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Profissionais do bem

NOVA - (VIDA E TRABALHO - MAIO 2002), por Kátia Cardoso


Inteligentes e talentosas, elas abandonaram o emprego com ótimas chances de ascensão em empresa públicas (primeiro setor) e privadas (segundo setor) para trabalhar no terceiro setor  - que abrange organizações não-governamentais (ONGs), fundações e outras instituições sem fins lucrativos, voltados apenas para metas sociais, como educar crianças carentes ou defender a ética e a cidadania.

Felizes da vida com a mudança, muitas fizeram até cursos para se especializar nesse mercado e todas atuam em ambientes descontraídos e com hierarquia menos rígida. Vivem às voltas com desafios, criam e dão vida a projetos maravilhosos, exercitam habilidades distintas, como negociar e lidar com imprevistos, e conhecem muita gente.
Elas podem até ter salários relativamente menores que suas colegas no mercado convencional – variam de 1.200 reais a 4.500 reais mensais - , mas sem dúvida alcançaram realização pessoal.

CÉLIA MARÇOLA  transforma a vida de uma comunidade carente. Promover oficinas culturais e cursos profissionalizantes para 200 adolescentes é uma das atividades a que a administradora de empresas Célia Marçola, 35 anos, paulistana, se dedica na Fundação Despertar, sediada no jardim Míriam, bairro pobre de São Paulo. “Queremos dar nova perspectiva de vida à garotada”, vibra a ex-assistente de diretoria do Procon de São Paulo, que tinha 15 anos de casa quando decidiu, em março de 2001, se transferir para o terceiro setor. Com o objetivo de se preparar melhor para esse novo mercado, fez o curso complementar Administração em Organizações da Sociedade Civil, na Universidade de São Paulo, com duração de quatro meses.

Com o diploma na mão, decidiu fundar no Ceará uma ONG de combate á prostituição e ao trabalho infantis – ás vésperas do embarque, no entanto, ela desistiu de tudo por causa de uma proposta da empresária Milú Villela, fundadora da Despertar. “Era exatamente o que eu queria: usar os meus conhecimentos de administradora de empresas em projetos sociais comandados por uma das mulheres que mais entendem  de voluntariado no país. Comecei fazendo contato com empresários do ramo da moda que queriam ajudar a comunidade mas não sabiam como.”

Atualmente, bancam a profissionalização de 18 costureiras do Jardim Míriam, que vão ter a oportunidade de trabalhar para eles depois. “Célia, que se tornou assistente de Milú, ainda a ajuda a selecionar, para a concessão de patrocínio, os projetos sociais com reais chances de vingar. “ Com uma boa idéia e um plano bem estruturado dá para atender muita gente carente.”

CRISTINA MURACHCO levanta a bandeira da ética nas empresas. Como assessora da reitoria da PUC-SP, a paulistana Cristina Murachco, 38 anos, formada em história, batalhava patrocínios para projetos educacionais e compra de equipamentos. Em maio de 2000, decidiu mudar. Um dos motivos: queria mais autonomia, pois na universidade precisava submeter cada idéia que tinha a um batalhão de gente para aprovação.

Conversando com uma amiga, soube da vaga para assistente no Instituto Ethos, organização sem fins lucrativos que estimula as empresas a serem éticas e a abraçarem causas sociais. Isso significa, por exemplo, não discriminar mulheres e contratar deficientes físicos. “Meu desafio é engajar mais empresas na proposta do Ethos. Consegui isso com a Copel (Companhia Paranaense de Energia Elétrica), com 6 mil funcionários, que há quase um ano abre mão de uma hora do expediente daqueles que realizam trabalhos voluntários”, comemora Cristina. Hoje, promovida ao cargo de coordenadora, ela de dedica à regionalização do instituto, o que  quer dizer que viaja pelo interior do país ampliando as associações das companhias ao Ethos. “Tenho mais autonomia, que era o que eu desejava, e percebo que estou me aprimorando no trabalho: apelo para o jogo de cintura e a criatividade e consigo convencer pessoas até então inflexíveis. É gratificante colher os resultados.”

CÉLIA CRUZ se especializou em conseguir doações. A paulistana Célia Cruz, 35 anos, é uma expert em captações de recursos. Ela atua no Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis), que ajuda empresas, comunidades, famílias e pessoas do Brasil inteiro a investir em programas sociais. “Pesquiso o mercado para identificar potenciais doadores e depois, com a minha equipe, monto a estratégia ideal para abordá-los, mostrando por que vale a pena  colaborar para resolver esse ou aquele problema coletivo”, explica. Tal experiência ela adquiriu quando, em 1992, pediu licença do emprego de analista de sistema da IBM para se dedicar ao mestrado de economia. Como o curso lhe permitia cumprir créditos no exterior, Célia rumou para a França e depois para o Canadá, onde realizou trabalho voluntário para a Canadian Opera Company, instituição que tinha acordo com a universidade. “Levantava nomes de possíveis financiadores de espetáculos e fazia os contatos. “ Célia voltou para o Brasil em 1994, a fim de terminar a tese sobre o Mercosul, e recebeu convite da Fundação Getúlio Vargas para, é claro, captar recursos. Em seis anos fez com que as doações à Fundação pulassem de 700 mil reais para 2,5 milhões de reais, dinheiro investido em cursos,  pesquisas e aperfeiçoamento de professores. Desde 2000, Célia coordena uma área de projetos comunitários no Idis.

HELENA RONDON leva para o Nordeste o que faz sucesso no Sudeste. A publicitária Helena Rondon, 36 anos, cansou de perseguir o lucro e, dois anos atrás, pediu demissão do cargo de assistente de marketing e circulação do jornal Gazeta Mercantil, em Recife. Não tinha outro emprego em vista, apenas o desejo, despertando por uma reportagem, de migrar para o terceiro setor. “Para ingressar nesse mercado, freqüentei cursos e topei ser voluntária na ONG Ação Empresarial pela Cidadania”, conta ela, que tem pós-graduação em marketing. Em junho de 2001, Helena conquistou a vaga de gerente executiva no Interage,  instituto que arrecada fundos para programas sociais e estimula o empresariado a fazer a sua parte. Passados nove meses, ela já vê saírem do papel vários projetos, como a Nossas Crianças, em parceria com a Fundação Abrinq, que socorre financeiramente orfanatos e creches. “Outra vitória foi trazer para Recife a proposta dos Doutores da Alegria, palhaços profissionais que visitam crianças hospitalizadas, com verba e atores locais”, diz ela. “Implantamos iniciativas  que deram certo no Sudeste e criamos outras focadas na nossa realidade.”

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