Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo, em 29/01/2026
O Fórum Econômico Mundial, realizado anualmente em Davos, é um dos principais termômetros das prioridades que orientam as lideranças políticas, econômicas e empresariais globais. O encontro revela, tanto pelo que é amplamente discutido quanto pelo que não é, quais agendas estão moldando as decisões que impactam o desenvolvimento, a estabilidade internacional e o futuro do planeta.
Em um contexto de crises simultâneas – climática, social, econômica e geopolítica -, Davos ofereceu, ao longo da última semana, uma oportunidade para observar como essas dimensões são articuladas no discurso global. Uma ansiedade sobre a incerteza do futuro geopolítico se mostrou presente nas conversas nos cafés e nos intervalos.
Sob o tema “Um Espírito de Diálogo”, a cidade suíça abrigou uma agenda de chefes de Estado e governo, além de inúmeros encontros paralelos promovidos por países, empresas, bancos, consultorias, organismos multilaterais e organizações da sociedade civil, onde se disputam narrativas, soluções e prioridades.
Foi nesse ambiente que participei de uma programação de debates e reuniões, incluindo espaços como a Brazil House, onde encontrei o renomado climatologista Carlos Nobre, sempre muito claro em relação às perspectivas da agenda climática.
Enquanto a inteligência artificial foi tratada como eixo estruturante do futuro da economia, com debates sobre produtividade, competitividade, regulação e ética, foi frustrante ver a crise climática aparecendo, quando sequer citada, dissociada dessas mesmas discussões. Como se fosse possível pensar inovação, crescimento e prosperidade sem considerar os limites ambientais que condicionam qualquer projeto de longo prazo.
Ao mesmo tempo, Davos também foi palco de discussões relevantes sobre filantropia, investimento responsável, economia de impacto e novos arranjos financeiros. A pergunta que atravessou muitos desses encontros foi como atrair mais capital para iniciativas que geram impacto socioambiental positivo.
Exemplos como o modelo de governança adotado pela Patagônia foram citados como referências de inovação institucional, capazes de alinhar missão, negócio e impacto de forma consistente. Também foi recorrente o debate sobre o uso de estruturas “blended”, que combinam capital filantrópico com recursos voltados ao retorno financeiro. Uma sinalização positiva veio do Reino Unido, com a criação do Impact Economy Office, um departamento governamental dedicado a estruturar e fortalecer a economia de impacto.
Outro ponto de convergência nas discussões foi a necessidade de colaboração. Parcerias entre governos, setor privado e organizações da sociedade civil foram apresentadas não como desejáveis, mas como mandatórias diante da complexidade dos desafios atuais.
Em minha participação como palestrante no evento paralelo “The Art of Creating Value”, compartilhei o caso do Juntos pela Saúde, iniciativa do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Social) gerida pelo IDIS (Instituto de Desenvolvimento Social) que, em parceria com doadores privados, destina recursos para fortalecer o SUS nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Além disso, trouxe evidências do poder de transformação positiva das doações da filantropa MacKenzie Scott, que direcionou US$ 26 bilhões a 2.700 organizações ao redor do mundo, sendo 28 delas no Brasil.
A sensação que permanece é a de uma dissonância entre as agendas que dominam os discursos globais e a magnitude das crises atuais. Davos aponta tendências, mas também expõe silêncios. O desafio está em transformar inovação tecnológica, instrumentos financeiros e acordos multilaterais em respostas integradas, capazes de enfrentar simultaneamente a crise climática, as desigualdades sociais e a instabilidade geopolítica.
Para o Brasil, essa reflexão ganha contornos ainda mais relevantes. No ciclo pós-COP30, o país ainda tem a oportunidade de se firmar no centro dos debates globais sobre clima, justiça social, democracia e biodiversidade.
Davos mostra que há pessoas, instituições e lideranças genuinamente comprometidas com o futuro do planeta, mas também deixa claro que existem muitos desafios no momento. A esperança, sozinha, não basta. Ela precisa se traduzir em escolhas políticas, econômicas e institucionais coerentes com a urgência das crises que enfrentamos.

