Filantropia latino-americana: caminhos para um futuro comum

Por Carla Irrazabal, analista de projetos do IDIS

A identidade latino-americana parece estar cada vez mais em evidência. E isso não se deve somente ao sucesso das músicas latinas no Spotify e no mundo. Existe algo que nos conecta e que nos define, e que não pode ser ignorado. Talvez a incerteza de um mundo em conflitos e a necessidade de afirmar identidades tenham contribuído para trazer essas características comuns para o centro da conversa. 

Painel “Filantropia latino-americana: caminhos para um futuro comum”

Temos muito em comum, tanto em características que podem se tornar tendências e pontos fortes a serem valorizados, quanto nas coisas que sentimos que precisamos mudar. Ao mesmo tempo em que somos uma das regiões mais desiguais do mundo, vemos a generosidade presente em muitas ações cotidianas que constituem os nossos povos. 

Nossa herança histórica, marcada pela colonização, pelos povos originários e pela influência da diáspora africana trazida à força para a região pela escravidão no período colonial, influencia muitas dessas características. Da Terra do Fogo a Monterrey, compartilhamos histórias, desafios, formas de solidariedade e uma diversidade que não pode ser deixada de lado quando falamos em América Latina. 

Trazendo essa perspectiva para a filantropia, a mesa “Filantropia latino-americana: caminhos para um futuro comum”, realizada no Fórum Brasileiro de Filantropia 2026, nos convidou a refletir sobre o que nos une, o que há de comum entre os países latino-americanos e quais características da nossa região podem contribuir para construir um campo filantrópico mais forte, autônomo e conectado. 

O moderador, Guillermo Correa, Diretor Executivo da Red Argentina para la Cooperación Internacional, abriu a conversa justamente provocando os participantes a pensar sobre como fortalecer a filantropia latino-americana sem simplesmente importar modelos externos. A pergunta atravessou toda a mesa: como ampliar a colaboração entre os países, fortalecer nossas próprias capacidades e, ao mesmo tempo, preservar a diversidade e a essência que caracterizam nossas formas de gerar impacto social e ambiental? 

Cassio França, Secretário-Geral do GIFE, trouxe a experiência brasileira como ponto de partida para pensar também características mais amplas da região. Falou sobre o peso da filantropia empresarial: entre os associados do GIFE, 60% são empresas e 20% são famílias.  

Essa lógica é invertida no campo filantrópico estadunidense, lá há uma predominância da filantropia familiar. Ele fez uma provocação sobre qual é o papel da filantropia familiar na América Latina. Na sua visão, ela pode trazer algo diferente para o campo e abrir espaço para temas e causas que talvez não estejam tão presentes na filantropia empresarial. A ideia não é escolher entre uma forma ou outra, mas reconhecer a contribuição de diferentes atores para a construção de um ecossistema mais diverso. 

Sua fala também trouxe um ponto importante sobre o ambiente necessário para esse campo se fortalecer: a necessidade de um marco legal mais favorável à doação. Em uma região marcada pela concentração de recursos e por profundas desigualdades, fortalecer a cultura de doação também passa por discutir os instrumentos e as políticas que incentivam ou dificultam que recursos privados sejam direcionados para o bem público. 

João Paulo Vergueiro (JP), Diretor do Hub da GivingTuesday para a América Latina e Caribe, trouxe para a conversa uma reflexão sobre os diferentes sentidos da filantropia. Não apenas seu significado literal de “amor à humanidade”, relacionado à generosidade, mas também a filantropia entendida como doação e como um campo da sociedade civil. A partir de sua experiência na GivingTuesday, JP destacou que a generosidade já está presente no cotidiano dos países latino-americanos. A solidariedade e a disposição para fazer o bem ao próximo não são algo que precisamos necessariamente criar. O desafio está em reconhecer, estruturar e fortalecer essas práticas para que elas possam contribuir de maneira mais consistente para o campo filantrópico. 

Mas, para isso, ainda conhecemos pouco sobre o próprio campo. Uma pergunta aparentemente simples “quantas organizações da sociedade civil existem no país?” já evidencia a ausência de dados e pesquisas em muitos lugares da região. Para JP, conhecer melhor o campo é fundamental para que seja possível tomar decisões mais estratégicas e fortalecer a sociedade civil. 

A falta de dados também se conecta a uma questão trazida por Carolina Suárez, CEO da Latimpacto: a necessidade de construir mais confiança no campo social latino-americano. Ela reforçou a importância das evidências, mas chamou atenção para o equilíbrio necessário. Muitas organizações não têm as mesmas condições de produzir relatórios, indicadores e prestações de contas nos formatos demandados por financiadores. Sem considerar essa realidade, o excesso de exigências pode afastar recursos justamente de quem está mais próximo dos territórios. 

Carolina Suárez, CEO da Latimpacto

Para Carolina, pensar um modelo próprio para a América Latina é fundamental. Os exemplos e soluções não estão necessariamente nos modelos importados dos Estados Unidos ou de outros contextos. Muitos deles já existem aqui, nas práticas locais, nas redes da sociedade civil, nas formas de solidariedade comunitária e na capacidade de articulação dos territórios. 

Carolina trouxe também a importância de construir uma identidade latina. Comentou que pessoas de países africanos quando chegam em conferências internacionais falam “sou africano” e não de seu país de origem, precisamos pegar esse exemplo e afirmar com orgulho que somos latino-americanos.  

Numa segunda rodada de perguntas, mais objetivas e mais direcionadas para a prática, Guillermo direcionou perguntas diretas de como fazer e de quais são esses exemplos.  

Cássio retomou o tema do marco legal e reforçou a importância de instrumentos capazes de incentivar a cultura de doação e fortalecer a mobilização de recursos internos. Uma das referências citadas foi a experiência da Índia, onde a legislação de responsabilidade social corporativa prevê que empresas enquadradas em determinados critérios financeiros destinem pelo menos 2% do lucro líquido médio dos três anos anteriores a ações de responsabilidade social corporativa. 

JP sintetizou parte da conversa em três palavras: narrativa, dados e estrutura. A narrativa para contar a história do que o terceiro setor já faz e vem fazendo na América Latina. Os dados para trazer os insumos necessários para o conhecimento do campo de forma estratégica. E a estrutura seria o fortalecimento das redes que existem no Brasil e México e está se iniciando na Colômbia, em grupos como o GIFE. 

Carolina encerrou reforçando aquilo que talvez seja uma das maiores fortalezas latino-americanas: o capital humano. A capacidade de construir vínculos, mobilizar pessoas, atuar em rede e produzir soluções enraizadas nos territórios é parte da potência da região. Para que essa potência ganhe escala, será preciso ampliar integração, confiança e orgulho de pertencimento. 

Essa conversa nos mostrou que a filantropia latino-americana não precisa “inventar a roda” ou buscar respostas em modelos prontos vindos do Norte Global. A nossa fortaleza está justamente no que já existe aqui e que é profundamente latino: a generosidade, a solidariedade, a diversidade cultural e a força e o protagonismo dos nossos territórios.

João Paulo Vergueiro (JP), Diretor do Hub da GivingTuesday para a América Latina e Caribe

A diversidade do continente, com suas diferentes histórias, culturas, formas de organização e maneiras de responder aos desafios locais, não deve ser uma barreira para a construção de uma agenda comum, ao contrário, é um ativo para produzir soluções mais conectadas às nossas realidades.  

Em um contexto de policrise, em que desafios sociais, políticos, econômicos e climáticos se sobrepõem, fortalecer nossos vínculos como hermanos latino-americanos se torna ainda mais importante. Já existem modelos e experiências construídos aqui. O caminho pode estar justamente em conhecermos mais o que nossos vizinhos estão fazendo, compartilharmos aprendizados e fortalecermos essa rede regional, que ainda tem muito espaço para crescer.  

 

Assista a gravação do painel: 

Para além do relatório anual: O valor da evidência para fortalecer negócios e sociedade

Por Joana Noffs, analista de projetos do IDIS 

No universo dos projetos e programas sociais, é comum o momento de busca por dados ficar restrito à hora de prestar contas, sendo as evidências mobilizadas de modo apressado para compor as páginas coloridas dos relatórios anuais. Nessa rotina, os números cumprem um papel relevante para a transparência, mas pouco fértil: demostrar que o investimento foi realizado e que as metas de alcance foram atingidas. 

Ao deixar a informação para a última hora, se perde a chance de usar os dados para aprender ao longo do processo e demonstrar o valor gerado para dentro da própria organização no investimento social corporativo. A ausência de indicadores estratégicos mantém o recurso socioambiental mais vulnerável, com risco de ser visto pelo negócio como um custo a ser cortado em tempos de retração. Ainda, quando o diagnóstico de um território entra no jogo antes mesmo de a caneta ir ao papel, cruzando indicadores com a escuta local, a lógica se inverte: soluções de prateleira dão lugar a intervenções mais permeáveis a escuta, capazes de mapear gargalos, mitigar riscos e identificar oportunidades concretas de inovação e desenvolvimento na própria cadeia de valor. O dado passa a ser a linguagem que traduz a realidade do campo para a mesa de decisão, garantindo a sustentabilidade e a permanência desse investimento no orçamento corporativo. 

Essa foi a provocação central da mesa Impacto que gera valor: quando dados fortalecem negócios e sociedade, realizada no Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026. Sob a moderação de Dihego Pansini, Diretor Executivo do Instituto Alcoa, o painel provocou o setor a se posicionar no terreno de transição proposto no tema do evento: “entre a essência e a reinvenção”.  

Painel “Impacto que gera valor: quando dados fortalecem negócios e sociedade”

Se a essência do investimento social está no compromisso de gerar transformação real na vida das pessoas, a sua reinvenção exige superar as práticas historicamente verticalizadas da filantropia, fazendo do diagnóstico e da avaliação canais permanentes para incorporar as vozes de quem vive nos territórios e atua ao longo de toda a cadeia de valor. 

“Negócio bom tem que ser bom para todo mundo”. O mote aprendido com pai na infância ilustrou a fala de Claudia Calais, Diretora Executiva da Fundação Bunge. Sua percepção é de que o tempo mudou e as coisas ficaram mais urgentes. A própria agenda ESG ganhou urgência. Já os recursos, ficaram mais escassos. Essa conjuntura exige que o investimento social corporativo trabalhe junto com a cadeia de valor e fortalecendo políticas públicas. Na Fundação Bunge, a revisão da estratégia levou o foco para a inclusão produtiva e para a economia de baixo carbono, e a virada de chave foi ter dados e indicadores que mostrassem o valor gerado para dentro além de para fora, como conta Claudia.

Claudia Calais, Diretora Executiva da Fundação Bunge

“A nossa principal virada, com os indicadores, além de direcionar o investimento e se estamos no caminho certo, foi começar a lidar de igual para igual com o investidor. (…) É superimportante eu medir o que eu estou fazendo do ponto de vista do projeto, mas é superimportante também que por meios dos indicadores da minha entrega para o negócio, o negócio consiga me ver como um investimento, e não como um custo”. 

Um exemplo claro dessa via de mão dupla: para cumprir a meta de que parte do biocombustível venha da agricultura familiar, a Bunge investiu na qualificação e organização das famílias do semiárido nordestino em cooperativas, ao invés de recorrer aos produtores do Sul do país, que já estavam estruturados de modo a atender a demanda. O resultado entregou o que o negócio precisava para participar de leilões, em consonância com a política pública do Selo Social do Biocombustível, e gerou transformação em sua região de atuação. 

O uso efetivo das evidências pode exigir ir além dos dados de alcance. Andressa Vasconcelos, Especialista em Monitoramento e Avaliação de Impacto na Fundação Sicredi, explicou que no Sicredi o investimento social precisa prestar contas aos 10 milhões de associados que deliberam sobre os R$ 400 milhões investidos anualmente:

“O cooperativismo é sempre essa união a partir do entendimento do que está faltando no território e como a gente pode se organizar, enquanto sociedade, para atingir esse objetivo comum. (…) Então é uma tremenda responsabilidade a gente ter iniciativas que efetivamente gerem transformação.” 

No Programa A União Faz a Vida, a instituição realizou em 2020 uma avaliação de Retorno Social do Investimento (SROI) com o IDIS, que indicou um retorno de R$ 4 para cada R$ 1 investido e revelou que aspectos secundários da Teoria da Mudança geravam impactos com maior peso do que o objetivo central. Com esses aprendizados, revisitaram a metodologia e partiram para uma avaliação causal focada no aspecto pedagógico, comprovando avanços diretos de estudantes participantes na iniciativa em variáveis associadas ao cooperativismo, como autonomia, pensamento crítico e colaboração. Sobretudo, a relevância dos processos avaliativos foram os aprendizados gerados, que foram incorporados e permitiram aprimorar a iniciativa e gerar o impacto intencionado. 

“Então, a avaliação de impacto, para a gente, vem como uma ferramenta também de prestação de contas para o nosso associado. Mas principalmente para a gente aprender. Aprender e evoluir.”  

Além disso, as evidências também auxiliam refinar o mapa que traçava os rumos da geração de valor para a sociedade, a Teoria de Mudança da Fundação, que aponta para a prosperidade como objetivo de longo prazo a ser atingido. Ao realizar uma pesquisa nacional para entender o que o brasileiro considera como “prosperidade”, o Sicredi percebeu que o conceito vai além do dinheiro, orientando a criação de soluções não financeiras para os territórios.

 

Plateia painel “Impacto que gera valor: quando dados fortalecem negócios e sociedade”

A leitura de evidências também é o que permite atuar em frentes urgentes com pragmatismo. Catarina relatou que a Fundação ArcelorMittal recorreu a dados e escuta qualificada para incorporar a economia circular em sua estratégia.

“Tivemos um trabalho anterior de evidências, fatos e dados para que pudéssemos incorporar uma nova frente de trabalho, a economia circular”, conta. “O que tornou essa agenda possível foi nós percebemos uma oportunidade única de conectar duas pontas em uma mesma cadeia de transformação. (…) Nós percebemos uma oportunidade de gerarmos um valor compartilhado para o negócio, assim como para a comunidade, a nossa sociedade. Mas para que a gente escolhesse essa frente de trabalho da economia circular como uma estratégia da Fundação ArcelorMittal, nós partimos dessa escuta, uma escuta qualificada.”

Um diagnóstico participativo com lideranças, poder público e comunidades mostrou que a gestão de resíduos era uma prioridade local. Cruzando isso com a realidade de 800 mil catadores no Brasil, muitos dos quais em situação de vulnerabilidade social, segundo estudo feito pela AgoSocial em parceria com a ArcelorMittal, e com as metas da empresa de melhorar o acesso à sucata e reduzir emissões, a fundação conectou a cadeia do aço ao fortalecimento desses trabalhadores. A estratégia busca levar cidadania, dignidade e visibilidade aos catadores, responsáveis por mais de 90% da reciclagem no país, mostrando que “quando a gente fala de economia circular, a gente precisa também falar de justiça social, como reforça Catarina. 

A conversa desenhou três movimentos para o uso dos dados no investimento social feito pelo setor privado: orientar a escolha das agendas, gerar aprendizado contínuo sobre a transformação produzida e conectar pessoas e territórios à estratégia corporativa. Como ressaltou Dihego Pansini na síntese do painel, o Monitoramento e Avaliação cumpre um papel claro de transparência, mas o passo adiante está em usar esse aprendizado para alimentar o processo decisório das organizações. Esse avanço exige que os dados sirvam também para escutar e incorporar diferentes vozes e demandas na construção das próprias agendas.  

Dihego Pansini, Diretor Executivo do Instituto Alcoa

Quando a informação deixa de ser apenas um registro no relatório e entra na rotina da gestão, o acompanhamento vira um processo vivo, permitindo ajustar caminhos para aumentar o impacto, aproximando a empresa das comunidades e trazendo a inteligência necessária para fortalecer e dar longevidade ao próprio negócio. 

Confira a gravação do painel:

Em conversa com… Denise Aguiar

Por Yone Moreno, coordenadora de projetos do IDIS 

O Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026 centralizou suas discussões no tema “Filantropia: entre a essência e a reinvenção”. Na seção “Em conversa com”, a convidada deste ano, Denise Aguiar, diretora-geral da Fundação Bradesco, compartilhou suas impressões pessoais sobre as muitas décadas de dedicação da instituição à educação no Brasil e, principalmente, sobre o que significa sustentar um legado ao longo do tempo sem perder a capacidade de se transformar. 

Paula Fabiani, CEO do IDIS

Para quem não conhece essa história, uma recapitulação rápida: a Fundação Bradesco foi criada há quase 70 anos por Amador Aguiar, também fundador do Banco Bradesco, a partir de uma crença profunda no poder transformador da educação. O fundador tomou uma decisão pouco usual para a época: destinou suas próprias ações para criar e garantir a sustentabilidade da Fundação. Ao longo dessas décadas, a instituição construiu uma rede de 40 escolas, presentes em todos os estados brasileiros, atendendo cerca de 42 mil estudantes da Educação Básica. Hoje, investe aproximadamente R$ 1,6 bilhão por ano em educação. 

Mas, na conversa com Denise, ficou claro que assumir esse legado familiar foi apenas uma parte da história. Em um determinado momento da sua vida, o trabalho da Fundação também se transformou em uma missão pessoal. 

Denise contou que sempre se interessou pela forma como as crianças pensam e que essa curiosidade a levou a uma jornada de aproximação com as escolas e com o cotidiano dos estudantes. Foi nesse contato que ela passou a compreender a escola não apenas como um espaço de ensino e aprendizagem, mas como uma arquitetura que comunica relações, produz pertencimento e fomenta confiança. Mais do que transmitir conhecimento, aquele espaço parecia dizer a cada aluno que ele pertencia aquele lugar e que era capaz de construir seu próprio caminho. 

E talvez esse seja um dos elementos mais interessantes da história contada por Denise: a educação, para a Fundação Bradesco, parece acontecer tanto no currículo quanto na experiência de estar na escola. Existe uma dimensão concreta do ensino, da formação, e da estrutura, mas também uma dimensão simbólica, relacionada a confiança e a possibilidade de cada estudante se enxergar como alguém capaz de ocupar diferentes lugares no mundo. 

Mas o que mais me chamou atenção foi o tom sério de toda a conversa. 

A filantropia do Banco, implementada por meio da Fundação Bradesco, nunca foi encarada como assistencialismo, e sim como a expressão de uma crença absoluta de que a educação é um vetor de transformação social. E, justamente por acreditar nisso, a instituição assume a responsabilidade de fazer esse trabalho de maneira consistente, estruturada e de longo prazo. 

Essa seriedade ficou evidente na forma como Denise falou sobre a Fundação. Havia quase uma espécie de convicção silenciosa de que o propósito da instituição não precisa ser reinventado porque continua fazendo sentido. Ele se fortalece a cada geração de estudantes formada, a cada trajetória transformada e a cada história que confirma a aposta original de Amador Aguiar.  

Denise Aguiar, diretora-geral da Fundação Bradesco

Nessa conversa, a essência roubou a cena da reinvenção.  

Em muitos momentos, Denise reforçou que os alunos que ingressam nas escolas da Fundação podem ser o que quiserem. Essa autoconfiança é trabalhada ao longo de toda a formação e parece ser um dos resultados mais importantes do projeto educacional. Não se trata apenas de preparar estudantes para uma profissão ou para uma próxima etapa acadêmica, mas de ampliar sua percepção sobre aquilo que podem ser e fazer. 

Os exemplos concretos de ex-alunos que seguiram trajetórias diversas e bem-sucedidas reforçam essa percepção. E é justamente aí que encontro uma resposta interessante para o tema que orientou todo o Fórum: talvez a essência não seja aquilo que permanece igual, mas aquilo que continua orientando as escolhas mesmo quando o contexto muda. 

E para mim, essa é justamente a força de um legado: não simplesmente permanecer, mas continuar fazendo sentido para quem vem depois.

Confira a gravação do painel:

Reinventando a equidade: novas respostas para desigualdades persistentes

Maria Clara Futuro, analista de projetos do IDIS

Como enfrentar desigualdades persistentes sem reduzir problemas complexos a respostas únicas? Essa foi a pergunta que orientou a sessão “Reinventando a equidade: novas respostas para desigualdades persistentes”, realizada durante o Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026.

Painel ‘Reinventando a equidade: novas respostas para desigualdades persistentes’

Com moderação de Ana Maria Cardoso, Coordenadora de Estudos e Pesquisas Aplicadas na Fundação Itaú, a conversa reuniu Rayanne França, Chefe do Escritório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em Manaus; Raisa Martins, Gerente do Instituto Lojas Renner; e Nina da Hora, Fundadora do Instituto Da Hora. A partir de diferentes trajetórias, as discussão convergiu na mensagem central de que reinventar estratégias de equidade exige olhar para as causas estruturais das desigualdades, reconhecer as especificidades dos territórios e construir soluções com participação ativa das pessoas diretamente afetadas. 

Para iniciar a discussão, Rayanne França explicou que, para reinventar abordagens, é necessário considerar as múltiplas existências e desigualdades que se expressam a partir do território, bem como as condições de acesso e as privações presentes em cada localidade. Ao abordar a diversidade de infâncias na Amazônia, destacou um contexto em que a pobreza é multidimensional e diferentes barreiras de acesso se combinam. Não é possível, portanto, pensar em infâncias e adolescências de forma homogênea. Para compreender as privações que atravessam as infâncias amazônicas, é preciso realizar diagnósticos particulares em cada território, observando as especificidades dos diversos contextos. 

A ideia é que não há como pensar em mudanças sistêmicas, ou em transformações que alcancem as populações dessas diversas “Amazônias”, sem a participação direta e o fortalecimento institucional de organizações e atores locais. “A população amazônica também tem o direito de ocupar espaços […] nos quais podem falar por si mesmos e pensar conjuntamente”, afirmou Rayanne.

Em meio a uma conjuntura de constante inovação e surgimento de novas tecnologias, às vezes é preciso voltar ao básico: reinventar também significa exercitar a escuta e fortalecer quem já está no território. 

Raisa Martins, Gerente do Instituto Lojas Renner

Partindo para uma perspectiva de reinvenção das estratégias de equidade de gênero, Raisa Martins trouxe a experiência do Instituto Lojas Renner na reestruturação de sua atuação em inclusão socioprodutiva de mulheres. O papel do investidor social, apesar da relevância da escala e dos resultados numéricos, deve estar orientado principalmente ao impacto. Raisa apontou a necessidade de uma “virada de chave” na mentalidade do investidor: escala e indicadores são importantes, mas não podem substituir a pergunta sobre impacto real. Projetos voltados ao protagonismo feminino precisam considerar não apenas a entrada no mercado de trabalho ou o número de capacitações realizadas, mas também as condições que garantem a perenidade da autonomia conquistada — é preciso pensar se essas mulheres possuem redes de apoio e bases comunitárias que fortalecem e asseguram seu protagonismo. 

Assim, reinventar soluções para desigualdades demanda também um processo de revisão interna do próprio investidor. Em alguns casos, buscar impacto com maior profundidade pode significar rever o tamanho, o ritmo ou o desenho de um projeto. O desafio para investidores sociais é compreender dados como instrumentos de gestão e aprendizagem, e não como finalidade em si mesmos. 

Ao trazer a conversa para o campo da tecnologia, Nina da Hora pontuou que tecnologias emergentes precisam ser direcionadas à transformação social por meio de diálogos e debates qualificados, para que sejam colocadas a serviço da justiça social. A construção de pontes entre o campo da tecnologia e o campo social é um caminho para que a inovação possa ampliar o acesso a direitos, com intencionalidade e compromisso com a redução de desigualdades. É preciso refletirmos também sobre o papel de quem já ocupa espaços de acesso e decisão: criar essas pontes é uma responsabilidade compartilhada. Nesse processo, a sociedade civil não deve ser vista apenas como usuária de soluções tecnológicas, mas também como produtora de conhecimento, metodologias e tecnologias orientadas ao impacto socioambiental positivo.  

“O que você enquanto filantropia consegue investir e reinvestir para repensar esses caminhos [do desenvolvimento tecnológico]?”, provocou Nina. 

Nina da Hora, Fundadora do Instituto Da Hora

Mais do que financiar projetos pontuais, a filantropia e o Investimento Social Privado (ISP) podem fortalecer capacidades locais, redes de proteção, políticas públicas e cadeias produtivas conectadas à atuação dos próprios investidores. Essa perspectiva exige compreender que o valor gerado por uma iniciativa não se limita ao público diretamente beneficiado. Quando um projeto fortalece lideranças locais, qualifica dados, amplia a participação social ou implementa novas tecnologias, o investidor social atua menos como protagonista isolado e mais como catalisador de capacidades coletivas. 

Para enfrentar problemas complexos e multidimensionais, é preciso compreender por que determinadas desigualdades permanecem. Reinventar a equidade não significa buscar respostas rápidas ou universais, mas construir estratégias em rede, capazes de articular diferentes atores, saberes e responsabilidades. Isso vale para a atuação nos territórios amazônicos, para a promoção da autonomia econômica de mulheres e para a produção de tecnologias mais inclusivas. A inovação social também exige renovar o olhar sobre populações em situação de vulnerabilidade, evitando representações simplificadas ou estereotipadas. Para isso, é preciso escuta, participação e compromisso com mudanças estruturais. São esses elementos que ajudam a montar o quebra-cabeça entre inovação e justiça social, permitindo que a equidade deixe de ser apenas um horizonte desejado e passe a orientar práticas concretas de transformação. 

 

Confira a gravação do painel: 

Capital em reinvenção: financiar é redistribuir poder

Por Yasmim Araujo Lopes, analista de projetos no IDIS 

Como financiar desafios que são cada vez mais complexos, territoriais e interdependentes? A resposta parece passar menos pela criação de instrumentos inteiramente novos e mais pela reinvenção das formas de articular recursos, redes, conhecimento e poder de decisão. Essa foi a discussão que atravessou a mesa “Capital em reinvenção: novas arquiteturas de financiamento cultural, territorial e socioambiental”, que colocou em diálogo experiências em justiça econômica, preservação do patrimônio cultural e Investimento Social Privado (ISP) corporativo. 

Painel ‘Capital em reinvenção: novas arquiteturas de financiamento cultural, territorial e socioambiental’

No Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026, a tensão entre essência e reinvenção ganhou contornos concretos. A conversa reuniu Bruna Helena Barros, executiva de relações institucionais, governamentais e parcerias no Fundo Agbara; Padre Luciano da Silva Roberto, assessor do Setor Cultura e do Setor Bens Culturais da Comissão Episcopal para a Cultura e a Educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); e Mariana Luz, diretora de Investimento Social Privado e Cultura da Vale. A moderação foi de Renato Nahas, presidente do Conselho da FEAC. 

A reflexão feita por Conceição Evaristo na abertura do Fórum, de que a filantropia precisa ser compreendida também como um mecanismo de redistribuição, ofereceu uma chave potente para a mesa. Redistribuir, nesse sentido, não é apenas deslocar dinheiro de um lugar para outro. É redistribuir acesso, confiança, tempo, conhecimento, redes e poder de decisão. 

Foi a partir dessa lente que Bruna Helena Barros apresentou a experiência do Fundo Agbara, criado para ampliar o acesso de mulheres negras a capital, formação e redes. Ao trazer a interseccionalidade para o centro da conversa, sua fala evidenciou que a desigualdade de acesso ao capital filantrópico não é um efeito colateral: ela expressa estruturas históricas que definem quem é considerado apto a receber recursos, quem precisa comprovar mais, quem tem menos flexibilidade e quem permanece distante das redes onde decisões são tomadas. 

Nesse caso, a reinvenção não está apenas em criar um fundo para uma população historicamente subfinanciada. Está em mudar a pergunta que orienta a alocação de recursos. Em vez de perguntar apenas “qual projeto merece apoio?”, o financiamento passa a perguntar “quais barreiras impedem que soluções já existentes acessem capital, formação e redes?”. A mudança parece sutil, mas desloca o centro da decisão: do financiador que escolhe a causa para uma arquitetura que reconhece desigualdades históricas e busca corrigir o acesso a recursos, oportunidades e vínculos.

Padre Luciano da Silva Roberto, assessor do Setor Cultura e do Setor Bens Culturais da Comissão Episcopal para a Cultura e a Educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Na fala de Padre Luciano, a discussão se deslocou para a preservação do patrimônio histórico e cultural. A Igreja Católica detém parte expressiva do patrimônio histórico brasileiro, e o desafio colocado foi como garantir uma estratégia permanente de financiamento para uma agenda que, muitas vezes, só recebe atenção quando a deterioração já se tornou emergência. 

A criação de um fundo patrimonial filantrópico para o patrimônio cultural da Igreja Católica no Brasil aponta para uma mudança de lógica: sair do financiamento pontual, reativo e fragmentado para uma estratégia de legado. Fundos patrimoniais preservam o principal e usam seus rendimentos para sustentar causas e organizações no longo prazo. No caso do patrimônio cultural, isso significa reconhecer que acervos, bens materiais e imateriais não pertencem apenas a uma instituição, são parte de uma memória coletiva e, portanto, de interesse público. 

Mas a perenidade financeira, sozinha, não resolve a complexidade. Como foi destacado na mesa, a governança precisa ser capaz de dialogar com um patrimônio amplo, diverso e distribuído territorialmente. A gestão descentralizada pode ampliar não apenas o acesso ao fundo, mas também a outros recursos, saberes técnicos e articulações locais. Em outras palavras: o instrumento importa, mas a arquitetura de governança é o que define se ele será um mecanismo de preservação viva ou apenas mais uma estrutura financeira. 

Já Mariana Luz trouxe a perspectiva do Investimento Social Privado (ISP) corporativo, a partir da experiência da Vale e da Fundação Vale. A empresa vem combinando recursos próprios, incentivos fiscais, participação de fornecedores, fundos filantrópicos e parcerias com outros atores em torno de desafios sociais complexos, como o enfrentamento à pobreza e o fortalecimento de políticas territoriais. 

A resposta passa pela própria natureza dos problemas enfrentados. Pobreza, saúde, desigualdade territorial e vulnerabilidades socioambientais não cabem em soluções lineares. São desafios multidimensionais, que exigem diagnóstico próximo das famílias, articulação com políticas públicas, engajamento de fornecedores, parceria com Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e conexão com redes nacionais e internacionais. Como apareceu na conversa, problemas complexos não se resolvem sozinhos

Essa constatação parece simples, mas ainda é profundamente transformadora para o campo filantrópico. Ela desloca o capital de uma posição de repasse para uma posição de articulação. O recurso financeiro continua essencial, mas deixa de ser o único ativo em jogo. Tempo institucional, conhecimento técnico, capilaridade territorial, capacidade de convocação, reputação, dados e redes passam a compor a arquitetura de financiamento. 

A mesa também trouxe um alerta importante: em um ambiente complexo, a governança precisa ser simples sem ser simplista. Simplificar não é reduzir o problema; é construir processos claros o suficiente para permitir colaboração, adaptação e tomada de decisão. Quando a governança se torna excessivamente burocrática, ela afasta justamente quem deveria estar mais perto: as comunidades, as organizações locais e as pessoas que vivem os desafios no cotidiano. 

A conclusão que fica é provocativa. Talvez a filantropia não precise, sempre, inventar novos mecanismos. Muitas vezes, precisa reinventar a forma como usa os mecanismos que já existem. Fundos temáticos, fundos patrimoniais, coinvestimento, leis de incentivo e parcerias público-privadas podem reproduzir assimetrias se mantiverem decisões concentradas, horizontes curtos e pouca escuta. Mas podem se tornar transformadores quando são contextualizados no território, aproximam as pessoas apoiadas das decisões e reconhecem que soluções já existem nas comunidades

Mariana Luz, diretora de Investimento Social Privado e Cultura da Vale

A essência da filantropia permanece no compromisso com o bem público, na visão de longo prazo, na disposição de assumir riscos e na busca por transformação estrutural. A reinvenção está em fazer isso com menos centralidade, mais colaboração e maior capacidade de reconhecer a complexidade do mundo atual

A pergunta, portanto, não é apenas “qual arquitetura de financiamento devemos criar?”. A pergunta mais difícil é: que poder estamos dispostos a redistribuir para que o capital gere transformação real? 

Um capital que não escuta pode ser generoso, mas dificilmente será transformador. Um capital que se articula, reconhece saberes existentes, compartilha decisões e fortalece redes chega mais perto daquilo que a filantropia tem de mais essencial: contribuir para que recursos privados sirvam, de fato, à construção de futuros mais justos, plurais e sustentáveis.

 

Confira a gravação do painel:

A essência da filantropia se ancora nos territórios

Por Isadora Pagy, coordenadora de projetos no IDIS 

Na sessãoA força dos territórios: quando a essência guia a reinvenção, realizada durante o Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026, o território foi apresentado não apenas como contexto da ação social, mas como bússola para orientar sua essência. Diante de inúmeras mudanças sociais, políticas, tecnológicas e climáticas, a conversa mostrou que a reinvenção da filantropia não precisa partir de soluções externas ou modelos prontos. Ela pode, e deve, nascer da escuta, dos vínculos, dos saberes e das capacidades já existentes nas comunidades.

Painel ‘A força dos territórios: quando a essência guia a reinvenção’

Mediado por Emanuelle Marques de Moraes, Gerente de Cidadania e Sustentabilidade do Centro Cooperativo Sicoob, o painel reuniu Andrelissa Ruiz, Coordenadora da Prática Local e estratégia territorial da Fundação Tide Setubal; Eliana Sousa Silva, fundadora e diretora da Redes da Maré; e Felipe Amaral, Diretor de Educação do Instituto Caldeira.

A conversa partiu da ideia central de que o território não é apenas um espaço geográfico. É lugar de vínculos, memórias, relações, saberes, desafios e soluções. Na abertura, Emanuelle destacou a importância de olhar para os territórios a partir do que eles possuem, e não apenas do que lhes falta. Essa mudança de perspectiva desloca a atuação social de uma lógica de intervenção externa para uma prática construída com as pessoas que vivem e transformam esses espaços todos os dias. 

Ao longo do debate, uma mensagem se repetiu em diferentes experiências: é preciso fazer menos para o território e mais com o território. Isso exige escuta, presença, confiança e reconhecimento dos ativos locais. Também exige compreender que nenhum território é vazio ou estático. Ao contrário, comunidades se adaptam, criam respostas e reinventam caminhos diante de desafios complexos.

Eliana Sousa Silva, fundadora e diretora da Redes da Maré

A partir da experiência da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva trouxe a produção de conhecimento como parte do enfrentamento das desigualdades. Para ela, conhecer profundamente o território é condição para qualquer ação social consistente. Na Maré, a construção de evidências sobre violações de direitos, segurança pública, acesso à justiça e negligências do poder público contribui para embasar políticas públicas, fortalecer reivindicações e disputar narrativas sobre a favela. 

Sua fala também reforçou que projetos não podem ser um fim em si mesmos. A atuação territorial precisa estar vinculada a uma leitura crítica sobre as estruturas que produzem desigualdades e violências. No caso da Maré, isso inclui reconhecer a segurança pública como direito básico e como dimensão inseparável de qualquer agenda de desenvolvimento. A produção de conhecimento, nesse sentido, deve circular para fora do território, influenciando políticas e decisões, mas também permanecer na comunidade, fortalecendo autonomia e protagonismo local. 

Felipe Amaral, do Instituto Caldeira, levou ao debate a relação entre território, educação e inovação. A partir da experiência de um hub de inovação na região metropolitana de Porto Alegre, destacou a importância de construir pontes entre jovens de escolas públicas e o mundo da tecnologia. Em sua perspectiva, falar de futuro com as juventudes exige sensibilização, repertório e oportunidades concretas de inserção. 

A experiência apresentada por Felipe mostrou que inovação não deve ser tratada como fim, mas como meio para ampliar possibilidades. Para isso, universidades, empresas, organizações da sociedade civil e poder público precisam atuar de forma articulada. A conexão entre esses atores pode fortalecer ecossistemas locais e abrir caminhos para reduzir desigualdades, especialmente quando cada jovem é reconhecido em sua trajetória, potência e contexto. 

Já Andrelissa Ruiz apresentou a experiência da Fundação Tide Setubal no Jardim Lapena, em São Miguel Paulista, e o processo de construção de uma Teoria da Mudança (TdM) orientada pelo território. A iniciativa parte da compreensão de que não é uma única organização que resolverá, sozinha, problemas complexos. Por isso, o papel de uma fundação financiadora passa também por conectar e fortalecer organizações locais, apoiar redes, produzir metodologias e contribuir para o debate público sobre desigualdades urbanas. 

Em sua fala, Andrelissa ressaltou que territórios não são estáticos. Eles mudam, reagem e produzem novas demandas. Por isso, monitoramento, avaliação e indicadores precisam ser instrumentos de aprendizagem e adaptação, não mecanismos que reduzam a complexidade da vida local. A reinvenção, nesse caso, está em apoiar sem capturar, estruturar sem engessar e medir sem perder de vista as dimensões humanas, políticas e comunitárias envolvidas. 

Outro fio transversal da sessão foi a capacidade de ler o território para adaptar estratégias. Na Redes da Maré, isso passa pela sistematização de evidências sobre violações de direitos, segurança pública e acesso à justiça, fortalecendo a reivindicação de políticas públicas e a autonomia comunitária. Na Fundação Tide Setubal, aparece na construção da Teoria da Mudança orientada por escuta, monitoramento e aprendizagem contínua. No Instituto Caldeira, a adaptação nasce diante das transformações tecnológicas e da necessidade de aproximar jovens de escolas públicas de novas perspectivas de futuro.  

Felipe Amaral, Diretor de Educação do Instituto Caldeira

Para além de registrar experiências, o painel convidou o ecossistema da filantropia e do Investimento Social Privado (ISP) a refletir sobre sua forma de atuação. Reconhecer a força dos territórios implica rever posições, compartilhar poder e assumir que soluções duradouras nascem da combinação entre recursos, escuta qualificada, conhecimento local e ação coletiva. 

Entre essência e reinvenção, a sessão apontou um caminho: preservar o compromisso ético com a transformação social, mas reinventar as formas de construir essa transformação. Quando o território deixa de ser visto como destinatário e passa a ser reconhecido como sujeito, a filantropia se aproxima de sua essência mais potente: fortalecer pessoas, redes e comunidades para que sejam protagonistas dos futuros que desejam construir.

 

Assista a gravação do painel: 

Reinventar a filantropia também é repartir poder

Por Beatriz Santos, analista de projetos do IDIS 

Em um contexto de mudanças aceleradas, reinventar-se parece ter se tornado uma obrigação para qualquer organização que queira continuar relevante. Na filantropia, essa discussão costuma estar associada a novas tecnologias, mecanismos financeiros ou estratégias. Tudo isso importa. Mas o painelReinvenção agora. Relevância sempre!”, realizado no Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026, trouxe uma reflexão anterior: não existe reinvenção relevante sem clareza sobre o que precisa permanecer. 

Painel “Reinvenção agora. Relevância sempre!”

A discussão começou ainda na fala inaugural de Conceição Evaristo. Ao lembrar que a filantropia precisa buscar a justiça social, a escritora propôs compreendê-la não apenas como doação, mas como repartição. Se filantropia significa amor à humanidade, sua essência precisa estar no compromisso com as pessoas, com a justiça social e com a transformação de realidades, ou seja, a essência não deve mudar; o que precisa se transformar são os caminhos utilizados para colocá-la em prática. 

 

A essência orienta a reinvenção

No evento, essa relação atravessou as experiências apresentadas por Valcléia dos Santos, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS); Vitor Hugo Neia, da Fundação Grupo Volkswagen; e Somachi Chris-Asoluka, da Tony Elumelu Foundation. 

Valcléia dos Santos, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS)

Ao falar sobre a atuação na Amazônia, Valcléia destacou os desafios de trabalhar em territórios remotos, marcados por dificuldades logísticas, ausência de serviços públicos e desigualdades históricas. Nesses contextos, transformar recursos em ação exige escutar as comunidades e reconhecer que as necessidades não podem ser definidas apenas pelo olhar de quem financia ou executa um projeto, entendendo que são as comunidades que conhecem seus territórios, suas prioridades e as soluções possíveis. Por isso, a escuta não pode ser apenas uma etapa de consulta, mas também de orientação de decisões para que as iniciativas sejam adaptadas conforme as mudanças de contexto. 

A experiência da Fundação Grupo Volkswagen mostrou outro lado desse processo, quando perceberam que sua atuação estava desconectada dos territórios e que os resultados já não correspondiam às transformações que buscavam promover. Dessa forma, foi necessário rever sua estratégia, aproximar-se das realidades locais e fortalecer as capacidades das organizações e comunidades. Essa mudança, no entanto, também significou recuperar algo presente na própria história da Fundação: a atenção às trajetórias dos trabalhadores e à mobilidade social, ou seja, reinventar-se, nesse caso, não foi abandonar a essência, mas encontrar uma forma mais coerente de expressá-la no presente. 

Já a Tony Elumelu Foundation parte do entendimento de que o desenvolvimento da África deve ser liderado por empreendedores locais. Para isso, oferece capacitação, acesso a capital e redes de apoio, buscando adaptar suas estratégias às diferentes realidades econômicas, sociais e culturais. A tecnologia aparece como uma ferramenta importante e, principalmente, inclusiva, representando a reinvenção a partir do fortalecimento do propósito da organização e sem criar barreiras. 

 

Da participação à repartição 

As três experiências mostram que a essência da filantropia não está na preservação de projetos, modelos ou formas de atuação. Esses elementos podem (e devem!) mudar. Neste caso, o que permanece é o compromisso ético com as pessoas, a justiça social e a transformação de longo prazo. A reinvenção é justamente o que permite que esses entendimentos continuem fazendo sentido diante de novos contextos. Por isso, repartir não pode significar apenas transferir recursos, mas também a necessidade de compartilhar a capacidade de identificar problemas, definir prioridades e construir soluções. Em outras palavras, repartir poder. 

Painel “Reinvenção agora. Relevância sempre!”

Essa discussão está no centro de abordagens como a filantropia baseada em confiança, o financiamento flexível e o desenvolvimento liderado localmente. Uma análise da Dalberg sobre tendências da filantropia em 2026 aponta que 83% das grandes fundações norte-americanas pesquisadas relatam alguma participação de públicos interessados. No entanto, apenas 10% afirmam ter transferido efetivamente poder de decisão para organizações apoiadas ou comunidades, ou seja, a diferença mostra que criar espaços de participação não significa, necessariamente, compartilhar decisões. 

O próprio IDIS, ao abordar a filantropia baseada em confiança, destaca práticas como a escuta ativa, a flexibilização dos recursos, a simplificação de processos e a construção de relações mais próximas entre financiadores e organizações apoiadas, reafirmando que o conhecimento necessário para transformar uma realidade não está concentrado apenas em quem possui os recursos.  

Assim, essência, reinvenção e relevância, portanto, estão diretamente relacionadas. A essência indica por que a filantropia existe. A reinvenção define como ela responde às mudanças do presente e a relevância depende da capacidade de fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Uma organização pode preservar suas formas de trabalhar e, ainda assim, se afastar de sua essência. Da mesma forma, pode incorporar tecnologias e modelos inovadores sem produzir transformações relevantes. 

Por outro lado, reinventar não é mudar por mudar. É reconhecer quando uma estratégia deixou de responder ao contexto e construir outros caminhos sem perder o propósito, até porque se a filantropia pretende continuar relevante, sua principal pergunta não deve ser apenas “o que devemos financiar?”, mas também “quem participa da decisão sobre o que precisa ser feito?”. 

Por fim, repartir recursos é importante. Mas repartir a capacidade de escolher os caminhos aproxima a filantropia de sua essência: promover justiça social e contribuir para que as pessoas sejam protagonistas das transformações que afetam suas próprias vidas. 

 

Confira a gravação do painel: