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21/12/2007 - Promover o protagonismo da comunidade e, por meio dele, gerar desenvolvimento local. Esse foi o caminho adotado pela Veracel Celulose para provocar a transformação social das comunidades em que ela mantém operações.

Seguindo os objetivos expressos em sua Agenda de Sustentabilidade, a Veracel Celulose propôs, em setembro de 2006, a criação do Programa de Redes Sociais nas localidades em que atua. O programa consiste na formação de redes envolvendo pessoas e organizações dos três setores com objetivo de provocar transformações sociais nas comunidades.

As redes sociais propostas pela Veracel inserem-se em uma diretriz estratégica da empresa, que é o “diálogo social”. Segundo Lívia Sacramento, coordenadora de responsabilidade social da Veracel, essa interação é importante porque qualifica o relacionamento entre a empresa e as localidades onde atua. “Por meio do diálogo, você torna a empresa mais conhecida e o processo mais transparente. No caso das redes, criamos um canal de comunicação direto entre a Veracel e a comunidade, sem passar pelo poder público”, aponta.

O projeto piloto foi realizado em três municípios do sul da Bahia: Guaratinga, Mascote e Itagimirim. As localidades apresentavam características históricas semelhantes, com economias baseadas em culturas tradicionais, como plantio do cacau, pesca, pecuária e extrativismo. O critério determinante, porém, foi a escolha de comunidades localizadas em regiões em que a Veracel possui áreas de plantio de eucaliptos.

Novidade - Uma das principais inovações metodológicas do programa foi o processo de formação das redes nessas regiões, denominadas “Redes A”, que teve início com a decisão da Veracel de realizar um “inventário social”. Isso porque somente após a elaboração do estudo do contexto socioeconômico das cidades e de um mapa das organizações da sociedade civil e das lideranças locais seria possível criar uma rede autônoma.

Lívia Sacramento aponta que, ao contrário de uma rede autônoma, numa rede tutelada cria-se uma relação de dependência que não é interessante para as comunidades, poder público e nem mesmo para a empresa. “A experiência tutelar é um processo natural das empresas quando entram em um município. No entanto, muitas vezes, elas geram o financiamento de situações que não elevam o padrão de vida das pessoas nem promovem a construção de relacionamento. Ao promover o planejamento participativo, ao contrário, começa-se a construir um sentimento de confiança e respeito entre ambas as partes”, diz.

Outra marca do programa foi a inexistência de um foco pré-definido pela empresa para as redes. A temática, nesse projeto, era o próprio desenvolvimento das comunidades que, por meio de auto-análise e identificação de seus ativos, chegariam a ações visando ao desenvolvimento.

Em setembro de 2006, após a realização dos inventários sociais, o IDIS iniciou a implementação das redes do projeto piloto. Lívia aponta que “a vantagem de ter o IDIS como parceiro é a existência de uma metodologia consolidada e, ao mesmo tempo, flexível”.

A metodologia adotada constituiu-se de duas estratégias principais:

  • realização de oficinas bimestrais voltadas aos facilitadores das três redes;
  • visitas de monitoramento em cada comunidade participante.

Antes do início das oficinas, o IDIS organizou uma reunião para constituir as redes sociais. Representantes dos três setores da sociedade e lideranças locais foram chamados a participar do encontro, no qual foi exposto o objetivo do programa. Nesse momento, 11 facilitadores de rede foram escolhidos por cidade. Esses facilitadores receberam treinamento teórico/prático nas oficinas bimestrais e retornaram a seus municípios com a incumbência de disseminar o conteúdo aprendido e realizar as tarefas planejadas. Eles também tiveram a função de mobilizar novas pessoas e organizações para participar da rede.

Foco nos ativos locais – A primeira oficina teve o objetivo de mostrar às comunidades o que observar na hora de realizar o diagnóstico local. Segundo Osmar Araújo, gerente desse programa pelo IDIS, o diagnóstico situacional baseado em ativos é fundamental para a evolução do programa, pois identifica as potencialidades de cada localidade em vez de focar apenas nos problemas.

Ele lembra o caso de União Baiana, um distrito de 635 habitantes, que pertence ao município de Itagimirim. Embora os índices de analfabetismo do município fossem baixos, ao se analisar a realidade do distrito observou-se que 75 pessoas eram analfabetas. Ao invés de esperar ajuda externa para sanar o problema, o próprio diagnóstico identificou a possibilidade de superar essa fragilidade social valendo-se de recursos locais. “A rede detectou um problema que era daquele distrito, mas não do município. Quando percebeu isso, criou, por meio da ação coletiva, classes de alfabetização de jovens e adultos. O diagnóstico da localidade revelou um dado negativo que estava diluído no censo municipal”, afirma o cientista social.

Lidia Ferreira, também gerente do programa pelo IDIS, acrescenta que o diagnóstico ainda serve para estabelecer consenso entre os participantes da rede. Isso porque cada pessoa é de uma área e tende a encaminhar os projetos e ações para seu campo. “O diagnóstico é também um instrumento para estabelecer prioridades dos projetos e ações que a rede quer realizar”, destaca.

Idéia-força – Com o diagnóstico pronto, cada rede teve condições de definir sua “idéia-força”, determinando como ela contribuirá para que a comunidade mude o cenário em direção ao que se pretende atingir. Para isso, durante duas oficinas, os facilitadores foram levados a refletir sobre os objetivos das redes e a planejar ações para atingi-los.

Os municípios das "Redes A" estabeleceram objetivos relacionados à geração de trabalho e renda, aproveitando sempre os ativos existentes. Em Mascote, a rede identificou que os artesãos da comunidade utilizavam madeira nativa para elaborar seus produtos. O grupo promoveu a articulação dos artesãos para organizar a produção e a comercialização do artesanato e estabelecer metas para substituição do uso da madeira nativa por madeira comercial. Assim, as possibilidades de venda para novos mercados foram ampliadas, e contribuiu, sobretudo, para preservação da Mata Atlântica.

Aproveitando a presença da associação de produtores de mandioca e de um moinho de beneficiamento para transformá-la em farinha, União Baiana resolveu delimitar áreas de plantio, além de equipar a Casa de Farinha. Já em Guaratinga, criou-se um projeto voltado à especialização de costureiras e compoteiras.

O plano inclui a criação de um centro de capacitação e de formação de profissionais. “No início, encontramos dificuldades. Demoramos em fazer o diagnóstico, pois as pessoas não davam informações. Elas desconfiavam da Veracel e da própria rede. Quando as pessoas perceberam que a rede poderia melhorar a qualidade de vida delas por meio da geração de renda, a resistência desapareceu”, avalia Sônia dos Santos, facilitadora da rede de Guaratinga.

Elaboração de projetos – As oficinas que se seguiram foram de elaboração de projetos; implementação de projetos; e mobilização de recursos e comunicação. Todas elas foram intercaladas com visitas dos profissionais do IDIS às comunidades para acompanhar a implantação das tarefas estabelecidas. Ao todo, foram realizadas oito visitas.

Em novembro de 2007, as três redes apresentaram seus projetos a parceiros e possíveis patrocinadores. A Rede de Guaratinga estabeleceu parceria com um comerciante local. “Depois da apresentação, os parceiros foram chegando. Já temos a sede onde será implantada a oficina de costura. Vamos assinar um contrato com isenção de aluguel por um ano. Com o projeto andando, teremos condições de pagar a locação”, revela Sônia dos Santos.

O sucesso das "Redes A", inspirou a Veracel a ampliar a iniciativa para mais quatro municípios. Em novembro de 2007, foram instituídas as "Redes B" em Barrolândia, Ponto Central, Santa Maria Eterna e Boca do Córrego, todos na Bahia. O critério de escolha dessas localidades foi o baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). “São distritos que são muito mais carentes do que os das Redes A, e onde há dificuldade de acesso à água”, explica Elaine Siqueira, responsável pelo planejamento das redes da Veracel.

A primeira oficina organizada pelo IDIS para essas cidades aconteceu em novembro de 2007, em Cabrália (BA). “Voltamos deslumbrados. Todos participaram ativamente e ninguém se furtou ou se queixou”, conta Gláucia Maria, facilitadora do município de Barrolândia, que enviou 12 pessoas à oficina.

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