Ensinamentos da COVID-19

Por Luiz Sorge, CEO da BNP Paribas Asset Management e presidente do Conselho do IDIS

Sem dúvida o momento único pelo qual passamos atinge a sociedade de forma heterogênea e dinâmica, por meio de ondas que se espalham e nos impactam de maneira difusa. E é com respeito às muitas lágrimas derramadas e às que ainda serão choradas que escrevo esse texto.

Estamos sendo chamados a nos provar, a comprovar e a desmentir algumas teorias e conceitos.

A primeira delas é a de que o ser humano será substituído pelas máquinas. Fazia tempo que eu não tinha tanta certeza de que as máquinas e a tecnologia estão a serviço do homem e que este as domina. Computadores, sistemas, robôs, inteligência artificial têm sido catalisadores de um novo momento da civilização, e além disso, nós os estamos usando para aumentar nossa resiliência e produtividade.

De forma rápida e abrupta nos adaptamos a um trabalho coletivo remoto, desenvolvemos e consolidamos alguns conceitos de relacionamento virtual, ao mesmo tempo em que lapidamos aspectos comportamentais como empatia, bom senso, paciência, colaboração, entre outros. Estamos nos reinventando coletivamente e à distância, montando, remontando e organizando equipes, lidando com situações novas a cada momento, e assim estabelecendo conexões neurais, sociais e profissionais inéditas. Tudo isso tendo a tecnologia a nosso serviço.

Agora me digam, que máquina seria capaz de fazer isso em nosso lugar? Somos muito bons e insubstituíveis nesse aspecto, ao menos até o momento.

Minha principal atividade é tentar, em equipe, entender os movimentos do mercado financeiro e a consequente valorização ou desvalorização dos ativos. Porém, hoje temos 3 variáveis não técnicas que “fazem preço”: a evolução da Covid-19, a distopia política local e a disfunção geopolítica global. Portanto, o segundo conceito que comprovo nesse momento é o de que fatores exógenos têm sido, e continuarão sendo por algum tempo, determinantes dos preços dos ativos. E isso nos leva a uma dose cavalar de humildade, nos restando apenas traçar cenários possíveis, atribuir probabilidades e buscar prudência em nossas decisões.

Minha visão a partir de um lado mais nobre da vida, já que acompanho o desenvolvimento do terceiro setor por meio da minha participação no Conselho do IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social), é que há uma maior movimentação de pessoas e entidades filantrópicas, principalmente por meio de doações que visam minimizar o impacto da Covid-19 na sociedade. Acredito que esse movimento, terceiro conceito a ser repensado, possa ser o princípio de uma mudança estrutural, na qual a solidariedade dos mais favorecidos em prol dos menos favorecidos passará a fazer parte do nosso dia a dia, assim como já ocorre nas sociedades mais desenvolvidas. Tenho também esperança que cada vez mais iniciativas de cunho filantrópico, privadas e sérias, terão doravante mais apoio do setor público.

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A partir de uma perspectiva histórica, recordo a origem italiana de minha família, com bisavô e avô combatentes da primeira e segunda guerras mundiais, respectivamente. O último, antes de voltar da guerra e migrar para o Brasil, esteve prisioneiro por aproximadamente 6 anos e minha nonna vivenciou sozinha uma parte da infância de meu pai e meu tio na província de Chieti, na região de Abruzzo. Ela criava pequenos animais e tecia lençóis para trocar por farinha e assim poder completar a alimentação com pães e massas.

Muitos pensam que o que estamos passando é o mais próximo possível de uma guerra. Porém, pelo que sei e ouvi de minha família, estamos a milhas de distância das necessidades, incertezas e ameaças que uma verdadeira guerra mundial representou aos nossos antepassados.

Isso me leva a analisar outros dois últimos conceitos: o social e o familiar. Só entendemos a importância do convívio social na carência deste. Só reforçamos o sentimento de alegria da vida em família na convivência com esta.

Estar com amigos e entre amigos nos ajuda a compor nosso tecido social com retalhos de diversas visões, origens e culturas que nos enriquecem a cada dia. Além do suporte psicológico, já comprovado cientificamente, que as amizades nos trazem.

Já a vida em família é nosso porto seguro, onde buscamos o refúgio nos momentos turbulentos e procuramos nos abrigar das tempestades. O atual momento de reclusão é também momento de alegria por estarmos reunidos, por poder tomar aquele cafezinho juntos quando o intervalo do trabalho remoto permite, e pela satisfação de poder fazer refeições coletivas todos os dias, com quem amamos.

Portanto, nesse momento, é lógico que a atenção deve ser primeiramente direcionada para cuidarmos de nossa saúde, e vencida essa desafiadora etapa devemos agradecer muito:

  • Pela oportunidade do ser humano, em suas atitudes individuais e coletivas, voltar a ser importante para a evolução e perpetuidade da civilização moderna;
  • Por entender a importância de virtudes e competências que não podem ser replicadas por processos, sistemas e robôs;
  • Pela necessária humildade a que devemos nos submeter quando confrontados ao que não controlamos;
  • Por termos uma oportunidade de desenvolver de maneira perene o espírito filantrópico em nosso país;
  • Por me lembrar e me permitir ter a visão relativa, e em perspectiva, do que deve ter sido viver em um período de guerra;
  • Pela lembrança do quão nos faz bem compartilhar recortes de nossas vidas com amigos;
  • E finalmente, pela oportunidade de nos voltarmos para o seio de nossas famílias, onde o amor é pleno e puro, sem contaminações.

Esperamos que o sofrimento de muitos resulte, ao menos, em ensinamentos para todos.