve estar relacionado ao dinheiro, inicialmente, mas sim relacionado à comunicação, a entender uns aos outros, a troca de idéias. Deve-se falar de dinheiro num estágio posterior. Mas é comum que corporações e indivíduos cheguem na África achando que sabem as soluções, falam para a comunidade o que eles querem financiar. Como a comunidade é muito pobre, seus membros aceitam a ajuda, mas essa ajuda pode nem sempre ser o que a comunidade realmente quer. A comunidade, no entanto, acha que é melhor ter aquilo do que não ter nada. Há muito disso na África e acho que é muito importante mudar essa dinâmica. As corporações, os doadores têm de ser mais os ouvintes e menos os dirigentes das ações.

IDIS – As sociedades africanas são complexas e diferentes, mesmo nesse mundo globalizado. Como o senhor vê o tipo de investimento social classificado como filantropia 4.0 funcionando nesse tipo de cenário?

Buchanan – Na África como em qualquer ex-colônia, o investimento social tem de ser mais colaborativo, mais sensível culturalmente do que foi no passado, mais empoderador do que desempoderador. Houve muita caridade no passado e pouca transformação. O objetivo tem de ser empoderar as comunidades para que elas controlem as soluções para seus problemas. As comunidades são pobres em recursos, mas não em idéias. Elas sabem o que é necessário fazer para solucionar seus problemas, mas não tem a condição financeira para isso. Algumas vezes lhes falta conhecimento técnico, mas elas irão te falar isso, elas irão te falar o que eles precisam. Eu não gosto de classificar o investimento social como filantropia 4.0.. A idéia por trás da filantropia 4.0 não é ruim, mas é somente uma nomenclatura que demonstra a mudança no investimento social ao longo do tempo, de um caráter mais caritativo para um mais transformador. Filantropia é, sobretudo, a criação de parcerias. Os doadores trazem os recursos e os beneficiários trazem igualmente ativos importantes para a parceria, como acesso à comunidade, ao seu conhecimento. Esses são elementos que o financiador não pode trazer para a parceria.


IDIS – A expansão da economia chinesa tem levado empresas da China a investirem em outros países, como no Sudão, em Angola, por exemplo. Como o senhor analisa o tipo de investimento social praticado pelos chineses?

Buchanan – Não sou um expert no assunto. Mas o que posso dizer é que eles são novos nisso e estão cometendo erros que já cometemos. Trazem dinheiro, usam esse dinheiro para comprar uma boa imagem, querem ter uma boa influência perante os governos. É uma aproximação política, que não é necessariamente a melhor aproximação para a comunidade.

 


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