Por Joana Noffs, analista de projetos do IDIS
No universo dos projetos e programas sociais, é comum o momento de busca por dados ficar restrito à hora de prestar contas, sendo as evidências mobilizadas de modo apressado para compor as páginas coloridas dos relatórios anuais. Nessa rotina, os números cumprem um papel relevante para a transparência, mas pouco fértil: demostrar que o investimento foi realizado e que as metas de alcance foram atingidas.
Ao deixar a informação para a última hora, se perde a chance de usar os dados para aprender ao longo do processo e demonstrar o valor gerado para dentro da própria organização no investimento social corporativo. A ausência de indicadores estratégicos mantém o recurso socioambiental mais vulnerável, com risco de ser visto pelo negócio como um custo a ser cortado em tempos de retração. Ainda, quando o diagnóstico de um território entra no jogo antes mesmo de a caneta ir ao papel, cruzando indicadores com a escuta local, a lógica se inverte: soluções de prateleira dão lugar a intervenções mais permeáveis a escuta, capazes de mapear gargalos, mitigar riscos e identificar oportunidades concretas de inovação e desenvolvimento na própria cadeia de valor. O dado passa a ser a linguagem que traduz a realidade do campo para a mesa de decisão, garantindo a sustentabilidade e a permanência desse investimento no orçamento corporativo.
Essa foi a provocação central da mesa “Impacto que gera valor: quando dados fortalecem negócios e sociedade“, realizada no Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026. Sob a moderação de Dihego Pansini, Diretor Executivo do Instituto Alcoa, o painel provocou o setor a se posicionar no terreno de transição proposto no tema do evento: “entre a essência e a reinvenção”.

Painel “Impacto que gera valor: quando dados fortalecem negócios e sociedade”
Se a essência do investimento social está no compromisso de gerar transformação real na vida das pessoas, a sua reinvenção exige superar as práticas historicamente verticalizadas da filantropia, fazendo do diagnóstico e da avaliação canais permanentes para incorporar as vozes de quem vive nos territórios e atua ao longo de toda a cadeia de valor.
“Negócio bom tem que ser bom para todo mundo”. O mote aprendido com pai na infância ilustrou a fala de Claudia Calais, Diretora Executiva da Fundação Bunge. Sua percepção é de que o tempo mudou e as coisas ficaram mais urgentes. A própria agenda ESG ganhou urgência. Já os recursos, ficaram mais escassos. Essa conjuntura exige que o investimento social corporativo trabalhe junto com a cadeia de valor e fortalecendo políticas públicas. Na Fundação Bunge, a revisão da estratégia levou o foco para a inclusão produtiva e para a economia de baixo carbono, e a virada de chave foi ter dados e indicadores que mostrassem o valor gerado para dentro além de para fora, como conta Claudia.

Claudia Calais, Diretora Executiva da Fundação Bunge
“A nossa principal virada, com os indicadores, além de direcionar o investimento e se estamos no caminho certo, foi começar a lidar de igual para igual com o investidor. (…) É superimportante eu medir o que eu estou fazendo do ponto de vista do projeto, mas é superimportante também que por meios dos indicadores da minha entrega para o negócio, o negócio consiga me ver como um investimento, e não como um custo”.
Um exemplo claro dessa via de mão dupla: para cumprir a meta de que parte do biocombustível venha da agricultura familiar, a Bunge investiu na qualificação e organização das famílias do semiárido nordestino em cooperativas, ao invés de recorrer aos produtores do Sul do país, que já estavam estruturados de modo a atender a demanda. O resultado entregou o que o negócio precisava para participar de leilões, em consonância com a política pública do Selo Social do Biocombustível, e gerou transformação em sua região de atuação.
O uso efetivo das evidências pode exigir ir além dos dados de alcance. Andressa Vasconcelos, Especialista em Monitoramento e Avaliação de Impacto na Fundação Sicredi, explicou que no Sicredi o investimento social precisa prestar contas aos 10 milhões de associados que deliberam sobre os R$ 400 milhões investidos anualmente:
“O cooperativismo é sempre essa união a partir do entendimento do que está faltando no território e como a gente pode se organizar, enquanto sociedade, para atingir esse objetivo comum. (…) Então é uma tremenda responsabilidade a gente ter iniciativas que efetivamente gerem transformação.”
No Programa A União Faz a Vida, a instituição realizou em 2020 uma avaliação de Retorno Social do Investimento (SROI) com o IDIS, que indicou um retorno de R$ 4 para cada R$ 1 investido e revelou que aspectos secundários da Teoria da Mudança geravam impactos com maior peso do que o objetivo central. Com esses aprendizados, revisitaram a metodologia e partiram para uma avaliação causal focada no aspecto pedagógico, comprovando avanços diretos de estudantes participantes na iniciativa em variáveis associadas ao cooperativismo, como autonomia, pensamento crítico e colaboração. Sobretudo, a relevância dos processos avaliativos foram os aprendizados gerados, que foram incorporados e permitiram aprimorar a iniciativa e gerar o impacto intencionado.
“Então, a avaliação de impacto, para a gente, vem como uma ferramenta também de prestação de contas para o nosso associado. Mas principalmente para a gente aprender. Aprender e evoluir.”
Além disso, as evidências também auxiliam refinar o mapa que traçava os rumos da geração de valor para a sociedade, a Teoria de Mudança da Fundação, que aponta para a prosperidade como objetivo de longo prazo a ser atingido. Ao realizar uma pesquisa nacional para entender o que o brasileiro considera como “prosperidade”, o Sicredi percebeu que o conceito vai além do dinheiro, orientando a criação de soluções não financeiras para os territórios.

Plateia painel “Impacto que gera valor: quando dados fortalecem negócios e sociedade”
A leitura de evidências também é o que permite atuar em frentes urgentes com pragmatismo. Catarina relatou que a Fundação ArcelorMittal recorreu a dados e escuta qualificada para incorporar a economia circular em sua estratégia.
“Tivemos um trabalho anterior de evidências, fatos e dados para que pudéssemos incorporar uma nova frente de trabalho, a economia circular”, conta. “O que tornou essa agenda possível foi nós percebemos uma oportunidade única de conectar duas pontas em uma mesma cadeia de transformação. (…) Nós percebemos uma oportunidade de gerarmos um valor compartilhado para o negócio, assim como para a comunidade, a nossa sociedade. Mas para que a gente escolhesse essa frente de trabalho da economia circular como uma estratégia da Fundação ArcelorMittal, nós partimos dessa escuta, uma escuta qualificada.”
Um diagnóstico participativo com lideranças, poder público e comunidades mostrou que a gestão de resíduos era uma prioridade local. Cruzando isso com a realidade de 800 mil catadores no Brasil, muitos dos quais em situação de vulnerabilidade social, segundo estudo feito pela AgoSocial em parceria com a ArcelorMittal, e com as metas da empresa de melhorar o acesso à sucata e reduzir emissões, a fundação conectou a cadeia do aço ao fortalecimento desses trabalhadores. A estratégia busca levar cidadania, dignidade e visibilidade aos catadores, responsáveis por mais de 90% da reciclagem no país, mostrando que “quando a gente fala de economia circular, a gente precisa também falar de justiça social”, como reforça Catarina.
A conversa desenhou três movimentos para o uso dos dados no investimento social feito pelo setor privado: orientar a escolha das agendas, gerar aprendizado contínuo sobre a transformação produzida e conectar pessoas e territórios à estratégia corporativa. Como ressaltou Dihego Pansini na síntese do painel, o Monitoramento e Avaliação cumpre um papel claro de transparência, mas o passo adiante está em usar esse aprendizado para alimentar o processo decisório das organizações. Esse avanço exige que os dados sirvam também para escutar e incorporar diferentes vozes e demandas na construção das próprias agendas.

Dihego Pansini, Diretor Executivo do Instituto Alcoa
Quando a informação deixa de ser apenas um registro no relatório e entra na rotina da gestão, o acompanhamento vira um processo vivo, permitindo ajustar caminhos para aumentar o impacto, aproximando a empresa das comunidades e trazendo a inteligência necessária para fortalecer e dar longevidade ao próprio negócio.
Confira a gravação do painel:
