Em conversa com… Denise Aguiar

18 de setembro de 2026

Por Yone Moreno, coordenadora de projetos do IDIS 

O Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026 centralizou suas discussões no tema “Filantropia: entre a essência e a reinvenção”. Na seção “Em conversa com”, a convidada deste ano, Denise Aguiar, diretora-geral da Fundação Bradesco, compartilhou suas impressões pessoais sobre as muitas décadas de dedicação da instituição à educação no Brasil e, principalmente, sobre o que significa sustentar um legado ao longo do tempo sem perder a capacidade de se transformar. 

Paula Fabiani, CEO do IDIS

Para quem não conhece essa história, uma recapitulação rápida: a Fundação Bradesco foi criada há quase 70 anos por Amador Aguiar, também fundador do Banco Bradesco, a partir de uma crença profunda no poder transformador da educação. O fundador tomou uma decisão pouco usual para a época: destinou suas próprias ações para criar e garantir a sustentabilidade da Fundação. Ao longo dessas décadas, a instituição construiu uma rede de 40 escolas, presentes em todos os estados brasileiros, atendendo cerca de 42 mil estudantes da Educação Básica. Hoje, investe aproximadamente R$ 1,6 bilhão por ano em educação. 

Mas, na conversa com Denise, ficou claro que assumir esse legado familiar foi apenas uma parte da história. Em um determinado momento da sua vida, o trabalho da Fundação também se transformou em uma missão pessoal. 

Denise contou que sempre se interessou pela forma como as crianças pensam e que essa curiosidade a levou a uma jornada de aproximação com as escolas e com o cotidiano dos estudantes. Foi nesse contato que ela passou a compreender a escola não apenas como um espaço de ensino e aprendizagem, mas como uma arquitetura que comunica relações, produz pertencimento e fomenta confiança. Mais do que transmitir conhecimento, aquele espaço parecia dizer a cada aluno que ele pertencia aquele lugar e que era capaz de construir seu próprio caminho. 

E talvez esse seja um dos elementos mais interessantes da história contada por Denise: a educação, para a Fundação Bradesco, parece acontecer tanto no currículo quanto na experiência de estar na escola. Existe uma dimensão concreta do ensino, da formação, e da estrutura, mas também uma dimensão simbólica, relacionada a confiança e a possibilidade de cada estudante se enxergar como alguém capaz de ocupar diferentes lugares no mundo. 

Mas o que mais me chamou atenção foi o tom sério de toda a conversa. 

A filantropia do Banco, implementada por meio da Fundação Bradesco, nunca foi encarada como assistencialismo, e sim como a expressão de uma crença absoluta de que a educação é um vetor de transformação social. E, justamente por acreditar nisso, a instituição assume a responsabilidade de fazer esse trabalho de maneira consistente, estruturada e de longo prazo. 

Essa seriedade ficou evidente na forma como Denise falou sobre a Fundação. Havia quase uma espécie de convicção silenciosa de que o propósito da instituição não precisa ser reinventado porque continua fazendo sentido. Ele se fortalece a cada geração de estudantes formada, a cada trajetória transformada e a cada história que confirma a aposta original de Amador Aguiar.  

Denise Aguiar, diretora-geral da Fundação Bradesco

Nessa conversa, a essência roubou a cena da reinvenção.  

Em muitos momentos, Denise reforçou que os alunos que ingressam nas escolas da Fundação podem ser o que quiserem. Essa autoconfiança é trabalhada ao longo de toda a formação e parece ser um dos resultados mais importantes do projeto educacional. Não se trata apenas de preparar estudantes para uma profissão ou para uma próxima etapa acadêmica, mas de ampliar sua percepção sobre aquilo que podem ser e fazer. 

Os exemplos concretos de ex-alunos que seguiram trajetórias diversas e bem-sucedidas reforçam essa percepção. E é justamente aí que encontro uma resposta interessante para o tema que orientou todo o Fórum: talvez a essência não seja aquilo que permanece igual, mas aquilo que continua orientando as escolhas mesmo quando o contexto muda. 

E para mim, essa é justamente a força de um legado: não simplesmente permanecer, mas continuar fazendo sentido para quem vem depois.

Confira a gravação do painel: