O Global Philanthropy Forum (GPF) 2026, realizado em São Francisco entre 18 e 20 de março, serviu como um palco central para reimaginar as bases estruturais do investimento social. Representando o IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, Paula Fabiani, CEO, e Denise Carvalho, Diretora de Avaliação de Impacto, lideraram uma expressiva delegação brasileira composta por 24 lideranças.
A edição de 2026 foi particularmente significativa por marcar a celebração dos 25 anos do Global Philanthropy Forum, um marco que convidou à reflexão sobre um quarto de século de avanços na filantropia global e na construção de uma comunidade de lideranças orientadas por propósito. Como organização que anualmente lidera a presença brasileira no Fórum, o IDIS continua a conectar inovações locais às tendências globais da filantropia, promovendo um intercâmbio internacional de estratégias e visões.
Sob o tema evocativo “Arquitetando o Futuro: Sistemas Operacionais para uma Nova Era da Filantropia”, o encontro foi além da discussão de projetos isolados. Em vez disso, concentrou-se nos “sistemas operacionais” — as regras, incentivos e normas culturais subjacentes que determinam como o capital é direcionado para o bem público. O consenso entre os participantes foi claro: o mundo não está apenas passando por um período de transição, mas por uma mudança de era, que exige uma atualização radical das práticas filantrópicas.
Uma das discussões mais profundas destacou a capacidade única da filantropia de atuar como “capital de risco da sociedade”. Em um cenário em que governos são frequentemente limitados por ciclos políticos e empresas por resultados trimestrais, a filantropia permanece como o principal setor com flexibilidade para financiar iniciativas de alto risco e alto impacto.
Essa urgência é reforçada por um contexto global preocupante: o Fórum ocorreu em meio à escalada de conflitos internacionais e crises humanitárias que redefiniram o cenário geopolítico. Esses conflitos evidenciam a fragilidade dos sistemas atuais e a necessidade imediata de a filantropia enfrentar o custo humano da instabilidade global com consistência moral e sem se paralisar diante de disputas políticas.
O Fórum também destacou que, para ser verdadeiramente transformadora, a filantropia deve assumir seu papel na “fronteira” — apoiando modelos ainda não comprovados, fortalecendo instituições e enfrentando questões sistêmicas como mudanças climáticas e resiliência democrática, frequentemente negligenciadas pelos mercados tradicionais.
A delegação brasileira observou uma crescente urgência por ação coordenada. Diante do aumento da desigualdade global e da erosão da confiança nas instituições, o setor filantrópico vem sendo chamado a oferecer uma visão coletiva que outros setores atualmente não conseguem prover. Isso exige uma mudança de esforços fragmentados e individuais para uma abordagem mais integrada, na qual o capital filantrópico atue como catalisador de mudanças sistêmicas mais amplas.
Foi realizada uma reunião estratégica para discutir, junto a organizações-chave da América Latina — incluindo parceiros da CAF Global Alliance e outros representantes regionais —, a criação de um espaço dedicado à discussão da filantropia no contexto latino-americano. A iniciativa busca fortalecer a voz regional e fomentar um ecossistema colaborativo adaptado aos desafios e oportunidades específicas da região.
A necessidade de repensar a natureza do capital também foi um tema relevante. O Fórum propôs uma mudança de paradigma: deixar de enxergar a riqueza como um “estoque” estático a ser preservado e passar a vê-la como um fluxo que deve servir à vida. Essa perspectiva desafia modelos tradicionais de gestão patrimonial e ciclos de doação, sugerindo que o verdadeiro valor do capital filantrópico está em seu movimento e em sua capacidade de influenciar volumes muito maiores de capital privado e corporativo.
Ao reposicionar a riqueza como uma ferramenta de impacto, e não como um fim em si mesma, filantropos podem promover uma distribuição mais equitativa de recursos. As discussões exploraram como a disposição ao risco na filantropia pode reduzir riscos para investidores privados, atraindo mais capital para resolver os desafios mais urgentes do mundo.
O rápido avanço da Inteligência Artificial (IA) ocupou um espaço central na agenda de 2026. Embora a IA ofereça oportunidades sem precedentes para o setor social — desde avaliações de impacto baseadas em dados até serviços sociais personalizados —, também apresenta riscos significativos de aprofundar desigualdades existentes.
O Fórum defendeu a criação de “pactos morais” e estruturas regulatórias robustas para garantir que a tecnologia permaneça uma força para o bem. Existe um descompasso entre as capacidades tecnológicas do setor corporativo e os recursos disponíveis para o setor social. Para reduzir essa lacuna, a filantropia deve investir na infraestrutura digital da sociedade civil, garantindo que organizações sociais não sejam apenas consumidoras de tecnologia, mas protagonistas na construção de um futuro digital ético e centrado nas pessoas.
Em última análise, o encontro reforçou que o componente mais crítico de qualquer “sistema operacional” da filantropia não é técnico, mas humano. Confiança, colaboração e consistência moral foram identificadas como pilares essenciais para arquitetar essa nova era. As discussões ressaltaram que o futuro da filantropia não pode ser construído de forma isolada; exige o compromisso de ouvir vozes diversas e colocar no centro as experiências das comunidades na linha de frente.
O GPF certamente abordou temas importantes relacionados aos desafios globais, porém careceu de maior diversidade de perspectivas. Apenas um número reduzido de palestrantes veio de fora dos Estados Unidos, sendo a maioria baseada no país. Embora esse desequilíbrio seja compreensível — especialmente diante das atuais dificuldades de acesso aos EUA —, também representou uma oportunidade perdida.
O evento poderia ter incorporado mais amplamente perspectivas de diferentes regiões com longas trajetórias de atuação em contextos desafiadores, oferecendo aprendizados valiosos e inspiração para o desenvolvimento de novos modelos filantrópicos adaptados a contextos locais e globais.
Ao retornarmos com esses aprendizados, a missão é traduzir essas reflexões em ações locais, fortalecendo o impacto da filantropia e do investimento social no Brasil. Os desafios desta década exigem lideranças que sejam tão corajosas quanto colaborativas.
“Precisamos ser as lideranças que queremos ver.”

