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Entrevista

CIDADANIA-E/FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL - (24/06/2003)


Doutor em administração pela George Washington University, nos Estados Unidos, e considerado um dos grandes especialistas brasileiros em responsabilidade social, Marcos Kisil tem uma história de vida no mínimo peculiar. Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Kisil acabou abandonando a vida de médico para se dedicar à cura do sistema de saúde e à organização do trabalho social no Brasil.

Marcos Kisil ocupou, por quase 15 anos, a posição de Diretor Regional para a América Latina e Caribe da Fundação W.K. Kellogg e atuou como consultor da Organização Pan-Americana de Saúde. Hoje, Kisil é Presidente do Instituto para o Desenvolvimento Social do Investimento Social (IDIS), do Instituto World Childhood Foundation WCF-Brasil e do Conselho do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), além se ser membro de conselhos administrativos de várias entidades, como o Instituto Ayrton Senna. Nesta entrevista, Marcos Kisil fala um pouco sobre a sua trajetória na área social, do trabalho desenvolvido pelo IDIS, investimento social e Terceiro Setor.

Cidadania-e – Como você, sendo médico, chegou à presidência de uma entidade que trata de investimento social?

Marcos Kisil – Comecei a minha vida profissional como médico de uma comunidade, de cinco mil habitantes, que ficava no Vale do Ribeira, uma das regiões mais pobres do Estado de São Paulo. Lá, me dei conta das dificuldades sofridas pelos mais carentes. Se no meu lugar houvesse um médico que não tivesse recebido um treinamento adequado, não faria a menor diferença para o doente. Isto porque na comunidade não havia medicação, raio X, laboratório, nenhum instrumento de apoio. Eles não recebiam nada, não tinham resposta do sistema de saúde. Foi com esta experiência que percebi que tinha aprendido muito sobre

Esta descoberta me levou a fazer um doutoramento em administração pública na George Washington University, nos Estados Unidos, onde pesquisei sobre sistemas sociais e trabalhei em projetos comunitários, para ver como poderia sair do nível micro para o macro. Durante a minha pesquisa, percebi a importância que o apoio dos empreendedores sociais tem para levar a diante as idéias criativas da sociedade e a força que possuem para mudar as políticas públicas.

Por conta da minha pesquisa de doutorado, recebi o convite da Fundação Kellog, da qual era bolsista, para integrar o seu staff. Foi uma decisão difícil, pois não pensava em ter uma carreira internacional. Mas, o desafio me impulsionou e, de 1985 a 1999, fui Direção Regional para a América Latina e Caribe da Fundação W.K. Kellog. Assim entrei na área social.


Cidadania-e – O que é o Instituto para o Desenvolvimento Social do Investimento Social (IDIS) e quais são os seus objetivos?

Marcos Kisil – O IDIS tem muito a ver com a minha história pessoal. Quando os movimentos sociais começaram a ganhar força no Brasil, eu era muito procurado para falar sobre o trabalho que desenvolvia na Fundação Kellog. Colaborei na criação de entidades como a Fundação Abrinq e o Instituto Ayrton Senna.

Na segunda metade dos anos 90 a idéia de responsabilidade social estava em rápido crescimento e eu não conseguia mais administrar o meu trabalho na Kellog e, ao mesmo tempo, as consultorias que prestava.

Foi então que surgiu a idéia de criar o IDIS, uma organização sem fins lucrativos que dá apoio técnico a empresas, comunidades, famílias e indivíduos que queiram investir e atuar de forma estratégica e inovadora com suas ações sociais. Nosso objetivo é otimizar e fortalecer a utilização de recursos humanos e financeiros privados em benefício público. O Instituto começou a sua atuação em 1999, e recebeu o apoio da Fundação Kellog.

Cidadania-e – Qual a diferença entre filantropia e investimento social?

Marcos Kisil – Esta é uma questão muito importante, pois o Brasil tem uma tradição de filantropia desde a sua descoberta. Filantropia é um termo que normalmente tem, no contexto brasileiro, uma visão caritativa, um caráter paternalista. A filantropia que o brasileiro aprendeu a realizar resolve os problemas imediatos e agudos, mas não altera o statuo quo do indivíduo. Esta filantropia não transforma vidas, termina na doação.

No final do século 20 se percebeu que o Estado não conseguia garantir sozinho todos os direitos do cidadão e que a sociedade brasileira poderia ajudar de uma forma diferente. O Comunidade Solidária, por exemplo, veio mostrar que o governo podia fazer uma ponte com a sociedade civil na solução dos problemas sociais. Houve uma valorização da democracia participativa e um crescimento das organizações não-governamentais. O empresariado também descobriu o empreendedorismo social, e conceitos como responsabilidade social e o investimento social ganharam força.

O investimento social é uma atividade filantrópica planejada, onde o investidor tem interesse em mudar o status quo, está preocupado com os resultados no receptor do recurso. O investimento social exige trabalho estratégico, planejamento, gerenciamento dos recursos e acompanhamento dos resultados. As empresas precisam entender que a doação não termina quando o empresário assina o cheque. Ela apenas começa aí.

Cidadania-e – Como está o Brasil, com relação aos outros países, no que diz respeito ao investimento social?

Marcos Kisil – O Brasil deu passos importantes na última década e possui, no momento, umas das experiências de investimento social mais articuladas e mais sólidas que existem no mundo. Estamos vendo aqui um amadurecimento maior desta questão do que nos países do Primeiro Mundo.

Mesmo assim, este tipo de investimento ainda não se estendeu o necessário. Precisamos de uma legislação que apóie o investimento social privado e não somente a filantropia. Já temos experiências ricas e fortes de empresas que são socialmente responsáveis, mas, infelizmente, elas ainda são minoria. Os números mostram que, com uma legislação fiscal favorável, há um aumento no número de empresas interessadas em realizar ações sociais.

Cidadania-e – O que uma empresa precisa fazer para ser considerada socialmente responsável?

Marcos Kisil – Hoje já existe um protocolo, chamado Global Compact, que foi assinado entre a Organização das Nações Unidas (ONU) e 400 grandes corporações mundiais. Nele são estabelecidas regras de condutas para que as empresas não explorem o meio ambiente e nem utilizem, por exemplo, mão de obra infantil nos países em que trabalham. Também foram estabelecidos indicadores e instrumentos de aferição de compromisso para se detectar se elas estão cumprindo o acordo que fizeram com a ONU.

O ideal é que a empresa não só atue na área social, como também exija esta atitude de todos que participam da sua cadeia de produção, como os fornecedores. A verdadeira empresa socialmente responsável procura melhorar a qualidade de vida da região onde está inserida e realiza ações sociais de forma voluntária, não por obrigação.

Cidadania-e – Como você avalia o crescimento do Terceiro Setor no Brasil?

Marcos Kisil – Vejo o crescimento do Terceiro Setor no Brasil com muito entusiasmo. Principalmente porque ele se deu devido à redemocratização do País e por atuar em diferentes aspectos da vida da nação, como meio ambiente, infância e adolescência e micro-crédito.

Hoje a preocupação é com a qualidade das organizações não-governamentais, mais do que com a quantidade delas. Temos muitas ONGs despreparadas profissionalmente, que não conseguem competir por recursos com outras entidades mais estruturadas. É preciso ajudar estas ONGs a se capacitarem. Também é preciso mostrar para as pequenas organizações que pode ser mais vantajoso que elas trabalhem em rede, ou até mesmo que realizem uma fusão, do que lutem por recursos sozinha e de forma desigual.

Cidadania-e – Quais os desafios que a sociedade civil organizada deve enfrentar no futuro?

Marcos Kisil – Além de se preocupar com a qualificação das organizações não-governamentais, a sociedade civil organizada também deve jogar um papel de educadora.

A sociedade em geral ainda não entende qual o verdadeiro papel do Terceiro Setor e qual a sua importância. É preciso que as pessoas conheçam as ONGs, saibam o que elas fazer e como realizam suas ações.

Muitas pessoas ainda acham que o Terceiro Setor surgiu para substituir o Primeiro e não é nada disso. O próprio governo tem esta visão e, por isso, tem medo de fortalecer a sociedade civil organizada. É preciso mudar isso. É preciso que os papéis estejam bem definidos e sejam de conhecimento geral. Para tanto, acho interessante que o Terceiro Setor tenha o seu próprio estatuto, que deixe claro que a sociedade civil organizada não é executora de programas do governo, mas aliada no desenvolvimento de políticas públicas.

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