Fundación Loma Negra
Em 2005, o IDIS apoiou o desenvolvimento do planejamento estratégico da fundação, colaborando com a definição de sua missão e visão. Em seguida, ajudou a estruturar seu Programa de Desenvolvimento Comunitário para a Juventude.
"Quando você olha para um copo metade cheio, metade vazio, tem duas formas de encará-lo: pode achar que ele está quase vazio ou pode apreciar a parcela cheia. Em geral, no trabalho filantrópico, é comum vermos instituições focando na metade vazia, que representa as deficiências de uma comunidade. A estratégia de focar na metade vazia, ou seja, no problema, tem limites reais. Os governos, em geral, focam nos problemas. Mas a sociedade civil organizada precisa olhar para a metade cheia do copo, ou seja, para as capacidades da comunidade. É a estratégia mais eficiente".
John McKnight
O chamado Diagnóstico Situacional Baseado em Ativos Comunitários é uma alternativa ao modelo de diagnóstico tradicional (focado no mapeamento dos problemas). Trata-se de uma abordagem metodológica que pretende identificar os conhecimentos e habilidades das pessoas e entidades existentes na comunidade, bem como os recursos financeiros e os materiais disponíveis, para utilizá-los de maneira mais eficiente e eficaz.
Evidentemente, isso não significa que a comunidade não possa buscar outros recursos fora da comunidade, mas permite potencializar os recursos dos quais a comunidade já dispõe. O diagnóstico baseado em ativos desenvolve um novo olhar da comunidade sobre suas próprias potencialidades, impulsionando-a a planejar e a agir coletivamente pelo desenvolvimento comunitário.
Já a abordagem focada em problemas gera:
- perda da auto-estima da comunidade e de seus cidadãos, que se vêem como deficientes e vítimas das circunstâncias;
- fragmentação de esforços, pois não se identifica a conexão necessária para chegar a soluções;
- descrição agravada do problema;
- alocação distorcida de recursos.
Em 2005, quando a Camargo Corrêa Cimentos adquiriu a Loma Negra - uma das maiores produtoras de cimento da Argentina – resolveu criar a Fundação Loma Negra (FLN), para ser o braço de investimento social da empresa. O foco da organização é a juventude como protagonista das comunidades em que a Loma Negra tem planta industrial. Mas era preciso construir um planejamento estratégico, de forma que a organização atingisse seus objetivos.
O IDIS, então, foi chamado para apoiar o desenvolvimento do planejamento estratégico da fundação, colaborando com a definição de sua missão e visão. De forma muito participativa, o processo contou com a presença dos diretores e gerentes da Camargo Corrêa e da Loma Negra, que demonstraram grande interesse pelos temas discutidos, e legítima preocupação em dar um caráter não assistencialista às atividades da Fundação.
A missão da FLN foi definida como “promover el desarrollo social en las regiones donde actuamos con foco en la juventud” e a visão como “una juventud más capacitada, comprometida e integrada en una sociedad mejor”. O grupo também concordou em assumir os valores da Camargo Corrêa: respeito às pessoas e meio ambiente; atuação responsável; transparência; foco nos resultados; qualidade e inovação.
A partir de então, deu-se início ao Programa de Desenvolvimento Comunitário da Fundação Loma Negra. Realizado de forma piloto em quatro cidades em que a empresa tem planta industrial (Olavarría, Cañuelas, Zapala e Catamarca), o programa foi composto por duas capacitações: uma voltada aos quatro comitês locais de investimento social da empresa; e outra voltada para representantes de organizações sociais locais que trabalham com juventude, do poder público e do setor privado. A primeira capacitação tinha por objetivo fazer com que os integrantes dos comitês entendessem conceitos como desenvolvimento comunitário, juventude como agente de desenvolvimento, e conhecessem o processo de ser um financiador. Já as demais capacitações, que foram realizadas em cada uma das cidades, trataram de diagnóstico baseado em ativos e elaboração de projetos.
De acordo com Célia Schlithler, coordenadora da Iniciativa de Investimento Social na Comunidade do IDIS, um dos maiores ganhos dessa capacitação foi contribuir para que a comunidade passasse a olhar para seus ativos e não apenas para seus problemas. Outro ponto importante foi promover a integração das organizações locais. “Alguns participantes nos relataram que nunca tiveram a oportunidade de se encontrar para trocar experiências sobre a juventude e sua inserção no mundo do trabalho com outras organizações”, conta. Enrique Morad, diretor de Relações Institucionais da Fundação, agrega: "essa metodologia permitiu-nos descobrir líderes e organizações que já vêm trabalhando com jovens, construir redes, potencializar idéias e esforços em prol de uma causa comum. Foi muito importante contribuir para o desenvolvimento da autoconfiança dos jovens que estão participando desses empreendimentos, para que possam continuar crescendo”.
Após as capacitações, as organizações foram estimuladas a desenhar projetos para serem financiados pela FLN, a partir de um manual de elaboração de projetos. Os projetos deviam atender a pelo menos um dos quatro eixos definidos pela fundação: inserção profissional, protagonismo e participação, educação integral, e fortalecimento institucional da organização.
Os projetos apresentados foram então analisados pelo Comitê Técnico de Análise de Projetos, do qual o IDIS fez parte, junto com a equipe da Fundação Loma Negra. Nesse momento, o IDIS ficou responsável por fazer um resumo de todas as propostas, sugerir alterações, visitar as organizações que poderiam ser financiadas e passar um resumo para a Fundação, com recomendações para o Conselho.
Célia conta que não foram apresentados projetos de cunho assistencialista. O protagonismo juvenil foi um elemento bastante presente e os projetos elaborados tinham ótima fundamentação teórica e consistência metodológica. Um projeto interessante foi o elaborado por jovens que trabalhavam lavando os vidros de carros nos faróis. Juntos, eles decidiram montar um empreendimento de lava-carros em sua comunidade, fundamentado no sistema de cooperativismo.
Participar do Programa de Desenvolvimento Comunitário da Fundação Loma Negra, na avaliação de Célia Schlithler, ajudou o IDIS a perceber como a visão de ativos é positiva, agrega e provoca mudanças significativas em qualquer comunidade. Ela considera que a diversidade de abordagens apresentadas nos projetos em relação à questão da juventude pode trazer um impacto social real. E acredita que nas cidades em que a fundação está atuando, será visível a mudança social.
Entre os desafios enfrentados, ela aponta: quebrar os estereótipos que as comunidades tinham em relação à empresa e criar um novo paradigma de empresa financiadora de projetos voltados para a juventude; apropriar-se da cultura de outro país; e ser aceito como estrangeiro, que leva uma capacitação para as comunidades – embora reconheça que a equipe IDIS foi sempre muito bem-recebida.

