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Campanhas de mobilização de recursos incentivam a doação de indivíduos

14/8/2008 – Duas das maiores campanhas brasileiras de captação de recursos para projetos sociais acontecem neste segundo semestre. Funcionando como fundos de multidoadores individuais, estas iniciativas transformam doações pequenas em grandes ações de investimento social privado.

Para Marlova Noleto, coordenadora da Área de Ciências Humanas e Sociais da UNESCO no Brasil, a caracterização das doações individuais como investimento social privado está relacionada às garantias de alocação estratégica de recursos que as campanhas oferecem e também ao fato de contribuírem para conscientizar a população e as empresas sobre a importância das doações individuais e corporativas.

Além da função de captar e distribuir recursos, as organizações responsáveis pelas iniciativas se preocupam com a gestão das verbas e qualidade dos processos. “A UNESCO  acompanha os projetos beneficiados pelo Criança Esperança por meio de relatórios técnicos e financeiros, afirma Marlova.

Desde 2004, a UNESCO participa da seleção, coordenação e acompanhamento técnico dos projetos beneficiados pela campanha. Além disso, a organização é responsável pelo repasse dos recursos aos projetos sociais e aos Espaços Criança Esperança, uma vez que eles são depositados diretamente em uma conta em seu nome.

Depois de selecionar os projetos, a UNESCO assina contratos com as várias instituições escolhidas baseados em um plano de trabalho – a estratégia vincula as organizações a prestar contas - e realiza o repasse dos recursos.

O superintendente operacional da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), Luiz Oberdan Liporoni, concorda com Marlova quanto à necessidade de capacitação das organizações para receber investimentos externos. “Nós temos uma equipe de profissionais que cuidam da nossa campanha durante todo o ano”, afirma.

Há 11 anos a AACD realiza o Teleton, uma campanha de arrecadação iniciada nos Estados Unidos cujo modelo foi exportado para vários países do mundo – só na América Latina, 12 nações realizam a iniciativa. Na década de 90, a diretoria da AACD visitou a maratona de 27 horas de programação televisiva no Chile (primeiro país na região a realizá-la) e trouxe a iniciativa para o Brasil. “O nível de arrecadação e o ganho em visibilidade nos impressionaram”, afirma Liporoni.

Além das doações individuais, o Teleton arrecada recursos por meio da venda de cotas de visibilidade para empresas e das doações batizadas como Cidade solidária e Corrente do bem. Por meio delas, cidades, escolas ou grupos de pessoas se unem para arrecadar recursos que são entregues à organização durante o programa.

O volume arrecadado é utilizado para construção de novas unidades e para a manutenção da rede de atendimento. “As unidades construídas com o Teleton correspondem a quase 60% dos nossos atendimentos”, afirma o superintendente.  Além disso, a disposição geográfica dos centros de reabilitação (espalhados por sete estados brasileiros) descentraliza os serviços prestados. “Foi um processo de ganha-ganha”, conclui.

Com 29 anos de AACD, Liporoni credita ao Teleton muito do crescimento da organização. Principalmente porque a verba é essencial para fechar o orçamento deficitário em quase 9 milhões de reais por ano das unidades criadas pelo Teleton. O vínculo revela a importância das doações feitas por indivíduos para o financiamento das organizações sem fins lucrativos. Por meio das campanhas, estas doações pequenas são transformadas em investimentos de grande volume. Daí a estratégia de manter valores baixos como opção de doação. “Doações pequenas ajudam a criar uma consciência para o investimento social”, afirma Marlova.

Geografia das campanhas de mobilização de recurso

A estratégia de campanhas para a arrecadação de recursos varia no mundo. Se no Brasil o principal canal de doação é o telefone fixo, no Chile, por exemplo, a maioria do recolhimento acontece por meio das agências bancárias. O Banco do Chile mantém agências abertas durante toda a exibição do programa para que as pessoas façam doações de madrugada.

Até as abordagens sobre a causa devem ser adequadas à identidade local. “No Brasil, as campanhas com imagens chocantes não surtem tanto efeito quanto em alguns países como os Estados Unidos”, afirma Márcia Woods, diretora de Desenvolvimento Institucional do IDIS.  

Márcia também indica uma mudança no movimento mundial de grandes campanhas. Historicamente, os países eram divididos entre doadores e receptores de recursos. Hoje, é possível perceber que muitos países emergentes já tentam lidar com seus problemas, como é o caso do Brasil. “O Brasil movimenta recursos para suas próprias causas sem receber grandes volumes de recursos de campanhas internacionais, que gradativamente estão diminuindo”, aponta.

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