Escolas apostam suas fichas em cursos de gestão do terceiro setor
VALOR ECONÔMICO - (EU&CARREIRA – 13/02/2002), por Roberta Lippi, de São Paulo
Ciro Fleury podia se considerar um executivo muito bem sucedido. Engenheiro formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), com um MBA na Suíça, Fleury comandava, até o final de 2000, a divisão de embalagens da Alcoa no Chile. Tinha um salário alto e um excelente pacote de expatriado, que incluía casa, carro, bônus e opções de ações (stock options). Apesar disso, ele não se sentia realizado. Depois de pensar bastante, tomou uma atitude no mínimo corajosa: pediu demissão depois de 14 anos de Alcoa e voltou para o Brasil para trabalhar no terceiro setor.
Descobriu um curso da USP em parceria com o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis), voltado para pessoas interessadas em ter uma visão abrangente dos negócios na área social. Fez o curso e acabou sendo convidado para trabalhar no próprio Idis. Aceitou a proposta para coordenar um dos projetos da entidade, ganhando 70% menos do que recebia na Alcoa. O fato de ser solteiro, conta ele, foi um encorajador. Mas ele garante que em nenhum momento se arrependeu da escolha.
É crescente o número de profissionais como o ex-executivo da Alcoa interessados em migrar para o terceiro setor e unir a carreira com uma satisfação pessoal, principalmente agora que as empresas estão sendo mais cobradas em relação à responsabilidade social. E, com essa demanda, as escolas de administração encontraram um importante filão: depois da fase dos cursos voltados para a gestão de entidades sociais, crescem agora os programas voltados para a administração de projetos sociais dentro de empresas tradicionais.
Depois de ver o curso de administração de organizações não-governamentais se posicionar entre os cinco mais procurados na escola, a Fundação Getúlio Vargas, uma das pioneiras nesse setor, está anunciando para este ano um novo curso em São Paulo. "Responsabilidade Social nas Empresas", em parceria com o Instituto Ethos de Responsabilidade Social, será voltado para esclarecer empresários sobre atividades sociais, sobre como eles podem atuar nessa área e o que existe no mundo a respeito.
A FGV do Rio de Janeiro também anuncia novo programa para este ano, mais extenso e com título de pós-graduação (lato sensu) em administração de organizações do terceiro setor.
A Universidade Mackenzie, de São Paulo, foi outra que resolveu investir nesta área em 2002, com a criação de uma pós em gestão do terceiro setor. A procura foi tão grande para a primeira turma que a escola está pensando em lançar uma segunda turma ainda neste semestre.
No caso do curso Idis/USP, o programa é focado no apoio à formação de investidores ou de pessoas que tenham interesse de trabalhar com investidores, explica Kátia Reis, coordenadora do Núcleo de Capacitação do Idis. A ex-analista de marketing do Banco Safra, Márcia Alexandre, 28 anos, é um exemplo. Queria fazer algo na área social e resolveu fazer o curso da USP. Colocou no currículo. Enquanto fazia o processo de seleção para trabalhar na área de fidelização e marketing de relacionamento da Sky, acabou sendo convidada pela companhia para montar um projeto social. Completando nove meses na Sky, ela diz que trocou seis por meia dúzia no aspecto financeiro, mas já conseguiu implantar uma série de projetos na empresa. Está empolgadíssima.