Artigo publicado originalmente no Um Só Planeta
Por Yasmim Araújo Lopes, analista de projetos do IDIS, e Marcelo Modesto, gerente de projetos do IDIS
O Brasil ainda costuma tratar eventos climáticos extremos como exceções, respondendo a eles apenas quando seus impactos já se instalaram. Este ano, porém, a previsão de um novo episódio de El Niño tem oferecido a oportunidade de substituir a lógica padrão da reação pela da prevenção.
Instituições de monitoramento climático no Brasil e no mundo já apontam alta probabilidade de permanência do fenômeno até abril de 2027, com tendência de fortalecimento ao longo de 2026 e maior chance de intensidade muito forte entre setembro e dezembro. Com essa previsão, é imprescindível que governos, investidores sociais e organizações da sociedade civil incorporem o risco climático ao planejamento de suas ações.
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Os riscos elevados apresentados pelo El Niño, que se somam aos efeitos já sentidos das mudanças climáticas, não se restringem ao meio ambiente, mas atravessam praticamente todas as agendas sociais. Saúde, educação, segurança alimentar, geração de renda, assistência social, moradia e mobilidade podem ser diretamente afetadas por ondas de calor, secas, enchentes e queimadas. Mesmo as organizações que não atuam diretamente com a pauta climática podem enfrentar aumento da demanda por atendimento, custos adicionais e dificuldades para manter suas atividades.
Nesse cenário, a adaptação climática deixa de ser uma agenda exclusivamente ambiental e passa a ser uma condição para garantir a continuidade de políticas, programas e investimentos sociais. Afinal, proteger comunidades também significa proteger a capacidade das organizações de seguir entregando resultados justamente nos momentos de maior necessidade.
O desafio é ainda maior quando se observa a capacidade de resposta dos territórios brasileiros. Dados da plataforma AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, mostram que 3.679 municípios apresentam baixa ou muito baixa capacidade adaptativa para lidar com desastres associados a inundações, enxurradas e alagamentos. O dado indica que prever esses eventos extremos não é suficiente, mas que são necessárias ações práticas de prevenção, como o fortalecimento da gestão local, ampliação da articulação junto ao poder público e mais investimentos nas capacidades de resposta das comunidades.
Assim, a justiça climática ganha dimensão prática, não se resumindo a responder aos desastres uma vez que eles já aconteceram, mas criando condições para que populações mais vulneráveis estejam mais protegidas antes que os impactos ocorram.
A preparação começa muito antes da chegada de uma frente fria, de uma enchente ou de uma onda de calor. Ela começa quando organizações transformam previsões climáticas em perguntas norteadoras para a gestão e planejamento. O que pode mudar no território? Quais públicos serão mais afetados? Quais atividades precisarão ser adaptadas? Que recursos devem estar disponíveis antes dos períodos críticos? Essas questões ajudam a incorporar o risco climático ao planejamento cotidiano, tornando programas e investimentos mais robustos diante das incertezas.
Também é importante reconhecer que o El Niño não produzirá os mesmos efeitos em todo o país. A tendência é de redução das chuvas na Amazônia e Nordeste, aumento das temperaturas em grande parte do Brasil, possibilidade de condições mais secas no Sudeste e Centro-Oeste durante a primavera e aumento das chuvas no Sul, elevando o risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos. Essa diversidade exige respostas igualmente diversas, adaptadas às características de cada território. Isso implica na necessidade de se promover a centralidade dos territórios e suas organizações na discussão da adaptação climática.
Para o campo social, isso significa revisar programas e portfólios sob uma lente climática, elaborar planos de continuidade para serviços essenciais, investir preventivamente na adaptação de equipamentos e espaços comunitários, fortalecer redes locais de cooperação e prever mecanismos de financiamento mais flexíveis, capazes de responder rapidamente às mudanças impostas pelos eventos extremos.
Nenhuma dessas medidas elimina a possibilidade de desastres. Mas todas contribuem para reduzir danos, preservar serviços essenciais e aumentar a capacidade de resposta das comunidades. Quanto mais cedo investidores sociais e organizações incorporarem os riscos climáticos às suas decisões, maior será a possibilidade de evitar perdas humanas, sociais e institucionais.
O El Niño previsto para 2026 representa não apenas um desafio climático. Ele representa um teste sobre nossa capacidade de aprender com as crises recentes e agir antes que elas se repitam. A previsão já existe. O conhecimento também. O que ainda precisa mudar é a forma como transformamos essas informações em planejamento e ação, com embasamento científico, centralidade dos territórios, foco nas pessoas, principalmente as mais vulnerabilizadas.
