Por Beatriz Santos, analista de projetos do IDIS
Em um contexto de mudanças aceleradas, reinventar-se parece ter se tornado uma obrigação para qualquer organização que queira continuar relevante. Na filantropia, essa discussão costuma estar associada a novas tecnologias, mecanismos financeiros ou estratégias. Tudo isso importa. Mas o painel “Reinvenção agora. Relevância sempre!”, realizado no Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026, trouxe uma reflexão anterior: não existe reinvenção relevante sem clareza sobre o que precisa permanecer.

Painel “Reinvenção agora. Relevância sempre!”
A discussão começou ainda na fala inaugural de Conceição Evaristo. Ao lembrar que a filantropia precisa buscar a justiça social, a escritora propôs compreendê-la não apenas como doação, mas como repartição. Se filantropia significa amor à humanidade, sua essência precisa estar no compromisso com as pessoas, com a justiça social e com a transformação de realidades, ou seja, a essência não deve mudar; o que precisa se transformar são os caminhos utilizados para colocá-la em prática.
A essência orienta a reinvenção
No evento, essa relação atravessou as experiências apresentadas por Valcléia dos Santos, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS); Vitor Hugo Neia, da Fundação Grupo Volkswagen; e Somachi Chris-Asoluka, da Tony Elumelu Foundation.

Valcléia dos Santos, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS)
Ao falar sobre a atuação na Amazônia, Valcléia destacou os desafios de trabalhar em territórios remotos, marcados por dificuldades logísticas, ausência de serviços públicos e desigualdades históricas. Nesses contextos, transformar recursos em ação exige escutar as comunidades e reconhecer que as necessidades não podem ser definidas apenas pelo olhar de quem financia ou executa um projeto, entendendo que são as comunidades que conhecem seus territórios, suas prioridades e as soluções possíveis. Por isso, a escuta não pode ser apenas uma etapa de consulta, mas também de orientação de decisões para que as iniciativas sejam adaptadas conforme as mudanças de contexto.
A experiência da Fundação Grupo Volkswagen mostrou outro lado desse processo, quando perceberam que sua atuação estava desconectada dos territórios e que os resultados já não correspondiam às transformações que buscavam promover. Dessa forma, foi necessário rever sua estratégia, aproximar-se das realidades locais e fortalecer as capacidades das organizações e comunidades. Essa mudança, no entanto, também significou recuperar algo presente na própria história da Fundação: a atenção às trajetórias dos trabalhadores e à mobilidade social, ou seja, reinventar-se, nesse caso, não foi abandonar a essência, mas encontrar uma forma mais coerente de expressá-la no presente.
Já a Tony Elumelu Foundation parte do entendimento de que o desenvolvimento da África deve ser liderado por empreendedores locais. Para isso, oferece capacitação, acesso a capital e redes de apoio, buscando adaptar suas estratégias às diferentes realidades econômicas, sociais e culturais. A tecnologia aparece como uma ferramenta importante e, principalmente, inclusiva, representando a reinvenção a partir do fortalecimento do propósito da organização e sem criar barreiras.
Da participação à repartição
As três experiências mostram que a essência da filantropia não está na preservação de projetos, modelos ou formas de atuação. Esses elementos podem (e devem!) mudar. Neste caso, o que permanece é o compromisso ético com as pessoas, a justiça social e a transformação de longo prazo. A reinvenção é justamente o que permite que esses entendimentos continuem fazendo sentido diante de novos contextos. Por isso, repartir não pode significar apenas transferir recursos, mas também a necessidade de compartilhar a capacidade de identificar problemas, definir prioridades e construir soluções. Em outras palavras, repartir poder.

Painel “Reinvenção agora. Relevância sempre!”
Essa discussão está no centro de abordagens como a filantropia baseada em confiança, o financiamento flexível e o desenvolvimento liderado localmente. Uma análise da Dalberg sobre tendências da filantropia em 2026 aponta que 83% das grandes fundações norte-americanas pesquisadas relatam alguma participação de públicos interessados. No entanto, apenas 10% afirmam ter transferido efetivamente poder de decisão para organizações apoiadas ou comunidades, ou seja, a diferença mostra que criar espaços de participação não significa, necessariamente, compartilhar decisões.
O próprio IDIS, ao abordar a filantropia baseada em confiança, destaca práticas como a escuta ativa, a flexibilização dos recursos, a simplificação de processos e a construção de relações mais próximas entre financiadores e organizações apoiadas, reafirmando que o conhecimento necessário para transformar uma realidade não está concentrado apenas em quem possui os recursos.
Assim, essência, reinvenção e relevância, portanto, estão diretamente relacionadas. A essência indica por que a filantropia existe. A reinvenção define como ela responde às mudanças do presente e a relevância depende da capacidade de fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Uma organização pode preservar suas formas de trabalhar e, ainda assim, se afastar de sua essência. Da mesma forma, pode incorporar tecnologias e modelos inovadores sem produzir transformações relevantes.
Por outro lado, reinventar não é mudar por mudar. É reconhecer quando uma estratégia deixou de responder ao contexto e construir outros caminhos sem perder o propósito, até porque se a filantropia pretende continuar relevante, sua principal pergunta não deve ser apenas “o que devemos financiar?”, mas também “quem participa da decisão sobre o que precisa ser feito?”.
Por fim, repartir recursos é importante. Mas repartir a capacidade de escolher os caminhos aproxima a filantropia de sua essência: promover justiça social e contribuir para que as pessoas sejam protagonistas das transformações que afetam suas próprias vidas.
Confira a gravação do painel:









