O El Niño previsto para 2026 reforça a importância de investir em prevenção, adaptação e resiliência. Para institutos, fundações, investidores sociais e Organizações da Sociedade Civil (OSCs), agir antes dos eventos extremos é parte da proteção das comunidades, da gestão das organizações e dos resultados das iniciativas.
Por Yasmim Araujo Lopes, Analista de projetos no IDIS
O El Niño previsto para 2026 já mobiliza atenção de instituições de monitoramento climático no Brasil e no mundo. Em julho, a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) indicou alta probabilidade de permanência do fenômeno até abril de 2027, com tendência de fortalecimento ao longo do ano e maior chance de intensidade muito forte entre setembro e dezembro. No Brasil, instituições de referência em clima e meteorologia alertam para possíveis eventos extremos associados ao El Niño, reforçando a importância de planejamento e prevenção.
Para investidores sociais e organizações sociais, esse cenário precisa ser observado com antecedência. A crise climática pode afetar diferentes agendas sociais, como saúde, educação, renda, segurança alimentar, assistência social, moradia e mobilidade. Mesmo organizações que não atuam diretamente com clima podem enfrentar interrupções, custos extras e aumento da demanda por atendimento. Por isso, acompanhar o cenário climático e seus potenciais impactos é também uma forma de qualificar o planejamento, desenhar iniciativas mais efetivas, adaptar estratégias, proteger a gestão das organizações e apoiar populações em situação de maior vulnerabilidade.
A capacidade de adaptação dos territórios também precisa entrar nessa análise. Segundo dados da plataforma AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), 3.679 municípios brasileiros apresentam baixa ou muito baixa capacidade adaptativa para lidar com desastres associados a inundações, enxurradas e alagamentos. O dado reforça que a prevenção depende não apenas de prever eventos extremos, mas de fortalecer gestão local, redes comunitárias, articulação com políticas públicas e capacidades de resposta nos territórios.
Nesse contexto, agir com antecedência é também uma forma de promover justiça climática. Para além de responder a eventos extremos, trata-se de investir em prevenção, governança, continuidade de serviços, fortalecimento de capacidades locais, resiliência social e proteção dos resultados construídos por organizações e comunidades.
Essa preparação não precisa esperar a confirmação de um evento extremo. Se já existem sinais de alteração no clima, também já existem decisões que podem ser antecipadas. O caminho é transformar a previsão climática em perguntas concretas de planejamento: o que pode afetar o território, quem pode ser mais impactado, quais atividades precisam ser adaptadas e que recursos devem estar disponíveis antes dos períodos mais críticos.
Da previsão ao planejamento
A Nota Técnica ‘Adaptação às mudanças climáticas: como promover a justiça climática através da gestão de riscos para investidores e organizações sociais’ propõe um framework de avaliação e gestão de riscos climáticos para apoiar investidores sociais e organizações sociais na identificação de ameaças, análise de riscos e definição de respostas. No contexto do El Niño previsto para 2026, essa abordagem ajuda a transformar informação climática em decisões de planejamento, financiamento e gestão.
Para o campo social, o desafio é antecipar como esses riscos podem afetar territórios, públicos e iniciativas já em curso. Algumas perguntas podem orientar essa reflexão:
- O que pode mudar no território com o El Niño previsto para 2026?
- Quais públicos podem ser mais afetados por ondas de calor, falta de água, enchentes, queimadas ou aumento do preço dos alimentos?
- Quais atividades podem ser interrompidas ou precisar de adaptação?
- Que serviços, espaços e equipes precisam de plano de contingência?
- Quais redes locais e políticas públicas precisam estar articuladas antes dos períodos mais críticos?
- Que recursos devem estar disponíveis para prevenção, continuidade das atividades e recuperação pós-desastre?
Ao trazer essas questões para a gestão de programas, portfólios e parcerias, organizações financiadoras e executoras ampliam sua capacidade de agir antes que os riscos comprometam comunidades, equipes e resultados sociais. Como os efeitos do El Niño podem variar entre regiões, essa capacidade de antecipação depende de olhar para cada território, seus riscos específicos e suas possibilidades de prevenção e adaptação.
Efeitos previstos por região e caminhos de preparação
Os efeitos do El Niño não serão iguais em todo o país. As previsões indicam tendência de redução das chuvas nas regiões Norte e Nordeste, aumento de chuvas em grande parte do Sul e possibilidade de condições mais secas em áreas do Sudeste e do Centro-Oeste durante a primavera. Também há tendência de aumento das temperaturas em grande parte do Brasil. Essa leitura regional ajuda a aproximar a previsão climática das decisões do campo social.
Norte e Amazônia Legal
O que pode acontecer: a tendência é de redução das chuvas, especialmente na Amazônia. Isso pode diminuir o nível dos rios e afetar transporte, pesca, produção de alimentos, geração de energia e acesso de populações ribeirinhas e comunidades mais isoladas à água, alimentos e atendimento de saúde.
O que pode ser planejado: estratégias de logística alternativa, armazenamento de água, comunicação comunitária, fortalecimento de redes locais e formas de manter atendimentos essenciais em territórios de difícil acesso.
Nordeste
O que pode acontecer: a região pode enfrentar menos chuvas, temperaturas mais altas e ondas de calor. A combinação entre menos água e mais calor pode pressionar o abastecimento, afetar a produção de alimentos, elevar o risco de incêndios e contribuir para o aumento da insegurança alimentar.
O que pode ser planejado: apoio a soluções de convivência com períodos secos, armazenamento de água, adaptação de atividades ao calor, prevenção de queimadas e proteção de famílias mais expostas ao aumento do preço dos alimentos.
Centro-Oeste
O que pode acontecer: os efeitos podem variar dentro da própria região, mas há probabilidade de temperaturas mais altas e ondas de calor, especialmente na primavera e no verão brasileiros, com tempo mais seco e maior risco de queimadas. Em algumas áreas, as chuvas podem ser mais regulares, enquanto em outras pode haver maior irregularidade.
O que pode ser planejado: ações de prevenção e combate às queimadas, proteção de pessoas expostas ao calor, adaptação de atividades ao ar livre e fortalecimento de iniciativas ligadas à produção sustentável, à saúde comunitária e à segurança alimentar.
Sudeste
O que pode acontecer: os impactos sobre as chuvas podem variar. Algumas áreas podem registrar mais chuva em determinados períodos, enquanto outras podem enfrentar intervalos de tempo mais seco. As temperaturas tendem a ficar mais altas, com ondas de calor mais frequentes e prolongadas.
O que pode ser planejado: adequação do funcionamento de escolas, centros comunitários, serviços de atendimento e atividades presenciais em dias de calor extremo, além de medidas de cuidado com crianças, pessoas idosas, trabalhadores expostos e populações em vulnerabilidade socioambiental.
Sul
O que pode acontecer: a região tende a registrar chuvas acima da média, com maior risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos. Também podem ocorrer tempestades e ciclones mais fortes.
O que pode ser planejado: mapeamento de áreas de risco, proteção de moradias e equipamentos comunitários, planos para deslocamento seguro, planos de apoio a famílias atingidas e estratégias para manter serviços essenciais funcionando durante e depois de eventos extremos.
Essa leitura regional ajuda a aproximar a previsão climática das decisões do campo social. A partir dela, organizações financiadoras e executoras podem identificar onde há maior exposição, quais públicos precisam de mais proteção e que adaptações devem ser priorizadas antes dos períodos críticos.
O que fazer: frentes de prevenção e adaptação para o campo social
Antecipar riscos não elimina a possibilidade de eventos extremos, mas reduz danos, qualifica a gestão das organizações e fortalece a capacidade de comunidades atravessarem períodos críticos com mais proteção e resiliência. A partir da leitura dos riscos previstos para o El Niño de 2026, atores do campo social podem organizar sua atuação em algumas frentes práticas. Elas não esgotam as possibilidades de resposta, mas ajudam a transformar previsão climática em planejamento, adaptação e tomada de decisão.
1 – Revisar portfólios e territórios com lente climática
Organizações financiadoras e executoras podem analisar seus programas, territórios e parcerias à luz dos riscos previstos para o El Niño de 2026. Isso significa observar onde há maior exposição a ondas de calor, seca, queimadas, enchentes, deslizamentos, interrupções de transporte, falta de água ou aumento da insegurança alimentar. Essa leitura ajuda a identificar iniciativas que podem precisar de ajustes de cronograma, orçamento, metodologia, metas ou formas de atendimento.
2 – Planejar continuidade e contingência
Manter serviços funcionando em períodos críticos exige preparação. Organizações podem definir previamente como atuar em dias de calor extremo, falta de água, fumaça, enchentes, queda de energia ou dificuldade de deslocamento. Planos de continuidade ajudam a proteger equipes, preservar a gestão e evitar que iniciativas relevantes sejam interrompidas justamente quando as comunidades mais precisam delas.
3 – Financiar adaptações preventivas em espaços e serviços
A prevenção também passa por mudanças concretas em equipamentos, rotinas e infraestrutura. Escolas, centros comunitários, cozinhas solidárias, espaços de acolhimento, projetos esportivos, iniciativas culturais e serviços de atendimento podem precisar de ventilação adequada, sombreamento, acesso à água, protocolos para dias de calor intenso, armazenamento preventivo ou planos de funcionamento alternativo. Adaptações feitas com antecedência podem reduzir riscos, custos e interrupções.
4 – Fortalecer redes locais antes dos períodos críticos
A prevenção depende de articulação. Atores do campo social podem construir fluxos de cooperação com escolas, serviços de saúde, assistência social, Defesa Civil, lideranças comunitárias, coletivos locais e redes de segurança alimentar. Essa coordenação ajuda a organizar informações, orientar famílias, identificar públicos mais vulnerabilizados e evitar respostas isoladas.
5 – Prever recursos flexíveis para adaptação
Eventos climáticos não seguem o calendário dos projetos. Por isso, recursos excessivamente engessados podem limitar a capacidade de prevenção e adaptação. Linhas de apoio flexíveis, fundos preventivos e possibilidades de remanejamento orçamentário permitem ajustar atividades, reforçar comunicação comunitária, proteger equipamentos, ampliar armazenamento de água ou reorganizar atendimentos antes dos períodos mais críticos.
Essas frentes ajudam a traduzir o alerta climático em ações concretas. Quanto mais cedo organizações e investidores sociais incorporarem esses riscos às suas decisões, maior será a capacidade de prevenir perdas, sustentar serviços e fortalecer comunidades.
Para apoiar esse processo, o IDIS publicou a Nota Técnica Adaptação às mudanças climáticas: como promover a justiça climática através da gestão de riscos para investidores e organizações sociais. O material apresenta diretrizes para uma atuação orientada pela justiça climática e um framework de avaliação e gestão de riscos relacionados ao clima.
Baixe agora e acesso o documento na íntegra!

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Referências
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MODESTO, Marcelo; LOPES, Yasmim Araujo. Adaptação às mudanças climáticas: como promover a justiça climática através da gestão de riscos para investidores e organizações sociais. São Paulo: IDIS, nov. 2025. Nota Técnica. Disponível em: <https://www.idis.org.br/nota-tecnica-adaptacao-as-mudancas-climaticas-como-promover-a-justica-climatica-atraves-da-gestao-de-riscos-para-investidores-e-organizacoes-sociais/>. Acesso em: 16 jul. 2026.
NATIONAL OCEANIC AND ATMOSPHERIC ADMINISTRATION. Climate Prediction Center. El Niño/Southern Oscillation (ENSO) Diagnostic Discussion. College Park: NOAA/National Weather Service, 9 jul. 2026. Disponível em: <https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso_advisory/ensodisc.pdf>. Acesso em: 16 jul. 2026.


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