Doação e Cidadania: como pensa e age o doador brasileiro

O artigo a seguir integra o Boletim de Análise Político-Institucional (Bapi), organizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A edição, composta por onze artigos, está dividida em três partes – ‘O que sabemos sobre as Organizações da Sociedade Civil?’, ‘Trabalho nas OSCs: avanços e desafios’ e ‘Sustentabilidade das OSCs: estratégias e limites’. Conheça aqui o relatório completo.

Por Andréa Wolffenbüttel, Diretora de Comunicação no IDIS

INTRODUÇÃO

Uma sociedade civil forte pressupõe uma vasta gama de organizações que representem os anseios, necessidades, temores e problemas da população. Que consigam ser porta-vozes da sociedade junto ao governo e iniciativa privada. E que trabalhem, de forma independente, na defesa dos direitos individuais e coletivos, e na busca de soluções para a promoção do bem comum.

Para ter realmente voz na mesa de negociações junto aos demais tomadores de decisão, essas organizações, comumente conhecidas pela sigla ONG (organização não governamental), precisam de independência financeira, operacional e ideológica, que lhes permita fazer propostas, exigir garantias e recusar condições sem temer por sua própria sobrevivência.

Essa independência só será verdadeira se ela contar com fontes de financiamento variadas, constantes e confiáveis. Em outras palavras, se ela tiver doadores, fiéis, não relacionados entre si, que garantam sua operação e demonstrem confiança no trabalho desenvolvido pela organização.

Portanto, a figura do doador tem um papel relevante no cenário de uma sociedade saudável, plural e democrática, mas não se sabe, ao certo, se os indivíduos, de um modo geral, têm consciência dessa responsabilidade. Para descobrir é preciso estudar. São necessárias pesquisas qualitativas e quantitativas, o que, em um país das dimensões do Brasil, representa um gasto considerável com o qual poucas ONGs teriam condições de arcar.

Não é de surpreender, então, que a primeira pesquisa de abrangência nacional a tentar entender o comportamento doador do brasileiro tenha vindo de fora do país. Trata-se do World Giving Index, uma pesquisa anual, realizada por iniciativa da Charities Aid Foundation (CAF), uma organização britânica de promoção à filantropia. Essa pesquisa trouxe os primeiros números objetivos sobre o brasileiro como indivíduo solidário e será tema da próxima seção.

Em 2015, seis anos após o aparecimento do World Giving Index, foi feita a mais ampla pesquisa sobre doação individual no Brasil, cobrindo todo o país. Ela foi liderada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), uma organização social brasileira, igualmente promotora da filantropia, que representa a britânica Charities Aid Foundation na América do Sul. Esse levantamento chamado Pesquisa Doação Brasil é tratado na segunda seção.

Inspirada pela Pesquisa Doação Brasil, a Charities Aid Foundation decide, em 2017, fazer investigações mais detalhadas sobre o comportamento dos doadores nos países onde mantem seus principais escritórios de representação, incluindo o Brasil. Essa terceira pesquisa chamada Country Giving Report ocupa uma posição intermediária entre as duas anteriores, em termos de abrangência, e será apresentada na terceira seção deste artigo.

Adotando metodologias diversas e amostras diferentes, as três pesquisas apresentam fotografias do doador brasileiro sob vários ângulos. A penúltima seção traz quadros comparativos que tentam explicar as características de cada uma. Por fim, a reflexão sobre os diferentes dados e os desafios que ainda temos para conhecer mais a fundo o doador brasileiro é conteúdo abordado na Conclusão.

1. WORLD GIVING INDEX – 2009

A mais antiga e sistemática pesquisa sobre o comportamento doador da população brasileira é o World Giving Index (WGI), traduzido no Brasil para Índice Global de Solidariedade. Optou-se por essa tradução não literal porque, como veremos a frente, o índice considera outras iniciativas além da doação de recursos e a tradução fiel, que seria Índice Global de Doação, poderia conduzir a interpretações errôneas.

O World Giving Index é uma pesquisa de frequência anual, promovida pela Charities Aid Foundation (www.cafonline.org), também conhecida como CAF. Trata-se de uma organização inglesa de promoção à filantropia, fundada em 1924 pelo governo britânico e que se tornou independente em 1974. A CAF possui uma rede internacional de escritórios presentes em nove países cobrindo os cinco continentes. No Brasil, a CAF é representada pelo IDIS (www.idis.org.br).

O processo operacional da pesquisa WGI é conduzido pelo Instituto Gallup, abrangendo de 140 a 155 países, variando devido a conflitos ou problemas que, eventualmente, dificultem ou impeçam o acesso a determinadas localidades. O Brasil consta em todas as edições da pesquisa. A quantidade de entrevistados total da WGI gira em torno de 150 mil pessoas, o que permite estimar o comportamento de mais de 90% da população mundial.

A metodologia da pesquisa WGI é bastante simples, de modo a ser aplicada com a mesma objetividade nos diferentes países com culturas e realidades distintas, e também tornar possível a comparação entre os resultados de cada um. Ela mede, basicamente, o percentual da população que, no mês anterior à entrevista, realizou as seguintes ações:

1. Ajudou um desconhecido;
2. Doou dinheiro para uma organização;
3. Fez trabalho voluntário.

Após obter os três percentuais, ela faz a média aritmética deles, resultando no Índice Global de Solidariedade daquele determinado país. Portanto, o Índice pode variar de 0 a 100 por cento, sendo 0 quando ninguém no país realizou alguma dessas ações no mês anterior à entrevista, e 100 quando toda a população realizou as três ações no mesmo período.

A primeira edição da pesquisa WGI foi lançada em setembro de 2010, trazendo resultados referentes ao ano de 2009. Na ocasião, o Brasil apareceu em 76º lugar, em uma lista de 153 países. 49% dos brasileiros haviam afirmado ter ajudado a um desconhecido, 25% declararam ter doado para uma organização, e 15% disseram ter feito trabalho voluntário. É interessante notar que, ao longo dos anos, o tamanho das parcelas se manteve proporcional, ou seja, ainda que a classificação do país suba ou desça, é sempre maior a quantidade de pessoas que ajudou a um desconhecido, seguida das que doaram dinheiro e, por último, com um contingente menor, aquelas que fizeram trabalho voluntário. Essa ordem demonstra claramente o nível de engajamento exigido para cada uma das iniciativas.

Fonte:World Giving Index 2009

Na primeira edição do WGI, a 76ª posição era uma condição confortável para o Brasil, pois estava em 5º lugar na América do Sul, logo abaixo da Argentina e acima de Peru e Uruguai. Também era o primeiro colocado entre os países do BRICS, grupo formado pelas economias em ascensão, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

A divulgação do primeiro WGI reafirmou a vocação doadora dos países de cultura anglo-saxã, que ocuparam seis das dez primeiras posições do ranking.

Desde então, oito novas edições do WGI foram realizadas e o desempenho brasileiro variou significativamente. O melhor resultado foi registrado em 2015 quando o Índice do Brasil chegou a 34, o que lhe garantiu a 68ª posição no ranking global. O pior ocorreu dois anos depois, na mais recente pesquisa WGI publicada, na qual o país ficou na 122ª posição com um Índice de 23.


Fonte: World Giving Index, 2015 e 2017

A pesquisa WGI não oferece nenhum tipo de análise que contribua para o entendimento das oscilações no comportamento das pessoas, apenas consolida as respostas recebidas e faz as projeções para toda a população dos países. Porém, no caso do Brasil, vale a pena fazer algumas reflexões.

Entre 2009, ano da primeira pesquisa, e 2017, ano da última pesquisa divulgada, o país passou por três eleições presidenciais e um processo de impeachment, e presenciou uma avassaladora onda de protestos em 2013, que ecoou por alguns anos. Enfrentou uma das maiores, senão a maior, crise econômica de sua história, e viu toda uma geração de políticos e profissionais, dos três poderes, ser soterrada sob uma montanha de escândalos de corrupção. É de se esperar que essa sequência de acontecimentos tenha efeitos significativos sobre a condição e, sobretudo, a disposição das pessoas para a solidariedade.

Nesse período, os níveis de confiança dos brasileiros nas instituições desceram a marcas impressionantes. O noticiário expôs diariamente as denúncias de desonestidade dos agentes do governo, envolvendo diretamente grandes empresas e usando, com frequência, organizações da sociedade civil como fachada legal para operações ilícitas. A pesquisa de confiança global Trust Barometer, divulgada anualmente pela agência de comunicação Edelman (www.edelman.com.br), mostrou que, em apenas um ano, de 2016 para 2017, o grau de confiança dos brasileiros nas instituições caiu 18 pontos percentuais, colocando o país entre os seis mercados nos quais a desconfiança mais aumentou de um ano para o outro. Esse, seguramente, é um elemento que minou a disposição dos brasileiros de contribuir com organizações da sociedade civil, seja com recursos, seja com trabalho voluntário.

2. PESQUISA DOAÇÃO BRASIL – 2015

A mais completa e abrangente pesquisa sobre o comportamento doador do brasileiro é a Pesquisa Doação Brasil, liderada pelo IDIS, realizada nos anos de 2015 e 2016, trazendo dados referentes a 2015. Essa pesquisa surgiu especificamente para responder a perguntas mais complexas como, por exemplo, quais as motivações que levam o brasileiro a doar ou a não doar, como a população enxerga as organizações do terceiro setor e quais suas causas prediletas, entre outras. Além disso, também se propôs a, pela primeira vez, estimar o volume financeiro total das doações realizadas por indivíduos no Brasil, portanto, desconsiderando o investimento social de empresas, institutos e fundações.

Para garantir que o levantamento fosse capaz de responder às principais dúvidas do universo das organizações sociais que dependem de doações, o IDIS optou por um processo coletivo de concepção da pesquisa, do qual participaram cerca de vinte entidades, entre organizações da sociedade civil, empresas e academia. O resultado do trabalho colaborativo foi um questionário com 52 perguntas, que pode ser solicitado ao IDIS pelo email comunicacao@idis.org.br.

A Pesquisa Doação Brasil começou com uma etapa qualitativa, na qual foram formados dez grupos focais, com oito participantes cada, nas cidades de Porto Alegre, Recife e São Paulo. O objetivo dessas conversas foi permitir que a equipe do Instituto Gallup, responsável pela condução dos trabalhos, pudesse entender melhor o contexto, aprofundar-se no tema e obter mais subsídios para a posterior etapa quantitativa, que entrevistou 2.230 pessoas.

A pesquisa demonstrou que, em 2015, dois terços da população brasileira havia se envolvido em algum tipo de doação, seja dinheiro, bens ou tempo (em forma de trabalho voluntário). A prática mais comum é a doação de bens, adotada por 62% dos brasileiros, seguida por doação de dinheiro, com 52%, e do trabalho voluntário, com 34%. Os dados foram bastante surpreendentes para quem supunha que no Brasil não havia uma cultura de doação.

O levantamento das características demográficas mostrou que a região mais doadora é a Nordeste, que as mulheres costumam doar mais que os homens e que ter uma religião influencia positivamente as doações. A prática da doação aumenta com a idade e com a renda, porém tem um leve decréscimo quando a renda familiar mensal supera os 15 salários mínimos. O nível de escolaridade tem um efeito curioso, sendo mais presente a doação entre os que têm até o ensino fundamental e nos que têm ensino superior, e sendo menos frequente no grupo dos que possui até ensino médio. Os resultados da pesquisa podem ser consultados em www.idis.org.br/pesquisadoacaobrasil. A partir desses dados é possível traçar o perfil mais provável do doador brasileiro.

Fonte: Pesquisa Doação Brasil, IDIS, 2015

Além do perfil doador, a Pesquisa Doação Brasil também mapeou as características das doações. E concluiu que 66% dos doadores fazem doações 12 vezes ou mais por ano, o que os coloca na condição de doadores recorrentes, o tipo mais importante para as organizações porque garante uma renda mensal. A partir dos valores declarados pelos entrevistados, foi possível estimar o valor médio doado pelos brasileiros. Essa quantia varia de R$ 240 a R$ 480 por ano, o que representa uma média mensal entre R$ 20 e R$ 40 reais. Essa média permitiu a projeção do total doado pelos indivíduos em 2015. O montante seria de R$ 13,7 bilhões, equivalente a 0,23% do PIB do mesmo ano.

Porém, talvez a maior contribuição da pesquisa tenha sido a investigação sobre o que motiva os doadores a contribuir com as organizações da sociedade civil. Ao responder espontaneamente quase metade dos doadores (49%) afirmou que o que os leva a fazer doações é a solidariedade com os mais necessitados. Já, ao serem convidados a escolher entre diversas razões, 89% dos doadores disseram que são levados a doar porque isso os faz sentir-se bem. É curiosa essa mudança de postura, porém, percebe-se que ambas as respostas têm um forte componente emocional, indicando que a doação é um ato que nasce de uma motivação subjetiva ‘do coração’.

Ao selecionar as causas que mais os sensibilizam, os doadores se concentraram nas seguintes respostas: Saúde, Crianças, Combate à Fome e à Pobreza, e Idosos. As escolhas indicam certa confusão entre causa e público beneficiário, e mostram uma clara preferência pelos problemas presentes no cotidiano da população, enquanto outras questões mais complexas e distantes, como proteção do meio ambiente, por exemplo, quase não são mencionadas.
Outra característica importante da Pesquisa Doação Brasil é que ela é a única a investigar e traçar também o perfil dos não doadores.

Leia também:   Planejando a sucessão do fundador

Fonte: Pesquisa Doação Brasil, IDIS, 2015

Também vale a pena destacar as principais motivações apresentadas pelos não doadores para não contribuírem com as OSCs. Ao responderem espontaneamente explicam que não dispõem de dinheiro, que não há uma razão específica, que não confiam nas organizações que pedem doações ou que nenhuma causa os sensibiliza. Já quando são colocados diante de várias alternativas, as mais escolhidas são que resolver os problemas sociais é responsabilidade do governo, que não confiam nas organizações que pedem doações, que não têm dinheiro e que têm medo de se comprometer com uma doação periódica e não poder cumprir. É interessante observar que as duas alternativas que permanecem entre as quatro primeira colocadas são a falta de dinheiro e a desconfiança nas organizações. Mais uma vez, o problema da falta de confiança nas instituições aparece como obstáculo às doações.

3. COUNTRY GIVING REPORT – 2016

Ao perceber como a divulgação dos resultados da Pesquisa Doação Brasil provocou discussões e reflexões no campo do investimento social privado e das organizações da sociedade civil no Brasil, a Charities Aid Foundation (CAF) decidiu produzir pesquisas semelhantes nos países onde se encontram seus principais escritórios.

A pesquisa ganhou o nome de Country Giving Report, isto é, Relatório de Doação do País, e em sua primeira edição foi realizada na África do Sul, Brasil, Canadá, Estados Unidos, Índia Reino Unido e Rússia. A CAF declarou a intenção de repetir anualmente esta pesquisa.

Ao contrário do World Giving Index, o Country Giving Report cobre as ações realizadas nos doze meses anteriores à entrevista, o que proporciona um panorama mais consistente do comportamento dos doadores.

No caso específico do Brasil, os resultados se referem ao período de agosto de 2016 até julho de 2017, e para entender melhor os dados é importante saber que, diferentemente do World Giving Index e da Pesquisa Doação Brasil, as entrevistas para o Country Giving Report foram feitas via questionário on-line, o que exclui do grupo investigado aqueles que não têm acesso à internet. Na ocasião 34% dos brasileiros não tinham acesso à internet, de acordo com levantamento da ‘We are Social & Hootsuite 2017’ . Também é preciso destacar que o Country Giving Report considerou como doação os recursos destinados a templos e igrejas, enquanto a Pesquisa Doação Brasil não os contabilizou como doações a organizações da sociedade civil.

Os resultados do Brazil Giving Report foram ainda mais otimistas do que os da Pesquisa Doação Brasil e é possível entender esse efeito já que há uma parcela da população que não integrou o grupo de entrevistados – os que não têm acesso à internet – e também por ter incluído doações para templos e igrejas.

A pesquisa constatou que mais de dois terços das pessoas pesquisadas havia doado dinheiro no período investigado (68%), seja doando a uma organização social, igreja ou organização religiosa. O apoio às organizações religiosas era a causa mais popular, com cerca de metade das pessoas pesquisadas fazendo doações dessa natureza (49%). A quantia típica (mediana) doada pelos que fizeram doações naqueles 12 meses foi de R$250 e doar dinheiro diretamente na sede/escritório de uma organização social foi a forma de doação mais comum (37%). Mais da metade dos pesquisados (52%) fez trabalho voluntário nos últimos 12 meses, e “ter mais dinheiro” foi o fator mais citado pelos pesquisados como incentivo a doar mais nos 12 meses seguintes, com cerca de seis em cada dez (59%) dizendo que isso seria um grande estímulo.

Um ponto interessante do Country Giving Report é que ele fez o cruzamento entre características do doador e o valor doado. O levantamento mostrou que o grupo com renda familiar anual acima de R$50 mil é o mais propenso a ter realizado alguma atividade de solidariedade (doar dinheiro, bens ou tempo) nos últimos 12 meses, com 86% respondendo afirmativamente em comparação com 71% dos que têm renda familiar anual inferior a R$10 mil. Porém, as pessoas de mais baixa renda tendem a doar mais, proporcionalmente à sua receita, do que aqueles de alta renda. Enquanto os que ganham acima de R$ 100 mil por ano doam, em média, 0,4% de sua renda, aqueles que ganham menos de R$ 10 mil por ano doam, em média, 1,2% de sua renda.

A doação média do brasileiro é de R$ 250 por ano, mas existe uma diferença significativa entre homens e mulheres. Para as mulheres, esse valor é de R$ 200, enquanto para os homens, ele sobe para R$ 350. Porém como há mais mulheres do que homens doando, conforme indicou a Pesquisa Doação Brasil, a média tende a cair.

Em termos de adesão a causas, o Brasil Giving Report identificou que os brasileiros preferem, em primeiro lugar, as causas religiosas, seguida de crianças e de ajuda aos pobres. Quando se trata das motivações para doar, a maior delas é o fato da doação fazer com que se sintam bem, indicaram 51% dos entrevistados, enquanto 41% afirmaram se preocupar com a causa para a qual doam. Considerando que essas foram respostas estimuladas, elas corroboram o apurado pela Pesquisa Doação Brasil, ao perguntar pelas motivações usando a mesma metodologia.

4. COMPARAÇÕES

As três principais pesquisas dedicadas ao perfil do doador brasileiro apresentam algumas diferenças que devem ser levadas em consideração antes de qualquer análise comparativa conforme apresentadas no quadro a seguir.


Fonte: elaboração da autora

Dois fatores influenciaram a definição das características para cada uma delas. O primeiro é o orçamente disponível para sua realização. Esse quesito foi determinante para definir o tipo de entrevista, considerando que levantamentos presenciais são mais caros do que aqueles realizados por telefone, que, por sua vez, são mais caros do que aqueles feitos via internet.

Outro elemento importante na definição da metodologia e do conteúdo das pesquisas foi a necessidade de adequação a diferentes realidades nacionais. O World Giving Index e o Country Giving Report são aplicados em diversos países e precisam adotar critérios e conteúdos neutros o suficiente para não sofrerem com as mudanças de cultura. Já a Pesquisa Doação Brasil foi concebida por uma organização brasileira para ser aplicada especificamente dentro do país, o que deu liberdade maior a seus realizadores.

Isso posto, apresentamos abaixo quadros com as principais vantagens e desvantagens de cada pesquisa.

Fonte: elaboração da autora

CONCLUSÃO

Devido às diversas diferenças expostas no capítulo anterior, não é possível fazer comparações quantitativas diretas entre as três pesquisas, mas elas apontam para valores e tendências muito semelhantes.

A primeira coisa a chamar a atenção é que a maior delas, a Pesquisa Doação Brasil, foi realizada em um ano especialmente generoso, já que 2015 foi quando o Brasil bateu seu recorde histórico de classificação no ranking mundial do World Giving Index. Como o período que se seguiu a 2015 no Brasil foi turbulento e marcado por profunda e prolongada crise econômica, política e moral, tudo indica que os números apresentados pela Pesquisa Doação Brasil podem não se repetir em sua próxima edição, que deverá cobrir o comportamento dos brasileiros em 2020.

Outra coisa que chama a atenção é a sensibilidade dos brasileiros. Estudando as séries históricas do World Giving Index, observa-se sempre que a demonstração mais frequente de solidariedade dos brasileiros é a ‘ajuda a um desconhecido’. Isso demonstra que quando o brasileiro testemunha e percebe a necessidade diante de si, ele se mobiliza. Porém, ações que exigem mais planejamento, tais como doação para uma organização social ou trabalho voluntário, ainda não são tão frequentes.

Trata-se de um doador instintivo, que se move mais pelo que ‘os olhos veem e o coração sente’ do que pelo estímulo racional de realizar uma transformação da realidade. A etapa qualitativa da Pesquisa Doação Brasil trouxe a indicação clara de que os brasileiros enxergam a ajuda ao próximo como uma ação mais do ser humano do que do cidadão. “Aquilo que eu queria que fizessem comigo, eu faço com os outros” é uma afirmação comum entre os entrevistados.

Percebe-se a mesma característica quando o brasileiro é questionado sobre as causas de sua preferência. As causas mais populares são aquelas mais facilmente percebidas pelos sentidos, tais ‘saúde’’ e ‘combate à fome e à pobreza’. Também aparecem, em ambas as pesquisas que cobrem esse item, as ‘crianças’ como uma causa importante. E surpreende que a ‘educação’, considerada por muitos como o mais importante instrumento de transformação de uma sociedade não conste sequer entre as cinco causas mais populares.

Isso mostra que temos um espaço grande para trabalhar e disseminar o conceito de causa com o intuito de mobilizar novos doadores. Também é preciso mobilizar as organizações sociais para que comuniquem melhor sua função e os resultados de seus trabalhos, para (re)conquistar a confiança dos cidadãos brasileiros.

As três pesquisas juntas representam um salto de qualidade, dado nos últimos três anos, no conhecimento sobre o doador brasileiro, porém, ainda não temos dados maduros porque nossos números não foram submetidos a comprovações ao longo dos anos.

Duas lacunas grandes ainda precisam ser preenchidas. Primeiro uma nova estimativa do valor total por indivíduos no Brasil, já que a projeção de R$ 13,7 bilhões, feita pela Pesquisa Doação Brasil pode não estar mais nesse patamar. E em segundo lugar, recortes por gênero, faixa de renda, local de residência e escolaridade, por exemplo, que sirvam de ferramenta de trabalho para aqueles que se dedicam a levantar os recursos necessários para a sobrevivência e o bom desempenho das organizações da sociedade civil no Brasil.

PARA SABER MAIS

Entre as diversas publicações indicadas na Bibliografia, existem duas de especial interesse para quem quer saber mais sobre o estado da cultura de doação no Brasil, pois trazem conteúdo mais reflexivo do que quantitativo. O primeiro deles é a publicação da Pesquisa Doação Brasil, que além de apresentar os resultados do levantamento, também contém artigos que analisam os dados sob diferentes pontos de vista. O olhar psicanalítico, o olhar de uma especialista em pesquisas e o olhar de um acadêmico do campo do Terceiro Setor. Esses três textos, além de outras reflexões dos profissionais envolvidos na realização da pesquisa ajudam a ampliar o conhecimento trazido pelos números.

O segundo é o relatório Perspectivas para a Filantropia Global: O Poder Transformador da Doação da Classe Média. Trata-se de um trabalho que projeta o futuro, propondo uma ação no presente para que esse futuro seja alcançado. É muito interessante por se basear em dados concretos e por trazer um pequeno trecho especificamente dedicado à realidade brasileira, fazendo recomendações para que o engajamento da classe média na cultura de doação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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