Como a filantropia pode permanecer relevante em um mundo em transformação: lições da filantropia brasileira

29 de julho de 2026

Artigo publicado originalmente no blog WINGS, em inglês

Por Luisa Lima, gerente de Comunicação e Conhecimento do IDIS

Em um mundo cada vez mais impactado pelas mudanças climáticas, pela transformação tecnológica, pela polarização política e pela queda da confiança nas instituições, a filantropia é chamada a repensar não apenas o que financia, mas também a forma como atua.

Em diferentes países e contextos, desafios sociais e ambientais tornam-se cada vez mais interligados e complexos, dificultando respostas baseadas em abordagens tradicionais. Nesse cenário, a pergunta deixa de ser apenas como gerar impacto e passa a ser como manter a relevância em um mundo em constante transformação. Adotar uma visão sistêmica, desenvolver mecanismos inovadores de financiamento, construir novas parcerias e promover o diálogo em uma sociedade polarizada são alguns dos caminhos que a filantropia vem trilhando para fortalecer sua atuação.

A mais recente edição de Perspectivas para a Filantropia no Brasil, publicada pelo IDIS, oferece um panorama de como o ecossistema filantrópico brasileiro vem respondendo a esse contexto. Embora a realidade do país tenha características próprias, muitas das tendências identificadas refletem desafios que também mobilizam a filantropia em outras partes do mundo.

Uma das principais tendências apontadas pelo relatório é o reconhecimento de que as mudanças climáticas não podem mais ser tratadas como uma pauta isolada. Durante muitos anos, a filantropia ambiental ocupou um espaço relativamente apartado de temas como saúde, educação, inclusão econômica e democracia. Hoje, essa separação faz cada vez menos sentido. Em todo o Brasil, eventos climáticos extremos afetam serviços públicos, meios de subsistência, segurança alimentar e a capacidade de resposta das comunidades. O clima deixou de ser apenas mais uma causa: tornou-se um tema transversal, fundamental para a construção da resiliência. Independentemente da área de atuação, organizações precisam estar preparadas para enfrentar crises, adaptar-se a novos contextos e manter sua missão mesmo diante de cenários adversos.

Essa realidade tem levado organizações filantrópicas a rever suas estratégias. O Compromisso Brasileiro pela Filantropia com a Mudança Climática, capítulo brasileiro do movimento global Philanthropy for Climate, coordenado internacionalmente pela WINGS e pela Philea, incentiva financiadores de diferentes causas a incorporar a agenda climática em sua governança, nas decisões de investimento, na concessão de recursos e nas práticas organizacionais.

Ao lado da agenda climática, outra questão vem transformando a prática filantrópica: a confiança. A Pesquisa Doação Brasil 2024 revela que apenas 30% dos brasileiros consideram as organizações da sociedade civil (OSCs) confiáveis. Esse desafio não é exclusivo do Brasil. Em diferentes partes do mundo, a queda da confiança nas instituições, somada à desinformação e à polarização política, dificulta a construção de respostas coletivas para problemas compartilhados. Em resposta, organizações e investidores sociais têm ampliado investimentos em iniciativas voltadas ao fortalecimento do diálogo e da coesão social.

Um exemplo é o Brasil Fala, inspirado no programa internacional My Country Talks, que conecta pessoas com visões políticas divergentes por meio de conversas estruturadas. Outra iniciativa é a Sociedade Viva, que busca ampliar o conhecimento da população sobre as organizações da sociedade civil e seu papel no fortalecimento da democracia. Além de manter uma plataforma com dados e conteúdos qualificados, a iniciativa promove campanhas de comunicação voltadas ao público em geral e desenvolve ações específicas para aproximar a imprensa do tema, incluindo um guia prático para jornalistas sobre o terceiro setor e uma lista de fontes especializadas em diferentes causas.

Essas iniciativas evidenciam um papel cada vez mais relevante da filantropia como promotora do diálogo e da construção de pontes. Em sociedades marcadas pela polarização, reconstruir a confiança pode ser tão importante quanto financiar programas.

A discussão sobre confiança também se conecta a outra transformação em curso: a redistribuição de poder. Em diferentes partes do mundo, comunidades vêm reivindicando maior participação nas decisões que afetam suas vidas. No Brasil, esse movimento tem impulsionado o crescimento de abordagens lideradas pelas próprias comunidades, colocando atores locais no centro dos processos de governança e de financiamento.

Iniciativas como o Fundo Socioambiental Casa passaram a incorporar lideranças indígenas, comunidades tradicionais e organizações de base em suas estruturas de tomada de decisão, contribuindo para que as prioridades de investimento reflitam as realidades dos territórios, e não pressupostos externos. A lição vai além da filantropia: soluções sustentáveis tendem a ser mais efetivas quando as comunidades são reconhecidas não apenas como beneficiárias, mas como parceiras.

A tecnologia representa outra fronteira importante, e a inteligência artificial (IA) rapidamente deixou de ser um tema restrito a especialistas para ocupar o centro do debate público. Embora ofereça enormes oportunidades, a IA também levanta preocupações relacionadas a vieses, responsabilização, privacidade e desigualdade de acesso.

No Brasil, pesquisas mostram que apenas 6% das organizações da sociedade civil utilizam tecnologia de forma avançada, evidenciando disparidades importantes em termos de acesso e capacidade. Esse desafio também se repete em outros países. Em todo o mundo, muitas organizações sem fins lucrativos dispõem de poucos recursos para investir em transformação digital e incorporar novas tecnologias. É justamente nesse contexto que a filantropia pode desempenhar um papel decisivo.

Reconhecendo esse desafio, iniciativas como o IA.3 – Inteligência Artificial para o Terceiro Setor, desenvolvido pelo IDIS com apoio da Google.org e parceria técnica do Canal SabIAr, trabalham para ampliar o acesso à inteligência artificial ao mesmo tempo em que promovem seu uso responsável e ético. Mais do que incentivar a adoção da tecnologia, essas iniciativas buscam fortalecer a governança, ampliar a inclusão e garantir que a IA seja utilizada em benefício do interesse público.

Por fim, as discussões sobre o futuro vêm ganhando espaço na agenda da filantropia. Segundo o UBS Global Wealth Report 2025, aproximadamente US$ 9 trilhões deverão ser transferidos entre gerações no Brasil nas próximas décadas. Esse cenário intensificou os debates sobre legado, doação planejada, fundos patrimoniais (endowments) e modelos de steward-ownership, que buscam alinhar patrimônio e propósito social no longo prazo.

Essas discussões refletem uma transformação mais ampla. A filantropia deixa de concentrar seu foco em atos pontuais de generosidade e passa a olhar para a forma como recursos, valores e responsabilidades podem ser preservados e transmitidos entre gerações.

Em conjunto, esses movimentos revelam um ecossistema filantrópico em transição. As mudanças climáticas já não podem ser tratadas como uma agenda paralela; a confiança tornou-se um ativo estratégico; comunidades demandam maior participação nas decisões; a tecnologia cria novas oportunidades, mas também novos riscos; e novas formas de mobilização de capital surgem para enfrentar desafios cada vez mais complexos.

Não existe uma solução única. A resiliência é construída por meio de diferentes iniciativas, conduzidas por atores diversos que buscam responder a um mundo em constante transformação.

A filantropia brasileira não oferece um modelo pronto para o mundo. O que ela oferece é um conjunto de experiências desenvolvidas em uma sociedade profundamente desigual, que enfrenta simultaneamente os impactos das mudanças climáticas, das transformações tecnológicas e das pressões sobre a democracia. A questão para a filantropia global não é se essas iniciativas podem ser replicadas em outros contextos, mas o que elas revelam sobre os tipos de relações, instituições e sistemas que precisarão ser fortalecidos para que a filantropia continue relevante nos próximos anos.