Por Felipe Insunza Groba e Beatriz Waclawek, Líder de Investimento Social e Parcerias Estratégicas no Movimento Bem Maior
A filantropia nos países desenvolvidos vive um paradoxo. Enquanto o volume total de doações se aproxima de níveis recordes, impulsionado por indivíduos de patrimônio muito elevado (Ultra-High-Net-Worth Individuals) e grandes fundações, o número de doadores individuais vem diminuindo. Nos Estados Unidos, dados recentes sobre captação de recursos mostram que, embora o total doado esteja crescendo, a participação e a retenção de doadores estão em queda, especialmente entre aqueles de menor porte. Tendência semelhante é observada na Europa: segundo o World Giving Report, a parcela da população que faz doações para organizações sociais caiu 3 pontos percentuais em um ano, passando de 41% em 2024 para 38% em 2025.
À medida que as doações se concentram, cresce também a pressão por “comprovar impacto”. Nesse contexto, os doadores tendem a privilegiar aquilo que parece mais fácil de justificar: teorias da mudança bem estruturadas, métricas objetivas, listas do “que funciona” e a promessa de um único programa capaz de ganhar escala rapidamente.
Na última década, o Altruísmo Eficaz (Effective Altruism) apresentou uma resposta influente a essa pressão: identificar a intervenção com maior retorno esperado e concentrar recursos nela. Essa lógica trata a filantropia como um problema de otimização e, em determinados contextos, pode funcionar, especialmente quando se trata de problemas mais delimitados, nos quais as relações de causa e efeito são relativamente diretas.
A mudança social, porém, raramente segue uma lógica tão linear. Um programa pode apresentar bons resultados e, ainda assim, não avançar se políticas públicas, capacidade de implementação e confiança da sociedade não evoluírem junto com ele. Mudanças sistêmicas acontecem quando evidências, narrativa pública, viabilidade política e capacidade de execução convergem — e quando há recursos para sustentar o trabalho necessário para que essa convergência aconteça.
E se, portanto, a filantropia eficaz não estiver apenas em encontrar a melhor intervenção, mas também em financiar as condições para que ela seja adotada?
É nesse ponto que os doadores de médio porte — famílias e indivíduos que doam menos de US$ 10 milhões por ano — têm uma vantagem ainda pouco reconhecida. Eles não dispõem de recursos comparáveis aos dos governos nem conseguem construir ecossistemas inteiros ao redor de suas iniciativas, como alguns bilionários podem fazer. Por outro lado, podem agir com mais agilidade, compartilhar riscos por meio de coinvestimentos e combinar recursos financeiros com ativos que não aparecem em balanços: credibilidade, acesso, capacidade de articulação e disposição para apoiar processos de longo prazo.
Em nosso trabalho de orientação a doadores no Brasil, por meio do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e do Movimento Bem Maior, observamos esse mesmo padrão. A efetividade está menos em escolher uma única solução vencedora e mais em construir um portfólio de ações em torno de um problema, combinando implementação, produção de evidências, advocacy e parcerias capazes de criar as condições necessárias para que soluções sejam adotadas.
Para mostrar como isso funciona na prática, partimos de contextos em que os recursos são escassos, a dinâmica política é complexa e há pouco espaço para fracassos. Brasil e Colômbia oferecem exemplos claros de uma filantropia mais integrada, na qual os doadores não concentram todos os recursos em uma única iniciativa, mas financiam diferentes elementos necessários para transformar uma ideia promissora em uma solução que possa ser incorporada pelo sistema.
Em seguida, levamos essa perspectiva aos Estados Unidos, onde uma lógica semelhante de portfólio contribuiu para transformar uma questão durante muito tempo negligenciada em políticas públicas, recursos orçamentários, padrões de atuação e mecanismos permanentes de responsabilização.
Os três casos mostram como uma abordagem diversificada pode permitir que filantropos que não são bilionários contribuam para mudanças estruturais que dificilmente seriam alcançadas por uma estratégia baseada em uma única frente de financiamento.
Brasil: reduzindo a reincidência criminal por meio da transformação do sistema
O Instituto Ação Pela Paz, no Brasil, criado e mantido pelo filantropo Jayme Garfinkel, teve um orçamento anual de quase US$ 1 milhão em 2024. O Instituto atua para reduzir a reincidência criminal por meio do apoio e da expansão de programas estruturados de reinserção e reabilitação. Desde sua fundação, o Ação Pela Paz apoiou mais de 775 iniciativas e alcançou quase 36 mil pessoas, entre pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional, em diversos estados brasileiros.
De acordo com avaliações divulgadas publicamente, 82% dos participantes apoiados pelo Ação Pela Paz não reincidiram, em comparação com estimativas nacionais de reincidência que variam de 57% a 64%. Não se trata, portanto, de uma melhora marginal, mas de resultados significativamente superiores ao padrão predominante no sistema.
Mais importante: esses resultados foram tratados como ponto de partida, e não como ponto de chegada. O Instituto investiu de maneira deliberada em diferentes frentes, combinando doações e financiamento de projetos-piloto, produção de dados, avaliação, advocacy em políticas públicas e assistência técnica. Para isso, trabalhou diretamente com secretarias estaduais de Justiça, administrações penitenciárias e órgãos do Judiciário.
Como resultado, práticas inicialmente viabilizadas por recursos filantrópicos passaram, gradualmente, a ser incorporadas a programas financiados pelo poder público em diferentes estados. Essa estratégia diversificada gerou impacto em duas dimensões: contribuiu para melhorar os resultados individuais e ajudou a transformar a maneira como instituições públicas formulam e financiam políticas de justiça criminal em um sistema historicamente mais orientado por convicções do que por evidências.
Colômbia: quando a visibilidade de uma celebridade se transforma em capital estratégico
Fundada pela artista colombiana Shakira em 1997, a Fundación Pies Descalzos trabalha para ampliar o acesso à educação de qualidade em contextos de alta vulnerabilidade. Sua atuação combina construção de escolas, oferta integrada de serviços e formação de alianças estratégicas, em vez de depender exclusivamente de doações.
A Fundação construiu e apoiou diversas escolas públicas em regiões vulneráveis da Colômbia, combinando educação com alimentação e apoio psicossocial e alcançando milhares de crianças. Para ampliar sua atuação para além da prestação direta de serviços, também estabeleceu parcerias com grandes atores institucionais, principalmente a Education Above All, com o objetivo de expandir o acesso à educação primária de qualidade para 34 mil crianças e reduzir o risco de evasão escolar de outras 20 mil.
À medida que a projeção internacional de Shakira cresceu — inclusive com a visibilidade alcançada durante a Copa do Mundo da FIFA de 2010 —, a Fundação soube transformar esse alcance em novas parcerias institucionais na África do Sul e no Haiti, inclusive com o Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Mais recentemente, a Fundação aprofundou sua colaboração com o poder público colombiano ao estabelecer uma parceria direta com o Ministério da Educação Nacional para construir e reformar escolas públicas, incluindo um investimento conjunto de quase US$ 800 mil. Também apoiou campanhas nacionais de matrícula, como a Todos al Cole, voltadas à ampliação do acesso e à permanência de estudantes no sistema público de ensino.
Ao combinar capital social com uma estratégia diversificada de atuação, Shakira permitiu que a Fundação alcançasse resultados muito superiores ao que o volume de seus recursos financeiros poderia sugerir, mesmo com um orçamento anual inferior a US$ 400 mil em 2024.
Estados Unidos: transformando uma questão negligenciada em política pública
Essa estratégia não se restringe a contextos de escassez na América Latina. Nos Estados Unidos, a Joyful Heart Foundation, fundada e liderada publicamente pela atriz e ativista Mariska Hargitay, mostra como uma organização de médio porte pode contribuir para mudanças sistêmicas ao articular diferentes formas de atuação em torno de um mesmo problema.
A Joyful Heart é uma organização beneficente pública 501(c)(3) que registrou despesas totais próximas a US$ 2 milhões em 2024. Um de seus principais focos tem sido uma questão historicamente negligenciada pelo sistema de justiça criminal: o grande número de kits de coleta de evidências de violência sexual que permanecem sem análise. O tema é enfrentado principalmente por meio da iniciativa End The Backlog, criada para transformar a maneira como os estados administram evidências forenses, combinando advocacy, incidência em políticas públicas e infraestrutura técnica.
Desde seu lançamento, a iniciativa contribuiu para a aprovação de leis em 30 estados e para a destinação de aproximadamente US$ 231 milhões à eliminação do passivo de kits não analisados e ao financiamento de sua análise. Em 2015, a Fundação também desempenhou um papel fundamental na criação da iniciativa federal Sexual Assault Kit Initiative (SAKI), em parceria com o então vice-presidente Joe Biden.
Desde então, a iniciativa possibilitou que comunidades catalogassem mais de 183 mil kits que anteriormente não haviam sido analisados e encaminhassem mais de 90 mil para análise, gerando quase 15.700 correspondências no CODIS. Muitas delas estavam relacionadas a autores reincidentes de crimes violentos e sexuais, contribuindo para fortalecer a capacidade de resposta forense em âmbito nacional.
A estratégia da Joyful Heart, porém, não se limita ao advocacy. A Fundação também apoia a implementação na ponta por meio de programas de doação direta. Seu Heal the Healers Fund oferece microdoações anuais de até US$ 5 mil a profissionais e organizações que atuam diretamente com sobreviventes, financiando capacitações e pequenas melhorias organizacionais. Investimentos complementares em grupos de aprendizagem e centros de recursos ajudam a aproximar os serviços prestados na ponta das políticas e dos padrões que estão em constante evolução.
Essa combinação de estratégias ajudou a transformar uma questão negligenciada em uma responsabilidade permanente do poder público, mobilizando recursos públicos e contribuindo para a criação de sistemas duradouros.
Da otimização de intervenções à articulação da mudança
O que é preciso, afinal, para maximizar o impacto gerado por cada dólar investido? Os casos apresentados sugerem que o impacto duradouro depende da capacidade de uma solução ser adotada e incorporada pelos sistemas.
Isso acontece quando os doadores financiam não apenas aquilo que funciona, mas também as condições necessárias para que uma solução se sustente: que seja politicamente viável, institucionalmente incorporável e socialmente legitimada. É nessa articulação de abordagens complementares em torno de um mesmo problema que o potencial de impacto se amplia.
No mundo dos investimentos, diversificar é uma prática elementar. Na filantropia, diversificar estratégias também pode ser uma forma de fazer com que recursos limitados produzam mudanças muito maiores.
Para doadores que destinam menos de US$ 10 milhões por ano, o volume de recursos não precisa ser visto como uma limitação. Pode, ao contrário, orientar uma estratégia mais inteligente de atuação.
Uma regra simples é deixar de perguntar apenas “Qual é a melhor intervenção?” e passar a perguntar: “O que precisa acontecer para que o sistema adote essa solução — e quem financiará cada parte desse processo?”
Diversificar as formas de atuação pode ser justamente o que falta para compreendermos — e ampliarmos — os caminhos pelos quais mudanças sistêmicas acontecem.




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