Reinventando a equidade: novas respostas para desigualdades persistentes

18 de setembro de 2026

Maria Clara Futuro, analista de projetos do IDIS

Como enfrentar desigualdades persistentes sem reduzir problemas complexos a respostas únicas? Essa foi a pergunta que orientou a sessão “Reinventando a equidade: novas respostas para desigualdades persistentes”, realizada durante o Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026.

Painel ‘Reinventando a equidade: novas respostas para desigualdades persistentes’

Com moderação de Ana Maria Cardoso, Coordenadora de Estudos e Pesquisas Aplicadas na Fundação Itaú, a conversa reuniu Rayanne França, Chefe do Escritório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em Manaus; Raisa Martins, Gerente do Instituto Lojas Renner; e Nina da Hora, Fundadora do Instituto Da Hora. A partir de diferentes trajetórias, as discussão convergiu na mensagem central de que reinventar estratégias de equidade exige olhar para as causas estruturais das desigualdades, reconhecer as especificidades dos territórios e construir soluções com participação ativa das pessoas diretamente afetadas. 

Para iniciar a discussão, Rayanne França explicou que, para reinventar abordagens, é necessário considerar as múltiplas existências e desigualdades que se expressam a partir do território, bem como as condições de acesso e as privações presentes em cada localidade. Ao abordar a diversidade de infâncias na Amazônia, destacou um contexto em que a pobreza é multidimensional e diferentes barreiras de acesso se combinam. Não é possível, portanto, pensar em infâncias e adolescências de forma homogênea. Para compreender as privações que atravessam as infâncias amazônicas, é preciso realizar diagnósticos particulares em cada território, observando as especificidades dos diversos contextos. 

A ideia é que não há como pensar em mudanças sistêmicas, ou em transformações que alcancem as populações dessas diversas “Amazônias”, sem a participação direta e o fortalecimento institucional de organizações e atores locais. “A população amazônica também tem o direito de ocupar espaços […] nos quais podem falar por si mesmos e pensar conjuntamente”, afirmou Rayanne.

Em meio a uma conjuntura de constante inovação e surgimento de novas tecnologias, às vezes é preciso voltar ao básico: reinventar também significa exercitar a escuta e fortalecer quem já está no território. 

Raisa Martins, Gerente do Instituto Lojas Renner

Partindo para uma perspectiva de reinvenção das estratégias de equidade de gênero, Raisa Martins trouxe a experiência do Instituto Lojas Renner na reestruturação de sua atuação em inclusão socioprodutiva de mulheres. O papel do investidor social, apesar da relevância da escala e dos resultados numéricos, deve estar orientado principalmente ao impacto. Raisa apontou a necessidade de uma “virada de chave” na mentalidade do investidor: escala e indicadores são importantes, mas não podem substituir a pergunta sobre impacto real. Projetos voltados ao protagonismo feminino precisam considerar não apenas a entrada no mercado de trabalho ou o número de capacitações realizadas, mas também as condições que garantem a perenidade da autonomia conquistada — é preciso pensar se essas mulheres possuem redes de apoio e bases comunitárias que fortalecem e asseguram seu protagonismo. 

Assim, reinventar soluções para desigualdades demanda também um processo de revisão interna do próprio investidor. Em alguns casos, buscar impacto com maior profundidade pode significar rever o tamanho, o ritmo ou o desenho de um projeto. O desafio para investidores sociais é compreender dados como instrumentos de gestão e aprendizagem, e não como finalidade em si mesmos. 

Ao trazer a conversa para o campo da tecnologia, Nina da Hora pontuou que tecnologias emergentes precisam ser direcionadas à transformação social por meio de diálogos e debates qualificados, para que sejam colocadas a serviço da justiça social. A construção de pontes entre o campo da tecnologia e o campo social é um caminho para que a inovação possa ampliar o acesso a direitos, com intencionalidade e compromisso com a redução de desigualdades. É preciso refletirmos também sobre o papel de quem já ocupa espaços de acesso e decisão: criar essas pontes é uma responsabilidade compartilhada. Nesse processo, a sociedade civil não deve ser vista apenas como usuária de soluções tecnológicas, mas também como produtora de conhecimento, metodologias e tecnologias orientadas ao impacto socioambiental positivo.  

“O que você enquanto filantropia consegue investir e reinvestir para repensar esses caminhos [do desenvolvimento tecnológico]?”, provocou Nina. 

Nina da Hora, Fundadora do Instituto Da Hora

Mais do que financiar projetos pontuais, a filantropia e o Investimento Social Privado (ISP) podem fortalecer capacidades locais, redes de proteção, políticas públicas e cadeias produtivas conectadas à atuação dos próprios investidores. Essa perspectiva exige compreender que o valor gerado por uma iniciativa não se limita ao público diretamente beneficiado. Quando um projeto fortalece lideranças locais, qualifica dados, amplia a participação social ou implementa novas tecnologias, o investidor social atua menos como protagonista isolado e mais como catalisador de capacidades coletivas. 

Para enfrentar problemas complexos e multidimensionais, é preciso compreender por que determinadas desigualdades permanecem. Reinventar a equidade não significa buscar respostas rápidas ou universais, mas construir estratégias em rede, capazes de articular diferentes atores, saberes e responsabilidades. Isso vale para a atuação nos territórios amazônicos, para a promoção da autonomia econômica de mulheres e para a produção de tecnologias mais inclusivas. A inovação social também exige renovar o olhar sobre populações em situação de vulnerabilidade, evitando representações simplificadas ou estereotipadas. Para isso, é preciso escuta, participação e compromisso com mudanças estruturais. São esses elementos que ajudam a montar o quebra-cabeça entre inovação e justiça social, permitindo que a equidade deixe de ser apenas um horizonte desejado e passe a orientar práticas concretas de transformação. 

 

Confira a gravação do painel: