Por Yasmim Araujo Lopes, analista de projetos no IDIS
Como financiar desafios que são cada vez mais complexos, territoriais e interdependentes? A resposta parece passar menos pela criação de instrumentos inteiramente novos e mais pela reinvenção das formas de articular recursos, redes, conhecimento e poder de decisão. Essa foi a discussão que atravessou a mesa “Capital em reinvenção: novas arquiteturas de financiamento cultural, territorial e socioambiental”, que colocou em diálogo experiências em justiça econômica, preservação do patrimônio cultural e Investimento Social Privado (ISP) corporativo.

Painel ‘Capital em reinvenção: novas arquiteturas de financiamento cultural, territorial e socioambiental’
No Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026, a tensão entre essência e reinvenção ganhou contornos concretos. A conversa reuniu Bruna Helena Barros, executiva de relações institucionais, governamentais e parcerias no Fundo Agbara; Padre Luciano da Silva Roberto, assessor do Setor Cultura e do Setor Bens Culturais da Comissão Episcopal para a Cultura e a Educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); e Mariana Luz, diretora de Investimento Social Privado e Cultura da Vale. A moderação foi de Renato Nahas, presidente do Conselho da FEAC.
A reflexão feita por Conceição Evaristo na abertura do Fórum, de que a filantropia precisa ser compreendida também como um mecanismo de redistribuição, ofereceu uma chave potente para a mesa. Redistribuir, nesse sentido, não é apenas deslocar dinheiro de um lugar para outro. É redistribuir acesso, confiança, tempo, conhecimento, redes e poder de decisão.
Foi a partir dessa lente que Bruna Helena Barros apresentou a experiência do Fundo Agbara, criado para ampliar o acesso de mulheres negras a capital, formação e redes. Ao trazer a interseccionalidade para o centro da conversa, sua fala evidenciou que a desigualdade de acesso ao capital filantrópico não é um efeito colateral: ela expressa estruturas históricas que definem quem é considerado apto a receber recursos, quem precisa comprovar mais, quem tem menos flexibilidade e quem permanece distante das redes onde decisões são tomadas.
Nesse caso, a reinvenção não está apenas em criar um fundo para uma população historicamente subfinanciada. Está em mudar a pergunta que orienta a alocação de recursos. Em vez de perguntar apenas “qual projeto merece apoio?”, o financiamento passa a perguntar “quais barreiras impedem que soluções já existentes acessem capital, formação e redes?”. A mudança parece sutil, mas desloca o centro da decisão: do financiador que escolhe a causa para uma arquitetura que reconhece desigualdades históricas e busca corrigir o acesso a recursos, oportunidades e vínculos.

Padre Luciano da Silva Roberto, assessor do Setor Cultura e do Setor Bens Culturais da Comissão Episcopal para a Cultura e a Educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
Na fala de Padre Luciano, a discussão se deslocou para a preservação do patrimônio histórico e cultural. A Igreja Católica detém parte expressiva do patrimônio histórico brasileiro, e o desafio colocado foi como garantir uma estratégia permanente de financiamento para uma agenda que, muitas vezes, só recebe atenção quando a deterioração já se tornou emergência.
A criação de um fundo patrimonial filantrópico para o patrimônio cultural da Igreja Católica no Brasil aponta para uma mudança de lógica: sair do financiamento pontual, reativo e fragmentado para uma estratégia de legado. Fundos patrimoniais preservam o principal e usam seus rendimentos para sustentar causas e organizações no longo prazo. No caso do patrimônio cultural, isso significa reconhecer que acervos, bens materiais e imateriais não pertencem apenas a uma instituição, são parte de uma memória coletiva e, portanto, de interesse público.
Mas a perenidade financeira, sozinha, não resolve a complexidade. Como foi destacado na mesa, a governança precisa ser capaz de dialogar com um patrimônio amplo, diverso e distribuído territorialmente. A gestão descentralizada pode ampliar não apenas o acesso ao fundo, mas também a outros recursos, saberes técnicos e articulações locais. Em outras palavras: o instrumento importa, mas a arquitetura de governança é o que define se ele será um mecanismo de preservação viva ou apenas mais uma estrutura financeira.
Já Mariana Luz trouxe a perspectiva do Investimento Social Privado (ISP) corporativo, a partir da experiência da Vale e da Fundação Vale. A empresa vem combinando recursos próprios, incentivos fiscais, participação de fornecedores, fundos filantrópicos e parcerias com outros atores em torno de desafios sociais complexos, como o enfrentamento à pobreza e o fortalecimento de políticas territoriais.
A resposta passa pela própria natureza dos problemas enfrentados. Pobreza, saúde, desigualdade territorial e vulnerabilidades socioambientais não cabem em soluções lineares. São desafios multidimensionais, que exigem diagnóstico próximo das famílias, articulação com políticas públicas, engajamento de fornecedores, parceria com Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e conexão com redes nacionais e internacionais. Como apareceu na conversa, problemas complexos não se resolvem sozinhos.
Essa constatação parece simples, mas ainda é profundamente transformadora para o campo filantrópico. Ela desloca o capital de uma posição de repasse para uma posição de articulação. O recurso financeiro continua essencial, mas deixa de ser o único ativo em jogo. Tempo institucional, conhecimento técnico, capilaridade territorial, capacidade de convocação, reputação, dados e redes passam a compor a arquitetura de financiamento.
A mesa também trouxe um alerta importante: em um ambiente complexo, a governança precisa ser simples sem ser simplista. Simplificar não é reduzir o problema; é construir processos claros o suficiente para permitir colaboração, adaptação e tomada de decisão. Quando a governança se torna excessivamente burocrática, ela afasta justamente quem deveria estar mais perto: as comunidades, as organizações locais e as pessoas que vivem os desafios no cotidiano.
A conclusão que fica é provocativa. Talvez a filantropia não precise, sempre, inventar novos mecanismos. Muitas vezes, precisa reinventar a forma como usa os mecanismos que já existem. Fundos temáticos, fundos patrimoniais, coinvestimento, leis de incentivo e parcerias público-privadas podem reproduzir assimetrias se mantiverem decisões concentradas, horizontes curtos e pouca escuta. Mas podem se tornar transformadores quando são contextualizados no território, aproximam as pessoas apoiadas das decisões e reconhecem que soluções já existem nas comunidades.

Mariana Luz, diretora de Investimento Social Privado e Cultura da Vale
A essência da filantropia permanece no compromisso com o bem público, na visão de longo prazo, na disposição de assumir riscos e na busca por transformação estrutural. A reinvenção está em fazer isso com menos centralidade, mais colaboração e maior capacidade de reconhecer a complexidade do mundo atual.
A pergunta, portanto, não é apenas “qual arquitetura de financiamento devemos criar?”. A pergunta mais difícil é: que poder estamos dispostos a redistribuir para que o capital gere transformação real?
Um capital que não escuta pode ser generoso, mas dificilmente será transformador. Um capital que se articula, reconhece saberes existentes, compartilha decisões e fortalece redes chega mais perto daquilo que a filantropia tem de mais essencial: contribuir para que recursos privados sirvam, de fato, à construção de futuros mais justos, plurais e sustentáveis.
Confira a gravação do painel:
