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Os pequenos gigantes do engajamento

O GLOBO – (04/10/2004)


Como em inúmeras outras histórias, entre fábulas, parábolas e piadas, também na responsabilidade social tamanho não importa — mas sim os bons resultados que a empresa causa ao tomar atitudes e decisões corretas, longe do extrativismo puro e simples. Ofuscado pelas ações cercadas de pompa e divulgação dos grandes grupos, o mundo das micro, pequenas e médias empresas do país caminha a passos decididos em direção às práticas de responsabilidade social. Nem o permanente duelo contra os obstáculos ao setor produtivo no Brasil inibe a consciência, que se dissemina a cada dia.

Vanessa Barbosa, responsável pelo programa de responsabilidade social que une o Sebrae e o Ethos, atesta o movimento crescente neste setor da economia. E, conta ela, é de coração — afinal, não há a obrigatoriedade corporativa que move os gigantes empresariais. Falta ainda disseminar conceitos de gestão e contaminar quem está mais longe dos epicentros econômicos. Questão de tempo. E de trabalho.

— As pequenas empresas também estão pressionadas a serem socialmente responsáveis, seja por fornecedores, ou por consumidores que já têm percepção do tema — explica ela, sublinhando as vantagens das ações desen$pelos miúdos. — A relação da pequena empresa com a comunidade tem mais conteúdo do que da grande. Mais do que nos negócios gigantes, os consumidores são responsáveis por fechar ou fazer prosperar o pequeno negócio. E o movimento se fortalece porque o cliente apresenta cada vez mais consciência da importância de preocupações sociais e ambientais.

Vanessa constata que, surpreendentemente para os incautos, muitos donos de empreendimentos pequenos e médios mostram sensibilidade para as ações, mas falta cuidado com questões mais simples e internas, como o trato com funcionários. Aí, entram en$como o Sebrae e o Ethos, com a função de doutrinar.

— Não dá para esquecer que a primeira responsabilidade social do pequeno empresário é dar certo — lembra ela. — Por isso, qualquer iniciativa dos pequenos empresários merece ser valorizada.

Exemplo educativo nasceu em Petrópolis, com as lojas de produtos naturais Mundo Verde. Com um escritório e três pontos próprios, os criado$da marca mobilizaram seus quase cem franqueados a colaborar com vários projetos sociais e iniciativas ecológicas hoje consolidadas Brasil afora. A rede transformou-se em exemplo no quinhão da economia brasileira que de pequeno só tem o rótulo: nele estão 60% da oferta de emprego; 42% do pessoal ocupado na indústria; 80,2% dos empregos no comércio e 63,5% da mão-de-obra do setor de serviços. A turma $engatinha no mundo da responsabilidade social, mas tem potencial de sobra.

— Empiricamente, notamos que as grandes empresas têm projetos e iniciativas mais estruturadas, especialmente quando estamos falando de um dos itens da agenda da responsabilidade social corporativa, que é o investimento em projetos sociais voltados à baixa renda. A realidade das micro, pequenas e médias está mudando rapidamente, mas ainda $ações assistencialistas e emergenciais, como a distribuição de alimentos e roupas — analisa Judi Cavalcante, diretor-executivo do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), primeira associação da América do Sul de organizações privadas que financiam projetos sociais.

Ele lembra que a capacidade financeira de uma grande corporação é muito maior que a de um pequenino da economia. Mas Cavalcante lamenta $teimosia dos que insistem no mito da dificuldade para a participação das empresas menores. Ética nada tem a ver com tamanho.

— Assim como no mercado, cada empresa deve planejar e realizar suas ações na área social de acordo com porte, cultura e quantidade de recursos que o empresário ou o conjunto de sócios deseja destinar à área social. Despejar uma montanha de dinheiro em um projeto não o transformará necessariamente numa ação social eficaz para a comunidade — ensina ele.

O diretor do Gife acrescenta que o mundo à volta da empresa — de qualquer tamanho — exerce muita influên$na adoção de práticas socialmente responsáveis. Uma comunidade que seja tolerante com práticas como trabalho infantil ou eventuais pecados ecológicos deixará a empresa mais distante das melhores atitudes.

— Também para as pequenas empresas, a responsabilidade social transformou-se numa questão de mercado — arremata ele.

Diretora do Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social) Carla Duprat confirma o engajamento das pequenas e médias empresas na causa socialmente correta. Ela lembra que, em companhias de todos os tamanhos, os conceitos ainda não estão totalmente consolidados como preceitos de gestão, mas o movimento não pára de crescer.

— Falta virar parte da estratégia para a sustentabilidade. Cuidar do meio ambiente e incentivar as ações sociais de voluntariado são práticas que precisam estar presentes em todas as decisões das empresas — convoca ela.

Carla conta que um dos melhores caminhos é mobilizar os funcionários a participar, uma estratégia boa para todos os lados, porque comprovadamente melhora a relação com os patrões.

— E a empresa menor torna a prática mais próxima, mais fácil. Até pelos valores de quem toca o negócio — aponta ela, citando pesquisa de 2001 encomenda pelo Idis que aferiu uma doação média de R$ 520 entre as pequenas e médias empresas de varejo e serviço localizada em cem cidades de quatro estados do Centro-Sul do país. — É um número que demonstra generosidade na contribuição e, somado aos produtos incluídos nas doações, indica um aguçado senso de responsabilidade social.

Coisa de quem pode até ser pequeno no dia-a-dia do mercado, mas é gigante na solidariedade.

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