Filantropia familiar: Raízes no propósito, olhar para o futuro 

Por Carina Santana, analista de projetos do IDIS 

Como famílias e instituições podem transformar seus valores em mudanças duradouras, atravessando gerações e, ao mesmo tempo, acolhendo novas realidades?  

Belisa Maggi, ligada à Fundação AMAGGI e presidente do Instituto Signativo

Essa foi uma das questões discutidas durante a 15ª edição do Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais, em uma mesa que reuniu Belisa Maggi (ligada à Fundação AMAGGI e presidente do Instituto Signativo), Cristiano Franco (fundador do ITEC – Instituto de Tecnologia e Computação), Thamile Accioly (Diretora Executiva da Fundação Maria Emília) e Daniella Leite (CEO da FBN Brasil), responsável pela moderação. 

As experiências compartilhadas por institutos e fundações familiares se encontram em um ponto comum: todas partem de um propósito. Em organizações mais consolidadas, esse propósito costuma estar associado a um legado construído ao longo do tempo. Já em iniciativas mais jovens, ele pode nascer de um processo de autoconhecimento, escuta e identificação do papel que cada pessoa ou família deseja exercer na sociedade. 

Belisa Maggi destacou a importância do autoconhecimento para compreender esse propósito. Para ela, ambientes mais horizontais, que favorecem o diálogo entre diferentes gerações, ampliam as possibilidades de inovação. Quando há abertura para escuta e troca, novas gerações podem encontrar espaço para contribuir e imprimir sua própria forma de atuação no mundo. “Novas gerações não tem como seguir ou fazer algo diferente se não tem o autoconhecimento. O autoconhecimento é essencial para imprimir nossa forma de ser no mundo”, disse durante a sessão. 

A manutenção dos valores e a presença de uma governança fortalecida ajudam a preservar a conexão com o propósito institucional. No entanto, manter um legado não significa permanecer imóvel. Pelo contrário: a capacidade de inovar dentro de uma missão clara é o que permite que organizações sigam relevantes diante de novos desafios sociais. Esse movimento pode acontecer por meio de parcerias, da escuta ativa dos territórios e do diálogo entre gerações. 

Thamile Accioly compartilhou a trajetória da Fundação Maria Emília, que atua fortalecendo iniciativas já existentes. Segundo ela, apoiar quem já atua nos territórios ajuda a organização a manter seu legado. “Deixamos de fazer uma atuação local para fazer uma ação nacional. O que não mudou nesse período foi a essência do fundador, o desejo de educação e saúde, e os valores. O restante é preciso acompanhar: os cenários, os desafios e as oportunidades mudam, e a gente vem evoluindo com isso”, afirmou. 

Thamile Accioly, Diretora Executiva da Fundação Maria Emília

A conexão com o território também foi apontada como elemento central para a continuidade do propósito e para a geração de impacto. É por meio dessa relação de proximidade que se constroem confiança e legitimidade para pilotar projetos e, em alguns casos, incidir sobre políticas públicas locais. O monitoramento de indicadores e a avaliação de resultados, por sua vez, permitem compreender com mais precisão as demandas do território e verificar se as ações apoiadas estão, de fato, contribuindo para enfrentar esses desafios. O ponto foi abordado por Cristiano Franco em sua fala: “Como terceiro setor, podemos nos permitir testar hipóteses e ter liberdade de execução, e levar isso para o poder público. Fazemos uma “curadoria” do que pode trazer impacto”, comentou. 

A conversa reforçou que a filantropia familiar se fortalece quando reconhece suas raízes, mas permanece aberta ao futuro. Preservar valores e honrar legados não significa repetir caminhos, mas sim construir novas formas de atuação. Unindo propósito, diálogo entre gerações e compromisso com resultados, institutos e fundações familiares podem ampliar sua contribuição para transformações sociais mais duradouras. 

 

Confira a gravação do painel:

Em conversa com… Denise Aguiar

Por Yone Moreno, coordenadora de projetos do IDIS 

O Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026 centralizou suas discussões no tema “Filantropia: entre a essência e a reinvenção”. Na seção “Em conversa com”, a convidada deste ano, Denise Aguiar, diretora-geral da Fundação Bradesco, compartilhou suas impressões pessoais sobre as muitas décadas de dedicação da instituição à educação no Brasil e, principalmente, sobre o que significa sustentar um legado ao longo do tempo sem perder a capacidade de se transformar. 

Paula Fabiani, CEO do IDIS

Para quem não conhece essa história, uma recapitulação rápida: a Fundação Bradesco foi criada há quase 70 anos por Amador Aguiar, também fundador do Banco Bradesco, a partir de uma crença profunda no poder transformador da educação. O fundador tomou uma decisão pouco usual para a época: destinou suas próprias ações para criar e garantir a sustentabilidade da Fundação. Ao longo dessas décadas, a instituição construiu uma rede de 40 escolas, presentes em todos os estados brasileiros, atendendo cerca de 42 mil estudantes da Educação Básica. Hoje, investe aproximadamente R$ 1,6 bilhão por ano em educação. 

Mas, na conversa com Denise, ficou claro que assumir esse legado familiar foi apenas uma parte da história. Em um determinado momento da sua vida, o trabalho da Fundação também se transformou em uma missão pessoal. 

Denise contou que sempre se interessou pela forma como as crianças pensam e que essa curiosidade a levou a uma jornada de aproximação com as escolas e com o cotidiano dos estudantes. Foi nesse contato que ela passou a compreender a escola não apenas como um espaço de ensino e aprendizagem, mas como uma arquitetura que comunica relações, produz pertencimento e fomenta confiança. Mais do que transmitir conhecimento, aquele espaço parecia dizer a cada aluno que ele pertencia aquele lugar e que era capaz de construir seu próprio caminho. 

E talvez esse seja um dos elementos mais interessantes da história contada por Denise: a educação, para a Fundação Bradesco, parece acontecer tanto no currículo quanto na experiência de estar na escola. Existe uma dimensão concreta do ensino, da formação e estrutura, mas também uma dimensão simbólica, relacionada a confiança e a possibilidade de cada estudante se enxergar como alguém capaz de ocupar diferentes lugares no mundo. 

Mas o que mais me chamou atenção foi o tom sério de toda a conversa. 

A filantropia do Banco, implementada por meio da Fundação Bradesco, nunca foi encarada como assistencialismo, e sim como a expressão de uma crença absoluta de que a educação é um vetor de transformação social. E, justamente por acreditar nisso, a instituição assume a responsabilidade de fazer esse trabalho de maneira consistente, estruturada e de longo prazo. 

Essa seriedade ficou evidente na forma como Denise falou sobre a Fundação. Havia quase uma espécie de convicção silenciosa de que o propósito da instituição não precisa ser reinventado porque continua fazendo sentido. Ele se fortalece a cada geração de estudantes formada, a cada trajetória transformada e a cada história que confirma a aposta original de Amador Aguiar.  

Denise Aguiar, diretora-geral da Fundação Bradesco

Nessa conversa, a essência roubou a cena da reinvenção.  

Em muitos momentos, Denise reforçou que os alunos que ingressam nas escolas da Fundação podem ser o que quiserem. Essa autoconfiança é trabalhada ao longo de toda a formação e parece ser um dos resultados mais importantes do projeto educacional. Não se trata apenas de preparar estudantes para uma profissão ou para uma próxima etapa acadêmica, mas de ampliar sua percepção sobre aquilo que podem ser e fazer. 

Os exemplos concretos de ex-alunos que seguiram trajetórias diversas e bem-sucedidas reforçam essa percepção. E é justamente aí que encontro uma resposta interessante para o tema que orientou todo o Fórum: talvez a essência não seja aquilo que permanece igual, mas aquilo que continua orientando as escolhas mesmo quando o contexto muda. 

E para mim, essa é justamente a força de um legado: não simplesmente permanecer, mas continuar fazendo sentido para quem vem depois.

Confira a gravação do painel:

Reinventando a equidade: novas respostas para desigualdades persistentes

Maria Clara Futuro, analista de projetos do IDIS

Como enfrentar desigualdades persistentes sem reduzir problemas complexos a respostas únicas? Essa foi a pergunta que orientou a sessão “Reinventando a equidade: novas respostas para desigualdades persistentes”, realizada durante o Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026.

Painel ‘Reinventando a equidade: novas respostas para desigualdades persistentes’

Com moderação de Ana Maria Cardoso, Coordenadora de Estudos e Pesquisas Aplicadas na Fundação Itaú, a conversa reuniu Rayanne França, Chefe do Escritório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em Manaus; Raisa Martins, Gerente do Instituto Lojas Renner; e Nina da Hora, Fundadora do Instituto Da Hora. A partir de diferentes trajetórias, a discussão convergiu na mensagem central de que reinventar estratégias de equidade exige olhar para as causas estruturais das desigualdades, reconhecer as especificidades dos territórios e construir soluções com participação ativa das pessoas diretamente afetadas. 

Para iniciar a discussão, Rayanne França explicou que, para reinventar abordagens, é necessário considerar as múltiplas existências e desigualdades que se expressam a partir do território, bem como as condições de acesso e as privações presentes em cada localidade. Ao abordar a diversidade de infâncias na Amazônia, destacou um contexto em que a pobreza é multidimensional e diferentes barreiras de acesso se combinam. Não é possível, portanto, pensar em infâncias e adolescências de forma homogênea. Para compreender as privações que atravessam as infâncias amazônicas, é preciso realizar diagnósticos particulares em cada território, observando as especificidades dos diversos contextos. 

A ideia é que não há como pensar em mudanças sistêmicas, ou em transformações que alcancem as populações dessas diversas “Amazônias”, sem a participação direta e o fortalecimento institucional de organizações e atores locais. “A população amazônica também tem o direito de ocupar espaços […] nos quais podem falar por si mesmos e pensar conjuntamente”, afirmou Rayanne.

Em meio a uma conjuntura de constante inovação e surgimento de novas tecnologias, às vezes é preciso voltar ao básico: reinventar também significa exercitar a escuta e fortalecer quem já está no território. 

Raisa Martins, Gerente do Instituto Lojas Renner

Partindo para uma perspectiva de reinvenção das estratégias de equidade de gênero, Raisa Martins trouxe a experiência do Instituto Lojas Renner na reestruturação de sua atuação em inclusão socioprodutiva de mulheres. O papel do investidor social, apesar da relevância da escala e dos resultados numéricos, deve estar orientado principalmente ao impacto. Raisa apontou a necessidade de uma “virada de chave” na mentalidade do investidor: escala e indicadores são importantes, mas não podem substituir a pergunta sobre impacto real. Projetos voltados ao protagonismo feminino precisam considerar não apenas a entrada no mercado de trabalho ou o número de capacitações realizadas, mas também as condições que garantem a perenidade da autonomia conquistada — é preciso pensar se essas mulheres possuem redes de apoio e bases comunitárias que fortalecem e asseguram seu protagonismo. 

Assim, reinventar soluções para desigualdades demanda também um processo de revisão interna do próprio investidor. Em alguns casos, buscar impacto com maior profundidade pode significar rever o tamanho, o ritmo ou o desenho de um projeto. O desafio para investidores sociais é compreender dados como instrumentos de gestão e aprendizagem, e não como finalidade em si mesmos. 

Ao trazer a conversa para o campo da tecnologia, Nina da Hora pontuou que tecnologias emergentes precisam ser direcionadas à transformação social por meio de diálogos e debates qualificados, para que sejam colocadas a serviço da justiça social. A construção de pontes entre o campo da tecnologia e o campo social é um caminho para que a inovação possa ampliar o acesso a direitos, com intencionalidade e compromisso com a redução de desigualdades. É preciso refletirmos também sobre o papel de quem já ocupa espaços de acesso e decisão: criar essas pontes é uma responsabilidade compartilhada. Nesse processo, a sociedade civil não deve ser vista apenas como usuária de soluções tecnológicas, mas também como produtora de conhecimento, metodologias e tecnologias orientadas ao impacto socioambiental positivo.  

“O que você enquanto filantropia consegue investir e reinvestir para repensar esses caminhos [do desenvolvimento tecnológico]?”, provocou Nina. 

Nina da Hora, Fundadora do Instituto Da Hora

Mais do que financiar projetos pontuais, a filantropia e o Investimento Social Privado (ISP) podem fortalecer capacidades locais, redes de proteção, políticas públicas e cadeias produtivas conectadas à atuação dos próprios investidores. Essa perspectiva exige compreender que o valor gerado por uma iniciativa não se limita ao público diretamente beneficiado. Quando um projeto fortalece lideranças locais, qualifica dados, amplia a participação social ou implementa novas tecnologias, o investidor social atua menos como protagonista isolado e mais como catalisador de capacidades coletivas. 

Para enfrentar problemas complexos e multidimensionais, é preciso compreender por que determinadas desigualdades permanecem. Reinventar a equidade não significa buscar respostas rápidas ou universais, mas construir estratégias em rede, capazes de articular diferentes atores, saberes e responsabilidades. Isso vale para a atuação nos territórios amazônicos, para a promoção da autonomia econômica de mulheres e para a produção de tecnologias mais inclusivas. A inovação social também exige renovar o olhar sobre populações em situação de vulnerabilidade, evitando representações simplificadas ou estereotipadas. Para isso, é preciso escuta, participação e compromisso com mudanças estruturais. São esses elementos que ajudam a montar o quebra-cabeça entre inovação e justiça social, permitindo que a equidade deixe de ser apenas um horizonte desejado e passe a orientar práticas concretas de transformação. 

 

Confira a gravação do painel: 

Capital em reinvenção: financiar é redistribuir poder

Por Yasmim Araujo Lopes, analista de projetos no IDIS 

Como financiar desafios que são cada vez mais complexos, territoriais e interdependentes? A resposta parece passar menos pela criação de instrumentos inteiramente novos e mais pela reinvenção das formas de articular recursos, redes, conhecimento e poder de decisão. Essa foi a discussão que atravessou a mesa “Capital em reinvenção: novas arquiteturas de financiamento cultural, territorial e socioambiental”, que colocou em diálogo experiências em justiça econômica, preservação do patrimônio cultural e Investimento Social Privado (ISP) corporativo. 

Painel ‘Capital em reinvenção: novas arquiteturas de financiamento cultural, territorial e socioambiental’

No Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026, a tensão entre essência e reinvenção ganhou contornos concretos. A conversa reuniu Bruna Helena Barros, executiva de relações institucionais, governamentais e parcerias no Fundo Agbara; Padre Luciano da Silva Roberto, assessor do Setor Cultura e do Setor Bens Culturais da Comissão Episcopal para a Cultura e a Educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); e Mariana Luz, diretora de Investimento Social Privado e Cultura da Vale. A moderação foi de Renato Nahas, presidente do Conselho da FEAC. 

A reflexão feita por Conceição Evaristo na abertura do Fórum, de que a filantropia precisa ser compreendida também como um mecanismo de redistribuição, ofereceu uma chave potente para a mesa. Redistribuir, nesse sentido, não é apenas deslocar dinheiro de um lugar para outro. É redistribuir acesso, confiança, tempo, conhecimento, redes e poder de decisão. 

Foi a partir dessa lente que Bruna Helena Barros apresentou a experiência do Fundo Agbara, criado para ampliar o acesso de mulheres negras a capital, formação e redes. Ao trazer a interseccionalidade para o centro da conversa, sua fala evidenciou que a desigualdade de acesso ao capital filantrópico não é um efeito colateral: ela expressa estruturas históricas que definem quem é considerado apto a receber recursos, quem precisa comprovar mais, quem tem menos flexibilidade e quem permanece distante das redes onde decisões são tomadas. 

Nesse caso, a reinvenção não está apenas em criar um fundo para uma população historicamente subfinanciada. Está em mudar a pergunta que orienta a alocação de recursos. Em vez de perguntar apenas “qual projeto merece apoio?”, o financiamento passa a perguntar “quais barreiras impedem que soluções já existentes acessem capital, formação e redes?”. A mudança parece sutil, mas desloca o centro da decisão: do financiador que escolhe a causa para uma arquitetura que reconhece desigualdades históricas e busca corrigir o acesso a recursos, oportunidades e vínculos.

Padre Luciano da Silva Roberto, assessor do Setor Cultura e do Setor Bens Culturais da Comissão Episcopal para a Cultura e a Educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Na fala de Padre Luciano, a discussão se deslocou para a preservação do patrimônio histórico e cultural. A Igreja Católica detém parte expressiva do patrimônio histórico brasileiro, e o desafio colocado foi como garantir uma estratégia permanente de financiamento para uma agenda que, muitas vezes, só recebe atenção quando a deterioração já se tornou emergência. 

A criação de um fundo patrimonial filantrópico para o patrimônio cultural da Igreja Católica no Brasil aponta para uma mudança de lógica: sair do financiamento pontual, reativo e fragmentado para uma estratégia de legado. Fundos patrimoniais preservam o principal e usam seus rendimentos para sustentar causas e organizações no longo prazo. No caso do patrimônio cultural, isso significa reconhecer que acervos, bens materiais e imateriais não pertencem apenas a uma instituição, são parte de uma memória coletiva e, portanto, de interesse público. 

Mas a perenidade financeira, sozinha, não resolve a complexidade. Como foi destacado na mesa, a governança precisa ser capaz de dialogar com um patrimônio amplo, diverso e distribuído territorialmente. A gestão descentralizada pode ampliar não apenas o acesso ao fundo, mas também a outros recursos, saberes técnicos e articulações locais. Em outras palavras: o instrumento importa, mas a arquitetura de governança é o que define se ele será um mecanismo de preservação viva ou apenas mais uma estrutura financeira. 

Já Mariana Luz trouxe a perspectiva do Investimento Social Privado (ISP) corporativo, a partir da experiência da Vale e da Fundação Vale. A empresa vem combinando recursos próprios, incentivos fiscais, participação de fornecedores, fundos filantrópicos e parcerias com outros atores em torno de desafios sociais complexos, como o enfrentamento à pobreza e o fortalecimento de políticas territoriais. 

A resposta passa pela própria natureza dos problemas enfrentados. Pobreza, saúde, desigualdade territorial e vulnerabilidades socioambientais não cabem em soluções lineares. São desafios multidimensionais, que exigem diagnóstico próximo das famílias, articulação com políticas públicas, engajamento de fornecedores, parceria com Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e conexão com redes nacionais e internacionais. Como apareceu na conversa, problemas complexos não se resolvem sozinhos. 

Essa constatação parece simples, mas ainda é profundamente transformadora para o campo filantrópico. Ela desloca o capital de uma posição de repasse para uma posição de articulação. O recurso financeiro continua essencial, mas deixa de ser o único ativo em jogo. Tempo institucional, conhecimento técnico, capilaridade territorial, capacidade de convocação, reputação, dados e redes passam a compor a arquitetura de financiamento. 

A mesa também trouxe um alerta importante: em um ambiente complexo, a governança precisa ser simples sem ser simplista. Simplificar não é reduzir o problema; é construir processos claros o suficiente para permitir colaboração, adaptação e tomada de decisão. Quando a governança se torna excessivamente burocrática, ela afasta justamente quem deveria estar mais perto: as comunidades, as organizações locais e as pessoas que vivem os desafios no cotidiano. 

A conclusão que fica é provocativa. Talvez a filantropia não precise, sempre, inventar novos mecanismos. Muitas vezes, precisa reinventar a forma como usa os mecanismos que já existem. Fundos temáticos, fundos patrimoniais, coinvestimento, leis de incentivo e parcerias público-privadas podem reproduzir assimetrias se mantiverem decisões concentradas, horizontes curtos e pouca escuta. Mas podem se tornar transformadores quando são contextualizados no território, aproximam as pessoas apoiadas das decisões e reconhecem que soluções já existem nas comunidades. 

Mariana Luz, diretora de Investimento Social Privado e Cultura da Vale

A essência da filantropia permanece no compromisso com o bem público, na visão de longo prazo, na disposição de assumir riscos e na busca por transformação estrutural. A reinvenção está em fazer isso com menos centralidade, mais colaboração e maior capacidade de reconhecer a complexidade do mundo atual. 

A pergunta, portanto, não é apenas “qual arquitetura de financiamento devemos criar?”. A pergunta mais difícil é: que poder estamos dispostos a redistribuir para que o capital gere transformação real? 

Um capital que não escuta pode ser generoso, mas dificilmente será transformador. Um capital que se articula, reconhece saberes existentes, compartilha decisões e fortalece redes chega mais perto daquilo que a filantropia tem de mais essencial: contribuir para que recursos privados sirvam, de fato, à construção de futuros mais justos, plurais e sustentáveis.

 

Confira a gravação do painel:

A essência da filantropia se ancora nos territórios

Por Isadora Pagy, coordenadora de projetos no IDIS 

Na sessão “A força dos territórios: quando a essência guia a reinvenção”, realizada durante o Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026, o território foi apresentado não apenas como contexto da ação social, mas como bússola para orientar sua essência. Diante de inúmeras mudanças sociais, políticas, tecnológicas e climáticas, a conversa mostrou que a reinvenção da filantropia não precisa partir de soluções externas ou modelos prontos. Ela pode, e deve, nascer da escuta, dos vínculos, dos saberes e das capacidades já existentes nas comunidades.

Painel ‘A força dos territórios: quando a essência guia a reinvenção’

Mediado por Emanuelle Marques de Moraes, Gerente de Cidadania e Sustentabilidade do Centro Cooperativo Sicoob, o painel reuniu Andrelissa Ruiz, Coordenadora da Prática Local e estratégia territorial da Fundação Tide Setubal; Eliana Sousa Silva, fundadora e diretora da Redes da Maré; e Felipe Amaral, Diretor de Educação do Instituto Caldeira.

A conversa partiu da ideia central de que o território não é apenas um espaço geográfico. É lugar de vínculos, memórias, relações, saberes, desafios e soluções. Na abertura, Emanuelle destacou a importância de olhar para os territórios a partir do que eles possuem, e não apenas do que lhes falta. Essa mudança de perspectiva desloca a atuação social de uma lógica de intervenção externa para uma prática construída com as pessoas que vivem e transformam esses espaços todos os dias. 

Ao longo do debate, uma mensagem se repetiu em diferentes experiências: é preciso fazer menos para o território e mais com o território. Isso exige escuta, presença, confiança e reconhecimento dos ativos locais. Também exige compreender que nenhum território é vazio ou estático. Ao contrário, comunidades se adaptam, criam respostas e reinventam caminhos diante de desafios complexos.

Eliana Sousa Silva, fundadora e diretora da Redes da Maré

A partir da experiência da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva trouxe a produção de conhecimento como parte do enfrentamento das desigualdades. Para ela, conhecer profundamente o território é condição para qualquer ação social consistente. Na Maré, a construção de evidências sobre violações de direitos, segurança pública, acesso à justiça e negligências do poder público contribui para embasar políticas públicas, fortalecer reivindicações e disputar narrativas sobre a favela. 

Sua fala também reforçou que projetos não podem ser um fim em si mesmos. A atuação territorial precisa estar vinculada a uma leitura crítica sobre as estruturas que produzem desigualdades e violências. No caso da Maré, isso inclui reconhecer a segurança pública como direito básico e como dimensão inseparável de qualquer agenda de desenvolvimento. A produção de conhecimento, nesse sentido, deve circular para fora do território, influenciando políticas e decisões, mas também permanecer na comunidade, fortalecendo autonomia e protagonismo local. 

Felipe Amaral, do Instituto Caldeira, levou ao debate a relação entre território, educação e inovação. A partir da experiência de um hub de inovação na região metropolitana de Porto Alegre, destacou a importância de construir pontes entre jovens de escolas públicas e o mundo da tecnologia. Em sua perspectiva, falar de futuro com as juventudes exige sensibilização, repertório e oportunidades concretas de inserção. 

A experiência apresentada por Felipe mostrou que inovação não deve ser tratada como fim, mas como meio para ampliar possibilidades. Para isso, universidades, empresas, organizações da sociedade civil e poder público precisam atuar de forma articulada. A conexão entre esses atores pode fortalecer ecossistemas locais e abrir caminhos para reduzir desigualdades, especialmente quando cada jovem é reconhecido em sua trajetória, potência e contexto. 

Já Andrelissa Ruiz apresentou a experiência da Fundação Tide Setubal no Jardim Lapena, em São Miguel Paulista, e o processo de construção de uma Teoria da Mudança (TdM) orientada pelo território. A iniciativa parte da compreensão de que não é uma única organização que resolverá, sozinha, problemas complexos. Por isso, o papel de uma fundação financiadora passa também por conectar e fortalecer organizações locais, apoiar redes, produzir metodologias e contribuir para o debate público sobre desigualdades urbanas. 

Em sua fala, Andrelissa ressaltou que territórios não são estáticos. Eles mudam, reagem e produzem novas demandas. Por isso, monitoramento, avaliação e indicadores precisam ser instrumentos de aprendizagem e adaptação, não mecanismos que reduzam a complexidade da vida local. A reinvenção, nesse caso, está em apoiar sem capturar, estruturar sem engessar e medir sem perder de vista as dimensões humanas, políticas e comunitárias envolvidas. 

Outro fio transversal da sessão foi a capacidade de ler o território para adaptar estratégias. Na Redes da Maré, isso passa pela sistematização de evidências sobre violações de direitos, segurança pública e acesso à justiça, fortalecendo a reivindicação de políticas públicas e a autonomia comunitária. Na Fundação Tide Setubal, aparece na construção da Teoria da Mudança orientada por escuta, monitoramento e aprendizagem contínua. No Instituto Caldeira, a adaptação nasce diante das transformações tecnológicas e da necessidade de aproximar jovens de escolas públicas de novas perspectivas de futuro.  

Felipe Amaral, Diretor de Educação do Instituto Caldeira

Para além de registrar experiências, o painel convidou o ecossistema da filantropia e do Investimento Social Privado (ISP) a refletir sobre sua forma de atuação. Reconhecer a força dos territórios implica rever posições, compartilhar poder e assumir que soluções duradouras nascem da combinação entre recursos, escuta qualificada, conhecimento local e ação coletiva. 

Entre essência e reinvenção, a sessão apontou um caminho: preservar o compromisso ético com a transformação social, mas reinventar as formas de construir essa transformação. Quando o território deixa de ser visto como destinatário e passa a ser reconhecido como sujeito, a filantropia se aproxima de sua essência mais potente: fortalecer pessoas, redes e comunidades para que sejam protagonistas dos futuros que desejam construir.

 

Assista a gravação do painel: 

Conheça os projetos de conhecimento do IDIS em 2025 e faça parte!

A geração e disseminação de conhecimento é um dos pilares para o atingimento de nossa missão. Por meio de publicações, notas técnicas, artigos, capacitações e eventos, inspiramos, apoiamos e ampliamos o investimento social privado e seu impacto.

E podemos ir ainda mais longe e gerar ainda mais impactos positivos se formos juntos. Confira os principais projetos de conhecimento planejados pelo IDIS para serem realizados em 2025.

 

Cultura de doação

Quarta edição do mais amplo e profundo levantamento quantitativo sobre o comportamento do doador individual no Brasil. O capítulo especial terá como foco identificar a influência das doações emergenciais sobre a cultura de doação.

Saiba mais sobre a Pesquisa Doação Brasil 2024.

Previsão para realização: agosto de 2025

Filantropia e Investimento Social Privado

14ª edição do mais importante evento voltado à comunidade filantrópica brasileira.
A programação, que inclui palestrantes nacionais e internacionais, será realizada
em formato híbrido. Em 2025, o evento está previsto para realização em setembro.

Previsão para realização: setembro de 2025

 

Retomada de agenda regional, levando conceitos, tendências e casos práticos para além do eixo Rio-São Paulo. Com o objetivo de inspirar filantropos e fortalecer comunidades filantrópicas regionais, temos a expectativa de reunir 50 convidados presencialmente em Manaus para uma manhã de debates.

Previsão para realização: agosto de 2025

 

Filantropia Familiar

O Brasil tem um grande potencial para a atuação mais estratégica da filantropia familiar. Em um workshop com filantropos atuantes, vamos criar uma teoria de mudança para o engajamento de novas pessoas, identificando motivações, as condições necessárias para a mudança e definir atividades e intervenções necessárias para isso acontecer. O resultado será sistematizado em uma publicação e divulgado amplamente.

Previsão para realização: junho de 2025

 

Fundos Patrimoniais

Ação de advocacy para influenciar positivamente o ambiente regulatório e ampliar o conhecimento da sociedade em geral acerca do mecanismo, por meio de ações de comunicação e conhecimento. Entre os projetos de destaque, o Monitor de Fundos Patrimoniais. Integra a iniciativa a Coalizão pelos Fundos Filantrópicos, formada por organizações e pessoas que apoiam a criação de endowments no Brasil. O grupo, que hoje conta com mais de uma centena de signatários. O projeto acontece ao longo de todo o ano.

Como o objetivo de fortalecer a pauta e gerar dados consistentes, realizaremos a quarta edição do Anuário, com informações e análises sobre a gestão e o desempenho dos fundos patrimoniais brasileiros.

Previsão para realização: novembro de 2025

Venha conosco! Entre em contato pelo e-mail comunicacao@idis.org.br para saber mais e apoiar os projetos.

Veja as fotos da 13° edição do Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais

Aconteceu no dia 4 de setembro, em São Paulo, a 13ª edição do Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais. Promovido pelo IDIS , o evento que busca acelerar soluções fomentar a prática de investimento social no país.

As conversas abordaram temas como filantropia emergencial, tecnologia, avaliação de impacto, filantropia familiar, ESG e muito mais, sempre sob a ótica da Filantropia entre nós!

Confira algumas das imagens registradas ao longo do dia:

 

eNTRADA E CREDENCIAMENTO

 

aPRESENTAÇÃO ARTÍSTICA

Abertura

 

Filantropia desatando os nós do mundo

Assista a sessão completa aqui.

Tecendo respostas coletivas para desafios sistêmicos

Assista a sessão completa aqui.

 

PRÊMIO EMPREENDEDOR SOCIAL: VENCEDORES 2023

Assista a sessão completa aqui.

 

Emergência e resiliência:Filantropia fortalecendo comunidades

Assista a sessão completa aqui.

 

COSTURANDO ESTRATÉGIAS: DADOS COMO MATÉRIA-PRIMA

Assista a sessão completa aqui.

COQUETEL E ALMOÇO TEMÁTICO

 

IDIS 25 ANOS: INVESTIMENTO SOCIAL É COISA DE GENTE!

 

 

EM CONVERSA COM…

 

 

FILANTROPIA FAMILIAR: O PODER DA INFLUÊNCIA

Assista a sessão completa aqui.

 

Tecnologia como geradora de transformações sociais

Assista a sessão completa aqui.

 

COFFEE BREAK

 

Lançamento compromisso 1%

 

OS NÓS DO S NA AGENDA ESG

Assista a sessão completa aqui.

 

ENTRELAÇANDO VIDAS, TECENDO O FUTURO

Assista a sessão completa aqui.

 

realização e apoio

A realização é do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, em parceria com o Global Philanthropy Forum e a Charities Aid Foundation. Em 2024, tivemos apoio master do Movimento Bem Maior; apoio prata da RD Saúde; e apoio bronze da Fundação Grupo Volkswagen, Fundação Itaú, Fundação José Luiz Egydio Setúbal, Instituto Aegea Saneamento, Instituto Sicoob e Mott Foundation. O UNICEF Brasil foi apoiador institucional do evento e a Alliance magazine foi parceira de mídia.

 

 

Explorando novos caminhos na filantropia: as alianças como motor de mudança

por Alexandra Kaory Higa Teles | Estagiária de Projetos IDIS

 

Defender uma causa exige coragem e ousadia. A mesa “Alianças Improváveis: a ousadia na defesa de causas e territórios” trouxe ao Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais organizações que ousam nessa temática ao desenvolver iniciativas socioambientais de impacto em uma distinta abordagem da filantropia. Entre as palestrantes, estavam Allyne Andrade (superintendente adjunta do Fundo Brasil de Direitos Humanos), Braulina Baniwa (diretora executiva da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas, Guerreiras da Ancestralidades – ANMIGA), Omar Rodrigues (gerente sênior de comunicação e relações institucionais da Fundação Grupo Boticário), e como moderadora, Diane Pereira, (presidenta do Instituto Baixada). O evento é uma realização do IDIS e Charities Aid Foundation em parceria com o Global Philanthropy Forum.

Ao longo da sessão, as pessoas palestrantes compartilharam experiências sobre como suas organizações inovaram a adotar diferentes formas de apoio e/ou soluções alternativas às mais convencionais da filantropia, colaborando de forma próxima com as comunidades para aprimorar o impacto socioambiental positivo nas regiões que atuam pelo Brasil.

O primeiro exemplo de ousadia na defesa de territórios de Braulina Baniwa. Ela relata que há dois anos, quando criou a organização na qual ocupa a diretoria, enfrentou resistência e  poucas organizações e empresas estavam dispostas a apoiá-la por ser uma mulher indígena recém-chegada no setor social. Além disso, Braulina apresentou desafios que dificultaram a captação de recursos financeiros por meios de editais, entre elas a dificuldade com a língua, pelo fato de português não ter sido seu idioma materno, e questões de cunho burocrático.

Ainda sobre as necessidades exigidas muitas vezes em editais, Braulina contrapõe que:

 

“Os números têm sua importância, mas as

narrativas são essenciais para humanizar esse processo de credibilidade no setor social, para mediar nosso impacto.”

Para ela, a valorização das narrativas incentiva que os recursos cheguem às organizações que ainda não estão tão consolidadas e que são compostas por pessoas historicamente marginalizadas da sociedade.

Baniwa ressalta que somente com ousadia e coragem a ANMIGA conquistou ocupar espaços para defender território e causa, ao conquistar cada vez mais credibilidade e confiança do setor social, conseguindo construir uma rede de apoio, ter mais parceiros e criar alianças improváveis.

Já do ponto de vista de uma organização que financia iniciativas socioambientais, Allyne, superintendente adjunta do Fundo Brasil (que representou Ana Valéria Araujo devido a uma emergência pessoal) destacou a importância de organizações e fundos que lutem pela defesa dos direitos humanos, ambientais e sociais no Brasil, como a Rede Comuá.

Dentro os membros desta rede estão Fundo Brasil, Fundo Baobá e Fundo Elas, unidos por um objetivo comum de fortalecer a sociedade civil no Brasil. Esses fundos não operam em projetos diretamente, mas, em vez disso, financiam e apoiam iniciativas sociais diversas para fortalecer o terceiro setor no país, acreditando que isso contribui significativamente para o fortalecimento da democracia no país.

O Fundo Brasil tem apoiado e acreditado em projetos de defesa dos direitos humanos ao longo de 16 anos e isso por si só já é ousado. Entre os focos de atuação está o fornecimento de orientação e dados para políticas públicas, medindo o impacto social e ouvindo ativamente as organizações.

Já a Fundação Grupo Boticário, também financiadora de iniciativas socioambientais, contou sobre a ousadia da criação da organização e nas mudanças do apoio a projetos desde a criação. Omar Rodrigues, representante da Fundação Grupo Boticário, relatou a trajetória da Fundação e de como o fundador, Miguel Krigsner, despontou ao criar uma organização focada na preservação do meio ambiente, antes mesmo de se discutir extensamente o tema da sustentabilidade no Brasil, dois anos antes da Conferência RIO 92. Desde então, a fundação já apoiou mais de 1.600 iniciativas em todo o Brasil, incluindo a preservação de reservas naturais.

Ao longo das três décadas, Omar destaca como a Fundação alterou a forma de atuação.

“Até 2019, nosso processo era baseado em editais. A partir de 2020, adotamos um novo modelo chamado ‘Teias de Soluções’, no qual envolvemos uma gama mais ampla de atores, além de biólogos e outros movimentos sociais. Buscamos uma compreensão mais profunda da região, identificando os atores do setor social e compreendendo melhor o território para colaborar com o Grupo Boticário e especialistas na proposição de soluções.” 

 

Explica destacando que esse modelo foi criado partir do pensamento de que fundamentalmente o terceiro setor se assenta na construção de alianças, cooperação e colaboração.

Para condensar as ideias do debate Diane Pereira, do Instituto Baixada, traz uma reflexão sobre como o trabalho de cada organização presente na mesa é importante para transformar os territórios que defendem:

“Como a Maya Angelou diz a coragem é a mais importante de todas as virtudes, porque sem ela nós não podemos praticar nenhuma outra virtude com consistência. Pois em algum momento chegaremos em um problema grande demais e não a enfrentaremos se não tivermos coragem. E para fim isso se refere muito ao setor social, pois o terceiro setor só faz o que faz, atua tão grandiosamente, porque tem coragem e ousadia.”

Quer saber mais? Assista à sessão completa:

‘A mudança exige coragem’: mais que nunca, devemos ousar para combater a pobreza

por Joana Noffs | Analista de de projetos do IDIS

 

Em 2021, o Brasil ultrapassou a marca de 63 milhões de pessoas vivendo em situação de pobreza, enquanto 33 milhões de pessoas enfrentavam a fome, de acordo com dados do IBGE e de uma pesquisa conduzida pelo Instituto Vox Populi. Ao mesmo tempo, uma parcela correspondente a 50% da população brasileira detinha apenas 0,4% da riqueza do país em ativos financeiros e não financeiros, segundo dados do World Inequality Lab, também de 2021.

A desigualdade foi agravada, também, pela pandemia no contexto global. Conforme evidenciado em um relatório da Oxfam, entre 2020 e 2022, o 1% mais rico do mundo concentrou quase dois terços de toda a riqueza gerada no período, totalizando cerca de U$ 42 trilhões. A desigualdade extrema na economia também se relacionada com problemas ambientais, raciais e de gênero, e demonstra a urgência de ações corajosas e criativas para enfrentar as vulnerabilidades sociais e institucionais que assolam não apenas o Brasil, mas que se desdobram em uma realidade preocupante à nível global.

A mesa que encerrou o Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais de 2023, intitulada “Mais do que nunca, devemos ousar combater à pobreza!”, abordou e discutiu justamente esse cenário desafiador. A palestra contou com mediação da CEO do IDIS, Paula Fabiani, e com os convidados Gilson Rodrigues, presidente do G10 das favelas, Jean Jereissati, CEO da Ambev, e Nivedita Narain, CEO da Charities Aid Foundation (CAF) India. Os palestrantes apresentaram caminhos possíveis e experiências que, tendo a ousadia como impulsionadora, têm se mostrado significativas para pautar um futuro menos desigual.

 

 

Gilson Rodrigues abriu sua participação na mesa resgatando o tema da ousadia, que guiou o Fórum de 2023, e destacou que, apesar do aumento na concentração de renda e aprofundamento das desigualdades sociais no país em um período recente, não se deve definir as favelas e áreas periféricas brasileiras por um olhar de falta, pois isso apenas agrava sua marginalização.

Para combater o estigma e consolidar uma visão positiva sobre as favelas brasileiras, Gilson é uma das vozes que trazem histórias inspiradoras vindas de contexto de adversidade, demonstrando que a favela também é um lugar de muito conhecimento.  O G10 das favelas tem destacado a importância da inovação e empreendedorismo para atingir as mudanças necessárias. Ele argumenta que para o investimento social ser eficaz no combate à pobreza, deve garantir a geração de oportunidades ao combater problemas como a fome e a falta de acesso a serviços básicos.

“Nós acreditamos, efetivamente, que precisamos criar soluções a partir dessa realidade para que a favela possa prosperar e não depender apenas dessas condições [da doação]. (…) Temos buscado criar soluções para impactar positivamente a sociedade e para que a população possa ter trabalho e renda para se desenvolver, mas que também possa optar o que quer comer”, pontuou Gilson. 

 

Para isso, segundo a liderança, o investimento social nas favelas deve sempre partir de uma atuação que fortaleça a autonomia dos moradores e seus territórios, e, assim, garanta a sustentabilidade financeira da implementação de projetos com potencial de transformação de desigualdades estruturais.

Através de sua experiência no setor privado, Jean Jereissati, CEO da Ambev, ressaltou em sua fala as inciativas bem-sucedidas que a empresa também tem desenvolvido com objetivo de contribuir com a esses mesmos desafios. Frente aos desafios cada vez mais severos causados pelas mudanças climáticas, que também aceleram fatores chave na manutenção da desigualdade, como a escassez de alimentos, deslocamentos populacionais e contaminação por poluentes, a Ambev busca tornar sua cadeia produtiva ‘carbono neutra’ nos próximos anos, e ressalta a importância da consistência na mitigação de impactos ambientais negativos. Como nos lembra Jereissati sobre as perspectivas para o investimento social privado no país, tomar riscos e ousar é necessário para que possamos obter resultados que são urgentes

“Se você quer manter o status quo, você pode se arriscar menos, mas se você quer mudar, você precisa ousar. No Brasil, precisamos ousar para atingir uma filantropia sustentável”, destaca o CEO da empresa.

 

Para além do compromisso com a sustentabilidade, que, na visão do palestrante, hoje deve ser encarado como obrigação, a gigante do setor de bebidas tem buscado utilizar-se de uma característica chave de suas atividades para gerar transformação social: sua capilaridade. Estando presente desde a ‘colheita do milho até o garçom na mesa do bar’, essa característica permite que a Ambev atue de forma coerente em frentes diversas. Com o Bora, por exemplo, a companhia tem buscado qualificar empreendedores e conectá-los através de sua rede, gerando inclusão produtiva. O VOA, por outro lado, é um programa de voluntariado da empresa que busca disseminar o conhecimento e expertise em gestão que seus funcionários possuem para iniciativas do terceiro setor, fomentando um ecossistema mais maduro de impacto social. Por fim, destacamos também, dentre as iniciativas mencionadas durante o evento, a água AMA, produto social da Ambev cujos lucros são revertidos para a garantia do acesso dos brasileiros à água potável em regiões de escassez hídrica.

Por fim, Nivedita Narain, CEO da CAF India, nos lembrou da coragem necessária para tomarmos ações estratégicas e planejadas na busca por uma sociedade mais igualitária.

 

“Quando você fala em ousadia, eu penso em coragem”, compartilhou Nivedita Narain.

 

Que esteve à frente de iniciativas em seu país que colocaram a sociedade civil organizada como um ator chave no enfrentamento da pobreza e da violência de gênero. Retomando tendências recentes da filantropia ao redor do mundo, Narain explica que houve uma mudança no século XXI no curso das doações privadas, que passaram a ser mais direcionadas aos governos, o que acarretou uma diminuição da integração de organizações da sociedade civil neste processo. Ecoando o trazido por Gilson, ela ressalta a importância de que as organizações comunitárias sejam ouvidas e tenham papéis ativos na construção de políticas articuladas entre governo, terceiro setor e investimento privado.

Durante sua apresentação, a líder indiana trouxe um exemplo sólido de como este tipo de ação coordenada pode ter sua faísca inicial com movimentações locais e escalar para uma política pública exitosa, a partir de uma iniciativa na Índia que começou levando crédito bancário a mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica na década de 1990 e que impactou na ampliação representação política de lideranças femininas e na diminuição da violência doméstica. De modo relevante, Nivedita explicitou que, quando discutimos o papel da filantropia no combate à pobreza em um quadro mais amplo, sobretudo quando falamos do Sul global, não podemos nos esquecer de olhar para a questão sob as lentes de gênero.

 

 

“Precisamos de muita coragem para as mulheres, a mudança precisa de coragem, ela não acontece facilmente. E a forma da mudança é onde, na comunidade, as mulheres buscam esse espaço e conquistam esse espaço, pois ele não é dado para nós”.

 

Assim, Narain nos deixa como lição a necessidade de observamos fatores como participação comunitária e gênero quando refletimos sobre desenvolvimento local e para sermos capazes de atingirmos as metas da agenda 2030.

Encerrando a mesa, Paula Fabiani, CEO do IDIS, agradeceu aos presentes e apoiadores do evento, nos lembrando da importância das ações coordenadas entre governo, terceiro setor e empresas para o combate às desigualdades. Celebrando a ousadia das iniciativas apresentadas durante a conversa,

“Primeiro precisamos convencer os outros que aquilo é possível”, afirmou Fabiani.

Enfatizando que sonhar é um ato necessário para que sejamos capazes de atingir mudança social.

— A equipe IDIS agradece a participação de todes!

 

Quer saber mais? Assista à sessão completa:

Veja as fotos da 12° edição do Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais

Aconteceu no dia 14 de setembro, em São Paulo, a 12ª edição do Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais. Promovido pelo IDIS , o evento que busca acelerar soluções fomentar a prática de investimento social no país.

As conversas abordaram temas como ESG, transformação territorial, avaliação de impacto, fundos patrimoniais e muito mais, sempre sob a ótica da OUSADIA!

Confira algumas das imagens registradas ao longo do dia:

eNTRADA E CREDENCIAMENTO

 

aPRESENTAÇÃO ARTÍSTICA

Abertura

 

ousadia: elemento transversal ações transformadoras, diversas e inclusivas

filantropia familiar: enfrentamento de causas invibilizadas

 

errando é que se aprendea: a história de quem ousou e não acertou de primeira

 

PRÊMIO EMPREENDEDOR SOCIAL: VENCEDORES 2022

A OUSADIA DA FILANTROPIA NA AGENDA ESG

 

ALMOÇO TEMÁTICO

 

JUNTOS PELA SAÚDE: COLAORAÇÃO DE IMPACTO ENTRE PODER PÚBLICO E INICIATIVA PRIVADA

 

EM CONVERSA COM…

 

alianças improváveis: a ousadia na defesa de causas e territórios

COFFEE BREAK

 

da reportologia à gestão baseada em evidências

 

modelos de financiamento: riscos calculados pra retornos transformadores

 

mais que nunca, devemos ousar para combater a pobreza

 

realização e apoio

A realização é do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, em parceria com o Global Philanthropy Forum e a Charities Aid Foundation, e apoio prata da Charles Stewart Mott Foundation; e apoio bronze da Ambev, B3 Social, BNP Paribas Asset Management, BTG Pactual, Fundação Itaú, Fundação José Luiz Egydio Setúbal, Instituto Sicoob, Movimento Bem Maior e Grupo RaiaDrogasil S.A. e Vale. A Alliance Magazine é a parceira de mídia.

 

Confira os vídeos do Fórum de Filantropos e Investidores Sociais de 2019

“Força das Comunidades” foi o tema do 8º Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais, realizado em setembro de 2019 pelo IDIS. Ao longo de 10 horas de programação, foram realizadas doze sessões e todas elas serão disponibilizadas no canal do IDIS no YouTube.

O evento, exclusivo para convidados, reuniu mais de 300 participantes, entre filantropos, representantes de empresas, institutos, fundações e governos, e 52 palestrantes. Com um tema complexo e importante como esse, o Fórum buscou reunir pontos de vista locais e globais e diferentes experiências para estimular a reflexão acerca do papel dos cidadãos e as soluções que geram o bem comum.

Escolhemos as atividades melhor avaliadas pela audiência para iniciar a divulgação dos conteúdos. Inscreva-se em nosso canal e receba notificações quando os demais estiverem disponíveis.

• Sessão Dinâmica: Precisamos mobilizar todo mundo; com Edgard Gouveia, Game Master na Epic Journey

• Inclusão, diversidade e equidade: forças de mudança em nossas comunidades

Com Flávia Regina de Souza Oliveira, Sócia de Mattos Filho Advogados; Marcos Panassol, Sócio e Líder de Capital Humano da PwC Brasil; Maíra Liguori, Diretora do Think Olga; Mariana Almeida, Superintendente da Fundação Tide Setúbal; e moderação de Mafoane Odara, Gerente no Instituto Avon.

• Empresas com propósito e comprometidas com a sustentabilidade

Com Juliana Azevedo, Presidente na Procter & Gamble Brasil; Matthew Govier, Diretor Executivo da Accenture Strategy; Ruy Shiozawa, CEO do Great Place to Work Brasil; e moderação de Gabriella Bighetti, CEO da United Way Brasil. Essa sessão teve o apoio da BNP Paribas Asset Management.

• Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2019

Em poucos minutos, imagens e depoimentos dos organizadores, palestrantes, parceiros e participantes.

Realizado desde 2012, o Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais oferece um espaço exclusivo para a comunidade filantrópica se reunir, trocar experiências e aprender com seus pares, fortalecendo a filantropia estratégica para a promoção do desenvolvimento da sociedade brasileira. O evento já reuniu mais de 1.000 participantes, entre filantropos, líderes e especialistas nacionais e internacionais. Esta é uma iniciativa conjunta do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e do Global Philanthropy Forum (GPF). Neste ano, contou com a parceria institucional da United Way. Também comprometidos, a Fundação Telefonica Vivo foi a parceira ouro do projeto, a Fundação José Luiz Egydio Setúbal, a Fundação Mott e o Santander, parceiros prata, e o BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento e o escritório de advocacia Mattos Filho, parceiros bronze.

Veja aqui o álbum de fotos do evento.

A Força das Comunidades invade o Fórum de Filantropos

 

No próximo dia 12 setembro, cerca de duas centenas de investidores sociais vão se reunir em São Paulo para conversar, trocar experiências, analisar conjunturas e conhecer tendências, mas sobretudo para debater como a força das comunidades tem se mostrado uma fonte de inspiração para a solução de problemas sociais e um polo de atração para filantropos.

Tudo isso vai acontecer durante a oitava edição do Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais, que tem como tema transversal ‘A Força das Comunidades’.

Para contribuir com a discussão, virão filantropos familiares, como Carlos ‘Wizard’ Martins, conhecido por ter fundado a rede de escolas de idiomas Wizard, e que, desde o final do ano passado, se mudou para Roraima para ajudar os refugiados venezuelanos.

Também estará Eduardo Fischer, presidente da MRV Engenharia e do Instituto MRV, para falar sobre o investimento social da empresa e sobre a filantropia da família.

Grandes instituições estrangeiras estarão presentes, como Fundação Mott, Global Philanthropy Forum, Aspen Institute, Charities Aid Foundation e BID, assim como representantes de empresas que se destacam por suas atuações sociais ou ambientais, como Procter&Gamble, Accenture e Twitter.

Como não poderia deixar de ser, haverá muito espaço para as iniciativas sociais, tais como United Way, parceira do IDIS na organização do evento, Fundo Baobá, Fundação Tide Setúbal, Gife e Santa Marcelina Cultura.

Conheça a programação completa do Fórum aqui.

A oportunidade de juntar todas essas pessoas que, trabalham pela transformação da nossa realidade e da de outros países, só é possível graças aos apoiadores que compreendem a importância desse tipo de iniciativa.

Fundação Telefônica-Vivo
Fundação José Luiz Egydio Setúbal
Banco Santander
Charles Stewart Mott Foundation
Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)
Mattos Filho Advogados

A todos eles, nosso muito obrigado!