Artigo publicado originalmente no Jornal NEXO
Por Gustavo Loiola, head of training da Latimpacto, e Guilherme Sylos, diretor de prospecção e parcerias do IDIS
Analisando os mercados da América Latina, conseguimos entender que o Brasil já domina o vocabulário das finanças de impacto e do financiamento inovador: blended finance, matchfunding, venture philanthropy. Mas isso não necessariamente se converteu, até aqui, em infraestrutura financeira capaz de operar na escala necessária para responder a desafios socioambientais do tamanho do país.
Veja-se o blended finance, por exemplo: o modelo é uma forma de estruturar capital catalítico (público ou filantrópico) para melhorar a relação entre risco e retorno e atrair investidores privados para agendas que, sozinhas, não mobilizariam tanto dinheiro. Segundo dado da rede Convergence, essa abordagem já mobilizou mais de US$ 270 bilhões em compromissos no mundo todo. Ainda assim, seu potencial segue subaproveitado no Sul Global, particularmente no Brasil. Não por ausência de recursos, mas porque muitas operações dependem de um grau de coordenação, segurança jurídica, apetite a risco e capacidade técnica que ainda não está distribuído de forma ampla no ecossistema.
O nosso gargalo não é falta de dinheiro, é falta de estrutura e de rotina. O campo está preso em um paradoxo: sabe desenhar operações sofisticadas, mas não consegue replicá-las com velocidade. O salto virá quando entendermos que finanças inovadoras não se resumem a novos nomes.
Precisamos construir peças relevantes de infraestrutura para essas finanças, deixando de tratar cada operação como um caso excepcional, dependente de lideranças específicas, negociações artesanais e arranjos sob medida. Temos que criar padrões, repertórios e capacidades institucionais que permitam que esses modelos sejam acionados com mais previsibilidade.
A primeira frente-chave é regulatória: Estruturas híbridas exigem previsibilidade, com regras claras para garantias, camadas de primeira perda, fundos com capital filantrópico e mecanismos de pagamento por resultado. Vejamos, por exemplo, no contexto brasileiro, a transição da reforma tributária, que começa neste ano e abre uma janela para calibrar incentivos e dar tratamento mais explícito a arranjos de interesse público.
A segunda frente é cultural: o financiamento paciente. A filantropia e o investimento social privado ainda operam, muitas vezes, com prazos curtos e baixa tolerância ao risco. A inovação financeira, porém, demanda o oposto, com compromissos plurianuais, recursos flexíveis, disposição para financiar estrutura (equipes, dados, avaliação) e aceitar que aprender custa – e que errar faz parte do desenho.
Esse ponto é decisivo. Muitos projetos de impacto positivo não fracassam por causa de uma solução frágil, mas porque não há financiamento adequado ao seu estágio de desenvolvimento. Existem iniciativas promissoras que precisam de apoio para modelar sua operação, organizar dados, fortalecer governança, medir resultados ou adaptar sua atuação a diferentes contextos territoriais. Quando a filantropia financia apenas o resultado final, e não a infraestrutura que torna essa entrega possível, limita a capacidade de desenvolvimento das organizações e perpetua uma lógica de não continuidade.
A terceira peça é a coordenação: Hoje, capitais públicos, privados e filantrópicos até se encontram, mas de forma desordenada. O resultado é fragmentação, com vários atores financiando o mesmo território sem governança comum, ou tentando encaixar soluções de mercado onde ainda falta redução de risco percebido. É aqui que o intermediário vira infraestrutura: quem traduz linguagens, gerencia projetos, padroniza diligências, cria métricas mínimas e monta arranjos multicapitais com velocidade.
O Brasil já tem sinais concretos do que funciona quando esses elementos aparecem. O Juntos pela Saúde, iniciativa do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) gerida pelo IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social), adota o modelo de matchfunding, somando capital público e recursos privados (não reembolsáveis) para o fortalecer o SUS (Sistema Único de Saúde) nas regiões Norte e Nordeste .
A infraestrutura financeira também pode existir em escala global. O TFFF (Tropical Forests Forever Facility), lançado na COP30, nasce com ambição de mobilizar US$ 125 bilhões e prevê destinação mínima de 20% dos recursos a povos indígenas e comunidades locais — um desenho que combina escala, governança e regras explícitas.
Ao reconhecer florestas tropicais em pé como ativos de valor global e prever uma remuneração vinculada à conservação ambiental, o mecanismo explicita uma tendência importante: a de que a agenda climática exigirá arquiteturas financeiras capazes de conectar capitais de naturezas distintas, proteger territórios vulneráveis e distribuir benefícios de forma mais justa.
A crise climática, aliás, torna esse debate ainda mais urgente. Eventos extremos, perdas econômicas, insegurança hídrica, impactos sobre saúde e pressão sobre populações vulnerabilizadas evidenciam que respostas fragmentadas são insuficientes. Prevenção, adaptação e resiliência demandam financiamento antes que a emergência aconteça, e não apenas depois da tragédia. A filantropia pode ter papel central ao financiar planejamento, capacidade local, sistemas de alerta, soluções baseadas na natureza e arranjos de governança territorial que reduzam riscos futuros.
Não devemos, então, nos perguntar sobre qual é o próximo instrumento financeiro, mas, qual infraestrutura vamos construir para fazer esses instrumentos operarem como regra. Se queremos enfrentar a crise climática, desigualdades e baixa capacidade estatal em territórios vulneráveis, precisamos tratar o financiamento inovador como serviço público do século 21.
Um convite ao campo: direcionar parte do capital não para o projeto final, mas para o “sistema que permite que os projetos existam. Isso significa financiar primeira perda, garantias, preparação de projetos, dados e avaliação, apoiar organizações intermediárias, e, sobretudo, combinar recursos com governança compartilhada. Em vez de criar mais pilotos brilhantes, construir uma máquina que replica, aprende e escala.
