O futuro é uma escolha, não um destino

18 de setembro de 2026

Por Letícia Santos, analista de projetos do IDIS 

Construir o futuro é um ato de escolha e escolher exige nomear o que se quer mudar, ter coragem de assumir compromissos publicamente e disposição para enfrentar conversas difíceis. Foi em torno dessas questões que Nicholas Tedesco, presidente e CEO do National Center for Family Philanthropy, Rodrigo Pipponzi, membro do comitê de impacto social da RD Saúde e cofundador do Compromisso 1%, e Michael França, coordenador do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, debateram na mesa de encerramento do Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026, promovido pelo IDIS, com mediação de Paula Fabiani, CEO do IDIS.

Nicholas Tedesco, Presidente e CEO do National Center for Family Philanthropy (NCFP)

Para Nicholas, representante da filantropia familiar, a coragem começa por interrogar a motivação do legado filantrópico, a partir de sua vivência em contextos em que a cultura de doação já está consolidada, Nicholas afirma que as famílias doam, mas nem sempre se perguntam o porquê, com qual propósito, e o que querem que permaneça.  

Reimaginar a filantropia familiar passa por abrir esse espaço de questionamento acerca do que deve ser preservado e o que precisa mudar. Nicholas afirma que estamos em uma temporada de transformação, em que o propósito deve caminhar ao lado das necessidades atuais e antecipar necessidades futuras, construindo uma governança que sustente as escolhas ao longo do tempo e criando condições para que gerações diferentes se encontrem em torno de uma agenda comum.  

Nos Estados Unidos, Nicholas compartilhou que muitas famílias têm inclinado apoio à democracia e aos enfrentamentos em torno das crises climáticas, mas reforça que esse processo exige conversas sobre poder e privilégio que o campo ainda evita.  

No Brasil, o desafio é anterior, uma vez que o envolvimento das famílias ricas com a filantropia ainda é incipiente e pouco documentado, como aponta o relatório Caminhos para uma atuação mais ampla e estratégica da filantropia familiar no Brasil, produzido pelo IDIS. De acordo com os dados do Censo GIFE, em 2024, as fundações e institutos familiares investiram R$ 395 milhões, o equivalente a cerca de 7% do total mapeado pelo censo. 

Olhando para o papel social das empresas, Rodrigo Pipponzi centrou sua fala na coragem de assumir compromissos públicos e de sustentá-los ao longo do tempo. A RD Saúde optou por não criar um instituto separado, de modo que a missão do negócio e o compromisso social são tratados como a mesma coisa, expressos, por exemplo, na destinação de um percentual do lucro líquido para investimento social, como signatária do Compromisso 1%, iniciativa colaborativa entre o IDIS e o Instituto MOL que busca fomentar a doação de empresas para organizações da sociedade civil.  

Outras formas que a empresa encontrou de tornar coerente a relação entre negócio e papel na sociedade passam pela vinculação do bônus dos executivos a metas ESG e pela participação da alta liderança no Comitê de Impacto Social. Por fim, Rodrigo ainda destacou que a filantropia corporativa cumpre um papel catalisador, de modo que o papel de mobilização é, hoje, uma das fortalezas da RD Saúde, por exemplo, com a iniciativa do Troco Solidário, que todo ano arrecada entre R$ 4 e 5 milhões, revertidos para organizações da sociedade civil.

Paula Fabiani, CEO do IDIS

Provocado por Paula Fabiani a discutir como a desigualdade afeta a sociedade brasileira e o papel da filantropia nesse cenário, Michael França, representando a academia, colocou na mesa questões que o campo raramente enfrenta com profundidade. Referenciando seu livro recém-lançado Os Custos das Desigualdades: uma carta às elites econômicas, escrito com Daniel Duque e publicado pela Editora Jandaíra, Michael argumentou que em uma sociedade entre as mais desiguais do mundo, as externalidades produzidas pela desigualdade nem sempre são pautadas, dificultando a quebra de ciclos e comprimindo o futuro possível.  

Reinventar a filantropia, nesse sentido, passa também por reconhecer o que ela ainda não olha. Michael falou sobre a escolha que fez de não deixar esse conhecimento restrito aos círculos acadêmicos, levando dados e evidências para o debate público e para o diálogo com governos. Para a filantropia, destaca que a educação não resolve tudo, e que reformar a sociedade brasileira deverá passar para além dos muros da escola. 

A conversa que se seguiu com a plateia aprofundou pontos críticos do debate atual, revelando que as questões levantadas pelos três palestrantes ressoaram além do palco. A primeira pergunta, sobre o papel da filantropia frente ao negacionismo, trouxe respostas complementares de Michael França e Nicholas Tedesco. Michael apontou uma assimetria estrutural na filantropia como indutora da produção de conhecimento, em que o financiamento internacional deposita maior confiança no pesquisador e oferece apoio institucional de longo prazo, enquanto, no Brasil, o financiamento tende a ser mais restrito, orientado a confirmar hipóteses e responder perguntas fechadas. Nicholas acrescentou, a partir de sua vivência nos Estados Unidos, que as universidades são vistas como centros de referência para a disseminação de boas práticas filantrópicas e para a formação de lideranças, um papel que ainda está por ser consolidado no Brasil. 

A segunda pergunta abriu o debate sobre colaboração entre fundações, entidades e negócios menores. Nicholas afirmou que não existe receita mágica, mas que nos Estados Unidos há um movimento crescente de reconhecimento da necessidade de colaborar, ainda que persista um receio em relação a isso. Para ele, atacar a raiz dos problemas só é possível por meio de mudanças sistêmicas, e mudanças sistêmicas exigem colaboração. Pipponzi reforçou esse argumento com o olhar das empresas, destacando que é preciso que elas consigam renunciar a poder e de determinadas convicções para trabalhar junto com comunidades e com outros atores, criando estímulos para colaborar.

Rodrigo Pipponzi, Membro do Comitê de Impacto Social da RD Saúde

Nas considerações finais, cada um deixou uma síntese que atravessa o tema da mesa. Pipponzi reforçou que construir o futuro que queremos exige a coragem de fazer escolhas e de sustentá-las ao longo do tempo. Michael propôs pensar o legado como forma de reduzir distâncias sociais, mantendo integridade entre o papel filantrópico e o dos negócios. Nicholas encerrou com um convite à continuidade de espaços como o Fórum, para que conversas como essa permaneçam abertas.

 

Assista a gravação do painel: