Encontro global convoca filantropia para ação

No WINGS Fórum 2026, em Montreal, foco nas comunidades, ampliação do financiamento flexível e plurianual e contribuição para o fortalecimento da sociedade civil e da democracia foram temas de destaque

Por Luisa Lima, gerente de comunicação e conhecimento no IDIS

A cada três anos, a WINGS nos brinda com a oportunidade de desconectar da ação diária e adentrar a sala de máquinas, ver de perto as engrenagens que movem a filantropia e dedicar tempo e reflexão para torná-las melhores e mais conectadas aos desafios contemporâneos. No panorama, há questões globais como a crise da democracia e do multilateralismo, as mudanças climáticas e a revolução digital. Nesta edição o convite foi de AGIR, explorando as dimensões da ativação, da colaboração, em especial com o governo, e da transcendência.

Entre plenárias, sessões simultâneas e workshops, foi unânime o debate sobre a importância de colocar os territórios e comunidades impactadas no centro de toda e qualquer decisão. O foco da filantropia deve ser o impacto socioambiental, e, por isso, os indicadores do financiador devem ser adaptados a ele – não o oposto. Financiadores também devem ter mais compromisso com o risco, que é inevitável, mas que hoje recai especialmente sobre as comunidades. Binaifer Nowrojee, presidente da Open Society, destacou que nosso sistema está afastando as organizações de base, que estão precisando dedicar cada vez mais tempo e recursos para atender às demandas e falar a língua do financiador.

Também está em alta a questão do financiamento flexível e plurianual. Noorain Khan, CIO da Ford Foundation, chegou a fazer um apelo pelo fim de apoios com duração de apenas um ano. Fala em apoio por três anos, ainda que entre o público, a crença foi de que este prazo ainda é insuficiente para gerar mudanças sistêmicas.

Mecanismos de governança e accountability contribuem para gerar uma relação de confiança. A necessidade da construção de uma linguagem comum, que nos permita criar narrativas para a filantropia que se complementem e reforcem umas às outras, também foi tema abordado repetidas vezes.

Não ficaram de fora o fortalecimento das culturas de doação e a importância do apoio da filantropia à democracia e aos direitos humanos. Foi o primeiro encontro da rede depois dos cortes da USAID e dos muitos outros que se seguiram. Inúmeras organizações estão em xeque, sofrendo ataques diretos, para além do estrangulamento do financiamento.

A jornalista filipina Maria Ressa, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2021 e copresidente do painel científico da ONU sobre Inteligência Artificial, alertou que a IA sem limites ameaça a autonomia humana, a democracia e a segurança pública.

 

Filantropia na América Latina e no Caribe

Apesar do caráter global, há inúmeros espaços para aprofundar questões específicas sobre causas e também temas locais e regionais, identificando pontos em comum, diferenças e oportunidades de colaboração. Por dois dias, prévios ao início da conferência, participei do encontro do grupo formado por lideranças da América Latina e Caribe para a criação de planos conjuntos para a região.

Somos 33 países que, além da geografia e multiplicidade de povos, temos em comum um passado colonial que deixou marcas profundas na constituição de nossas sociedades, raízes de muitas das desigualdades que enfrentamos atualmente.

Certamente há especificidades em cada país e não é óbvio encontrar o que efetivamente nos une e como podemos efetivamente agir juntos. Para um alinhamento inicial, fizemos um exercício de mapeamento de tendências, buscando identificar pontos nevrálgicos da região e que será sistematizado na segunda edição de um relatório a ser publicado pelo grupo.

Ficou claro o desafio de construção de confiança, dado que organizações da sociedade civil, em todos os países, sofrem ataques, ainda que com intensidades diferentes. A região conta com relativamente poucos dados sobre filantropia, fluxo de recursos e impacto, o que acaba trazendo também desafios para uma narrativa mais engajadora e com taxonomia comum. A colaboração para atingirmos melhores resultados foi destaque, mas uma barreira que se impõe é justamente financeira: colaboração demanda dinheiro e há poucas fontes disponíveis para esse tipo de ação. Ainda assim, trabalhamos em um protótipo, um ponto de partida para uma ação regional.

Além deste grupo, há também outros dois dedicados à filantropia na África e na Ásia-Pacífico. Houve um tempo dedicados para trocas entre os três, com identificação de pontos de convergência e especificidades.

Ecossistema em constante busca por equilíbrio

A analogia da filantropia a um ecossistema é recorrente. Nele, devemos criar as condições para que cada um possa atingir o seu potencial máximo e contribuir, em última instância, para um mundo melhor e menos desigual para todos. Para além de doadores e beneficiários da doação, que já apresentam uma grande diversidade, há intermediários, organizações de suporte, como o IDIS, think tanks, agências do governo, órgãos multilaterais, bancos de desenvolvimento. Não faltam exemplos de ações maravilhosas realizadas por cada um deles. Ninguém está parado, como destacou Benjamin Bellegy, diretor executivo da WINGS. Mas, como em qualquer ecossistema, é necessária ação coordenada, com cada um desempenhando uma função clara e apoiando uns aos outros, havendo um equilíbrio tênue ao qual sempre devemos estar atentos.

Os dias foram intensos, com provocações que levavam cada um a efetivamente avaliar se suas organizações estão indo na melhor direção e velocidade. Se o tamanho do desafio pode gerar ansiedade, Andrew Chunilall, CEO do Community Foundations of Canada (CFC), conforta: “Generosidade está na nossa origem. As fundações foram criadas para organizar a generosidade. Nós nos perdemos no caminho, transformando generosidade em recursos financeiros. O foco a partir de agora deve ser destravar a generosidade, em suas múltiplas formas. A boa notícia é que ela já existe.”

Encontros como estes são essenciais para trazer à tona temas emergentes, criar uma base comum, entender movimentos globais, fortalecer mensagens, gerar conexões e energizar cada um dos participantes, para que possam fazer mais e melhor em suas organizações, salvar vidas e gerar as transformações que desejamos ver.

Filantropia latino-americana: caminhos para um futuro comum

Por Carla Irrazabal, analista de projetos do IDIS

A identidade latino-americana parece estar cada vez mais em evidência. E isso não se deve somente ao sucesso das músicas latinas no Spotify e no mundo. Existe algo que nos conecta e que nos define, e que não pode ser ignorado. Talvez a incerteza de um mundo em conflitos e a necessidade de afirmar identidades tenham contribuído para trazer essas características comuns para o centro da conversa. 

Painel “Filantropia latino-americana: caminhos para um futuro comum”

Temos muito em comum, tanto em características que podem se tornar tendências e pontos fortes a serem valorizados, quanto nas coisas que sentimos que precisamos mudar. Ao mesmo tempo em que somos uma das regiões mais desiguais do mundo, vemos a generosidade presente em muitas ações cotidianas que constituem os nossos povos. 

Nossa herança histórica, marcada pela colonização, pelos povos originários e pela influência da diáspora africana trazida à força para a região pela escravidão no período colonial, influencia muitas dessas características. Da Terra do Fogo a Monterrey, compartilhamos histórias, desafios, formas de solidariedade e uma diversidade que não pode ser deixada de lado quando falamos em América Latina. 

Trazendo essa perspectiva para a filantropia, a mesa “Filantropia latino-americana: caminhos para um futuro comum”, realizada no Fórum Brasileiro de Filantropia 2026, nos convidou a refletir sobre o que nos une, o que há de comum entre os países latino-americanos e quais características da nossa região podem contribuir para construir um campo filantrópico mais forte, autônomo e conectado. 

O moderador, Guillermo Correa, Diretor Executivo da Red Argentina para la Cooperación Internacional, abriu a conversa justamente provocando os participantes a pensar sobre como fortalecer a filantropia latino-americana sem simplesmente importar modelos externos. A pergunta atravessou toda a mesa: como ampliar a colaboração entre os países, fortalecer nossas próprias capacidades e, ao mesmo tempo, preservar a diversidade e a essência que caracterizam nossas formas de gerar impacto social e ambiental? 

Cassio França, Secretário-Geral do GIFE, trouxe a experiência brasileira como ponto de partida para pensar também características mais amplas da região. Falou sobre o peso da filantropia empresarial: entre os associados do GIFE, 60% são empresas e 20% são famílias.  

Essa lógica é invertida no campo filantrópico estadunidense, lá há uma predominância da filantropia familiar. Ele fez uma provocação sobre qual é o papel da filantropia familiar na América Latina. Na sua visão, ela pode trazer algo diferente para o campo e abrir espaço para temas e causas que talvez não estejam tão presentes na filantropia empresarial. A ideia não é escolher entre uma forma ou outra, mas reconhecer a contribuição de diferentes atores para a construção de um ecossistema mais diverso. 

Sua fala também trouxe um ponto importante sobre o ambiente necessário para esse campo se fortalecer: a necessidade de um marco legal mais favorável à doação. Em uma região marcada pela concentração de recursos e por profundas desigualdades, fortalecer a cultura de doação também passa por discutir os instrumentos e as políticas que incentivam ou dificultam que recursos privados sejam direcionados para o bem público. 

João Paulo Vergueiro (JP), Diretor do Hub da GivingTuesday para a América Latina e Caribe, trouxe para a conversa uma reflexão sobre os diferentes sentidos da filantropia. Não apenas seu significado literal de “amor à humanidade”, relacionado à generosidade, mas também a filantropia entendida como doação e como um campo da sociedade civil. A partir de sua experiência na GivingTuesday, JP destacou que a generosidade já está presente no cotidiano dos países latino-americanos. A solidariedade e a disposição para fazer o bem ao próximo não são algo que precisamos necessariamente criar. O desafio está em reconhecer, estruturar e fortalecer essas práticas para que elas possam contribuir de maneira mais consistente para o campo filantrópico. 

Mas, para isso, ainda conhecemos pouco sobre o próprio campo. Uma pergunta aparentemente simples “quantas organizações da sociedade civil existem no país?” já evidencia a ausência de dados e pesquisas em muitos lugares da região. Para JP, conhecer melhor o campo é fundamental para que seja possível tomar decisões mais estratégicas e fortalecer a sociedade civil. 

A falta de dados também se conecta a uma questão trazida por Carolina Suárez, CEO da Latimpacto: a necessidade de construir mais confiança no campo social latino-americano. Ela reforçou a importância das evidências, mas chamou atenção para o equilíbrio necessário. Muitas organizações não têm as mesmas condições de produzir relatórios, indicadores e prestações de contas nos formatos demandados por financiadores. Sem considerar essa realidade, o excesso de exigências pode afastar recursos justamente de quem está mais próximo dos territórios. 

Carolina Suárez, CEO da Latimpacto

Para Carolina, pensar um modelo próprio para a América Latina é fundamental. Os exemplos e soluções não estão necessariamente nos modelos importados dos Estados Unidos ou de outros contextos. Muitos deles já existem aqui, nas práticas locais, nas redes da sociedade civil, nas formas de solidariedade comunitária e na capacidade de articulação dos territórios. 

Carolina trouxe também a importância de construir uma identidade latina. Comentou que pessoas de países africanos quando chegam em conferências internacionais falam “sou africano” e não de seu país de origem, precisamos pegar esse exemplo e afirmar com orgulho que somos latino-americanos.  

Numa segunda rodada de perguntas, mais objetivas e mais direcionadas para a prática, Guillermo direcionou perguntas diretas de como fazer e de quais são esses exemplos.  

Cássio retomou o tema do marco legal e reforçou a importância de instrumentos capazes de incentivar a cultura de doação e fortalecer a mobilização de recursos internos. Uma das referências citadas foi a experiência da Índia, onde a legislação de responsabilidade social corporativa prevê que empresas enquadradas em determinados critérios financeiros destinem pelo menos 2% do lucro líquido médio dos três anos anteriores a ações de responsabilidade social corporativa. 

JP sintetizou parte da conversa em três palavras: narrativa, dados e estrutura. A narrativa para contar a história do que o terceiro setor já faz e vem fazendo na América Latina. Os dados para trazer os insumos necessários para o conhecimento do campo de forma estratégica. E a estrutura seria o fortalecimento das redes que existem no Brasil e México e está se iniciando na Colômbia, em grupos como o GIFE. 

Carolina encerrou reforçando aquilo que talvez seja uma das maiores fortalezas latino-americanas: o capital humano. A capacidade de construir vínculos, mobilizar pessoas, atuar em rede e produzir soluções enraizadas nos territórios é parte da potência da região. Para que essa potência ganhe escala, será preciso ampliar integração, confiança e orgulho de pertencimento. 

Essa conversa nos mostrou que a filantropia latino-americana não precisa “inventar a roda” ou buscar respostas em modelos prontos vindos do Norte Global. A nossa fortaleza está justamente no que já existe aqui e que é profundamente latino: a generosidade, a solidariedade, a diversidade cultural e a força e o protagonismo dos nossos territórios.

João Paulo Vergueiro (JP), Diretor do Hub da GivingTuesday para a América Latina e Caribe

A diversidade do continente, com suas diferentes histórias, culturas, formas de organização e maneiras de responder aos desafios locais, não deve ser uma barreira para a construção de uma agenda comum, ao contrário, é um ativo para produzir soluções mais conectadas às nossas realidades.  

Em um contexto de policrise, em que desafios sociais, políticos, econômicos e climáticos se sobrepõem, fortalecer nossos vínculos como hermanos latino-americanos se torna ainda mais importante. Já existem modelos e experiências construídos aqui. O caminho pode estar justamente em conhecermos mais o que nossos vizinhos estão fazendo, compartilharmos aprendizados e fortalecermos essa rede regional, que ainda tem muito espaço para crescer.  

 

Assista a gravação do painel: 

“Construindo o futuro”: novo relatório da CAF America incentiva filantropia para a América Latina

A cidade de Miami é um grande centro de doações filantrópicas para instituições sociais em toda a América Latina, vindas de residentes internacionais de alta renda no local. No entanto, apesar da vontade de criar um impacto duradouro por meio da filantropia, existem diversas barreiras que acabam dificultando a efetividade das doações.

Pensando em quebrar essas barreiras para pessoas que querem realizar doações para países na América Latina, a STEP Miami junto com a CAF America lançaram o relatório “Building the Future: Advising Latin American Philanthropy from Miami”. O objetivo da publicação é de inspirar doações internacionais estratégicas e com eficiência tributária a doadores norte-americanos.

Por meio da pesquisa, a STEP Miami e a CAF America mapearam a relevância das doações internacionais entre os clientes associados à STEP Miami e, com isso, foi constatado que há uma forte oportunidade para ajudar clientes de alto poder aquisitivo, uma vez que 93% dos consultores que responderam à pesquisa relataram que fazem doações anualmente a entidades filantrópicas fora dos Estados Unidos. Desses, 68% relatam realizar doações para instituições Brasileiras.

Pessoas e famílias de alto poder aquisitivo em Miami têm um interesse claro pelas doações a entidades filantrópicas internacionais. Isto reflete a natureza internacional da base de clientes da cidade.

Confira a publicação completa clicando aqui. 

CAF America

A CAF America é uma instituição filantrópica pública e intermediária para doações internacionais e domésticas aconselhadas por doadores. Nos últimos 5 anos, a organização estima ter apoiado a doação de U$2 bilhões, aconselhadas por doadores para milhares de instituições de caridade em 120 países. Além dessas atividades de doação, oferecem uma gama completa de serviços para todos os tipos de atividades filantrópicas.

O Futuro da Filantropia é tema de evento promovido pela Alliance Magazine

A Alliance Magazine, organização social britânica com foco em conteúdo relacionado a investimento social, reunirá especialistas do ramo de diferentes países para debater e refletir sobre o Futuro da Filantropia. O evento encerra uma série que promoveu seis painéis virtuais com representantes de organizações ligadas ao tema em diferentes regiões globais (África, Região Árabe, Ásia & Pacífico, Europa, América Latina e América do Norte) e marca o encerramento da comemoração do 25º aniversário da revista.

Reunindo vozes de cada um desses painéis em uma conversa global, o evento acontecerá no dia 10 de fevereiro de forma online e gratuita. Com um olhar para o futuro, propõe debater a evolução da filantropia após tempos de crise e a contribuição  das novas gerações.

Participaram do evento:

Paula Fabiani, CEO do IDIS, Caroline McLaughlin, Diretora de Parcerias da Asia Venture Philanthropy Network, Dave Biemesderfer, Presidente e CEO do United Philanthropy Forum, Delphine Moralis, CEO da Philanthropy Europe Association, Naila Farouky, CEO do Arab Foundations Forum e Stigmata Tenga, Diretora Executiva da Africa Philanthropy Network serão os palestrantes do evento, que terá mediação de Elika Roohi, da revista Alliance.

As inscrições podem ser feitas no link: bit.ly/futurodafilantropia

Data: 10 de fevereiro | Horário: 11h – 12h (UTC-03:00) Brasília

O Futuro da Filantropia na América Latina

O IDIS foi o parceiro da Alliance para a realização da edição latinoamericana do ciclo de debates.

Além de Paula Fabini, integraram a mesa Carolina Suarez, da Latimpacto (Colombia),
Inês Mindlin Lafer, representando o GIFE e o Instituto Betty e Jacob Lafer (Brasil) e Magdalena Aninat, do Centro de Filantropia e Investimentos Sociais da Universidade Adolfo Ibáñez (Chile).

Entre os temas debatidos, a importância do fortalecimento do ecossistema da filantropia na América Latina, a necessidade do fomento a um ambiente político mais favorável às organizações da sociedade civil e o avanço da colaboração na prática filantrópica, especialmente a partir do evento da pandemia de Covid-19. Houve consenso de que a filantropia vem amadurecendo no continente e que o futuro mostra-se positivo.

Confira o vídeo:

Ecossistema da filantropia na América Latina precisa melhorar como um todo

Essa é uma das conclusões do webinar ‘Future of Latin American Philanthropy’, realizado pela Alliance Magazine, em parceria com o IDIS, como parte das comemorações de 25 anos da revista, e que reuniu 333 participantes.

O webinar, que aconteceu no dia 20 de abril de 2020, contou com palestrantes do Brasil, do Chile e da Colômbia, sob a moderação de Elika Roohi, editora digital da Alliance Magazine.

Apesar das diferenças locais, as visões trazidas pelas palestrantes tinham muitos pontos em comum.

Todas destacaram a importância do fortalecimento do ecossistema da filantropia, sendo que Magdalena Aninat, do Centro de Filantropia e Inversiones Sociales, da Universidade Adolfo Ibañez, no Chile, acredita que um ambiente político favorável e um bom sistema de incentivos fiscais são duas ferramentas poderosas para o aumento das doações.

Falando sobre ambiente político, Inês Mindlin Lafer, representante do Instituto Betty e Jacob Lafer, com sede em São Paulo, fez questão de lembrar que, no Brasil, o espaço para a sociedade civil está encolhendo e as organizações do Terceiro Setor estão sob ataque. Inês afirmou que o País vive um retrocesso em termos de democracia e dos níveis de pobreza.

Carolina Suarez, CEO da Latimpacto, uma rede regional de Venture Philanthropy, com sede na Colômbia, apresentou, entre algumas reflexões sobre o panorama da filantropia latino-americana, o desejo de se tornar mais estratégica, o aumento do apetite a risco e um crescente nível de colaboração entre os atores do campo, mesmo quando adotam formas de financiamento diversas.

Paula Fabiani, diretora-presidente do IDIS, também destacou a colaboração como um dos pontos que mais avançaram na prática filantrópica, especialmente a partir do evento da pandemia do Covid-19. Paula mencionou outros destaques que considera relevantes, tais como o crescimento do uso da tecnologia por organizações sociais, a valorização dos dados e da avaliação de impacto, e, sobretudo o interesse, cada vez maior, pela filantropia comunitária, que desenvolve um olhar abrangente sobre o território e busca soluções sistêmicas para as populações do local.

Por fim, todas louvaram as iniciativas coletivas, surgidas no combate aos efeitos da pandemia, reunindo filantropos, organizações sociais e coletivos, que deixaram para trás identidades e marcas, expondo suas bandeiras e causas como o mais forte elemento mobilizador.

Ao final do webinar, a imagem do futuro da filantropia latino-americana pareceu ser altamente positiva, pois há espaço para crescer em vários sentidos. Os atores já estão mais maduros, há uma infraestrutura que vem se fortalecendo e o nível de colaboração tende a aumentar. Além desses aspectos, existe a possibilidade de conservar viva a onda de solidariedade nascida no ano passado, devido à pandemia.

Uma curiosidade: no meio do webinar, foi feita uma enquete junto aos participantes, para saber em qual campo a filantropia latino-americana deve investir. Veja abaixo os resultados.

1º lugar: Justiça Social e Democracia

2º lugar: Educação

 

Caso tenha interesse, você pode assistir à íntegra do webinar em:

Trilhando caminhos comuns para fomentar um ambiente favorável para Filantropia na América Latina e Caribe

Por Andrea Hanai*

São Paulo foi palco do segundo encontro regional da WINGS (Worldwide Initiatives for Grantmaker Support) para a América Latina e o Caribe, em outubro de 2019, com uma reunião de dois dias que visava promover aprendizado, construir capacidade regional e definir uma agenda conjunta para fomentar um ambiente regional mais favorável à filantropia. Como co-chair do Latin American and the Caribbean Affinity Group, tive a oportunidade de contribuir para a agenda da reunião e, neste momento, sinto-me lisonjeada por descrever minhas percepções acerca dos encontros e suas principais conclusões.

O encontro foi uma jornada envolvendo a compreensão mútua entre os participantes, a intenção de analisar de forma crítica o campo da filantropia na região e a humildade de questionarmos a nós mesmos, enquanto discutíamos os desafios (e oportunidades) de desenvolver conjuntamente um ambiente regional favorável para a filantropia.

Estes três aspectos – compreensão, intenção e humildade – de forma natural se tornaram os princípios para nosso trabalho coletivo, enunciado na Declaração Coletiva da LAC Affinity Group da WINGS, que convidamos a todos a ler e compartilhar.

Iniciamos a reunião compartilhando visões e buscando tendências em comum no campo do fomento à filantropia e cultura de doação na região. O grupo identificou que articular os três setores em torno do bem comum é uma responsabilidade que as organizações de suporte, como o IDIS, empreendem com crescente dificuldade e este tema foi recorrente em nossas discussões.

No entanto, se as parcerias intersetoriais vêm sendo já há algum tempo o mecanismo mais celebrado para a promoção do desenvolvimento sustentável, por que articulá-las representa um desafio tão grande na América Latina e Caribe?

Surpreendentemente, o grupo concluiu que esse desafio não está tão comumente (como pensaríamos) relacionado à falta de recursos ou soluções, mas sim aos aspectos relacionais de se tentar reunir parceiros tão diversos. As barreiras para a construção de parcerias intersetoriais incluem a dificuldade de combinar as motivações, as linguagens e as culturas dos diversos setores; a competição entre as partes com visões diferentes; o desafio de chegar a um acordo acerca de estratégias de gestão e monitoramento; os obstáculos perenes da política e; a complexidade crescente de encontrar agendas comuns.

Segundo os participantes, o avanço das parcerias intersetoriais requer das organizações de apoio esforços conscientes para a construção de relacionamentos com novos modelos de organizações da sociedade civil, redes, alianças, coalizões, etc. Avançar também demanda que cada setor compreenda seu próprio papel e, sem julgamentos prévios, entenda os papéis dos outros setores, percebendo as diferentes perspectivas e funções como fortalecedoras das parcerias.

Sobre este assunto, o grupo expressou preocupação em relação à falta de compreensão da sociedade civil na América Latina e Caribe acerca de seu próprio papel, o que enfraquece sua representatividade e engajamento nos meios emergentes de cooperação intersetorial.

O grupo concluiu que nós, como organizações de suporte, temos um papel fundamental na simplificação e difusão da narrativa sobre os benefícios sociais de uma sociedade civil ativa e engajada, ao mesmo tempo em que fortalecemos a cultura de doação e solidariedade na região. Vale mencionar que a reunião proporcionou aos participantes ferramentas teóricas e práticas de advocacy e comunicação, que certamente contribuirão para essa missão.

Em conclusão, reconhecendo e acolhendo os diversos perfis, necessidades, interesses e experiências de seus membros, a WINGS foi capaz de promover um encontro no qual essa diversidade, ao invés de representar uma dificuldade para o desenvolvimento de um trabalho coletivo, enriqueceu e aprofundou as conversas e produziu resultados coletivos significativos. Dessa forma, o segundo encontro regional da WINGS para a América Latina e o Caribe não só atingiu seus próprios objetivos, como também serviu como um ótimo exercício de construção de relacionamentos, que teremos que continuar a praticar em níveis locais e regionais, para assim fortalecermos um ambiente favorável para a prosperidade do nosso setor. Com compreensão, intenção e humildade.

*Andrea Hanai é Gerente de Projetos no IDIS

PNUD Analisa Desigualdade Social na América Latina

Novas estimativas do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), ajustadas às dimensões da América Latina e Caribe, indicam que a desigualdade é ainda maior quando os países são comparados à realidade da região. O Relatório Regional sobre Desenvolvimento Humano para a América Latina e Caribe 2010 – Atuar sobre o futuro: romper com a transmissão intergeracional da desigualdade, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) em julho, mostra que como as políticas públicas devem atuar para quebrar o círculo de perpetuação da pobreza que ocorre de geração para geração. A íntegra da pesquisa, com 209 páginas em espanhol, pode ser acessada no site do IDIS. O material também está disponível no site do Pnud, pelo link http://www.idhalc-actuarsobreelfuturo.org/site/informe.php.

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