Organizações do Transformando Territórios participam de intercâmbio em Paraty

Entre os dias 22 e 26 de junho, o ICP – Instituto Comunitário Paraty recebeu três das 14 FICs – Fundações e Institutos Comunitários que compõe o Programa Transformando Territórios do IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social) que possibilitou o intercâmbio, que foi pura potência, profundidade e acolhida mútua. 

Entre as participantes, estiveram a Fundação Gerações que atua desde 2008 em todo estado do Rio Grande do Sul representada por Ana Lucia Suárez, Diretora de Programas e Karine Ruy, Diretora Executiva; a Associação Nossa Cidade que atua na região Metropolitana de Belo Horizonte/MG desde 2014, representada por Marlúcia Baesse, Líder Comunitária e Mariana Barros, membra da Associação; e a FEAV – Fórum das Entidades Assistenciais de Valinhos que atua na cidade de Valinhos/SP desde 2013 e esteve representada por Eliane Macari, Presidente do Fórum.

Para representar o ICP, instituto anfitrião, estiveram presentes Andréia Carvalho e Ricardo Zuppi, Diretores Executivos; Maria Aparecida e Márcia Evangelista, Presidente e Vice-Presidente do Conselho Administrativo; Ana Carolina, Andréia Santos e Nena Gama, Conselheiras do Instituto; e Diana Seelaender, da equipe de Comunicação.

Representantes das FICs em conversa (Créditos: Diana Seelaender)

Foram dias com troca de conhecimentos, em que puderam aprofundar sobre os trabalhos de ação territorial e apoio para o fortalecimento comunitário, além de desafios compartilhados pelo mesmo modelo de organização, as chamadas FICs (Fundaçõs e Institutos Comunitários) dentro do terceiro setor. Alguns temas estiveram presentes como diagnóstico e escuta ativa, captação de recursos, fundos emergenciais e preventivos para mudanças climáticas, entre outros. Segundo o ICP, “um verdadeiro terreno fértil com muitas sinergias e a possibilidade de amplificação das ações realizadas pelo ICP”. 

Além dos momentos de diálogo entre as instituições, também ocorreu visitas e trocas com a Cooperativa dos Produtores Rurais do Pacová, com alunos da Escola da Barra Grande envolvidos com o Com-Vida (Comissão de Meio Ambiente e Qualidade de Vida nas Escolas – uma parceria entre o ICP e o Departamento de Educação Ambiental da Sec. Municipal de educação), e uma incrível visita ao Saco do Mamanguá.

Visita em Cooperativa (Créditos: Diana Seelaender)

Sobre o Transformando Territórios

A iniciativa é do Programa Transformando Territórios, e conta com apoio do Movimento Bem Maior e da Fundação FEAC, auxiliando no fortalecimento das Fundações e Institutos Comunitários (FICs) participantes e as organizações que fazem a mudança social acontecer nos territórios.

Prestação de contas: confiança que sustenta a missão das OSCs

Por Marcelo Destito, gerente administrativo-financeiro do IDIS; Agatha Pires e Vitória Vivian, analistas do administrativo-financeiro do IDIS; 

A prestação de contas não é apenas uma exigência administrativa. Para Organizações da Sociedade Civil (OSCs), ela integra a estratégia de sustentabilidade institucional, pois fortalece a confiança, qualifica a gestão financeira e amplia as condições de captação de recursos. Quando bem estruturada, permite demonstrar, com clareza, como os recursos foram aplicados, quais decisões foram tomadas e que resultados foram alcançados.

No terceiro setor, eventualmente a prestação de contas costuma ser tratada como uma etapa final do projeto, associada ao envio de relatórios e comprovantes a financiadores. Essa visão, embora comum, é limitada. Na prática, prestar contas bem é uma demonstração concreta de capacidade de gestão, compromisso com a transparência e alinhamento com a missão institucional.

Para OSCs de pequeno e médio porte, esse processo é ainda mais decisivo. Com estruturas enxutas, menor margem para erros e maior sensibilidade reputacional, a qualidade da prestação de contas pode influenciar diretamente a continuidade de parcerias, o acesso a novos apoios e a credibilidade institucional. O desafio, portanto, não é apenas cumprir uma obrigação, mas transformar esse processo em um ativo de gestão e sustentabilidade.

Essa integração entre gestão financeira e execução técnica é essencial para uma prestação de contas consistente. Quando orçamento, despesas e entregas caminham juntos, a organização consegue demonstrar com clareza como os recursos foram aplicados, quais resultados foram alcançados e quais critérios orientaram decisões sobre rubricas, elegibilidade de despesas e rateios entre projetos ou financiadores.

Tal coerência fortalece a confiança, além de contribuir para a captação de recursos. Sendo assim, relatórios consistentes, documentação organizada e evidências de boa governança comunicam capacidade de gestão, aumentam as chances de renovação de apoios e abrem espaço para novas parcerias.

Gestão Financeira no Terceiro Setor: um guia para garantir sustentabilidade e transparência nas organizações sociais

 

Planejamento financeiro orienta uma prestação de contas segura

A prestação de contas começa na elaboração do orçamento, seja ele institucional ou vinculado a projetos. É nesse momento que a organização define categorias de despesas, critérios de uso das rubricas, formas de comprovação, indicadores financeiros e físicos, além da separação de receitas e despesas por projeto ou fonte de recurso. Quando essa estrutura está clara desde o início, a execução se torna mais organizada e a consolidação das informações ocorre com menos retrabalho.

Também é fundamental observar as regras de cada financiador para realocações, remanejamentos ou ajustes orçamentários. Alguns permitem mudanças dentro de determinados limites; outros exigem autorização prévia, justificativas formais ou oferecem pouca margem de flexibilidade. Por isso, manter as despesas aderentes ao orçamento aprovado e registrar eventuais alterações com transparência fortalece tanto a prestação de contas contratual quanto a confiança de conselhos, parceiros e apoiadores.

É importante destacar que a qualidade da prestação de contas depende da capacidade da organização de demonstrar o caminho percorrido por cada recurso: de onde veio, como foi autorizado, em que foi aplicado e qual entrega gerou. Para isso, manter registros contínuos, processos de compra bem documentados e despesas classificadas de forma coerente com o orçamento aprovado são processos importantes para garantir a entrega.

Vale destacar que algumas práticas são especialmente relevantes:

  • Registro contínuo das movimentações
    Lançar despesas apenas no encerramento do projeto aumenta o risco de erro, perda de documentos e inconsistências. O controle deve acompanhar a execução.
  • Fluxo de caixa por projeto ou fonte de recurso
    Separar entradas e saídas por iniciativa, financiador ou centro de custo melhora a rastreabilidade e facilita análises internas e externas.
  • Conciliação bancária periódica
    Fechamentos regulares ajudam a identificar inconsistências antes que se tornem problemas maiores na prestação de contas.
  • Documentação comprobatória organizada
    Notas fiscais, recibos, contratos, comprovantes de pagamento, relatórios de execução e evidências de entrega devem estar acessíveis e classificados de forma padronizada.
  • Processo de compra documentado
    Cotações, justificativas de escolha de fornecedores e critérios de contratação fortalecem a transparência. Em compras recorrentes, contratos guarda-chuva e revisões periódicas de fornecedores podem ampliar a segurança do processo.
  • Rateio de custos compartilhados
    Despesas institucionais, como contabilidade, jurídico, comunicação, equipe e custos fixos, devem seguir critérios claros de rateio, preferencialmente pactuados previamente com o financiador.
  • Preparação para diligências e glosas
    Antes do envio ao financiador, é importante revisar se as despesas estão aderentes às regras pactuadas, se a documentação está completa e se há justificativa suficiente para eventuais questionamentos.

 

Transparência, auditoria e reputação institucional

Em um ambiente cada vez mais orientado por confiança, rastreabilidade e integridade, a transparência deixou de ser apenas uma obrigação regulatória e passou a representar um ativo estratégico para as OSCs. A forma como a organização registra, valida e divulga suas informações financeiras impacta diretamente sua credibilidade perante financiadores, parceiros, conselhos e sociedade.

Nesse contexto, mecanismos de controle e verificação independente ganham relevância. Auditorias externas, revisões contábeis independentes e processos estruturados de governança contribuem para aumentar a segurança das informações, fortalecer a conformidade e reduzir riscos operacionais e reputacionais. Mais do que identificar inconsistências, esses instrumentos ajudam a consolidar uma cultura de responsabilidade, transparência e melhoria contínua.

Para organizações que dependem da confiança pública e da mobilização de recursos, a reputação institucional é um patrimônio estratégico. Fragilidades em processos financeiros, inconsistências documentais ou falhas na prestação de contas podem comprometer a capacidade de captação, a manutenção de parcerias e a legitimidade institucional. No terceiro setor, esses impactos raramente permanecem restritos a uma única organização: em um contexto em que a cultura de doação e o Investimento Social Privado (ISP) ainda enfrenta desafios de consolidação no Brasil, episódios de baixa transparência ou fragilidade de governança podem afetar a confiança no setor como um todo, ampliando a cautela de financiadores, investidores sociais e doadores, inclusive em relação a organizações sérias e estruturadas.

A gestão de projetos e a prestação de contas devem ser encaradas como processos integrados e estratégicos. Mais do que cumprir exigências, trata-se de demonstrar, com clareza e consistência, como os recursos confiados à organização foram utilizados, quais decisões foram tomadas e que resultados foram alcançados. Quando bem estruturada, essa prática reduz riscos, fortalece a credibilidade institucional e amplia as possibilidades de renovação de apoios e captação de novos recursos.

Evoluir nesse processo não exige, necessariamente, grandes investimentos. O mais importante é construir rotinas simples, replicáveis e sustentáveis: estruturar o orçamento com foco em acompanhamento, organizar documentos desde o início dos projetos, criar fechamentos mensais, alinhar áreas técnica e financeira, padronizar relatórios e capacitar a equipe. Em um ambiente mais exigente, prestar contas bem deixa de ser apenas uma obrigação administrativa e se torna um investimento na sustentabilidade, na legitimidade e na capacidade da OSC de cumprir sua missão.

Organizações que investem em boas práticas de governança e transparência fortalecem não apenas sua própria sustentabilidade, mas também contribuem para a credibilidade e o amadurecimento do ecossistema filantrópico e social como um todo.

Dr. Marcos Kisil: trajetória visionária para a filantropia brasileira

São Paulo, junho de 2026

Em 1999, Dr. Marcos Kisil idealizou e fundou o IDIS, guiado pela convicção central de que a filantropia, quando orientada por propósito, conhecimento, estratégia e compromisso público, pode ser uma força poderosa para reduzir desigualdades, fortalecer a sociedade civil e ampliar as possibilidades de transformação social no Brasil. Naquela época, também participou da criação de organizações como o GIFE e com isso teve papel determinante para o desenvolvimento deste ecossistema que vemos hoje, inspirando pessoas, instituições e lideranças a compreenderem a filantropia como parte essencial do desenvolvimento do país.

Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, doutor em Administração pela George Washington University e ex-Diretor Regional para América Latina e Caribe da Fundação W.K. Kellogg, Marcos construiu sua trajetória na intersecção entre desenvolvimento social, gestão, filantropia e cidadania. Sua passagem pela Fundação W.K. Kellogg foi decisiva para consolidar sua compreensão da filantropia como agente de transformação das desigualdades sociais e econômicas. Foi nesse contexto que pôde conhecer e atuar de forma profunda nesse campo, experiência que mais tarde contribuiria para a criação do IDIS.

Ao longo dessa caminhada, Marcos formulou aprendizados que ajudaram a orientar a maturidade da organização que fundou: a busca pela excelência, o amor e a dedicação ao próximo e a fidelidade ao propósito. Essas ideias também expressam a própria marca de sua atuação.

Em 2014, ao deixar a liderança executiva do IDIS, Marcos abriu caminho para que Paula Fabiani assumisse a direção da organização, inaugurando um novo ciclo de continuidade e fortalecimento institucional. Mesmo após essa transição, permaneceu próximo, contribuindo de forma ativa como membro do conselho deliberativo e mantendo vivo o compromisso que inspirou a criação do Instituto.

1º edição do Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais

Agora, ao encerrar sua atuação como membro do Conselho Deliberativo, Marcos inicia uma nova etapa em sua relação com o IDIS. Seguirá próximo à organização, na governança da instituição, em sua condição de fundador.

Seu legado, no entanto, vai muito além dos cargos que ocupou ou dos ciclos formais de contribuição institucional. Está na visão de futuro que ajudou a semear. Está na defesa de uma filantropia mais estratégica, colaborativa e comprometida com o bem público. Está na aposta em redes, no fortalecimento da cultura de doação, na valorização das parcerias e na crença de que o investimento social privado pode, e deve, contribuir para um Brasil mais justo, solidário e sustentável.

A presença de Marcos permanece também nas pessoas que inspirou, nas lideranças que formou, nos debates que ajudou a qualificar e nas instituições que apoiou ao longo de sua jornada. O IDIS foi uma escola para centenas de pessoas, que hoje atuam em diferentes áreas, mas que levam consigo os aprendizados e influenciam os locais onde estão.

Marcos escreveu que seu mestre, Dr. Mario Chaves, lhe ensinou que “o passado é o prólogo do futuro”. Em sua trajetória, essa frase ganha sentido concreto: o passado que Marcos ajudou a construir segue servindo de base para os futuros que o campo da filantropia brasileira ainda pode desenhar – mais criativos, mais inovadores, mais influentes e mais comprometidos com a transformação social.

E essa contribuição continua. Marcos segue ativo no setor, dedicando-se de forma significativa ao debate sobre o papel da filantropia no fortalecimento da ciência e ampliando, mais uma vez, as fronteiras de sua atuação.

Dr. Marcos durante I Seminário Internacional ‘Ciência encontra Filantropia’

Ao Dr. Marcos Kisil, nosso reconhecimento e nossa gratidão.

Seguimos em frente, carregando em nossa essência, a visão de quem acreditou em tudo o que a filantropia pode ser.

Equipe IDIS

Encontro promovido pelo IDIS reúne filantropos em diálogos sobre propósito e transformação social

O IDIS realizou a primeira edição do ‘Em conversa com…’, iniciativa criada para promover diálogos mais próximos, profundos e inspiradores entre filantropos e filantropas brasileiros. O encontro reuniu lideranças do campo da filantropia em um ambiente de troca, escuta e aprendizado mútuo.

Nesta primeira edição, o evento contou com a participação de Claudio Haddad, fundador do Insper, e Ticiana Rolim Queiroz, fundadora da Somos Um, que compartilharam reflexões sobre suas trajetórias, propósitos e experiências na promoção de transformações sociais no Brasil.

Ao longo de seus 27 anos de atuação, o IDIS tem trabalhado pelo fortalecimento da filantropia e do investimento social privado no país. Nesse contexto, a filantropia familiar ocupa papel estratégico, especialmente por seu potencial de promover transformações estruturantes e de longo prazo.

Nos últimos anos, o IDIS aprofundou a atuação nesse campo por meio de pesquisas, workshops e da publicação ‘Caminhos para uma atuação mais ampla e estratégica da filantropia familiar brasileira’. Durante esse processo, surgiu de forma recorrente a percepção da importância de ampliar espaços seguros de troca entre pares, ambientes pautados pela confiança, escuta qualificada e compartilhamento de experiências.

 

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Foi a partir dessa escuta que nasceu o “Em conversa com…”, com o propósito de fortalecer conexões humanas, ampliar repertórios e criar oportunidades para conversas que dificilmente acontecem nos fóruns tradicionais.

“O fortalecimento da filantropia também passa pela construção de vínculos e pela criação de espaços que estimulem trocas genuínas entre pessoas que compartilham o desejo de gerar impacto positivo na sociedade”, afima Paula Fabiani, CEO do IDIS.

A iniciativa contou ainda com o apoio da Fundação Bradesco, Movimento Bem Maior, Levisky Legado e UNICEF.

CNBB aprova criação de fundo patrimonial para preservar o patrimônio cultural da Igreja Católica no Brasil, com apoio do IDIS

Iniciativa segue a Lei dos Fundos Patrimoniais e pretende captar doações privadas para restaurar e manter bens sacros em todo o país

A Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aprovou, em abril, a criação do Fundo Patrimonial para o Patrimônio Cultural da Igreja Católica no Brasil. A iniciativa, desenvolvida por meio da Assessoria de Bens Culturais da Comissão Episcopal para Cultura e Educação da CNBB e com o apoio técnico do IDIS, tem como objetivo captar doações privadas para restaurar, conservar e garantir a sustentabilidade financeira da gestão de bens culturais religiosos sob responsabilidade da Igreja, criando uma fonte permanente de financiamento para sua preservação.

O patrimônio cultural católico representa mais de 32% dos bens tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), reunindo igrejas, obras de arte, arquivos históricos e espaços que integram a memória e a identidade brasileira. Apesar dessa relevância histórica e social, ao menos 99 igrejas e edificações religiosas apresentam hoje sérios problemas de conservação, segundo relatório de Bens Materiais do IPHAN divulgado em fevereiro de 2025.

O fundo patrimonial surge como um instrumento para assegurar estabilidade financeira no longo prazo, ampliar a independência institucional, fortalecer a governança e profissionalizar a gestão do patrimônio cultural eclesiástico. O mecanismo é constituído por doações de pessoas físicas e jurídicas cujos recursos são investidos no mercado financeiro por gestores profissionais, sendo utilizados apenas os rendimentos para financiar projetos, garantindo a perenidade das causas apoiadas.

“Vivemos um momento histórico ao aprovar um fundo patrimonial dedicado ao patrimônio cultural brasileiro sob gestão da Igreja Católica. Trata-se de um avanço significativo na forma como asseguramos a conservação desses bens, com um modelo inovador, sustentável, transparente e perene”, comenta Andrea Hanai, gerente de projetos e consultora no IDIS.

O modelo vem ganhando escala no país. O Monitor de Fundos Patrimoniais no Brasil, produzido pelo IDIS de 2026, identificou 128 fundos patrimoniais ativos, que somam patrimônio superior a R$137,5 bilhões. A proposta é criar uma fonte contínua de financiamento complementar aos recursos já existentes, permitindo que dioceses, paróquias, congregações religiosas e instituições culturais ligadas à Igreja ampliem sua capacidade de gestão, conservação e restauração patrimonial.

Seguindo os parâmetros da Lei nº 13.800/2019, o fundo poderá apoiar a CNBB e seus 19 regionais, arquidioceses, dioceses, paróquias, ordens religiosas e equipamentos culturais eclesiásticos que possuam CNPJ próprio e atuação comprovada na gestão de patrimônio cultural. A iniciativa já conta com o apoio de um grupo de trabalho formado pelas Pontifícias Universidades Católicas de todo o país, IPHAN, Ministério Público e representantes da sociedade civil. O Fundo Patrimonial para o Patrimônio Cultural da Igreja Católica no Brasil prestará suporte às instituições elegíveis na elaboração de projetos, qualificação da gestão e captação de recursos. O objetivo é garantir que igrejas e bens religiosos continuem sendo espaços vivos de fé, cultura e acesso público em todo o Brasil.

 

Sobre o IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social

O IDIS é uma organização da sociedade civil independente fundada em 1999 e pioneira em suporte técnico a investidores sociais no Brasil. Com a missão de inspirar, apoiar e promover a filantropia estratégica e seu impacto, o IDIS atende indivíduos, famílias, empresas e institutos e fundações familiares, bem como organizações da sociedade civil, em ações que transformam realidades e contribuem para a redução da desigualdade social no país. Nossa atuação baseia-se no tripé geração de conhecimento, consultoria e realização de projetos de impacto, que contribuem para o fortalecimento do ecossistema da filantropia estratégica e da cultura de doação. Valorizamos a atuação em parceria e a cocriação, acreditando no poder das conexões, do aprendizado conjunto, da diversidade e da pluralidade de pontos de vista.

Paula Fabiani participa do quadro especial ‘Extraordinários’ da GloboNews

Em entrevista a GloboNews, Paula Fabiani, CEO do IDIS, compartilha reflexões sobre cultura de doação. Paula é a única brasileira presente na seleção das 100 pessoas mais influentes da filantropia no mundo pela revista TIME

Outro ponto abordado na conversa foi a importância das novas gerações no fortalecimento da filantropia no Brasil. Para Paula Fabiani, jovens lideranças e herdeiros já demonstram maior consciência sobre responsabilidade social e impacto coletivo.

“A grande notícia positiva é que as novas gerações já têm mais consciência, já vêm com essa questão mais endereçada”, destacou Paula.

Segundo ela, o cenário global de transferência de riqueza nas próximas décadas pode representar uma oportunidade para ampliar o engajamento filantrópico e fortalecer uma cultura de doação mais estruturada no país.

 

Assista a entrevista completa clicando aqui.

 

 

A filantropia como infraestrutura diante da crise climática

Artigo publicado originalmente no Um Só Planeta

Por Marcelo Modesto, gerente da área ESG do IDIS.

As cenas se repetem e, a cada ano, com mais intensidade. Ruas transformadas em rios, famílias desalojadas, serviços públicos colapsados. De Juiz de Fora, com seus episódios recentes de enchentes e desafios nos planos de contingência, a diversas regiões metropolitanas e cidades, o país está cada vez mais vulnerável a eventos extremos. O que se vê não é mais um momento excepcional, mas um padrão consolidado.

Segundo dados recentes lançados pela Ipsos, cerca de um quarto da população já precisou se deslocar por conta de eventos extremos, evidenciando, cada vez mais, que a crise não é apenas ambiental, mas social, econômica e humanitária. O deslocamento forçado rompe vínculos territoriais, além de agravar desigualdades históricas, afetando de forma mais intensa populações já vulnerabilizadas.

O relatório Perspectivas para a Filantropia no Brasil 2026, lançado pelo IDIS, apresenta também um diagnóstico central de que o clima não é mais uma agenda entre outras, mas um fator estruturante que atravessa todas as dimensões: saúde, educação, segurança alimentar, habitação e renda.

È justamente nesse ponto que um debate ainda pouco amadurecido no Brasil precisa avançar: o papel da filantropia como parte da infraestrutura de resposta a crises. Em situações de desastre, o tempo é o recurso mais escasso. O Estado, por mais preparado que possa estar para enfrentar situações como essas, opera com algumas limitações que podem dificultar respostas imediatas na celeridade necessária.

A filantropia, nesse sentido, tem atributos que a tornam particularmente relevante nesses contextos, como maior flexibilidade, rapidez na alocação e direcionamento de recursos, além de uma maior capacidade para assumir riscos.

Fundos emergenciais, por exemplo, permitem mobilizar recursos direcionando apoio a territórios críticos antes mesmo que estruturas públicas consigam se reorganizar. Organizações da sociedade civil, por sua vez, atuam como braços operacionais essenciais, já que estão inseridas nos territórios e conhecem, com precisão, quem precisa de ajuda e como chegar até essas pessoas no momento em que elas mais precisam.

O campo do investimento social privado já demonstra mobilização significativa em desastres. Mas ainda há um desequilíbrio, uma vez que a maior parte das ações se concentra na resposta imediata após eventos climáticos extremos, com pouca incidência em prevenção e adaptação.

Considerando as evidências científicas de que eventos climáticos extremos serão cada vez mais frequentes e intensos, as respostas não podem continuar baseadas apenas em resoluções momentâneas. Nesse sentido, a filantropia deve ser tratada como parceira estratégica capaz de ampliar velocidade, alcance e efetividade, atuando colaborativamente com o estado e iniciativas privadas.

Isso implica, na prática, fortalecer fundos de emergência permanentes, com governança e capacidade de rápida ativação; investir na preparação dos territórios, financiando prevenção, adaptação e resiliência; apoiar organizações locais, que são as primeiras a responder e as últimas a sair; e, sobretudo, atuar de forma articulada, reduzindo lacunas entre planejamento e execução. Especialmente em agendas sensíveis, como é o caso dos desastres climáticos, essa integração é indispensável para solucionarmos os desafios que temos à frente.

Fortalecer a cultura de doação é um desafio coletivo

Autoria: Integrantes do Movimento por uma Cultura de Doação

A 13ª edição do Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica, o FIFE, aconteceu em abril, em Recife, e pela primeira vez, o Movimento por uma Cultura de Doação (MCD) marcou presença. O encontro reuniu mais de 1.700 pessoas de todo o Brasil, representantes de organizações da sociedade civil (OSCs) de diferentes portes e defensoras de múltiplas causas.

Para iniciar esta aproximação, a escolha da abordagem foi simples: destacar a importância da ação de cada um dos presentes no fortalecimento da cultura de doação. Antes mesmo da abertura oficial, realizamos uma masterclass com três horas de duração, que permitiu explorar o assunto com profundidade e envolvendo o público nas reflexões propostas. Para quem está na ponta, a doação tem significado de sobrevivência e de resistência. É também encarada como um esforço individual – o captador de recursos busca engajar doadores para a sua própria organização. A sessão, entretanto, expandiu esses entendimentos. Daniela Saraiva, coordenadora executiva, e Douglas Gonzalez, integrante do comitê gestor do MCD, apresentaram o conceito de cultura de doação, mostrando que quando doar é um valor da sociedade, um hábito cotidiano, o recurso flui também de forma mais fácil e permeia a capilaridade social, chegando a que mais precisa: as organizações sociais presentes nos territórios mais vulneráveis de nosso país.

Para o fortalecimento de uma cultura de doação, o MCD propõe cinco diretrizes, cada uma com ações correspondentes e com as quais podem contribuir o poder público, investidores socioambientais, organizações estruturantes, as próprias OSCs e qualquer cidadão. As próprias diretrizes têm recomendações que podem ser utilizadas para inspirar, direcionar e mesmo planejar ações que contribuam para esta agenda.

Outros membros do MCD foram chamados para compor o painel. Para aquecer o debate: dados. Luisa Lima, gerente de conhecimento do IDIS, apresentou os resultados da Pesquisa Doação Brasil 2024, mostrando como pensa e como age o doador individual no Brasil. Naquele ano, 43% dos brasileiros fizeram algum tipo de doação em dinheiro para OSCs, movimentos e campanhas, mobilizando R$ 24,3 bilhões de reais. O estudo revela que o doador está mais racional, demandando mais informações sobre as organizações e sobre o impacto gerado, por isso aspectos como governança, comunicação e avaliação passam a ser tão valorizados e são elementos importantes para o fortalecimento da cultura. Também importante é o letramento da mídia, que tem influência direta na decisão de doar (e de não doar).

Relatos de casos reais, organizações que captam recursos e que se percebem como agentes deste processo de construção da cultura de doação, contribuíram para inspirar o público presente. 

Joanna Calazans, gerente de filantropia da Aldeias Infantis SOS, trouxe seu ponto de vista a partir da experiência de uma organização que tem uma atuação já consolidada e milhares de doadores. Para ela, estar atento às tendências e mudanças sociais é imprescindível para garantir que cada vez mais pessoas possam se conectar com causas sociais. Neste sentido, fomentar a cultura de doação também é criar narrativas que sensibilizem para a ação. 

Jovemar dos Santos Silva Junior, diretor executivo da ReappMobi, abordou sua experiência com a gestão de captação de recursos através de leis de incentivo à cidadania Fiscal, conhecida em São Paulo como Nota Fiscal Paulista e no Maranhão como Nota Solidária, e trouxe a importância de estruturar campanhas de contato com doadores através de dados relacionais, medir indicadores como tempo de adesão do doador com a campanha, percepção do doador no ponto de contato com a causa da organização e motivadores de doação são importantes para engajar doadores com constância e consistência na relação Instituição-Doador e garantir sustentabilidade às Organizações Sociais. 

O papel do poder público também esteve presente no debate a partir da fala de Candice Araújo, assessora do ELO Ligação e Organização, organização que integra a Plataforma por um Novo Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil – Plataforma MROSC, articulação nacional que atua pelo aprimoramento do ambiente social e legal de atuação das OSCs e pelo fortalecimento de suas relações de parceria com o Estado. Pelo ELO, Candice também ocupa a vice-presidência do CONFOCO Nacional, espaço estratégico para o avanço da agenda MROSC – nas dimensões normativa e de produção de conhecimento. 

Em sua contribuição, destacou que a Lei nº 13.019/2014 consolidou regras para as parcerias entre Estado e sociedade civil, reforçando que organizações e poder público são corresponsáveis na promoção do bem comum. Nesse contexto, ressaltou que, embora a doação seja essencial para o fortalecimento das causas sociais e para a redução das desigualdades, ela não pode substituir a responsabilidade estatal na garantia de direitos e na implementação de políticas públicas. A reflexão reforçou a importância de compreender a cultura de doação como agenda complementar, inserida em um ecossistema mais amplo de corresponsabilidade social.

A fórmula escolhida – conceitos, dados, casos práticos e reflexões – foi repetida em versão pocket, durante o FIFE. Ao todo, quase 200 pessoas participaram dos debates. Em ambos momentos, apresentamos também o Dia de Doar, um movimento global sobre generosidade que este ano está de casa nova: o Movimento por uma Cultura de Doação. 

Mais do que apresentar uma iniciativa, provocamos os presentes a refletir: se queremos ver o Brasil como um país mais doador e, de fato, enraizar a cultura de doação, precisamos falar sobre doação, provocar diálogos e engajar pessoas nessas conversas. Essa é uma necessidade que vai além das nossas causas individuais — é um compromisso compartilhado para a construção de um país mais justo, equitativo e democrático. Não há como a doação florescer, se não falamos sobre isto. 

A semana foi bonita, com muitos aprendizados e embalada pela hospitalidade pernambucana. Participar de espaços como estes, chamar mais pessoas para a conversa, para a reflexão e para a ação são elementos essenciais. Afinal, fortalecer a cultura de doação é um esforço coletivo. E fechamos com o futuro que desejamos, trazendo a citação do poeta e filósofo libanês Khalil Gibran, lembrada por uma das participantes do evento: É belo dar quando solicitado; é mais belo, porém, dar por haver apenas compreendido.”