IDIS participa de intercâmbio na Colômbia e aprofunda aprendizados sobre filantropia comunitária e desenvolvimento territorial

Entre os dias 18 e 22 de outubro, Rosana Ferraiuolo, gerente do programa Transformando Territórios, participou do Intercâmbio de Aprendizagens 2026, realizado em Bogotá e Barichara, na Colômbia. A experiência reuniu representantes de organizações do Brasil, da Argentina e da Colômbia, além de Grupos de Iniciativa e Fundações Comunitárias para conhecer, na prática, diferentes formas de atuação da filantropia comunitária.

Em Bogotá, o grupo conheceu a experiência da Fundação Territorial Paisano, que atua na articulação do ecossistema local por meio do mapeamento e da escuta das organizações, da construção de redes e da conexão de iniciativas e recursos em torno de temas de interesse comum.

Em Barichara, a imersão junto à Fundação Barichara Regenerativa e às iniciativas sociais do território trouxe aprendizados sobre mobilização comunitária, participação social e regeneração territorial. Em um município marcado por desafios como a crise hídrica, a investigação, a escuta e o reconhecimento dos saberes locais são pontos de partida para a construção de caminhos coletivos.

Entre as experiências compartilhadas, destacaram-se o Fórum, com metodologia de cartografia social e o envolvimento de variados atores locais. A vivência do intercâmbio perpassou a visita a variadas iniciativas comunitárias de cuidado com a água e valorização da cultura local; e a Casa Común, que conecta produtores, organizações e atividades econômicas do território.

Outro destaque foi a metodologia Ciclo Vivo, que incentiva a experimentação de iniciativas locais como forma de aproximar atores, construir confiança e fortalecer relações de colaboração.

As vivências também trouxeram reflexões sobre como ir além de projetos pontuais, conectando iniciativas, capacidades e recursos para construir soluções sistêmicas, gerar valor coletivo e ampliar as possibilidades de autonomia e sustentabilidade das comunidades.

 “Esse intercâmbio reforçou a importância de conhecer os territórios a partir de quem vive e constrói suas histórias. Investigar, escutar e reconhecer os saberes e recursos que já existem são passos fundamentais para uma atuação transformadora. Também reafirma o valor das trocas entre fundações comunitárias e organizações de suporte no âmbito do CIAF. Aprender com a experiência uns dos outros, compartilhar práticas e construir relações de confiança fortalece nossas capacidades e amplia as possibilidades de atuação da filantropia comunitária na região. Há muita sinergia e conexão com as práticas do Brasil.” Rosana Ferraiuolo, gerente do programa Transformando Territórios, do IDIS.

A experiência reforça a importância da aprendizagem entre pares e da colaboração internacional para o fortalecimento das fundações comunitárias. Uma oportunidade de ampliar repertórios, construir conexões e trazer novas perspectivas para a atuação do Transformando Territórios no Brasil.

O dinheiro paciente e a filantropia que fica

Por Paula Fabiani, CEO do IDIS, e Ricardo Levisky, sócio fundador da Levisky Legado

Em um país em que tantos desafios se repetem como urgências permanentes, a pergunta mais importante talvez não seja apenas quanto se doa, mas como se estrutura a doação para que ela permaneça. A filantropia brasileira começa a amadurecer quando deixa de depender apenas do impulso do momento e passa a construir mecanismos de continuidade. É nesse ponto que entram os fundos patrimoniais, os fundos evergreen e outras formas de capital de longo prazo. Aquilo que se costuma chamar de dinheiro paciente.

Dinheiro paciente é o oposto da resposta apressada. Ele permite planejar, sustentar e ampliar soluções ao longo do tempo, sem submeter causas de interesse público a ciclos curtos de financiamento. Em vez de apenas financiar ações imediatas, esse modelo cria infraestrutura para que organizações, projetos e redes possam operar com mais estabilidade, autonomia e visão estratégica. É essa base que permite sair da lógica da urgência e construir impacto consistente ao longo do tempo.

No Brasil, esse movimento tem um ator cada vez mais relevante: os family offices. Historicamente voltados à gestão de patrimônio financeiro das famílias, eles começam a incorporar a filantropia como parte da arquitetura patrimonial, ao lado de investimentos, sucessão e planejamento tributário. Tendência já identificada pelo Wharton Family Office Survey (2024), segundo o qual 32% dos family offices tratam a filantropia de forma estruturada, enquanto a maioria ainda a conduz por meio de fundações familiares. No Brasil, o fenômeno é mais recente, mas avança rapidamente. Dados da ANBIMA (2023), citados no relatório Filantropia & Family Offices (2025), apontaram crescimento de 82,5% no número de estruturas formais em três anos. A doação, deixando de ser um gesto isolado do calendário familiar, passa a ser tratada com a mesma disciplina de governança aplicada aos demais ativos, uma agenda hoje em construção.

Capital paciente é uma base importante, mas precisa vir acompanhado de visão e governança. Para que a filantropia gere transformação positiva real, ela precisa também de disposição para tratá-la como projeto de permanência. É aqui que a filantropia familiar ganha centralidade, não como gesto isolado, mas como expressão de legado, sucessão, governança e compromisso intergeracional. Quando uma família decide organizar sua atuação de forma estruturada, ela não está apenas doando recursos, está, também, definindo valores, prioridades e uma visão de futuro.

Essa disciplina se traduz em práticas concretas: políticas de investimento social, comitês de doação, critérios de seleção de causas e mecanismos de prestação de contas equivalentes aos que regem qualquer outro ativo sob gestão. Family offices e planejadores financeiros, mais do que assumirem um papel de alocação de recursos, estão profissionalizando a forma como a família exerce seu compromisso social, o que aumenta a confiança de parceiros, das organizações apoiadas e da própria geração seguinte.

Essas duas dimensões se fortalecem mutuamente. O dinheiro paciente oferece a base financeira para que a ação social dure. A filantropia familiar oferece a continuidade cultural e institucional para que essa base não se perca no tempo. Juntas, elas reposicionam a filantropia como uma prática de continuidade, e não apenas de resposta pontual.

No fim, a questão central não é quanto patrimônio uma família está disposta a doar, mas quanta responsabilidade está disposta a assumir sobre o futuro que esse patrimônio ajuda a moldar. Essa é a mudança profunda de mentalidade: o patrimônio deixa de ser apenas algo a preservar e transmitir e passa a ser também um instrumento para construir aquilo que merece permanecer. Dinheiro paciente, nesse sentido, não é só capital com horizonte mais longo. É a decisão de olhar além do próprio tempo e tratar o patrimônio como parte de um legado que atravessa gerações. Talvez seja essa a pergunta que uma filantropia verdadeiramente orientada a impacto precisa enfrentar: não é apontar quais são as respostas às urgências do presente, mas o que organizar para construir o futuro.

Paula Fabiani, CEO do IDIS, integra lista internacional de 250 lideranças cívicas

Paula Fabiani, CEO do IDIS, integra a lista internacional World’s Top 250 Civic Leaders, que reúne 250 lideranças de diferentes partes do mundo com atuação em áreas como desenvolvimento, governança, filantropia e mobilização social.

A seleção é uma iniciativa do Civic Engagement Collective, plataforma norte-americana fundada em 2021 e dedicada à promoção do engajamento cívico, da inclusão socioeconômica e do fortalecimento das comunidades. A lista é desenvolvida com apoio da FOCO Digital Corp e de organizações parceiras, entre elas o Haiti Executive Board, a DuSable Heritage Association e o Economic Planning Council.

Na seleção internacional, Paula aparece na categoria Community (Comunidade), na área de Desenvolvimento, com destaque para sua atuação à frente do IDIS e sua contribuição para o fortalecimento da filantropia estratégica e da cultura de doação no Brasil.

A lista contempla profissionais de diferentes setores, incluindo representantes de organismos multilaterais, instituições financeiras de desenvolvimento, governos e organizações da sociedade civil. Entre as lideranças brasileiras presentes estão Anacláudia Rossbach, da ONU-Habitat; Aloizio Mercadante, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); Ilan Goldfajn, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID); e Dilma Rousseff, do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB).

“Integrar essa lista, ao lado de lideranças de diferentes países e áreas de atuação, é um reconhecimento que vai além da minha trajetória individual. É também uma oportunidade de dar visibilidade à força da filantropia brasileira e ao trabalho que desenvolvemos no IDIS para fortalecer o investimento social e a cultura de doação. Estar entre essas lideranças reforça a importância da colaboração e do papel da sociedade civil na construção de soluções para os desafios que enfrentamos, no Brasil e no mundo”, afirma Paula Fabiani, CEO do IDIS.

O destaque soma-se a outro importante reconhecimento internacional recebido em 2026: sua inclusão na TIME100 Philanthropy, lista da revista norte-americana TIME que reúne as 100 personalidades mais influentes da filantropia mundial. Paula foi a primeira brasileira a integrar a seleção, que chegou à sua segunda edição naquele ano.

À frente do IDIS desde 2014, Paula tem uma trajetória dedicada à promoção do investimento social privado e ao fortalecimento do ecossistema filantrópico brasileiro. Entre as iniciativas que lidera estão a Pesquisa Doação Brasil, o Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais e a Coalizão pelos Fundos Patrimoniais Filantrópicos. Também contribuiu para a aprovação da Lei nº 13.800/2019, que regulamenta os fundos patrimoniais no país.

Economista formada pela Universidade de São Paulo (USP), possui MBA pela New York University e doutorado em Administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Em 2020, recebeu o Prêmio Empreendedor Social, da Folha de S.Paulo, por sua atuação na liderança do Fundo Emergencial da Saúde – Coronavírus Brasil.

 

Climate Week NYC 2026: conexões globais e uma agenda comum para a América Latina

Por Guilherme Sylos, diretor de Prospecção e Parcerias do IDIS

Durante alguns dias de setembro, Nova York se transforma em um grande ponto de encontro para lideranças de diferentes partes do mundo. Realizada em paralelo à Assembleia Geral das Nações Unidas, a Climate Week NYC reúne organizações da sociedade civil, empresas, investidores, fundações e representantes de governos em uma extensa agenda de debates e encontros.

Representando o IDIS, participei de diferentes atividades ao longo da semana, com uma agenda que passou por discussões sobre a realidade das organizações da sociedade civil, filantropia na América Latina e os desafios para a construção de parcerias e redes mais efetivas.

Minha participação começou junto à CAF – Charities Aid Foundation, rede da qual o IDIS faz parte, em uma agenda que marcou o lançamento do World Giving Report: Panorama das ONGs 2026. A publicação global reúne as perspectivas de mais de 5 mil lideranças de organizações de propósito social em 33 países e busca compreender os desafios enfrentados pelo setor, suas prioridades e as condições necessárias para ampliar sua resiliência.

Entre os resultados globais, 67% das organizações respondentes afirmaram ter enfrentado aumento na demanda por seus serviços no último ano. Ao mesmo tempo, menos de quatro em cada dez se consideram bem posicionadas para alcançar sucesso no futuro, e 92% identificam ao menos uma forma pela qual financiadores poderiam apoiá-las para além do repasse de recursos.

No Brasil, a pesquisa contou com 195 organizações respondentes e os resultados apresentam pontos de forte conexão com o cenário internacional. Por aqui, 66% também registraram aumento na demanda por seus serviços, enquanto 78% esperam que ela continue crescendo. O IDIS publicou uma análise específica dos resultados brasileiros, aprofundando questões como qualidade e flexibilidade dos recursos, mensuração de impacto e desenvolvimento institucional.

Conheça a análise do IDIS sobre os dados brasileiros do World Giving Report 2026: Charity Insights

Os encontros promovidos pela CAF criaram espaço para discutir o que esses números significam em diferentes contextos. Em uma das sessões, pude contribuir trazendo uma leitura do cenário brasileiro em comparação aos resultados globais e trocar perspectivas com representantes de outros países. Chama a atenção o quanto alguns desafios atravessam fronteiras. Pressão por mais recursos, aumento da demanda e necessidade de fortalecer as próprias organizações aparecem em diferentes contextos, ainda que cada país tenha suas particularidades.

Outra discussão que me marcou ao longo da semana foi justamente sobre a América Latina e nossa capacidade de construir uma agenda mais integrada.

Do ponto de vista de outras regiões do mundo, é comum que a América Latina seja percebida como uma unidade. Internamente, entretanto, ainda atuamos muito a partir das fronteiras de cada país. Brasil, México, Argentina, Colômbia e outros países da região compartilham muitos desafios sociais, econômicos e ambientais, além de características semelhantes no perfil da filantropia e dos investidores sociais, mas nem sempre construímos respostas ou espaços de aprendizagem em conjunto.

Durante a conversa, surgiu inclusive uma provocação sobre a língua portuguesa como uma possível barreira para uma maior integração do Brasil com seus vizinhos. A diferença linguística existe, mas não explica tudo. Temos desafios bastante próximos e há espaço para ampliar muito mais as trocas, o aprendizado e a construção conjunta entre os países.

Mais do que nos reconhecermos como parte da América Latina, precisamos pensar no que podemos fazer enquanto região.

 

Parcerias e inteligência artificial

Essa reflexão se conectou também a uma sessão promovida pela Latimpacto, no escritório do Mattos Filho, dedicada à construção de parcerias e redes. Participantes de diferentes países compartilharam experiências e desafios para colocar a colaboração em prática. Alguns temas reapareceram ao longo da conversa: confiança, transparência, accountability e a dificuldade de equilibrar os interesses institucionais e o protagonismo das organizações envolvidas. São questões conhecidas por quem trabalha com alianças, mas justamente por continuarem aparecendo em diferentes espaços e países, mostram que ainda temos trabalho a fazer.

A semana também teve diversos momentos voltados à construção de relações, incluindo um encontro promovido pela Skoll Foundation com parceiros de diferentes partes do mundo.

Uma última reflexão veio justamente de um tema que praticamente não apareceu nas sessões das quais participei: inteligência artificial. Depois de acompanhar tantos debates recentes sobre os impactos da IA nas organizações, no trabalho e na sociedade, esperava encontrá-la também de forma mais presente nessas conversas.

Fiquei com duas hipóteses. Uma é que muitas organizações ainda não incorporaram efetivamente essas ferramentas e, por isso, o tema ainda não chegou com força a determinadas discussões. A outra é quase o oposto, de que talvez a inteligência artificial esteja se tornando tão incorporada à rotina que começamos a deixar de tratá-la como uma agenda isolada.

De resumo da semana, ficou a importância das conexões construídas nesses espaços. Os desafios que enfrentamos dificilmente respeitam fronteiras nacionais. Isso vale para a crise climática, para a sustentabilidade das organizações sociais e para o desenvolvimento da filantropia. Para o Brasil e para a América Latina, há uma oportunidade de transformar desafios semelhantes em mais colaboração, conhecimento compartilhado e capacidade de ação conjunta.

Anota na agenda: Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2027

O Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2027 já tem data marcada: 2 de setembro de 2027. Promovido pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, o encontro reunirá lideranças do investimento social privado para debater caminhos e perspectivas.

Realizado anualmente pelo IDIS desde 2012, o Fórum é um espaço de diálogo, troca de experiências e construção de conexões entre atores estratégicos do campo.

A edição já conta com a Fundação Sicredi como apoiadora prata, contribuindo para a realização do encontro e para o fortalecimento desse espaço de reflexão e articulação do ecossistema filantrópico brasileiro.

Quer saber mais como apoiar o evento? Entre em contato conosco: comunicacao@idis.org.br

Enquanto 2027 não chega, relembre os principais debates da edição de 2026 nos relatos produzidos pela equipe do IDIS sobre cada uma das sessões.

Acompanhe os canais do IDIS e saiba mais sobre o Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais.

Exame destaca avaliação de impacto realizada pelo IDIS na Orquestra Maré do Amanhã

A Exame destacou os resultados da avaliação de impacto da Orquestra Maré do Amanhã (OMA), realizada pelo IDIS por meio da metodologia SROI (Social Return on Investment). O estudo identificou que, para cada R$ 1 investido no projeto, são gerados R$ 4,03 em benefícios sociais, totalizando aproximadamente R$ 29 milhões em valor social líquido.

A avaliação mostrou que os impactos da iniciativa vão além do aprendizado musical, contribuindo para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e cognitivas e para a ampliação das perspectivas de futuro de crianças e jovens do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. O estudo também identificou que participantes que permanecem por mais tempo vinculados à Orquestra apresentam impactos ainda mais expressivos.

Orquestra Maré do Amanhã em apresentação durante o Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026

À Exame, Daniel Barretti, gerente de Monitoramento e Avaliação do IDIS, destacou que o resultado é reflexo de um trabalho que combina rigor metodológico e paixão. A reportagem também mostra como os achados da avaliação passaram a apoiar o planejamento da própria Orquestra, orientando oportunidades de aprimoramento e novas frentes de atuação.

Leia a reportagem completa na Exame.

O próximo El Niño exige menos reação e mais planejamento

Artigo publicado originalmente no Um Só Planeta

Por Yasmim Araújo Lopes, analista de projetos do IDIS, e Marcelo Modesto, gerente de projetos do IDIS

O Brasil ainda costuma tratar eventos climáticos extremos como exceções, respondendo a eles apenas quando seus impactos já se instalaram. Este ano, porém, a previsão de um novo episódio de El Niño tem oferecido a oportunidade de substituir a lógica padrão da reação pela da prevenção.

Instituições de monitoramento climático no Brasil e no mundo já apontam alta probabilidade de permanência do fenômeno até abril de 2027, com tendência de fortalecimento ao longo de 2026 e maior chance de intensidade muito forte entre setembro e dezembro. Com essa previsão, é imprescindível que governos, investidores sociais e organizações da sociedade civil incorporem o risco climático ao planejamento de suas ações.

seca

Os riscos elevados apresentados pelo El Niño, que se somam aos efeitos já sentidos das mudanças climáticas, não se restringem ao meio ambiente, mas atravessam praticamente todas as agendas sociais. Saúde, educação, segurança alimentar, geração de renda, assistência social, moradia e mobilidade podem ser diretamente afetadas por ondas de calor, secas, enchentes e queimadas. Mesmo as organizações que não atuam diretamente com a pauta climática podem enfrentar aumento da demanda por atendimento, custos adicionais e dificuldades para manter suas atividades.

Nesse cenário, a adaptação climática deixa de ser uma agenda exclusivamente ambiental e passa a ser uma condição para garantir a continuidade de políticas, programas e investimentos sociais. Afinal, proteger comunidades também significa proteger a capacidade das organizações de seguir entregando resultados justamente nos momentos de maior necessidade.

O desafio é ainda maior quando se observa a capacidade de resposta dos territórios brasileiros. Dados da plataforma AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, mostram que 3.679 municípios apresentam baixa ou muito baixa capacidade adaptativa para lidar com desastres associados a inundações, enxurradas e alagamentos. O dado indica que prever esses eventos extremos não é suficiente, mas que são necessárias ações práticas de prevenção, como o fortalecimento da gestão local, ampliação da articulação junto ao poder público e mais investimentos nas capacidades de resposta das comunidades.

Assim, a justiça climática ganha dimensão prática, não se resumindo a responder aos desastres uma vez que eles já aconteceram, mas criando condições para que populações mais vulneráveis estejam mais protegidas antes que os impactos ocorram.

A preparação começa muito antes da chegada de uma frente fria, de uma enchente ou de uma onda de calor. Ela começa quando organizações transformam previsões climáticas em perguntas norteadoras para a gestão e planejamento. O que pode mudar no território? Quais públicos serão mais afetados? Quais atividades precisarão ser adaptadas? Que recursos devem estar disponíveis antes dos períodos críticos? Essas questões ajudam a incorporar o risco climático ao planejamento cotidiano, tornando programas e investimentos mais robustos diante das incertezas.

Também é importante reconhecer que o El Niño não produzirá os mesmos efeitos em todo o país. A tendência é de redução das chuvas na Amazônia e Nordeste, aumento das temperaturas em grande parte do Brasil, possibilidade de condições mais secas no Sudeste e Centro-Oeste durante a primavera e aumento das chuvas no Sul, elevando o risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos. Essa diversidade exige respostas igualmente diversas, adaptadas às características de cada território. Isso implica na necessidade de se promover a centralidade dos territórios e suas organizações na discussão da adaptação climática.

Para o campo social, isso significa revisar programas e portfólios sob uma lente climática, elaborar planos de continuidade para serviços essenciais, investir preventivamente na adaptação de equipamentos e espaços comunitários, fortalecer redes locais de cooperação e prever mecanismos de financiamento mais flexíveis, capazes de responder rapidamente às mudanças impostas pelos eventos extremos.

Nenhuma dessas medidas elimina a possibilidade de desastres. Mas todas contribuem para reduzir danos, preservar serviços essenciais e aumentar a capacidade de resposta das comunidades. Quanto mais cedo investidores sociais e organizações incorporarem os riscos climáticos às suas decisões, maior será a possibilidade de evitar perdas humanas, sociais e institucionais.

O El Niño previsto para 2026 representa não apenas um desafio climático. Ele representa um teste sobre nossa capacidade de aprender com as crises recentes e agir antes que elas se repitam. A previsão já existe. O conhecimento também. O que ainda precisa mudar é a forma como transformamos essas informações em planejamento e ação, com embasamento científico, centralidade dos territórios, foco nas pessoas, principalmente as mais vulnerabilizadas.

GIFE e INCT Participa lançam Observatório da Filantropia e do Investimento Social Privado, com apoio do IDIS

Plataforma colaborativa reúne dados, pesquisas e evidências para fortalecer o conhecimento sobre a filantropia e o investimento social privado no Brasil

Foi lançado o Observatório da Filantropia e do Investimento Social Privado, plataforma colaborativa liderada pelo GIFE e pelo INCT Participa, com o apoio do Fundo de Fomento à Filantropia, fundo patrimonial do IDIS.

A iniciativa foi criada para reunir, sistematizar e disseminar informações, dados, pesquisas e evidências sobre a filantropia e o investimento social privado no Brasil. Ao ampliar o acesso a conhecimento qualificado sobre o setor, o Observatório pretende contribuir para o aprimoramento das práticas das organizações, apoiar processos de tomada de decisão e estimular a produção de novas pesquisas.

Membros do setor reunidos durante lançamento do Observatório da Filantropia e do Investimento Social Privado

Para o IDIS, a criação da plataforma representa um marco importante para o fortalecimento do campo filantrópico brasileiro. A geração e a disseminação de conhecimento constituem um dos pilares de atuação da organização, ao lado da consultoria e da execução de projetos de impacto.

“Dados e evidências são ferramentas fundamentais para gerar impacto social positivo. Quando compartilhados e explorados de maneira estratégica, podem orientar decisões, aprimorar práticas, fortalecer políticas públicas e contribuir para uma filantropia cada vez mais transformadora”, afirma Paula Fabiani, CEO do IDIS.

O apoio à iniciativa é realizado por meio do Fundo de Fomento à Filantropia, fundo patrimonial criado pelo IDIS com o objetivo de fortalecer a filantropia estratégica no país e apoiar iniciativas capazes de ampliar a infraestrutura, o conhecimento e a capacidade de atuação do setor.

O Observatório também se propõe a ser um espaço vivo e colaborativo, incentivando pesquisadores, organizações e demais atores do ecossistema filantrópico a utilizarem os materiais disponíveis e contribuírem para a expansão da base de conhecimento sobre o tema.

Conheça o Observatório da Filantropia e do Investimento Social Privado.