Encontro promovido pelo IDIS reúne filantropos em diálogos sobre propósito e transformação social

O IDIS realizou a primeira edição do ‘Em conversa com…’, iniciativa criada para promover diálogos mais próximos, profundos e inspiradores entre filantropos e filantropas brasileiros. O encontro reuniu lideranças do campo da filantropia em um ambiente de troca, escuta e aprendizado mútuo.

Nesta primeira edição, o evento contou com a participação de Claudio Haddad, fundador do Insper, e Ticiana Rolim Queiroz, fundadora da Somos Um, que compartilharam reflexões sobre suas trajetórias, propósitos e experiências na promoção de transformações sociais no Brasil.

Ao longo de seus 27 anos de atuação, o IDIS tem trabalhado pelo fortalecimento da filantropia e do investimento social privado no país. Nesse contexto, a filantropia familiar ocupa papel estratégico, especialmente por seu potencial de promover transformações estruturantes e de longo prazo.

Nos últimos anos, o IDIS aprofundou a atuação nesse campo por meio de pesquisas, workshops e da publicação ‘Caminhos para uma atuação mais ampla e estratégica da filantropia familiar brasileira’. Durante esse processo, surgiu de forma recorrente a percepção da importância de ampliar espaços seguros de troca entre pares, ambientes pautados pela confiança, escuta qualificada e compartilhamento de experiências.

 

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Foi a partir dessa escuta que nasceu o “Em conversa com…”, com o propósito de fortalecer conexões humanas, ampliar repertórios e criar oportunidades para conversas que dificilmente acontecem nos fóruns tradicionais.

“O fortalecimento da filantropia também passa pela construção de vínculos e pela criação de espaços que estimulem trocas genuínas entre pessoas que compartilham o desejo de gerar impacto positivo na sociedade”, afima Paula Fabiani, CEO do IDIS.

A iniciativa contou ainda com o apoio da Fundação Bradesco, Movimento Bem Maior, Levisky Legado e UNICEF.

CNBB aprova criação de fundo patrimonial para preservar o patrimônio cultural da Igreja Católica no Brasil, com apoio do IDIS

Iniciativa segue a Lei dos Fundos Patrimoniais e pretende captar doações privadas para restaurar e manter bens sacros em todo o país

A Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aprovou, em abril, a criação do Fundo Patrimonial para o Patrimônio Cultural da Igreja Católica no Brasil. A iniciativa, desenvolvida por meio da Assessoria de Bens Culturais da Comissão Episcopal para Cultura e Educação da CNBB e com o apoio técnico do IDIS, tem como objetivo captar doações privadas para restaurar, conservar e garantir a sustentabilidade financeira da gestão de bens culturais religiosos sob responsabilidade da Igreja, criando uma fonte permanente de financiamento para sua preservação.

O patrimônio cultural católico representa mais de 32% dos bens tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), reunindo igrejas, obras de arte, arquivos históricos e espaços que integram a memória e a identidade brasileira. Apesar dessa relevância histórica e social, ao menos 99 igrejas e edificações religiosas apresentam hoje sérios problemas de conservação, segundo relatório de Bens Materiais do IPHAN divulgado em fevereiro de 2025.

O fundo patrimonial surge como um instrumento para assegurar estabilidade financeira no longo prazo, ampliar a independência institucional, fortalecer a governança e profissionalizar a gestão do patrimônio cultural eclesiástico. O mecanismo é constituído por doações de pessoas físicas e jurídicas cujos recursos são investidos no mercado financeiro por gestores profissionais, sendo utilizados apenas os rendimentos para financiar projetos, garantindo a perenidade das causas apoiadas.

“Vivemos um momento histórico ao aprovar um fundo patrimonial dedicado ao patrimônio cultural brasileiro sob gestão da Igreja Católica. Trata-se de um avanço significativo na forma como asseguramos a conservação desses bens, com um modelo inovador, sustentável, transparente e perene”, comenta Andrea Hanai, gerente de projetos e consultora no IDIS.

O modelo vem ganhando escala no país. O Monitor de Fundos Patrimoniais no Brasil, produzido pelo IDIS de 2026, identificou 128 fundos patrimoniais ativos, que somam patrimônio superior a R$137,5 bilhões. A proposta é criar uma fonte contínua de financiamento complementar aos recursos já existentes, permitindo que dioceses, paróquias, congregações religiosas e instituições culturais ligadas à Igreja ampliem sua capacidade de gestão, conservação e restauração patrimonial.

Seguindo os parâmetros da Lei nº 13.800/2019, o fundo poderá apoiar a CNBB e seus 19 regionais, arquidioceses, dioceses, paróquias, ordens religiosas e equipamentos culturais eclesiásticos que possuam CNPJ próprio e atuação comprovada na gestão de patrimônio cultural. A iniciativa já conta com o apoio de um grupo de trabalho formado pelas Pontifícias Universidades Católicas de todo o país, IPHAN, Ministério Público e representantes da sociedade civil. O Fundo Patrimonial para o Patrimônio Cultural da Igreja Católica no Brasil prestará suporte às instituições elegíveis na elaboração de projetos, qualificação da gestão e captação de recursos. O objetivo é garantir que igrejas e bens religiosos continuem sendo espaços vivos de fé, cultura e acesso público em todo o Brasil.

 

Sobre o IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social

O IDIS é uma organização da sociedade civil independente fundada em 1999 e pioneira em suporte técnico a investidores sociais no Brasil. Com a missão de inspirar, apoiar e promover a filantropia estratégica e seu impacto, o IDIS atende indivíduos, famílias, empresas e institutos e fundações familiares, bem como organizações da sociedade civil, em ações que transformam realidades e contribuem para a redução da desigualdade social no país. Nossa atuação baseia-se no tripé geração de conhecimento, consultoria e realização de projetos de impacto, que contribuem para o fortalecimento do ecossistema da filantropia estratégica e da cultura de doação. Valorizamos a atuação em parceria e a cocriação, acreditando no poder das conexões, do aprendizado conjunto, da diversidade e da pluralidade de pontos de vista.

Paula Fabiani participa do quadro especial ‘Extraordinários’ da GloboNews

Em entrevista a GloboNews, Paula Fabiani, CEO do IDIS, compartilha reflexões sobre cultura de doação. Paula é a única brasileira presente na seleção das 100 pessoas mais influentes da filantropia no mundo pela revista TIME

Outro ponto abordado na conversa foi a importância das novas gerações no fortalecimento da filantropia no Brasil. Para Paula Fabiani, jovens lideranças e herdeiros já demonstram maior consciência sobre responsabilidade social e impacto coletivo.

“A grande notícia positiva é que as novas gerações já têm mais consciência, já vêm com essa questão mais endereçada”, destacou Paula.

Segundo ela, o cenário global de transferência de riqueza nas próximas décadas pode representar uma oportunidade para ampliar o engajamento filantrópico e fortalecer uma cultura de doação mais estruturada no país.

 

Assista a entrevista completa clicando aqui.

 

 

A filantropia como infraestrutura diante da crise climática

Artigo publicado originalmente no Um Só Planeta

Por Marcelo Modesto, gerente da área ESG do IDIS.

As cenas se repetem e, a cada ano, com mais intensidade. Ruas transformadas em rios, famílias desalojadas, serviços públicos colapsados. De Juiz de Fora, com seus episódios recentes de enchentes e desafios nos planos de contingência, a diversas regiões metropolitanas e cidades, o país está cada vez mais vulnerável a eventos extremos. O que se vê não é mais um momento excepcional, mas um padrão consolidado.

Segundo dados recentes lançados pela Ipsos, cerca de um quarto da população já precisou se deslocar por conta de eventos extremos, evidenciando, cada vez mais, que a crise não é apenas ambiental, mas social, econômica e humanitária. O deslocamento forçado rompe vínculos territoriais, além de agravar desigualdades históricas, afetando de forma mais intensa populações já vulnerabilizadas.

O relatório Perspectivas para a Filantropia no Brasil 2026, lançado pelo IDIS, apresenta também um diagnóstico central de que o clima não é mais uma agenda entre outras, mas um fator estruturante que atravessa todas as dimensões: saúde, educação, segurança alimentar, habitação e renda.

È justamente nesse ponto que um debate ainda pouco amadurecido no Brasil precisa avançar: o papel da filantropia como parte da infraestrutura de resposta a crises. Em situações de desastre, o tempo é o recurso mais escasso. O Estado, por mais preparado que possa estar para enfrentar situações como essas, opera com algumas limitações que podem dificultar respostas imediatas na celeridade necessária.

A filantropia, nesse sentido, tem atributos que a tornam particularmente relevante nesses contextos, como maior flexibilidade, rapidez na alocação e direcionamento de recursos, além de uma maior capacidade para assumir riscos.

Fundos emergenciais, por exemplo, permitem mobilizar recursos direcionando apoio a territórios críticos antes mesmo que estruturas públicas consigam se reorganizar. Organizações da sociedade civil, por sua vez, atuam como braços operacionais essenciais, já que estão inseridas nos territórios e conhecem, com precisão, quem precisa de ajuda e como chegar até essas pessoas no momento em que elas mais precisam.

O campo do investimento social privado já demonstra mobilização significativa em desastres. Mas ainda há um desequilíbrio, uma vez que a maior parte das ações se concentra na resposta imediata após eventos climáticos extremos, com pouca incidência em prevenção e adaptação.

Considerando as evidências científicas de que eventos climáticos extremos serão cada vez mais frequentes e intensos, as respostas não podem continuar baseadas apenas em resoluções momentâneas. Nesse sentido, a filantropia deve ser tratada como parceira estratégica capaz de ampliar velocidade, alcance e efetividade, atuando colaborativamente com o estado e iniciativas privadas.

Isso implica, na prática, fortalecer fundos de emergência permanentes, com governança e capacidade de rápida ativação; investir na preparação dos territórios, financiando prevenção, adaptação e resiliência; apoiar organizações locais, que são as primeiras a responder e as últimas a sair; e, sobretudo, atuar de forma articulada, reduzindo lacunas entre planejamento e execução. Especialmente em agendas sensíveis, como é o caso dos desastres climáticos, essa integração é indispensável para solucionarmos os desafios que temos à frente.

Transformando Territórios conclui segunda formação em Governança para o Terceiro Setor

Em abril, o programa Transformando Territórios concluiu a segunda formação em Governança para Terceiro Setor, ampliando o alcance e reforçando o compromisso com o fortalecimento institucional do terceiro setor em diferentes territórios.

Voltada para pessoas que já atuam ou desejam atuar em posições de liderança dentro de OSCs, a formação reuniu mais de 70 participantes, representando mais de 30 municípios, distribuídos em 14 estados brasileiros. A iniciativa contou com representantes indicados por Fundações e Institutos Comunitários (FICs) parceiros do programa.

Estruturada em quatro encontros síncronos, a formação contou com emissão de certificado para os participantes. Ao longo da programação, foram abordados temas fundamentais para o fortalecimento das organizações, como introdução ao terceiro setor e a conceitos e práticas de governança de sucesso, além de sustentabilidade institucional e construção de legado.

O objetivo da formação foi aprofundar a compreensão sobre a importância da governança como elemento estratégico para a transparência, sustentabilidade e efetividade das OSCs, contribuindo para o desenvolvimento de lideranças mais preparadas para enfrentar desafios e ampliar o impacto social das organizações.

“Concluir essa formação com mais de 70 lideranças certificadas é plantar sementes para o futuro do setor social. Governança é transparência, compromisso e, acima de tudo, a abertura para novas vozes no processo decisório, garantindo que as organizações atendam demandas socioambientais legítimas e maximizem seu impacto.”, comenta Felipe Insunza Groba, gerente de projetos do IDIS, e ministrante da formação.

A primeira turma, concluída em 2025, foi direcionada exclusivamente a membros das FICs participantes do programa Transformando Territórios. Já essa segunda fase teve como público lideranças de OSCs atuantes nos territórios dessas fundações e institutos, auxiliando na melhoria das práticas de governança de forma mais ampla. 

A iniciativa integra as estratégias do Transformando Territórios, com apoio do Movimento Bem Maior e da Fundação FEAC, fortalecendo Fundações e Institutos Comunitários e impulsionando organizações que atuam diretamente na promoção do desenvolvimento local.

“É fundamental tratar da Governança. Ainda é tomado como algo secundário, mas não deve ser assim. A FUNDAES teve a oportunidade de reforçar isso no seu âmbito.

Os testemunhos que ouvimos é de que a Formação em Governança foi espetacular. Entidades já “maduras” disseram que o assunto deve ser revisitado. Falar aos Conselheiros da sua indispensável participação para advocacy e captação de recursos, além de fiscalizar a Gestão, é de extrema importância. E nisso o Felipe foi estratégico durante a formação. Muito obrigado ao IDIS”, agradece  Robson Melo, diretoria da FUNDAES, uma das organizações participantes do programa Transformando Territórios.

Sobre o Transformando Territórios

A iniciativa é do Programa Transformando Territórios, e conta com apoio do Movimento Bem Maior e da Fundação FEAC, auxiliando no fortalecimento das Fundações e Institutos Comunitários (FICs) participantes e as organizações que fazem a mudança social acontecer nos territórios.

Conheça nossos materiais sobre Governança

2° Encontro de Empresas Signatárias do Compromisso 1% reúne lideranças para debater e estimular a doação empresarial

No dia 29/04, em São Paulo, aconteceu o segundo Encontro de Empresas Signatárias do Compromisso 1%, um evento exclusivo promovido pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e Instituto MOL, que reuniu empresas protagonistas na transformação positiva no Brasil, que se comprometeram a doar ou já destinam ao menos 1% do lucro líquido anual para organizações da sociedade civil, movimentos ou coletivos que atuam em prol de causas socioambientais de interesse público. O Compromisso 1% reúne hoje 27 empresas signatárias, com novas organizações em processo de adesão.


Veja o que é Investimento Social Privado.


Com o objetivo de promover reflexões sobre o papel da filantropia estratégica, a programação contou com painéis e rodas de conversa com lideranças corporativas, conselheiros do Compromisso 1% e representantes das empresas signatárias e algumas empresas que estão finalizando o processo de adesão.

2º Encontro de empresas signatárias do Compromisso 1% na sede da KPMG Brasil / Foto: André Porto

Paula Fabiani, CEO do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – e de Rodrigo Pipponzi, membro do Comitê de Sustentabilidade da RD Saúde, lideraram o painel “Pessoas, propósito e legado: geração de valor para dentro e fora das empresas”, e debateram como o Investimento Social Privado pode gerar valor para os públicos de interesse da empresa, sejam internos ou externos. Já as rodas de conversas, mediadas por empresas signatárias e organizações do comitê consultivo do movimento, abordaram temas como alinhamento entre estratégia empresarial e investimento socioambiental, sensibilização e engajamento de lideranças, relacionamento com públicos externos, monitoramento e avaliação de impacto, comunicação como ferramenta de valor e diferentes modalidades de doação, promovendo conexões qualificadas e aprendizado coletivo.

Fechando com chave de ouro,  Rafaella Carvalho, Diretora Executiva na Cyrela Brazil Realty e Bruna Silva, Gerente Executiva de Impacto Social na RD Saúde, inspiraram ainda mais os presentes, reforçando a importância do compromisso contínuo com a filantropia estratégica e o papel das empresas na geração de impacto positivo na sociedade.

O II Encontro de Empresas Signatárias do Compromisso 1% marcou um avanço essencial: aproximar empresas signatárias e empresas que querem assumir um compromisso público e ter uma atuação mais conectada com a transformação socioambiental. Mais do que alinhamento de discurso, o encontro mostrou que, quando as empresas atuam de forma conjunta, elas podem ampliar o potencial de gerar mudanças concretas no Brasil.


QUER FAZER PARTE DESSA TRANSFORMAÇÃO?

Se a sua empresa também acredita no poder da doação estratégica para construir um futuro mais sustentável, acesse e saiba como aderir ao movimento. Junte-se às empresas que já estão mudando o mundo com apenas 1%.

Fortalecer a cultura de doação é um desafio coletivo

Autoria: Integrantes do Movimento por uma Cultura de Doação

A 13ª edição do Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica, o FIFE, aconteceu em abril, em Recife, e pela primeira vez, o Movimento por uma Cultura de Doação (MCD) marcou presença. O encontro reuniu mais de 1.700 pessoas de todo o Brasil, representantes de organizações da sociedade civil (OSCs) de diferentes portes e defensoras de múltiplas causas.

Para iniciar esta aproximação, a escolha da abordagem foi simples: destacar a importância da ação de cada um dos presentes no fortalecimento da cultura de doação. Antes mesmo da abertura oficial, realizamos uma masterclass com três horas de duração, que permitiu explorar o assunto com profundidade e envolvendo o público nas reflexões propostas. Para quem está na ponta, a doação tem significado de sobrevivência e de resistência. É também encarada como um esforço individual – o captador de recursos busca engajar doadores para a sua própria organização. A sessão, entretanto, expandiu esses entendimentos. Daniela Saraiva, coordenadora executiva, e Douglas Gonzalez, integrante do comitê gestor do MCD, apresentaram o conceito de cultura de doação, mostrando que quando doar é um valor da sociedade, um hábito cotidiano, o recurso flui também de forma mais fácil e permeia a capilaridade social, chegando a que mais precisa: as organizações sociais presentes nos territórios mais vulneráveis de nosso país.

Para o fortalecimento de uma cultura de doação, o MCD propõe cinco diretrizes, cada uma com ações correspondentes e com as quais podem contribuir o poder público, investidores socioambientais, organizações estruturantes, as próprias OSCs e qualquer cidadão. As próprias diretrizes têm recomendações que podem ser utilizadas para inspirar, direcionar e mesmo planejar ações que contribuam para esta agenda.

Outros membros do MCD foram chamados para compor o painel. Para aquecer o debate: dados. Luisa Lima, gerente de conhecimento do IDIS, apresentou os resultados da Pesquisa Doação Brasil 2024, mostrando como pensa e como age o doador individual no Brasil. Naquele ano, 43% dos brasileiros fizeram algum tipo de doação em dinheiro para OSCs, movimentos e campanhas, mobilizando R$ 24,3 bilhões de reais. O estudo revela que o doador está mais racional, demandando mais informações sobre as organizações e sobre o impacto gerado, por isso aspectos como governança, comunicação e avaliação passam a ser tão valorizados e são elementos importantes para o fortalecimento da cultura. Também importante é o letramento da mídia, que tem influência direta na decisão de doar (e de não doar).

Relatos de casos reais, organizações que captam recursos e que se percebem como agentes deste processo de construção da cultura de doação, contribuíram para inspirar o público presente. 

Joanna Calazans, gerente de filantropia da Aldeias Infantis SOS, trouxe seu ponto de vista a partir da experiência de uma organização que tem uma atuação já consolidada e milhares de doadores. Para ela, estar atento às tendências e mudanças sociais é imprescindível para garantir que cada vez mais pessoas possam se conectar com causas sociais. Neste sentido, fomentar a cultura de doação também é criar narrativas que sensibilizem para a ação. 

Jovemar dos Santos Silva Junior, diretor executivo da ReappMobi, abordou sua experiência com a gestão de captação de recursos através de leis de incentivo à cidadania Fiscal, conhecida em São Paulo como Nota Fiscal Paulista e no Maranhão como Nota Solidária, e trouxe a importância de estruturar campanhas de contato com doadores através de dados relacionais, medir indicadores como tempo de adesão do doador com a campanha, percepção do doador no ponto de contato com a causa da organização e motivadores de doação são importantes para engajar doadores com constância e consistência na relação Instituição-Doador e garantir sustentabilidade às Organizações Sociais. 

O papel do poder público também esteve presente no debate a partir da fala de Candice Araújo, assessora do ELO Ligação e Organização, organização que integra a Plataforma por um Novo Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil – Plataforma MROSC, articulação nacional que atua pelo aprimoramento do ambiente social e legal de atuação das OSCs e pelo fortalecimento de suas relações de parceria com o Estado. Pelo ELO, Candice também ocupa a vice-presidência do CONFOCO Nacional, espaço estratégico para o avanço da agenda MROSC – nas dimensões normativa e de produção de conhecimento. 

Em sua contribuição, destacou que a Lei nº 13.019/2014 consolidou regras para as parcerias entre Estado e sociedade civil, reforçando que organizações e poder público são corresponsáveis na promoção do bem comum. Nesse contexto, ressaltou que, embora a doação seja essencial para o fortalecimento das causas sociais e para a redução das desigualdades, ela não pode substituir a responsabilidade estatal na garantia de direitos e na implementação de políticas públicas. A reflexão reforçou a importância de compreender a cultura de doação como agenda complementar, inserida em um ecossistema mais amplo de corresponsabilidade social.

A fórmula escolhida – conceitos, dados, casos práticos e reflexões – foi repetida em versão pocket, durante o FIFE. Ao todo, quase 200 pessoas participaram dos debates. Em ambos momentos, apresentamos também o Dia de Doar, um movimento global sobre generosidade que este ano está de casa nova: o Movimento por uma Cultura de Doação. 

Mais do que apresentar uma iniciativa, provocamos os presentes a refletir: se queremos ver o Brasil como um país mais doador e, de fato, enraizar a cultura de doação, precisamos falar sobre doação, provocar diálogos e engajar pessoas nessas conversas. Essa é uma necessidade que vai além das nossas causas individuais — é um compromisso compartilhado para a construção de um país mais justo, equitativo e democrático. Não há como a doação florescer, se não falamos sobre isto. 

A semana foi bonita, com muitos aprendizados e embalada pela hospitalidade pernambucana. Participar de espaços como estes, chamar mais pessoas para a conversa, para a reflexão e para a ação são elementos essenciais. Afinal, fortalecer a cultura de doação é um esforço coletivo. E fechamos com o futuro que desejamos, trazendo a citação do poeta e filósofo libanês Khalil Gibran, lembrada por uma das participantes do evento: É belo dar quando solicitado; é mais belo, porém, dar por haver apenas compreendido.”

Entre o uso difuso e a ausência de estratégia

Artigo publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil

Por Henrique Barreto, gerente de projetos do IDIS, e Cássio Aoqui, cofundador do Canal SabIAr

Há um equívoco recorrente no debate sobre inovação no terceiro setor: o de que as organizações da sociedade civil ainda estão à margem da transformação digital. Os dados mais recentes do Programa IA.3, realizado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – IDIS com parceria técnica do Canal SabIAr e suporte do Google.org, mostram o contrário. A inteligência artificial já entrou no cotidiano das organizações da sociedade civil brasileiras, mas ainda de forma fragmentada, pouco estruturada e, em muitos casos, desprotegida.

A análise de 532 organizações inscritas no programa revela um cenário que merece atenção. Trata-se de uma amostra diversa, com organizações de diferentes portes (51% pequeno, 23% médio e 27% grande) e presença nacional, ainda que com concentração no Sudeste (62%). Esse recorte, embora não representativo de todo o setor, oferece pistas relevantes sobre tendências em curso.

Apenas uma minoria declara não utilizar IA no dia a dia. Em contrapartida, a institucionalização desse uso é incipiente com cerca de 40% das organizações apresentando baixo ou nenhum nível de formalização, o que indica que a tecnologia está mais presente como iniciativa individual do que como estratégia organizacional. A própria maturidade média na adoção de IA é intermediária (1,9 em uma escala de 0 a 4), com a institucionalização aparecendo como a dimensão mais frágil.

Henrique Barreto, gerente de projetos do IDIS, em apresentação sobre inteligência artificial no terceiro setor durante FIFE 2026

Esse descompasso, entre alto uso e baixa governança, é o ponto central da discussão. A IA já está sendo usada para tarefas operacionais, comunicação e apoio à gestão. No entanto, ela ainda não foi plenamente incorporada como ferramenta de desenvolvimento institucional. Faltam direção, investimento e, sobretudo, diretrizes claras.

E os dados são contundentes, 95% das organizações não possuem políticas ou orientações formais para o uso de IA. Ao mesmo tempo, 75% utilizam ferramentas gratuitas, muitas vezes sem garantias adequadas de segurança ou proteção de dados. Trata-se de uma combinação arriscada, especialmente em um setor que lida diretamente com populações em situação de vulnerabilidade e, por consequência, com informações sensíveis.

Outro dado revelador diz respeito às barreiras percebidas. A falta de conhecimento e o custo das ferramentas aparecem como os principais entraves à adoção. Não por acaso, começam a surgir iniciativas de capacitação em IA e tecnologia voltadas às organizações sociais, como o próprio programa IA.3 – Inteligência Artificial para o Terceiro Setor. Já os riscos éticos e de privacidade são pouco mencionados. Apenas 15% das organizações os apontam como barreira, o que sugere não uma ausência de riscos, mas uma lacuna de compreensão sobre eles. Em outras palavras, o debate sobre uso responsável ainda não acompanhou a velocidade da adoção da tecnologia.

Isso, no entanto, não diminui o potencial transformador da IA para o terceiro setor, pelo contrário. Organizações que conseguem integrar tecnologia à sua estratégia institucional ampliam sua capacidade de análise, ganham eficiência operacional e fortalecem sua incidência. Em um contexto de crescente pressão por resultados e transparência, isso é central.

Mas há uma diferença importante entre usar e saber usar. O que os dados indicam é que o terceiro setor brasileiro já atravessou a fase da experimentação inicial, mas ainda não consolidou uma cultura de uso estratégico da inteligência artificial. E essa transição não acontecerá espontaneamente.

Ela exige investimento, não apenas financeiro, mas também em formação, governança e cultura organizacional. Exige que lideranças incorporem o tema como parte da agenda institucional, e não como curiosidade tecnológica. E exige, sobretudo, que o campo da filantropia reconheça seu papel nesse processo: apoiar o fortalecimento digital das organizações como parte indissociável do fortalecimento da sociedade civil.

A inteligência artificial não é neutra, nem inevitavelmente benéfica. Seu impacto depende das escolhas que fazemos agora. No terceiro setor, isso significa sair do uso disperso e avançar para uma adoção consciente e orientada por propósito. O desafio já não é acessar a tecnologia, mas criar condições para que seu uso seja estratégico, ético e responsável.