×

A filantropia como infraestrutura diante da crise climática

Artigo publicado originalmente no Um Só Planeta

Por Marcelo Modesto, gerente da área ESG do IDIS.

As cenas se repetem e, a cada ano, com mais intensidade. Ruas transformadas em rios, famílias desalojadas, serviços públicos colapsados. De Juiz de Fora, com seus episódios recentes de enchentes e desafios nos planos de contingência, a diversas regiões metropolitanas e cidades, o país está cada vez mais vulnerável a eventos extremos. O que se vê não é mais um momento excepcional, mas um padrão consolidado.

Segundo dados recentes lançados pela Ipsos, cerca de um quarto da população já precisou se deslocar por conta de eventos extremos, evidenciando, cada vez mais, que a crise não é apenas ambiental, mas social, econômica e humanitária. O deslocamento forçado rompe vínculos territoriais, além de agravar desigualdades históricas, afetando de forma mais intensa populações já vulnerabilizadas.

O relatório Perspectivas para a Filantropia no Brasil 2026, lançado pelo IDIS, apresenta também um diagnóstico central de que o clima não é mais uma agenda entre outras, mas um fator estruturante que atravessa todas as dimensões: saúde, educação, segurança alimentar, habitação e renda.

È justamente nesse ponto que um debate ainda pouco amadurecido no Brasil precisa avançar: o papel da filantropia como parte da infraestrutura de resposta a crises. Em situações de desastre, o tempo é o recurso mais escasso. O Estado, por mais preparado que possa estar para enfrentar situações como essas, opera com algumas limitações que podem dificultar respostas imediatas na celeridade necessária.

A filantropia, nesse sentido, tem atributos que a tornam particularmente relevante nesses contextos, como maior flexibilidade, rapidez na alocação e direcionamento de recursos, além de uma maior capacidade para assumir riscos.

Fundos emergenciais, por exemplo, permitem mobilizar recursos direcionando apoio a territórios críticos antes mesmo que estruturas públicas consigam se reorganizar. Organizações da sociedade civil, por sua vez, atuam como braços operacionais essenciais, já que estão inseridas nos territórios e conhecem, com precisão, quem precisa de ajuda e como chegar até essas pessoas no momento em que elas mais precisam.

O campo do investimento social privado já demonstra mobilização significativa em desastres. Mas ainda há um desequilíbrio, uma vez que a maior parte das ações se concentra na resposta imediata após eventos climáticos extremos, com pouca incidência em prevenção e adaptação.

Considerando as evidências científicas de que eventos climáticos extremos serão cada vez mais frequentes e intensos, as respostas não podem continuar baseadas apenas em resoluções momentâneas. Nesse sentido, a filantropia deve ser tratada como parceira estratégica capaz de ampliar velocidade, alcance e efetividade, atuando colaborativamente com o estado e iniciativas privadas.

Isso implica, na prática, fortalecer fundos de emergência permanentes, com governança e capacidade de rápida ativação; investir na preparação dos territórios, financiando prevenção, adaptação e resiliência; apoiar organizações locais, que são as primeiras a responder e as últimas a sair; e, sobretudo, atuar de forma articulada, reduzindo lacunas entre planejamento e execução. Especialmente em agendas sensíveis, como é o caso dos desastres climáticos, essa integração é indispensável para solucionarmos os desafios que temos à frente.

Transformando Territórios conclui segunda formação em Governança para o Terceiro Setor

Em abril, o programa Transformando Territórios concluiu a segunda formação em Governança para Terceiro Setor, ampliando o alcance e reforçando o compromisso com o fortalecimento institucional do terceiro setor em diferentes territórios.

Voltada para pessoas que já atuam ou desejam atuar em posições de liderança dentro de OSCs, a formação reuniu mais de 70 participantes, representando mais de 30 municípios, distribuídos em 14 estados brasileiros. A iniciativa contou com representantes indicados por Fundações e Institutos Comunitários (FICs) parceiros do programa.

Estruturada em quatro encontros síncronos, a formação contou com emissão de certificado para os participantes. Ao longo da programação, foram abordados temas fundamentais para o fortalecimento das organizações, como introdução ao terceiro setor e a conceitos e práticas de governança de sucesso, além de sustentabilidade institucional e construção de legado.

O objetivo da formação foi aprofundar a compreensão sobre a importância da governança como elemento estratégico para a transparência, sustentabilidade e efetividade das OSCs, contribuindo para o desenvolvimento de lideranças mais preparadas para enfrentar desafios e ampliar o impacto social das organizações.

“Concluir essa formação com mais de 70 lideranças certificadas é plantar sementes para o futuro do setor social. Governança é transparência, compromisso e, acima de tudo, a abertura para novas vozes no processo decisório, garantindo que as organizações atendam demandas socioambientais legítimas e maximizem seu impacto.”, comenta Felipe Insunza Groba, gerente de projetos do IDIS, e ministrante da formação.

A primeira turma, concluída em 2025, foi direcionada exclusivamente a membros das FICs participantes do programa Transformando Territórios. Já essa segunda fase teve como público lideranças de OSCs atuantes nos territórios dessas fundações e institutos, auxiliando na melhoria das práticas de governança de forma mais ampla. 

A iniciativa integra as estratégias do Transformando Territórios, com apoio do Movimento Bem Maior e da Fundação FEAC, fortalecendo Fundações e Institutos Comunitários e impulsionando organizações que atuam diretamente na promoção do desenvolvimento local.

“É fundamental tratar da Governança. Ainda é tomado como algo secundário, mas não deve ser assim. A FUNDAES teve a oportunidade de reforçar isso no seu âmbito.

Os testemunhos que ouvimos é de que a Formação em Governança foi espetacular. Entidades já “maduras” disseram que o assunto deve ser revisitado. Falar aos Conselheiros da sua indispensável participação para advocacy e captação de recursos, além de fiscalizar a Gestão, é de extrema importância. E nisso o Felipe foi estratégico durante a formação. Muito obrigado ao IDIS”, agradece  Robson Melo, diretoria da FUNDAES, uma das organizações participantes do programa Transformando Territórios.

Sobre o Transformando Territórios

A iniciativa é do Programa Transformando Territórios, e conta com apoio do Movimento Bem Maior e da Fundação FEAC, auxiliando no fortalecimento das Fundações e Institutos Comunitários (FICs) participantes e as organizações que fazem a mudança social acontecer nos territórios.

Conheça nossos materiais sobre Governança

Começa a pesquisa para Anuário de Desempenho de Fundos Patrimoniais 2025

Está iniciada a coleta de dados para o Anuário de Desempenho dos Fundos Patrimoniais 2025. Esta é a quinta edição da publicação, realizada pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e Coalizão pelos Fundos Patrimoniais Filantrópicos e que este ano tem o apoio estratégico da Fundação Bradesco e Movimento Bem Maior, e o apoio de 1618 Investimentos, Fundação José Luiz Setúbal, Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Levisky Legado e Pragma Gestão de Patrimônio.

A iniciativa traz informações sobre fluxo de caixa (patrimônio, doações recebidas, investimentos na causa e resgates para manutenção própria); alocação e rentabilidade dos investimentos; estrutura da governança (com dados sobre a presença de membros independentes e participação feminina), investimento responsável, além de perspectivas para o futuro.

A última edição do estudo, no ano passado, contou com 92 respondentes com patrimônio somado de R$ 139 bilhões.

Serão enviados emails convite para os fundos mapeados pelo IDIS, mas gestores interessados em integrarem o Anuário podem entrar em contato com a equipe do IDIS pelo email: anuariofp@idis.org.br ou por WhatsApp (11) 91708-5775.

Os fundos respondentes terão a oportunidade de participar de um evento fechado entre Gestores de Fundos Patrimoniais no lançamento da publicação.

Para conhecer as informações solicitadas no questionário, o disponibilizamos também completo em Word (acesse aqui). Mas atenção: só serão válidas respostas enviadas via sistema.

PRAZO DE PREENCHIMENTO

As respostas oficiais deverão ser preenchidas no sistema online clicando aqui até 31 de maio de 2025.

 

Conheça o Anuário de Desempenho dos Fundos Patrimoniais 2024.

 

REALIZAÇÃO

SOBRE FUNDOS PATRIMONIAIS

Os fundos patrimoniais, ou endowments, são mecanismos que contribuem para a sustentabilidade financeira de organizações e causas. No Brasil, o primeiro foi criado na década de 50 e se intensificaram a partir de 2019, com a sansão da Lei 13.800/19. Segundo o Monitor de Fundos Patrimoniais, há hoje no país mais de 130 fundos patrimoniais ativos.

 

Saiba mais:

2° Encontro de Empresas Signatárias do Compromisso 1% reúne lideranças para debater e estimular a doação empresarial

No dia 29/04, em São Paulo, aconteceu o segundo Encontro de Empresas Signatárias do Compromisso 1%, um evento exclusivo promovido pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e Instituto MOL, que reuniu empresas protagonistas na transformação positiva no Brasil, que se comprometeram a doar ou já destinam ao menos 1% do lucro líquido anual para organizações da sociedade civil, movimentos ou coletivos que atuam em prol de causas socioambientais de interesse público. O Compromisso 1% reúne hoje 27 empresas signatárias, com novas organizações em processo de adesão.


Veja o que é Investimento Social Privado.


Com o objetivo de promover reflexões sobre o papel da filantropia estratégica, a programação contou com painéis e rodas de conversa com lideranças corporativas, conselheiros do Compromisso 1% e representantes das empresas signatárias e algumas empresas que estão finalizando o processo de adesão.

2º Encontro de empresas signatárias do Compromisso 1% na sede da KPMG Brasil / Foto: André Porto

Paula Fabiani, CEO do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – e de Rodrigo Pipponzi, membro do Comitê de Sustentabilidade da RD Saúde, lideraram o painel “Pessoas, propósito e legado: geração de valor para dentro e fora das empresas”, e debateram como o Investimento Social Privado pode gerar valor para os públicos de interesse da empresa, sejam internos ou externos. Já as rodas de conversas, mediadas por empresas signatárias e organizações do comitê consultivo do movimento, abordaram temas como alinhamento entre estratégia empresarial e investimento socioambiental, sensibilização e engajamento de lideranças, relacionamento com públicos externos, monitoramento e avaliação de impacto, comunicação como ferramenta de valor e diferentes modalidades de doação, promovendo conexões qualificadas e aprendizado coletivo.

Fechando com chave de ouro,  Rafaella Carvalho, Diretora Executiva na Cyrela Brazil Realty e Bruna Silva, Gerente Executiva de Impacto Social na RD Saúde, inspiraram ainda mais os presentes, reforçando a importância do compromisso contínuo com a filantropia estratégica e o papel das empresas na geração de impacto positivo na sociedade.

O II Encontro de Empresas Signatárias do Compromisso 1% marcou um avanço essencial: aproximar empresas signatárias e empresas que querem assumir um compromisso público e ter uma atuação mais conectada com a transformação socioambiental. Mais do que alinhamento de discurso, o encontro mostrou que, quando as empresas atuam de forma conjunta, elas podem ampliar o potencial de gerar mudanças concretas no Brasil.


QUER FAZER PARTE DESSA TRANSFORMAÇÃO?

Se a sua empresa também acredita no poder da doação estratégica para construir um futuro mais sustentável, acesse e saiba como aderir ao movimento. Junte-se às empresas que já estão mudando o mundo com apenas 1%.

Fortalecer a cultura de doação é um desafio coletivo

Autoria: Integrantes do Movimento por uma Cultura de Doação

A 13ª edição do Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica, o FIFE, aconteceu em abril, em Recife, e pela primeira vez, o Movimento por uma Cultura de Doação (MCD) marcou presença. O encontro reuniu mais de 1.700 pessoas de todo o Brasil, representantes de organizações da sociedade civil (OSCs) de diferentes portes e defensoras de múltiplas causas.

Para iniciar esta aproximação, a escolha da abordagem foi simples: destacar a importância da ação de cada um dos presentes no fortalecimento da cultura de doação. Antes mesmo da abertura oficial, realizamos uma masterclass com três horas de duração, que permitiu explorar o assunto com profundidade e envolvendo o público nas reflexões propostas. Para quem está na ponta, a doação tem significado de sobrevivência e de resistência. É também encarada como um esforço individual – o captador de recursos busca engajar doadores para a sua própria organização. A sessão, entretanto, expandiu esses entendimentos. Daniela Saraiva, coordenadora executiva, e Douglas Gonzalez, integrante do comitê gestor do MCD, apresentaram o conceito de cultura de doação, mostrando que quando doar é um valor da sociedade, um hábito cotidiano, o recurso flui também de forma mais fácil e permeia a capilaridade social, chegando a que mais precisa: as organizações sociais presentes nos territórios mais vulneráveis de nosso país.

Para o fortalecimento de uma cultura de doação, o MCD propõe cinco diretrizes, cada uma com ações correspondentes e com as quais podem contribuir o poder público, investidores socioambientais, organizações estruturantes, as próprias OSCs e qualquer cidadão. As próprias diretrizes têm recomendações que podem ser utilizadas para inspirar, direcionar e mesmo planejar ações que contribuam para esta agenda.

Outros membros do MCD foram chamados para compor o painel. Para aquecer o debate: dados. Luisa Lima, gerente de conhecimento do IDIS, apresentou os resultados da Pesquisa Doação Brasil 2024, mostrando como pensa e como age o doador individual no Brasil. Naquele ano, 43% dos brasileiros fizeram algum tipo de doação em dinheiro para OSCs, movimentos e campanhas, mobilizando R$ 24,3 bilhões de reais. O estudo revela que o doador está mais racional, demandando mais informações sobre as organizações e sobre o impacto gerado, por isso aspectos como governança, comunicação e avaliação passam a ser tão valorizados e são elementos importantes para o fortalecimento da cultura. Também importante é o letramento da mídia, que tem influência direta na decisão de doar (e de não doar).

Relatos de casos reais, organizações que captam recursos e que se percebem como agentes deste processo de construção da cultura de doação, contribuíram para inspirar o público presente. 

Joanna Calazans, gerente de filantropia da Aldeias Infantis SOS, trouxe seu ponto de vista a partir da experiência de uma organização que tem uma atuação já consolidada e milhares de doadores. Para ela, estar atento às tendências e mudanças sociais é imprescindível para garantir que cada vez mais pessoas possam se conectar com causas sociais. Neste sentido, fomentar a cultura de doação também é criar narrativas que sensibilizem para a ação. 

Jovemar dos Santos Silva Junior, diretor executivo da ReappMobi, abordou sua experiência com a gestão de captação de recursos através de leis de incentivo à cidadania Fiscal, conhecida em São Paulo como Nota Fiscal Paulista e no Maranhão como Nota Solidária, e trouxe a importância de estruturar campanhas de contato com doadores através de dados relacionais, medir indicadores como tempo de adesão do doador com a campanha, percepção do doador no ponto de contato com a causa da organização e motivadores de doação são importantes para engajar doadores com constância e consistência na relação Instituição-Doador e garantir sustentabilidade às Organizações Sociais. 

O papel do poder público também esteve presente no debate a partir da fala de Candice Araújo, assessora do ELO Ligação e Organização, organização que integra a Plataforma por um Novo Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil – Plataforma MROSC, articulação nacional que atua pelo aprimoramento do ambiente social e legal de atuação das OSCs e pelo fortalecimento de suas relações de parceria com o Estado. Pelo ELO, Candice também ocupa a vice-presidência do CONFOCO Nacional, espaço estratégico para o avanço da agenda MROSC – nas dimensões normativa e de produção de conhecimento. 

Em sua contribuição, destacou que a Lei nº 13.019/2014 consolidou regras para as parcerias entre Estado e sociedade civil, reforçando que organizações e poder público são corresponsáveis na promoção do bem comum. Nesse contexto, ressaltou que, embora a doação seja essencial para o fortalecimento das causas sociais e para a redução das desigualdades, ela não pode substituir a responsabilidade estatal na garantia de direitos e na implementação de políticas públicas. A reflexão reforçou a importância de compreender a cultura de doação como agenda complementar, inserida em um ecossistema mais amplo de corresponsabilidade social.

A fórmula escolhida – conceitos, dados, casos práticos e reflexões – foi repetida em versão pocket, durante o FIFE. Ao todo, quase 200 pessoas participaram dos debates. Em ambos momentos, apresentamos também o Dia de Doar, um movimento global sobre generosidade que este ano está de casa nova: o Movimento por uma Cultura de Doação. 

Mais do que apresentar uma iniciativa, provocamos os presentes a refletir: se queremos ver o Brasil como um país mais doador e, de fato, enraizar a cultura de doação, precisamos falar sobre doação, provocar diálogos e engajar pessoas nessas conversas. Essa é uma necessidade que vai além das nossas causas individuais — é um compromisso compartilhado para a construção de um país mais justo, equitativo e democrático. Não há como a doação florescer, se não falamos sobre isto. 

A semana foi bonita, com muitos aprendizados e embalada pela hospitalidade pernambucana. Participar de espaços como estes, chamar mais pessoas para a conversa, para a reflexão e para a ação são elementos essenciais. Afinal, fortalecer a cultura de doação é um esforço coletivo. E fechamos com o futuro que desejamos, trazendo a citação do poeta e filósofo libanês Khalil Gibran, lembrada por uma das participantes do evento: É belo dar quando solicitado; é mais belo, porém, dar por haver apenas compreendido.”

Entre o uso difuso e a ausência de estratégia

Artigo publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil

Por Henrique Barreto, gerente de projetos do IDIS, e Cássio Aoqui, cofundador do Canal SabIAr

Há um equívoco recorrente no debate sobre inovação no terceiro setor: o de que as organizações da sociedade civil ainda estão à margem da transformação digital. Os dados mais recentes do Programa IA.3, realizado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – IDIS com parceria técnica do Canal SabIAr e suporte do Google.org, mostram o contrário. A inteligência artificial já entrou no cotidiano das organizações da sociedade civil brasileiras, mas ainda de forma fragmentada, pouco estruturada e, em muitos casos, desprotegida.

A análise de 532 organizações inscritas no programa revela um cenário que merece atenção. Trata-se de uma amostra diversa, com organizações de diferentes portes (51% pequeno, 23% médio e 27% grande) e presença nacional, ainda que com concentração no Sudeste (62%). Esse recorte, embora não representativo de todo o setor, oferece pistas relevantes sobre tendências em curso.

Apenas uma minoria declara não utilizar IA no dia a dia. Em contrapartida, a institucionalização desse uso é incipiente com cerca de 40% das organizações apresentando baixo ou nenhum nível de formalização, o que indica que a tecnologia está mais presente como iniciativa individual do que como estratégia organizacional. A própria maturidade média na adoção de IA é intermediária (1,9 em uma escala de 0 a 4), com a institucionalização aparecendo como a dimensão mais frágil.

Henrique Barreto, gerente de projetos do IDIS, em apresentação sobre inteligência artificial no terceiro setor durante FIFE 2026

Esse descompasso, entre alto uso e baixa governança, é o ponto central da discussão. A IA já está sendo usada para tarefas operacionais, comunicação e apoio à gestão. No entanto, ela ainda não foi plenamente incorporada como ferramenta de desenvolvimento institucional. Faltam direção, investimento e, sobretudo, diretrizes claras.

E os dados são contundentes, 95% das organizações não possuem políticas ou orientações formais para o uso de IA. Ao mesmo tempo, 75% utilizam ferramentas gratuitas, muitas vezes sem garantias adequadas de segurança ou proteção de dados. Trata-se de uma combinação arriscada, especialmente em um setor que lida diretamente com populações em situação de vulnerabilidade e, por consequência, com informações sensíveis.

Outro dado revelador diz respeito às barreiras percebidas. A falta de conhecimento e o custo das ferramentas aparecem como os principais entraves à adoção. Não por acaso, começam a surgir iniciativas de capacitação em IA e tecnologia voltadas às organizações sociais, como o próprio programa IA.3 – Inteligência Artificial para o Terceiro Setor. Já os riscos éticos e de privacidade são pouco mencionados. Apenas 15% das organizações os apontam como barreira, o que sugere não uma ausência de riscos, mas uma lacuna de compreensão sobre eles. Em outras palavras, o debate sobre uso responsável ainda não acompanhou a velocidade da adoção da tecnologia.

Isso, no entanto, não diminui o potencial transformador da IA para o terceiro setor, pelo contrário. Organizações que conseguem integrar tecnologia à sua estratégia institucional ampliam sua capacidade de análise, ganham eficiência operacional e fortalecem sua incidência. Em um contexto de crescente pressão por resultados e transparência, isso é central.

Mas há uma diferença importante entre usar e saber usar. O que os dados indicam é que o terceiro setor brasileiro já atravessou a fase da experimentação inicial, mas ainda não consolidou uma cultura de uso estratégico da inteligência artificial. E essa transição não acontecerá espontaneamente.

Ela exige investimento, não apenas financeiro, mas também em formação, governança e cultura organizacional. Exige que lideranças incorporem o tema como parte da agenda institucional, e não como curiosidade tecnológica. E exige, sobretudo, que o campo da filantropia reconheça seu papel nesse processo: apoiar o fortalecimento digital das organizações como parte indissociável do fortalecimento da sociedade civil.

A inteligência artificial não é neutra, nem inevitavelmente benéfica. Seu impacto depende das escolhas que fazemos agora. No terceiro setor, isso significa sair do uso disperso e avançar para uma adoção consciente e orientada por propósito. O desafio já não é acessar a tecnologia, mas criar condições para que seu uso seja estratégico, ético e responsável.

Monitor de Fundos Patrimoniais no Brasil

O Monitor de Fundos Patrimoniais no Brasil é uma iniciativa do IDIS e da Coalizão pelos Fundos Filantrópicos para o acompanhamento de endowments em atividade no Brasil.

Os dados são obtidos a partir de questionários respondidos por gestores destes fundos ou por meio da consulta pública em sites ou veículos de imprensa.

A atualização é constante. Para passar a integrar o levantamento ou modificar algum dado, gestores de fundos patrimoniais podem preencher o questionário oficial. Solicite o link escrevendo para comunicacao@idis.org.br

Acesse aqui os dados disponíveis sobre os fundos patrimoniais mapeados.

O Monitor de Fundos Patrimoniais no Brasil identificou 128 fundos patrimoniais ativos, cujo patrimônio total informado é de R$ 137.583.805.990.

Acesse abaixo a planilha completa com informações sobre as causas dos fundos e também fonte da informação.

Monitor IDIS dE Fundos Patrimoniais no Brasil – levantamento completo

 

 

Nome 

Ano da criação

Patrimônio

Sede

Aldeias Infantis SOS 2024 R$ 8.000 SP
Amigos da Alef Peretz Organização Gestora do Fundo Patrimonial 2021 R$ 20.219.121 SP
Arcanjos Endowment 2026 Não informado DF
Associação Amigos da Escola Paulista de Medicina (Unifesp) 2019 R$ 2.412.366 SP
Associação Amigos Direito UERJ 2017 R$ 349.948 RJ
ASA – Associação Santo Agostinho 2018 R$ 106.000.000 SP
Associação Beneficente Alzira Denise Hertzog Da Silva (Instituto Devive)
2001 R$ 67.000.000 SP
Associação de Assistência à Criança e ao Adolescente Cardíacos e aos Transplantados do Coração (ACTC)
2023 R$ 25.083.611 SP
Associação Endowment Direito GV 2011 R$ 6.655.200 SP
Associação Escola Panamericana de Porto Alegre 2022 R$ 15.000.000 RS
Associação Feminina de Estudos Sociais e Universitários (AFESU) 2018 R$ 595.984 SP
Associação Fundo Areguá 2016 R$ 12.873.091 SP
Associação Fundo Patrimonial Amigos da Poli (Escola Politécnica da USP) 2012 R$ 63.500.00 SP
Associação Fundo Patrimonial – AXUXÊ (Faculdade de Medicina da FMABC) 2023 R$ 61.039 SP
Associação Fundo Patrimonial Patronos (Unicamp – alunos) 2020 R$ 2.500.000 SP
Associação Gestora do Fundo Patrimonial em Apoio à Faculdade de Direito da UFRGS 2021 Não informado RS
Associação Gestora do Fundo Patrimonial Endowment Chronos (USP São Carlos – comunidade) 2024 R$ 1.500.000 SP
Associação Irmão Norberto Rauch (Endowment da PUC-RS) 2020 Não informado SP
Associação Rosa Penido 2024 R$ 106.000.000 SP
Associação São Joaquim 2006 R$ 2.130.404 SP
Associação Umane 2016 R$ 1.432.342.244 SP
Fundo Baobá 2016 R$ 131.866.834 SP
C de Cultura 2017 R$ 20.833.679 SP
Casa Pequeno Mundo Não informado SP
Conecta EAUFBA (Escola de Administração da UFBA) 2022 R$ 150.000 BA
Endowment Alumni Direito Mackenzie 2022 R$ 2.000 SP
Endowment do CEAP 2018 R$ 654.178 SP
CIP – Congregação Israelita Paulista 2015 Não informado SP
Endowments do Brasil – Fundo Trans Casa Chama 2022 Não informado SP
Endowment IRM (Instituto Rodrigo Mendes) 2015 R$ 45.718.567 SP
Endowment PUC-Rio 2019 R$ 7.069.152 RJ
Endowment Sempre FEA (FEAUSP – alunos) 2020 R$ 10.200.000 SP
Fonte Endowment 2023 Não informado DF
Fundação Antonio e Helena Zerrenner INB 1936 R$ 32.711.417.000 SP
Fundação Ary Frauzino para Pesquisa e Controle do Câncer (Fundação do Câncer) 1991 R$ 65.390.000 RJ
Fundação Banco do Brasil 2008 R$ 283.628.879 DF
Fundação Bradesco 1956 R$ 91.000.000.000 SP
Fundação Carlos Chagas – FCC 1964 Não informado SP
Fundação Darcy Chagas 2020  R$6.297.772 RJ
Fundação de Apoio ao Desenvolvimento Científico da Universidade Estadual de Maringá – FADEC-UEM 2024 R$ 4.576 PR
Fundação Dorina Nowill 2023 Não informado SP
Fundação Estudar 2018 R$ 53.164.832 SP
Fundação Fundo Brasil de Direitos Humanos 2007 R$ 45.871.106 SP
Fundação Fundo Patrimonial FEAUSP (gestores) 2015 R$ 1.622.626 SP
Fundação Gestora de Fundo Patrimonial da Universidade de São Paulo (USP) 2021 R$ 23.997.260 SP
Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza 1996 R$ 34.093.271 PR
Fundação Itaú 1988 R$ 4.184.901.000 SP
Fundação José Luiz Setúbal 2016 R$ 365.440.002 SP
Fundação Lia Maria Aguiar – FLMA 2008 R$ 680.000.000 SP
Fundação Maria Emilia Não informado BA
Fundação St. Pauls de Apoio à Educação 2021 R$ 26.147.000 SP
Fundação Tide Setubal 2010 R$ 120.732.446 SP
Fundação Uniselva 2002 R$ 1.158.490 MT
Fundo Amanhã (Administração UFRGS) 2022 R$ 2.809.966 RS
Fundo Apontar 2015 R$ 20.000.00 RJ
Fundo Betinho – Ação da Cidadania 2018 R$ 69.514.534 RJ
Fundo Catarina 2021 R$ 2.190.029 SC
Fundo Centenário (Escola de Engenharia da UFRGS) 2019 R$ 2.836.048 RS
Fundo Comunitário da Maré – FCDM 2021 R$ 21.496.205 RJ
Fundo de Bolsas (Fundação Dom Cabral) 2025 R$ 12.000.000 MG
Fundo de Apoio ao Jornalismo Investigativo – F/ABRAJI  2016 Não informado SP
Fundo de Capital – Endowment – Fundação Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de SP) 2006 R$ 66.590.563 SP
Fundo de Educação Social do Instituto Elos 2021 R$ 1.590.311 SP
Fundo de Endowment do Instituto Líderes do Amanhã 2019 R$ 4.200.000 ES
Fundo de Fomento à Filantropia – FFF (IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social) 2024 R$ 10.100.000 SP
Fundo de Sustentabilidade Financeira (FALM – Fundação André e Lúcia Maggi) 2017 R$ 20.026.888 MT
Fundo FICA 2015 R$ 8.000.000 SP
Fundo Figueira 1964 Não informado SP
Fundo Eterno Bem 2021 R$ 553.956 RJ
Fundo FAS (Fundação Amazônia Sustentável) 2008 R$ 52.727.000 AM
Fundo Gerações 2008 R$ 2.646.000 RS
Fundo Helda Gerdau 2019 Não informado RS
Fundo iGMK – Instituto George Mark Klabin 1994 R$ 11.544.403 SP
Fundo Patrimonial Amigos do Hospital do Fundão (RJ) 2016 Não informado RJ
Fundo Patrimonial Amigos da Univali 2019 R$ 116.636 SC
Fundo Patrimonial Amigos do Brasil Central 2019 R$ 60.000 GO
Fundo Patrimonial Associação Projeto Gauss – FPPG 2019 R$ 5.589.899 SP
Fundo Patrimonial Augere (FMUSP) 2015 R$ 234.440 SP
Fundo Patrimonial Aventura de Construir – Já, Devagar e Sempre 2023 R$ 568.785 SP
Fundo Patrimonial da Brazil Startups 2022 R$ 10.000 DF
Fundo Patrimonial da Fundação Delfim Mendes Silveira (FDMS) – UFPel 2024 Não informado RS
Fundo Patrimonial da Fundação Grupo Volkswagen 2002 R$ 275.069.659 SP
Fundo Patrimonial da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal 1965 R$ 622.800.000 SP
Fundo Patrimonial da Fundação Romi 1999 R$ 84.000.000 SP
Fundo Patrimonial da UFC 2024 Não informado CE
Fundo Patrimonial da UNICAMP – LUMINA (Reitoria) 2020 R$ 4.557.853 SP
Fundo Patrimonial do IMS 1995 R$ 1.250.000.000 SP
Fundo Patrimonial do Instituto Acaia 2016 R$ 427.935.060 SP
Fundo Patrimonial do Instituto Alana 2013 R$ 461.988.062 SP
Fundo Patrimonial do Instituto Ayrton Senna 2017 R$ 153.000.000 SP
Fundo Patrimonial do Reciclar 2016 R$ 7.771.572 SP
Fundo Patrimonial Eliezer Max Não informado Não informado RJ
Fundo Patrimonial PROSPERA – Unesp 2022 R$ 1.000.000 SP
Fundo Perpetuidade SOS Mata Atlântica 2009 R$ 69.724.835 SP
Fundo Patrimonial UFV 2024 Não informado MG
Fundo Polifonia (Orquestra de Novo Hamburgo) 2025 Não informado RS
Fundo ReCivitas da Renda Básica 2020 R$ 110.000 SP
FUNSAI (Fundação Nossa Senhora Auxiliadora do Ipiranga) 1943 R$ 135.000.000 SP
FUTURE – Fundo Territórios Unidos por Recursos para a Educação 2023 R$ 1.600.000 AM
Futurin – Funds for life (Hospital Pequeno Príncipe) 2024 R$ 3.000.000 PR
Gaia Legado 2024 R$ 75.000.000 SP
Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE) 2024 R$ 1.919.021 SP
Gene – Fundo Patrimonial do IFSP (Instituto Federal de São Paulo) 2024 R$ 32.127 SP
Indeed 2023 Não informado
INSPER 2022 R$ 7.923.594 SP
Instituto Artigo 220 (Revista Piauí) 2018 R$ 440.151.294 RJ
Instituto Fundo Patrimonial Reditus (UFRJ – alunos) 2019 R$ 17.712.724 RJ
Instituto Ibirapitanga 2016 R$ 643.497.979 RJ
Instituto Jô Clemente R$ 109.361.000 SP
Instituto Merula Steagall 2022 R$ 1.588.000 SP
Instituto Serrapilheira 2016 R$ 602.034.888 RJ
Instituto Sol 2017 R$ 1.431.624 SP
Instituto Unibanco 2009 Não informado SP
IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas 2007 R$ 15.123.969 SP
ITA Endowment 2023 R$ 1.863.202 SP
Liga Solidária 2020 R$ 109.700.000 SP
MASP Endowment 2017 R$ 19.799.518 SP
Minerva Impacto 2024 RJ
Organização Gestora de Fundo Patrimonial da Sociedade Beneficente de Senhoras Hospital Sírio-Libanês 2021 R$ 18.836.870

SP
PDR – Purpose Driven Resources 2023 R$ 72.000.000 SP
Primatera Fundo Patrimonial 2020 R$ 200.445 SP
Rio Endowment 2022 R$ 206.528 RJ
Rogério Jonas Zylbersztajn (RJZ) 2019 R$ 219.000.000 RJ
Semear 2022 R$ 25.000 MG
Semente Oré 2021 R$ 40.000.000 SP
Sempre Sanfran (Faculdade de Direito USP – alunos) 2021 R$ 12.252.164 SP
Turim – Saúde Criança (Instituto Dara) 2008 R$ 18.382.338 RJ
WimBelemDowment – Organização Gestora de Fundo Patrimonial 2021 R$ 256.497 RS

Acesse e baixe a planilha completa com as causas dos fundos e fonte dos dados.

 

Mais sobre Fundos Patrimoniais

Acesse mais conteúdos nesta temática produzidos pelo IDIS aqui.

Caso queira saber mais sobre fundos patrimoniais ou queria conhecer nossos serviços, envie um e-mail para comunicacao@idis.org.br.

Quando o poder muda de mãos: o que a American Evaluation Association 2025 revelou sobre o futuro da avaliação

Decolonização, equidade e resiliência na transformação da prática avaliativa

Por Denise Carvalho e Daniel Barretti, Diretora e Gerente de Monitoramento e Avaliação do IDIS, respectivamente

A Conferência da American Evaluation Association (AEA) 2025, realizada em Kansas City, nos Estados Unidos, de 10 a 14 de novembro, reuniu mais de 2.000 profissionais da avaliação sob o tema “Engaging Community, Sharing Leadership” (“engajando a comunidade, compartilhando a liderança”, em tradução livre).

Foram mais três dias de conferência entre plenárias e sessões temáticas, versando sobre conceitos, teorias, métodos e causas das mais diversas no campo da avaliação. O IDIS esteve presente no evento com a participação de Denise Carvalho, diretora de Monitoramento e Avaliação, e Daniel Barretti, gerente de Monitoramento e Avaliação. A participação não foi apenas uma busca por atualização, mas uma imersão em discussões que ressoam profundamente com os desafios reais que enfrentamos na prática diária.

A conferência contou com uma extensa programação, a começar por diversos workshops profissionais. O workshop de dois dias, liderado por Charmagne Campbell, gerente de Insights de Dados e Testes de Operações Centrais do UK Health Security Agency, e Michael Q. Patton, membro da American Evaluation Association, por exemplo, foi voltado ao desenvolvimento de avaliações de base comunitária, liderança compartilhada e princípios de engajamento.

 

Eixos de transformação na avaliação

Longe de ser um evento de celebração de consensos, a conferência revelou uma profissão em um ponto de inflexão, confrontada com crises de financiamento, burnout de equipes e a urgência de redefinir seu propósito e suas ferramentas. As sessões que acompanhamos, desde plenárias a painéis específicos, delinearam um caminho de transformação que, em nossa análise, se articula em cinco eixos interconectados: a decolonização da avaliação; a operacionalização da equidade; a construção de resiliência institucional em contextos de incerteza; o uso da arte e da criatividade, e de modelos qualitativos, como instrumento de revelação; e a emergência do financiamento climático como um novo e crucial domínio.

A decolonização da avaliação foi abordada como um pilar fundamental, não de maneira abstrata, mas como uma demanda ética e prática para a profissão. As discussões aprofundaram a crítica às abordagens avaliativas convencionais, muitas vezes enraizadas em epistemologias ocidentais que perpetuam vieses e excluem saberes indígenas e locais. Além disso, foi ressaltada a necessidade de questionarmos quem define o sucesso, quem se beneficia da informação e, crucialmente, quem detém o poder na relação avaliador–avaliado.

Na sessão “Engaging Communities and Sharing Power in Decolonizing Evaluation” (“engajando comunidades e compartilhando poder na avaliação decolonial”, em tradução livre), foram apresentados os “12 Princípios da Decolonização” como um guia para desmantelar essas estruturas, focando aspectos epistemológicos, práticos e éticos, como a soberania comunitária e a reflexividade. No entanto, a conferência não se esquivou das tensões: como honrar a soberania de uma comunidade quando o financiamento do projeto vem de um fundo externo, com seus próprios indicadores e expectativas? A mesma sessão também articulou essa desconexão, mostrando que fundos e comunidades frequentemente vivem em mundos diferentes, com o primeiro vendo “beneficiários” e o segundo sentindo “decisões impostas”. A decolonização, portanto, exige uma redistribuição radical de poder, que se manifesta, por exemplo, na alocação de orçamento para o “tempo comunitário” e na flexibilidade para que as comunidades cocriem os designs avaliativos.

É nesse ponto que a equidade operacionalizada se torna indispensável. A decolonização, para ser mais do que retórica, precisa de ferramentas concretas que traduzam princípios em prática. O Equitable Evaluation Toolkit, desenvolvido pela Ecotrust em parceria com a consultora Imani Austin, foi um dos destaques nesse sentido. Após anos de reflexão sobre como a avaliação tradicional reproduzia desigualdades, a Ecotrust lançou um conjunto de seis ferramentas que permitem integrar a equidade em cada etapa do processo avaliativo. Entre elas, destacou-se o “Activity Budget”, uma inovação que destina uma linha orçamentária explícita para o “tempo comunitário”, reconhecendo o valor do engajamento e da participação. Ferramentas como o “Equity Lens” (um conjunto de perguntas reflexivas) e o “Partner Engagement Questions” (para envolver parceiros no desenho) também foram apresentadas, com exemplos práticos de sua aplicação em projetos como Indigenous Agroforestry Network e Green Workforce Academy. A Ecotrust demonstrou que a equidade não é um checklist, mas um processo contínuo de aprendizado, que exige transparência e realismo sobre as limitações, mas que, em última instância, constrói confiança e legitimidade.

No entanto, a implementação de práticas decolonizadas e equitativas exige uma base institucional sólida, o que nos leva ao terceiro eixo: a avaliação em contextos de incerteza e a construção de resiliência. As experiências do LSU Social Research Evaluation Center e do University of Mississippi Center for Research Evaluation foram um alerta para a fragilidade da profissão. Ambas as instituições enfrentam a descontinuação simultânea de múltiplos projetos federais (como o Fuel Louisiana, ameaçado por cortes da NSF), demissões e um impacto significativo na moral da equipe. A pergunta central era: como planejar e conduzir avaliações quando não se sabe se um programa existirá em 12 meses? A resposta não está apenas em “ter um plano B”, mas em construir uma capacidade institucional de sentir múltiplos futuros e se adaptar. Aqui, o foresight, ou a antecipação estratégica, mostrou-se crucial. Longe de ser uma tentativa de prever o futuro, o foresight é uma abordagem para preparar-se para múltiplos cenários, identificando sinais fracos de mudança e desenvolvendo planos de contingência. A LSU e a University of Mississippi, por exemplo, estão diversificando ativamente suas fontes de financiamento e simplificando processos para sobreviver.

A complexidade dos contextos atuais, marcada por incertezas e pela necessidade de decolonizar e promover equidade, também exige que a avaliação vá além das métricas tradicionais. A arte, como instrumento de revelação, emergiu como o quarto eixo de transformação. As sessões sobre o tema argumentaram que, muitas vezes, quanto mais quantificamos, menos vemos. As métricas, embora essenciais, podem ocultar verdades, nuances e significados que são essenciais para uma compreensão completa do impacto. Exemplos históricos, como as fotografias de Dorothea Lange e Gordon Parks, ou as visualizações de dados de Du Bois, foram citados para ilustrar como a arte pode desafiar narrativas dominantes e revelar o que os números não contam. A arte permite valorizar os near wins – aqueles quase-sucessos que, embora não atinjam as metas quantitativas, geram aprendizado e transformação qualitativa. Em um cenário de cortes de financiamento, a arte pode ser uma ferramenta poderosa para comunicar o valor de um projeto que “falhou” em termos de métricas, mas cultivou capacidades locais e aspirações comunitárias. A arte, assim como a decolonização e a equidade, desafia a cultura de especialistas e expande as perspectivas, valorizando saberes e expressões marginalizadas.

Além da arte como instrumento que transcende as métricas quantitativas, vale ressaltar o olhar para abordagens mais qualitativas, mais acessíveis e que, portanto, possibilitam maior engajamento das partes e maior equidade nas práticas avaliativas.

Um exemplo é uma abordagem avaliativa apresentada por Marcia Mundt, da Northeastern University, financiada pela USAID e testada entre 2023 e 2025, que visou avaliar a efetividade da assistência internacional americana em iniciativas promotoras da participação feminina na política, na formação de coligações multipartidárias e na integridade de processos eleitorais. A metodologia prevê a estruturação de uma cadeia de causalidade, articulando inputs, outputs e efeitos de curto, médio e longo prazo. A cadeia de causalidade é traduzida em questionários aplicados três vezes ao ano ao longo de dois anos. A chave metodológica está em captar, de maneira mais precisa, até onde, na cadeia de causalidade, a iniciativa chega ou, em outras palavras, quais os elos fortes e frágeis da cadeia, de modo a propiciar ações mais direcionadas e assertivas para a maximização dos impactos positivos de determinada intervenção.

Em outro case, a organização da sociedade civil Education Training Research trouxe um conjunto de seis estratégias que visam à promoção de avaliadores culturalmente responsivos e, consequentemente, de uma prática avaliativa mais equitativa e representativa de espectros populacionais historicamente marginalizados. A ideia central é que a constituição de um time de avaliadores diversos e preparados para lidar com a complexidade, a incerteza e a diversidade do mundo atual se reflita nos resultados almejados e alcançados de uma avaliação. Em suma, o conjunto de seis estratégias proposto passa pelo avaliador compreender-se como um sujeito ativo no processo avaliativo e que, portanto, invariavelmente exerce influência sobre o processo e os resultados de uma avaliação. Isso posto, as estratégias visam compreender justamente qual o perfil do avaliador e seu grau de ingerência, combinados gerenciais, tais como transparência, mecanismos de valorização, possibilidades de engajamento, envolvimento e reconhecimento da equipe; incorporação de contextualização e criticidade como parte da identificação dos impactos gerados, tais como fatores individuais, físicos e relações de poder como fontes geradoras de mudança para além da intervenção; e, por fim, a adoção de práticas regulares garantidoras das estratégias precedentes.

Finalmente, todos esses temas convergem no domínio emergente do financiamento climático, o quinto eixo de discussão. A urgência da crise climática exige um volume massivo de financiamento, muito além do que a filantropia pode oferecer. O capital privado, com seus trilhões de dólares em ativos, é essencial, mas enfrenta uma lacuna crítica: a falta de expertise em Impact Measurement & Management (IMM). O Climate SMILE Playbook, em desenvolvimento pelo Bezos Earth Fund (com contribuições da Rockefeller Foundation e da BHP Foundation), foi apresentado como uma solução para democratizar o acesso ao financiamento climático, fornecendo um framework para investidores que buscam impacto climático. O playbook reconhece que a avaliação climática não é “mais do mesmo”; ela exige um paradigma diferente, que não apenas meça a redução de emissões, mas que prepare para uma transição justa e comunique o risco climático de forma prospectiva (integrando, portanto, foresight). A “transição justa”, um conceito central no financiamento climático, conecta diretamente com a decolonização e a equidade, pois reconhece que a descarbonização afeta desproporcionalmente comunidades pobres e marginalizadas, exigindo diálogo, redistribuição e decisão compartilhada. Assim, o clima se torna um integrador poderoso, exigindo que a avaliação incorpore todos os eixos de transformação discutidos na conferência.

A plenária de encerramento nos convocou a refletir sobre como gerar significado para as comunidades beneficiárias a partir das avaliações, como questionar sistemas de opressão e refletir sobre nossas próprias suposições e práticas, na perspectiva de não sermos somente operadores da avaliação, mas também aprendizes, ouvintes e cocriadores de novas abordagens.

A Conferência da AEA, portanto, não ofereceu soluções fáceis, mas um convite à reflexão profunda e à ação corajosa. Decolonização requer equidade operacionalizada, que, por sua vez, exige resiliência institucional. A resiliência é fortalecida pelo foresight, que nos ajuda a navegar a volatilidade, enquanto a arte revela os significados que as métricas ocidentais ocultam. E o clima, como um desafio global e integrador, demanda a aplicação de todos esses princípios. É um chamado à realização de uma “auditoria de poder” nas avaliações conduzidas, a pensar a adaptação e a aplicação de novas ferramentas, a desenvolver cenários de futuro e a explorar como a arte pode nos ajudar a comunicar o valor de near wins. A verdadeira transformação não acontece em plenárias, mas nas conversas difíceis, nos orçamentos renegociados e na coragem de implementar, mesmo com imperfeições, os princípios de uma avaliação verdadeiramente engajada com a comunidade e com a liderança compartilhada.