Vaga para Administrativo-Financeiro | Programa de Estágio 2023

Com a missão de inspirar, apoiar e ampliar o investimento social privado e seu impacto, o IDIS atua junto a empresas, famílias, institutos, fundações e organizações da sociedade civil. Desenvolvemos projetos de impacto, geramos conhecimento ao setor e oferecemos consultoria ao investidor social e às organizações que executam projetos e programas sociais para que tomem decisões estratégicas e ampliem o impacto de suas iniciativas.

Os estagiários são responsáveis por dar suporte à execução das atividades conduzidas e apoiadas pelo IDIS, garantindo cumprimento de prazos, qualidade nos produtos desenvolvidos e serviços prestados. Leia com atenção as instruções sobre o processo de seleção e os requisitos para participação.

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COMO VOCÊ ATUARÁ

  • Apoiar o monitoramento e os controles administrativos e financeiros do IDIS;
  • Apoiar na elaboração de gráficos, planilhas, documentos, apresentações, relatórios.
  • Apoiar no auxílio no relacionamento com a assessoria contábil e prestadores de serviços externos (consultores, fornecedores);
  • Atualizar/alimentar o Sistema Financeiro RM Totvs;
  • Apoiar nos processos de compras de mercadorias e serviços;
  • Apoiar a formalização de contratos junto a clientes, fornecedores, funcionários e parceiros do IDIS;
  • Auxiliar e acompanhar o processo anual de auditoria independente auxiliando na sua preparação e coleta de documentos;
  • Auxiliar na análise da documentação de validação de organizações sociais parceiras; e

Requisitos

  • Identificação com o Terceiro Setor
  • Graduação em Ciências Contábeis, Administração, Economia, Gestão Financeira, Gestão Pública, Cursos de Tecnologia ou áreas correlatas, com ao menos um ano para concluir a graduação;
  • Conhecimento de pacote Office (Excel e PowerPoint)
  • Conhecimento em pacotes de análise de dados (Power BI ou outros) será um diferencial;

BENEFÍCIOS

Bolsa estágio (R$ 1.500,00), vale-transporte, vale-alimentação, folga no dia de aniversário, credencial plena do Sesc.

LOCALIZAÇÃO

São Paulo – SP (próximo à estação Pinheiros do metrô e trem)

Vaga para Captação de recursos | Programa de Estágio 2023

Com a missão de inspirar, apoiar e ampliar o investimento social privado e seu impacto, o IDIS atua junto a empresas, famílias, institutos, fundações e organizações da sociedade civil. Desenvolvemos projetos de impacto, geramos conhecimento ao setor e oferecemos consultoria ao investidor social e às organizações que executam projetos e programas sociais para que tomem decisões estratégicas e ampliem o impacto de suas iniciativas.

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como você atuará

  • Apoiar a estratégia de mobilização de recursos do IDIS;
  • Auxiliar em mapeamentos e pesquisas;
  • Apoiar a elaboração de propostas em português e inglês;
  • Apoiar a elaboração de apresentações e relatórios em português e inglês;
  • Manter os dados atualizados e organizados no sistema de CRM;
  • Apoiar a Gerência de Prospecção de Projetos e Parcerias;
  • Participar de eventos e reuniões externas.

 

requisitos

  • Estudantes de graduação nas áreas de comunicação, ciências sociais aplicadas ou áreas correlatas, com ao menos um ano para concluir a graduação.
  • Inglês intermediário;
  • Domínio do pacote Office (Word, PowerPoint, Excel);

BENEFÍCIOS

Bolsa estágio (R$ 1.500,00), vale-transporte, vale-alimentação, folga no dia de aniversário, credencial plena do Sesc.

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Vaga para Comunicação| Programa de Estágio 2023

Com a missão de inspirar, apoiar e ampliar o investimento social privado e seu impacto, o IDIS atua junto a empresas, famílias, institutos, fundações e organizações da sociedade civil. Desenvolvemos projetos de impacto, geramos conhecimento ao setor e oferecemos consultoria ao investidor social e às organizações que executam projetos e programas sociais para que tomem decisões estratégicas e ampliem o impacto de suas iniciativas.

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A área de comunicação do IDIS, além de zelar pelos projetos institucionais, é responsável pela produção de produtos de conhecimento, como publicações, artigos, eventos e cursos. Buscamos um(a) estagiário(a) com perfil comprometido e curioso, que tenha o desejo de trabalhar em uma Organização da Sociedade Civil e contribuir para o desenvolvimento socioambiental no Brasil.

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Requisitos da vaga:

  • Cursar carreiras relacionadas à Comunicação, como Jornalismo, Relações Públicas, Publicidade e Propaganda
  • Ter ao menos 1 ano ainda para se formar
  • Domínio do pacote Office (Word, PowerPoint, Excel) e internet
  • Facilidade para trabalhar em equipe
  • Familiaridade com mídias sociais (Facebook, LinkedIn, Instagram, Youtube e Twitter)
  • Boa redação
  • Interesse no terceiro setor e temas como investimento social privado, responsabilidade social, sustentabilidade

 

Como você atuará:

  • Apoio em ações de comunicação institucional
  • Atualização do site e mídias sociais
  • Análise de métricas de redes sociais e site e produção de relatórios
  • Pesquisa de conteúdo relacionado a temáticas de interesse da organização
  • Organização e atualização de mailings
  • Desenvolvimento de apresentações em Power Point
  • Suporte na produção de eventos
  • Redação, revisão e edição de textos

BENEFÍCIOS

Bolsa estágio, vale-transporte, vale-alimentação, folga no dia de aniversário, credencial plena do Sesc.

LOCALIZAÇÃO

São Paulo – SP (próximo à estação Pinheiros do metrô e trem)

Vaga para consultoria| Programa de Estágio 2023

Com a missão de inspirar, apoiar e ampliar o investimento social privado e seu impacto, o IDIS atua junto a empresas, famílias, institutos, fundações e organizações da sociedade civil. Desenvolvemos projetos de impacto, geramos conhecimento ao setor e oferecemos consultoria ao investidor social e às organizações que executam projetos e programas sociais para que tomem decisões estratégicas e ampliem o impacto de suas iniciativas.

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Confira os requisitos para a vaga na área de projetos, para atuar no núcleo de consultoria:

REQUISITOS:

  • Ter ao menos ainda 1 ano para se formar, não importando o curso;
  • Ter interesse no terceiro setor, nos temas de investimento social privado, responsabilidade social, sustentabilidade, ESG e áreas afins
  • Domínio do pacote Office (Word, PowerPoint, Excel) e internet
  • Disponibilidade para atuação presencial no escritório do IDIS, em São Paulo

DESEJÁVEL:

  • Domínio intermediário da língua inglesa

BENEFÍCIOS

Bolsa estágio, vale-transporte, vale-alimentação, folga no dia de aniversário, credencial plena do Sesc.

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São Paulo – SP (próximo à estação Pinheiros do metrô e trem)

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Para concluir projeto de avaliação, IDIS visita unidades do Amigos do Bem

Em viagem ao sertão nordestino, Paula Fabiani, CEO do IDIS, e Felipe Insunza Groba, gerente de projetos da instituição, visitaram as unidades da ONG Amigos do Bem do Vale do Catimbau, em Buíque-PE, e de Agrovila, em Mauriti-CE.

A visita é uma etapa do processo de avaliação SROI (Social Return on Investiment) ou Retorno Social Sobre Investimento, protocolo que propõe uma análise comparativa entre o valor dos recursos investidos em um projeto ou programa e o retorno social gerado para a sociedade com essa iniciativa.

Conheça mais sobre a metodologia aqui.

Amigos do Bem é uma instituição social, que atua há 29 anos no sertão nordestino, nas frentes de saúde, educação, trabalho e renda, moradia e acesso à água potável, rompendo o ciclo de fome e de miséria que assolam a região. A OSC atende mensalmente 150 mil pessoas em Inajá e Catimbau (PE), Mauriti (CE) e São José da Tapera (AL). Para que este negócio de impacto social funcione plenamente, a OSC conta com 10.600 voluntários, distribuídos entre São Paulo e o sertão.

Desde 2020, o IDIS vem trabalhando com a organização e neste ano pôde, por fim, visitar algumas das instalações e acompanhar na prática o trabalho realizado pelos Amigos do Bem. Dentre as suas iniciativas no campo da Educação, além da adoção de escolas públicas locais estão os Centros de Transformação, que possuem uma excelente estrutura física e oferecem atividades de contraturno escolar nos âmbitos cultural, esportivo e de apoio escolar para crianças, adolescentes e jovens da região.

Outras instalações visitadas, como as fábricas de castanha de caju, doces e costura, são importantes iniciativas de geração de renda, espaços que garantem uma estabilidade financeira cada vez maior para os moradores, contribuindo também para a sustentabilidade da organização e de seus impactos. Os Amigos do Bem também são responsáveis por parte importante das estruturas de coleta e distribuição de água nos territórios, com a construção de poços, cisternas e distribuição de caixas d’ água. Mais de 1.2 bilhão de litros de água são distribuídos por ano.

O IDIS conversou com beneficiários, equipe, membros da Governança e voluntários dos Amigos do Bem. “É notável o engajamento e comprometimento de todas as partes envolvidas no projeto, fator essencial para seu sucesso”, comentou Paula Fabiani.

A prática de avaliação de impacto tem sido cada vez mais incorporada por empresas e organizações sociais. No IDIS, é nítido o crescimento da demanda pelo serviço, com XX projetos avaliados apenas neste ano. Entre os clientes, já trabalhamos com organizações como Doutores da Alegria, Gerando Falcões, Parceiros da Educação, Petrobras, Sesc, entre outras.

Época Negócios lança glossário de Inovação Social com apoio do IDIS

Recentemente, a Época NEGÓCIOS lançou uma reportagem bastante aprofundada estudando o investimento social privado e ações de inovação social no país. A partir dessa grande reportagem, o veículo produziu um ebook gratuito onde mostra como o ecossistema de investimentos sociais privados mudou, com exemplos recentes de companhias no Brasil e um glossário dos termos mais usados.

O IDIS apoiou na produção do glossário de termos que circundam a temática, sendo eles: filantropia estratégica, filantropia de risco, blended finance, negócio de impacto, inclusão produtiva; empreendedorismo social e economia regenerativa.

Confira o ebook completo da Época NEGÓCIOS clicando aqui

Filantropia estratégica

É a alocação voluntária e estratégica de recursos privados, sejam eles financeiros, em espécie, humanos, técnicos ou gerenciais, para o benefício público. Para promover a transformação social sistêmica e de longo prazo, esse investimento é feito com planejamento estratégico ancorado em dados, com indicadores pré-definidos, execução cuidadosa, monitoramento dos resultados e avaliação do seu impacto.

Fonte: IDIS

Filantropia de risco


A filantropia de risco, também chamada ‘venture philanthropy’, tem como objetivo apoiar e catalisar soluções inovadoras para problemas socioambientais, propostas por negócios de impacto em estágio inicial ou organizações da sociedade civil. Neste modelo, o investidor assume riscos ao apostar em potenciais de mudanças sistêmicas e prioriza o impacto positivo ao retorno financeiro, com financiamento personalizado, complementado com apoio estratégico, monitoramento e avaliação do impacto.

Fonte:  Investimento Social e Impacto no Brasil – Latimpacto

Blended finance


Blended Finance, ou finanças híbridas, são estruturas que combinam capital filantrópico e o capital financeiro para realização de iniciativas com impacto socioambiental. Elas podem combinar instrumentos diversos para apoio aos projetos, como por exemplo dívida, equity, garantias, seguros, programas ou fundos garantidores, grants, pagamento por resultados e assistência técnica.

Fonte: World Economic Forum e BNDES

Negócio de impacto


Negócios de impacto são empreendimentos que oferecem, por meio de seus produtos e serviços, soluções para desafios socioambientais e geram mudanças positivas ao mesmo tempo em que geram resultados financeiros positivos de forma sustentável.

Fonte: Artemisia e Anprotec/ICE


Inclusão produtiva


Inserção de pessoas em situação de vulnerabilidade econômica e social no mundo do trabalho, em áreas rurais ou urbanas, por meio do empreendedorismo ou da empregabilidade formal, de modo que sejam capazes de gerar sua própria renda de maneira digna e estável, e assim superar processos crônicos de exclusão social.

Fonte: IDIS e Sebrae

 

Empreendedorismo social


Empreendedorismo social é o conceito por trás da construção de negócios de impacto. Ou seja, o ato de empreender para promover soluções sistêmicas que responder a desafios sociais e ambientais.

Fonte: Fundação Schwab

 

Economia regenerativa


A economia regenerativa propõe o reconhecimento – de maneira calculada – do valor econômico do meio-ambiente, das pessoas e das relações entre estes elementos, para os sistemas produtivos. Com isso, é possível prever usos mais adequados, privilegiando a regeneração e evitando o consumo até a escassez.

Fontes: NetZero

“Construindo o futuro”: novo relatório da CAF America incentiva filantropia para a América Latina

A cidade de Miami é um grande centro de doações filantrópicas para instituições sociais em toda a América Latina, vindas de residentes internacionais de alta renda no local. No entanto, apesar da vontade de criar um impacto duradouro por meio da filantropia, existem diversas barreiras que acabam dificultando a efetividade das doações.

Pensando em quebrar essas barreiras para pessoas que querem realizar doações para países na América Latina, a STEP Miami junto com a CAF America lançaram o relatório “Building the Future: Advising Latin American Philanthropy from Miami”. O objetivo da publicação é de inspirar doações internacionais estratégicas e com eficiência tributária a doadores norte-americanos.

Por meio da pesquisa, a STEP Miami e a CAF America mapearam a relevância das doações internacionais entre os clientes associados à STEP Miami e, com isso, foi constatado que há uma forte oportunidade para ajudar clientes de alto poder aquisitivo, uma vez que 93% dos consultores que responderam à pesquisa relataram que fazem doações anualmente a entidades filantrópicas fora dos Estados Unidos. Desses, 68% relatam realizar doações para instituições Brasileiras.

Pessoas e famílias de alto poder aquisitivo em Miami têm um interesse claro pelas doações a entidades filantrópicas internacionais. Isto reflete a natureza internacional da base de clientes da cidade.

Confira a publicação completa clicando aqui. 

CAF America

A CAF America é uma instituição filantrópica pública e intermediária para doações internacionais e domésticas aconselhadas por doadores. Nos últimos 5 anos, a organização estima ter apoiado a doação de U$2 bilhões, aconselhadas por doadores para milhares de instituições de caridade em 120 países. Além dessas atividades de doação, oferecem uma gama completa de serviços para todos os tipos de atividades filantrópicas.

Paula Fabiani e Andrea W. comentam queda de doações de alimento em jornais da Globo

De acordo com reportagem veiculada no Jornal Nacional no dia 09 de junho, as doações de alimentos caíram 80% em todo o Brasil desde o início da pandemia. Em contrapartida, a procura pelos alimentos dobrou. Algumas entidades estão tendo que montar cestas básicas com menos produtos para seguir com as doações à população que mais necessita.

Em entrevista, Paula Fabiani, CEO do IDIS, ressalta o quanto é importante que a temática da fome seja enfrentada por todos: governo, empresas e organizações da sociedade civil. De forma que seja possível criar iniciativas que atinjam a maior parte da população mais rapidamente.

Assista à reportagem completa: 

O mesmo assunto da queda na doação de alimentos foi destaque também no Jornal Hoje. A consultora associada  do IDIS, Andrea Wolffenbüttel comentou sobre como a crise econômica e social que vem ocorrendo no país tem dificultado que esses números cresçam. “Muitas das pessoas que antes tinha esse poder aquisitivo para doar, se tornaram dependentes de doação” , destacou.

ESG, RSC e ISP: o que significa e como as siglas se relacionam

Com o mercado atento às métricas de sustentabilidade e impacto socioeconômico das empresas privadas, é importante saber o que cada conceito propõe

Com o avanço da discussão sobre ESG (em português Ambiental, Social e Governança), seus limites e abrangência começam a se definir com mais clareza. Há dúvidas sobre até onde o conceito  influencia e se relaciona com outros que já vimos por aí, como a Responsabilidade Social Corporativa (RSC) e o Investimento Social Privado (ISP), principalmente no que diz respeito às pautas relacionadas ao “S”. 

Nesse artigo, você encontrará definições e conceitos sobre as três siglas e como elas fazem parte de um conceito mais amplo que todos os outros: a Sustentabilidade.

Vamos lá?

Sustentabilidade

A Sustentabilidade é o conceito mais amplo de todos quando se trata de olhar atentamente para as relações socioeconômicas e ambientais entre os diferentes setores (poder público, sociedade civil e iniciativa privada). 

O tema é debatido desde a década de 1960, quando começou a aparecer  a “suspeita” de que a exploração do meio ambiente pela atividade industrial não estava compatível com a finitude dos recursos naturais. As questões sociais e a intervenção humana também não demoraram a entrar na pauta, afinal, a questão da dignidade do homem já era um debate antigo.

A sustentabilidade compreende as relações na sociedade e suas demandas. Indivíduos, empresas, governos e sociedade civil passam a mudar sua mentalidade, visando equilíbrio entre economia, sociedade e meio ambiente. 

Este pensamento, por sua vez, influencia mudanças de comportamento e, no caso das empresas, pautará as prioridades de Responsabilidade Social Corporativa (RSC), Investimento Social Privado (ISP) e, por fim, o tão falado ESG

Um exemplo de sustentabilidade em sentido amplo são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), uma agenda multisetorial em que todos podem contribuir para o avanço das metas e indicadores estabelecidos.

Fonte: https://www.ufmg.br/espacodoconhecimento/parcerias-e-meios-de-implementacao/

Responsabilidade Social Corporativa e o Investimento Social Privado 

Por sua vez, a RSC e o ISP são conceitos que dizem respeito principalmente às relações sociais, em especial entre a  iniciativa privada e sociedade civil. Se, por um lado, a sustentabilidade surge a partir de uma constatação acerca das relações entre a atividade humana e o ecossistema global, a RSC e o ISP surgem como reflexo de um sistema econômico globalizado, onde a iniciativa privada passa a assumir, de forma organizada e estratégica, pautas socioambientais que antes eram em sua maioria delegadas unicamente ao Estado.

A Responsabilidade Social Corporativa considera a empresa corresponsável pelo contexto socioambiental em que está inserida e sugere a atuação de forma intencional em duas dimensões:

  • Dimensão externa: mitigação dos impactos negativos gerados pela sua atividade principal. Ou seja, a empresa minimiza ou anula os efeitos colaterais externos que a sua atividade gera. Por exemplo, compensar a emissão de gases de efeito estufa de uma fábrica por meio do plantio de árvores. 

Aqui é importante notar que cada empresa possui atividades e efeitos colaterais específicos. Portanto, as ações de responsabilidade social corporativa podem variar de acordo com o tipo de empresa e atividade econômica.

  • Dimensão interna: prevê a busca da empresa por uma relação sustentável com seus colaboradores, fornecedores e clientes. Por exemplo, questões de diversidade e inclusão, saúde mental, remuneração, política de contratação de fornecedores, características do produto, entre outros.

Se por um lado a RSC diz respeito à qualidade da relação da empresa com diversos públicos, pautada por princípios de ética e transparência, o Investimento Social Privado (ISP), diz respeito, especificamente, à relação da empresa com o público ‘comunidade’. Entendemos o ISP como a alocação voluntária e estratégica de recursos privados, sejam eles financeiros, em espécie, humanos, técnicos ou gerenciais para o benefício público. Para promover a transformação social, esse investimento precisa ser feito com planejamento estratégico ancorado em dados, com indicadores pré-definidos, execução cuidadosa, monitoramento dos resultados e avaliação do seu impacto.

Por exemplo, uma empresa que oferece serviços pro bono para organizações sociais; uma empresa de tecnologia que oferece licenças gratuitas de sua plataforma para pessoas em vulnerabilidade social; ou uma empresa que realiza doações financeiras para organizações da sociedade civil implementarem projetos ou se fortalecerem institucionalmente, e assim por diante. 

Qual a relação dos conceitos com ESG? 

Pois bem, no ESG, falamos das relações entre a iniciativa privada e o mercado financeiro. Novamente, com uma economia altamente globalizada e o fluxo de informações cada vez mais dinâmico, vemos o mercado financeiro exercendo cada vez mais influência sobre as decisões corporativas. 

Isso porque investidores institucionais que são compostos por fundos de pensão, soberanos, seguradoras e grandes gestores de fundos, e que representam grande parte do capital alocado em empresas de capital aberto, apresentam uma preocupação com os riscos e geração de valor destes ativos no longo prazo, sobretudo os riscos não financeiros quando falamos de ESG.

Ao mesmo tempo, a maior rapidez de acesso às informações faz com que consumidores e sociedade tomem conhecimento cada vez mais rápido sobre o comportamento das marcas que consomem. Esse é o ponto de virada: o consumidor passa a se atentar às ações socioambientais das empresas antes de consumir. 

E é neste contexto que o posicionamento e as ações socioambientais e de governança das empresas passam a entrar na conta de risco e oportunidade dos investidores.

A agenda  ESG aproxima o  mercado financeiro ao debate sobre  sustentabilidade. Ao mesmo tempo, passa a considerar em suas decisões os riscos que estas pautas podem representar ao valor e à perenidade das empresas.  

Esse movimento faz com que investidores demandem informações precisas e mensuráveis sobre como a marca se posiciona com relação a temas emergentes nos tópicos ambientais, sociais e de governança.

O que é analisado pelos investimentos ESG 

Por se tratar da perspectiva do mercado financeiro sobre questões de sustentabilidade empresarial, o objetivo principal segue sendo a geração de valor. No entanto, os acionistas e financiadores consideram os aspectos não financeiros (como as métricas ESG) como um fator importante na tomada de decisão de investimentos. 

Sendo assim, para que o investimento considere os aspectos ESG, existem dois principais requisitos que a empresa deve cumprir: 

  • Transparência na mensuração de desempenho dos eixos ESG; 
  • Materialidade

Ou seja, todos os dados precisam ser divulgados de acordo com padrões internacionais de transparência empresarial (existem vários, como o GRI, SASB, TCFD, CDSB). Pelo fato destes padrões de relatórios ainda não estarem totalmente consolidados no mercado, atualmente cada empresa escolhe o sistema que mais faz sentido para sua atividade. No Brasil, o sistema mais adotado atualmente é o GRI

Já para a materialidade, é necessário que a avaliação seja bastante fiel ao que ocorre na realidade. É comum que empresas de grande porte contratem agentes externos (as auditorias) justamente para comprovar que determinadas mensurações são reais – ou materiais. E aqui, vale a mesma ideia explicada em RSC, no sentido de cada empresa possuir uma atividade específica e, por sua vez, externalidades (efeitos colaterais) específicas.

Portanto, cada empresa possui questões de materialidade próprias, para medir de fato o que importa considerando sua atividade principal. Por exemplo, uma empresa de mineração priorizará aspectos ambientais em detrimento de questões de inclusão digital, algo que se aplicaria melhor para empresas de tecnologia e mídia social. 

De forma simplificada, o ESG de maneira geral se trata de analisar os riscos não financeiros e geração de valor no longo prazo como a mensuração das práticas de Responsabilidade Social Corporativa e Investimento Social Privado de uma empresa.

Diferença conceitual entre ESG, RSC, ISP e Sustentabilidade

De acordo com as definições apontadas, há diferentes patamares de influência: de forma global, a maior consciência acerca dos temas socioambientais são representados pela Sustentabilidade. Na iniciativa privada, a RSC e o ISP (cada um com suas especificidades) representam a forma como cada empresa endereça os temas socioambientais da sustentabilidade. E o ESG, seria o olhar do mercado financeiro para a forma como os temas socioambientais são encarados pelas empresas.

Para facilitar, preparamos um resumo para compreensão: 

  • Sustentabilidade: em seu sentido amplo, a sustentabilidade significa o desenvolvimento da sociedade, economia e meio ambiente visando atender às necessidades do presente, ao mesmo tempo que não compromete a capacidade das próximas gerações de suprir as próprias necessidades. Trata-se de uma premissa que implica  na tomada de decisão de organizações (empresas, setor público e terceiro setor) e indivíduos.
  • Responsabilidade Social Corporativa: diz respeito aos processos de gestão empresarial, pautados por princípios de ética e transparência, de tal maneira que a torna corresponsável pelo contexto socioambiental em que está inserida.
  • Investimento Social Privado: é a alocação voluntária e estratégica de recursos privados, sejam eles financeiros, em espécie, humanos, técnicos ou gerenciais, para o benefício público. Em outras palavras, pode ser definido de maneira simplificada como: “filantropia com estratégia”.
  • ESG: entendimento pelo mercado financeiro que aspectos não financeiros representam riscos/oportunidades para geração de valor das empresas. Trata-se da avaliação e publicação (report) do desempenho das práticas de sustentabilidade empresarial nos eixos: Governança, Social e Meio Ambiente.

Conheça as frentes de atuação do IDIS.

Não é mais possível ignorar os impactos causados

O ESG surge em um momento em que é inevitável, seja pelo contexto histórico, seja pela amplitude de sua influência, que o tema da Sustentabilidade siga ignorado pelo  mercado financeiro. 

Assim, surgem diversos desafios, e um deles é como traduzir aos investidores as informações adequadas sobre  as práticas de RSC e ISP das empresas. Se o impacto social e sua mensuração tornam-se importantes ao mercado financeiro por meio do ESG, as práticas e o histórico do ISP e da RSC são essenciais para apoiá-lo neste desafio.

Quer saber mais sobre o tema? Acesse a Nota técnica “ESG e o S brasileiro”. 

O que são ODS e o que eles têm a ver com impacto social

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ou ODS, essa sigla soa conhecida para você? Saberia explicar o que ela representa para o mundo e para a sociedade? Pois bem, vamos lá: em 2015, a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), composta por 193 Estados-membros da ONU definiu metas mundiais para que ‘ninguém no mundo fosse deixado para trás’. 

Partindo de quatro principais dimensões: social, ambiental, econômica e institucional, os ODS defendem que é necessário levar o mundo a um caminho sustentável com medidas transformadoras. Assim, foram definidos  17 objetivos e 169 metas globais interconectadas, a serem atingidos até 2030 – a , como ficou conhecida, “Agenda 2030”.   

Na Agenda estão previstas ações nas áreas de erradicação da pobreza, segurança alimentar, agricultura, saúde, educação, igualdade de gênero, redução das desigualdades, e tantas outras temáticas. Há questões que dependem da ação de  governos  e grandes empresas globais, mas há recomendações também mais específicas, com um olhar voltado  às comunidades e especificidades de cada local do mundo.

Como surgiram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável?

Para responder a essa questão, precisamos primeiramente contextualizar a Agenda 2030. Ela  surgiu de um processo global participativo de mais de dois anos, iniciado em 2013 e coordenado pela ONU, no qual governos, sociedade civil, iniciativa privada e instituições de pesquisa contribuíram através da Plataforma ‘My World’. 

Sua implementação teve início em janeiro de 2016, dando continuidade à Agenda de Desenvolvimento do Milênio (2000-2015). Para atingir objetivos tão ousados, o plano de ação foi pensado em quatro frentes principais:

  • A primeira foi a construção de uma declaração, onde foi documentada a visão, os princípios e os compromissos da Agenda 2030. De acordo com a própria ONU “a visão é ambiciosa e transformadora, porque prevê um mundo livre dos problemas atuais, como pobreza, miséria, fome, doença, violência, desigualdades, desemprego, degradação ambiental, esgotamento dos recursos naturais, entre outros.”
  • O segundo passo, foi a criação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Esses 17, citados anteriormente neste artigo, abrangendo as dimensões ambiental, econômica e social do desenvolvimento sustentável.

Até aqui, parece semelhante ao que se espera de ações de impacto social positivo por parte dos diferentes atores sociais, não? Seguindo:

O terceiro passo do plano foca no acompanhamento e avaliação da Agenda 2030, “fundamentais para a sua implementação e deverão ser feitos sistematicamente nos níveis global, regional e nacional”, de acordo com o documento. Por fim, o quarto ponto prevê a implementação desses objetivos e, para tal, definiu metas que tratam dos meios necessários para a execução da Agenda. Coincidentemente, são os mesmos previstos no Objetivo 17, dos ODS. 

Saiba mais: como medir o impacto de projetos socioambientais?

Quais são os ODS?

De acordo com a descrição da ONU sobre o objetivo principal de cada ODS, ele são: 

01 – Erradicação da pobreza: acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares.

02 – Fome zero e agricultura sustentável: acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável.

03 – Saúde e bem-estar: assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades.

04 – Educação de qualidade: assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.

05 – Igualdade de gênero: alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas.

06 – Água limpa e saneamento: garantir disponibilidade e manejo sustentável da água e saneamento para todos.

07 – Energia limpa e acessível: garantir acesso à energia barata, confiável, sustentável e renovável para todos.

08 – Trabalho decente e crescimento econômico: promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo, e trabalho decente para todos.

09 – Indústria, inovação e infraestrutura: construir infraestrutura resiliente, promover a industrialização inclusiva e sustentável, e fomentar a inovação.

10 – Redução das desigualdades: reduzir as desigualdades dentro dos países e entre eles.

11 – Cidades e comunidades sustentáveis: tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.

12 – Consumo e produção responsáveis: assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis.

13 – Ação contra a mudança global do clima: tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos.

14 – Vida na água: conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares, e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável.

15 – Vida terrestre: proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da Terra e deter a perda da biodiversidade.

16 – Paz, justiça e instituições eficazes: promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis.

17 – Parcerias e meios de implementação: fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.

Acessando o site dos objetivos de desenvolvimento no Brasil, você ainda consegue acompanhar o andamento do Brasil em cada um desses objetivos. No objetivo 14, por exemplo, que diz respeito à vida na água, o Brasil de 10 indicadores, conseguiu produzir até o momento apenas 1. 

ODS e Impacto social, como se relacionam?

Antes de mais nada, é importante conceituar o que estamos considerando como “impacto social”. Do latim impactus, o impacto é o efeito diretamente atribuível a uma ação ou a consequência de determinado esforço para atingir um fim estabelecido. 

No contexto de programas, projetos ou investimentos sociais, o impacto é simplesmente o conjunto de mudanças produzidas pela intervenção. Estas mudanças podem ser intencionais e não intencionais, positivas e negativas, diretas e indiretas.

Sendo assim, é importante compreender que o impacto pode ser mais amplo do que os objetivos declarados de uma intervenção ou negócio, o que afeta seu processo de medição e valoração.

O que ocorre é que impactos sociais são muitas vezes subjetivos e difíceis de se mensurar. Essa complexidade representa um grande desafio para projetos e negócios sociais, que, na sua maioria, acabam não tendo seus impactos – suas intervenções, ou mudanças –  avaliados.

Aqui entram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Oficialmente, os ODS não são uma métrica de avaliação e mensuração de impacto social, entretanto eles ajudam empresas, projetos e organizações a criarem um norte para as ações, considerando esses objetivos e indicadores. 

No fim do dia, os ODS e o impacto social estão buscando um mesmo fim que é mudar positivamente, de certa forma, a realidade de uma sociedade, melhorando seu dia a dia, vida, sustentabilidade e economia.

Quer aprofundar-se ainda mais no assunto? Leia “Filantropia e os ODS”, Ebook produzido pela Rockfeller Philanthropy Advisors

Monitoramento e Avaliação: ferramenta para mensurar e avaliar a efetividade de projetos sociais. Conheça os principais cases de sucesso. 

Sociedade à mesa: é hora de decisões compartilhadas na filantropia corporativa

Por Paula Fabiani, CEO do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social Roberta Faria, Cofundadora e Co-CEO da Editora MOL e Presidente do Instituto MOL

Já faz algum tempo que as reuniões decisórias das empresas passaram a ser frequentadas por um público diferente dos habituais executivos. Cada vez mais, outros stakeholders (partes interessadas) são convidados a opinar sobre produtos, operações e até mesmo estratégias e posicionamentos. Mas há uma área que permanece bastante fechada e é, justamente, aquela relacionada ao investimento socioambiental corporativo.

Talvez por ser uma área relativamente nova, que começou a se popularizar nas últimas
décadas do século XX sob nomes como ‘responsabilidade social corporativa’, ‘filantropia corporativa’ e ‘investimento socioambiental privado’, ela continue definindo suas estratégias dentro de um círculo fechado, no qual poucos atores externos têm voz, quando muito, uma consultoria especializada.

Soa estranho porque o investimento socioambiental é especificamente o braço de
relacionamento da empresa com a sociedade, para além do âmbito comercial. Portanto, onde diferentes representantes da sociedade deveriam ter maior potencial de contribuição.

Uma pesquisa recentemente lançada nos Estados Unidos mostra que empregados e consumidores têm a expectativa de contribuir nas decisões de investimento socioambiental corporativo. Oitenta por cento dos colaboradores entrevistados afirmaram que gostariam de opinar, se fossem convidados. E 78% dos consumidores deram a mesma resposta. Setenta e oito por centos dos colaboradores disseram que preferem trabalhar em uma empresa que seja transparente em relação a seus critérios de decisão sobre a filantropia corporativa, e 73% dos consumidores se declararam mais dispostos a comprar de empresas que peçam sua opinião sobre as práticas de doação corporativa.

Ao serem mais transparentes a respeito de suas estratégias de investimento socioambiental e ao consultar seus stakeholders sobre as decisões a serem tomadas nesse campo, as empresas se mostrariam mais abertas a atender às necessidades da sociedade acima do interesse comercial próprio.

Transparência é também uma demanda crescente de investidores, hoje cada vez mais atentos à Agenda ESG (do inglês, Ambiental, Social e Governança). Empresas devem ser claras em relação ao que fazem, ter indicadores e seguir protocolos que permitam uma leitura objetiva por seus públicos. Invariavelmente, a política de investimento socioambiental corporativo é um dos pilares da agenda social.

A pandemia nos mostrou claramente o quão relevantes foram as doações realizadas por empresas naquele momento. E se quisermos superar as dificuldades sociais, ambientais e econômicas enfrentadas pelo Brasil atualmente, as companhias terão de continuar a contribuir da mesma maneira, isto é, visando ao bem público de uma forma direta, clara e confiando na capacidade das organizações da sociedade civil de realizarem seu trabalho.

Por sua vez, essas organizações conseguirão focar muito mais em suas atividades, atuando de forma eficiente e aumentando o impacto positivo de seus projetos, contando com o apoio recorrente de seus financiadores. Por isso, a relevância da transparência das empresas em relação a suas práticas de investimento socioambiental e de seu compromisso com a regularidade e com os valores transferidos.

Analisando os dados apresentados pela pesquisa BISC (Benchmark do Investimento Social Corporativo) nos últimos dez anos, percebemos que o volume total aplicado por empresas em suas ações sociais e ambientais oscila muito, sendo que seu pico, antes da pandemia, havia sido em 2012. De lá, até a chegada da Covid-19, organizações sociais sofreram com sucessivos cortes no investimento social corporativo.

Em 2020, houve um salto nas doações realizadas por empresas, que saíram de R$2,3 bilhões, em 2019, para R$ 5 bilhões no ano seguinte. O que aconteceu em 2021, ainda não sabemos, mas depoimentos das organizações da sociedade civil confirmam uma queda acentuada nos valores.

Para criarmos uma sociedade civil forte e atuante, que contribua para a solução dos
problemas socioambientais e garanta um ambiente democrático para todos, inclusive para a iniciativa privada, todos devem assumir sua responsabilidade no apoio às organizações do Terceiro Setor, com contribuições transparentes e frequentes. Elas serão parceiras e protagonistas na definição de estratégias de investimento, contribuindo para ações cada vez mais ágeis e efetivas.

Artigo publicado na Folha de São Paulo no dia 13 de julho

Mais da metade dos voluntários ativos no Brasil desconhecem a Lei do Serviço Voluntário

Pesquisa indica desconhecimento tanto sobre a lei que rege serviço voluntário como sobre documentos obrigatórios para realização da atividade

“Considera-se serviço voluntário, para os fins de lei, a atividade não remunerada prestada por pessoa física a entidade pública de qualquer natureza ou a instituição privada de fins não lucrativos que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência à pessoa.” 

Isso é o que diz a Lei Nº 9.608, de 18 de fevereiro de 1998, que regularizou o serviço voluntário no Brasil. Entre outras coisas, ela prevê a formalização do vínculo entre organizações e voluntários, que deveriam assinar um “termo de adesão ao serviço voluntário” antes de iniciar uma atividade. 

Prestes a completar 25 anos de sua aprovação, a Lei do Serviço Voluntário ainda é pouco conhecida pelos brasileiros, como mostra a terceira edição da Pesquisa Voluntariado no Brasil. Em duas décadas, o número de pessoas que declaram ter feito alguma atividade voluntária ao longo da vida passou de 18% em 2001 para 56% em 2021.

Entretanto, apesar do crescimento de pessoas praticando trabalho voluntário, apenas 45% dos voluntários ativos conhecem a Lei que regulariza a atividade. O número é ainda mais baixo quando questionados sobre o  Termo de Adesão ao Serviço Voluntário: apenas 18% dos voluntários ativos dizem ter assinado. 

Quando consideramos os voluntários mobilizados por Programas de Voluntariado Empresarial, ou seja, aqueles que participam de programas promovidos pelas empresas onde trabalham, o nível de formalização é um pouco maior – 34% assinaram o termo antes de passar a realizar atividades. Melhor que no cenário nacional, mas ainda longe do ideal. 

“A formalização do vínculo é importante para as organizações e para os voluntários. O desconhecimento sobre a legislação do voluntariado no Brasil aponta o potencial de ação para organizações que fomentam a atividade” comenta Kelly Alves do Carmo, consultora da pesquisa 2021. 

Sobre a Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, no presente e para as gerações futuras. 

Em sua terceira edição, a pesquisa traz um retrato brasileiro do tema, indica tendências e analisa as mudanças das últimas duas décadas. Foi elaborada e coordenada por Silvia Naccache, com apoio dos consultores Kelly Alves do Carmo e Felipe Pimenta de Souza. IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – e Datafolha assinam a realização.

#Conhecimento: ESG e o Investimento Social Privado

Confira os nossos conteúdos relacionados à ESG e como ele se relaciona com o Investimento Social Privado.

Como promotores da filantropia estratégica, estamos certos de que ao conectar essas duas dimensões contribuímos para transformar realidades e reduzir as desigualdades no Brasil.

1º Seminário esg e o investimento social privado: os desafios da agenda social

 

Vaga de estágio em projetos no IDIS

Buscamos pessoas para atuar em na área de Consultoria, com foco especial em projetos de Gestão de Doações que esteja cursando Administração de empresas, Contabilidade, Ciências Sociais, Direito, Gestão de políticas públicas, Economia, Relações Internacionais, Engenharia de produção ou áreas relacionadas.

Aqui terá a oportunidade de conhecer a fundo o cenário do investimento social privado brasileiro, contribuir para o direcionamento mais adequado de doações realizadas por empresas, famílias, organizações da sociedade civil (OSCs), organismos internacionais e poder público, contribuindo para diferentes causas e para o impacto social positivo das doações gerenciadas pelo IDIS.

Essas vagas são preferenciais para pessoas negras.

 

 Inscreva-se para esta oportunidade no 99Jobs

RESPONSABILIDADES: 

 

    • Realizar pesquisas de conteúdo e analisar dados para apoiar projetos de consultoria;
      Montar apresentações em PPT;
      Envolver-se na formulação e gestão de Editais;

 

    • Apoiar no controle, monitoramento e avaliação de prestação de contas financeiras e técnicas ligadas às doações e editais;

 

    • Apoiar a formalização de minutas contratuais;

 

    • Apoiar a validação e contato com organizações sociais;

 

    • Contribuir para a avaliação técnica de OSCs para clientes estrangeiros

 

    • Outras atividades relacionadas.

 

Requisitos:

    • Estar cursando, no mínimo, o 2° ano de faculdade de administração de empresas, gestão de políticas públicas, economia, contabilidade, engenharia de produção ou áreas relacionadas;

 

    • Ter experiência ou interesse no terceiro setor, nos temas de investimento social privado, responsabilidade social, sustentabilidade, ESG ou áreas afins;

 

    • Domínio do pacote Office (Word, PowerPoint, Excel) e internet;

 

    • Facilidade para trabalhar em equipe;

 

    • Boa redação;

 

  • Domínio intermediário da língua inglesa.

 

Desejável:

  • Noções avançadas de PowerPoint e Excel
  • Domínio avançado da língua inglesa

 

BENEFÍCIOS

Bolsa estágio, vale-transporte e vale-alimentação, Day off de aniversário, Credencial Plena do Sesc.

 

LOCALIZAÇÃO

São Paulo – SP (próximo à estação Pinheiros do metrô e trem)

 

INSCRIÇÕES

Essa oportunidade está disponível em nossa página da 99Jobs, inscreva-se até o dia 11 de julho de 2022.

 

SOBRE NÓS

Somos o IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, uma organização da sociedade civil de interesse público (OSCIP) fundada em 1999 e pioneira no apoio técnico ao investidor social no Brasil. Com a missão de inspirar, apoiar e ampliar o investimento social privado e seu impacto, trabalhamos junto a indivíduos, famílias, empresas, fundações e institutos corporativos e familiares, assim como organizações da sociedade civil em ações que transformam realidades e contribuem para a redução das desigualdades sociais no país.

Nossa atuação baseia-se no tripé geração de conhecimentoconsultoria e realização de projetos de impacto, que contribuem para o fortalecimento do ecossistema da filantropia estratégica e da cultura de doação. Valorizamos a atuação em parceria e a cocriação, acreditando no poder das conexões, do aprendizado conjunto, da diversidade e da pluralidade de pontos de vista.

 

 

Redes e movimentos de voluntariado Brasil e Mundo

Lorenço Vieira, Voluntário! A prática do voluntariado me fortaleceu, me transformou, me levou para outras realidades, me deu a oportunidade de praticar a minha cidadania e de ser solidário e fraterno.

Em 2001, foi celebrado o Ano Internacional do Voluntário, instituído pela ONU – Organização das Nações Unidas como uma forma de divulgar e estimular o voluntariado em todo o mundo, e ainda mostrar que ser voluntário é uma ferramenta de transformação social. Foi nesse ano, que aos 16 anos, eu percebi que poderia participar e atuar como voluntário, em projetos junto a escola onde estudava ou na minha comunidade. Sempre fui comunicativo e gostei de estar com pessoas. Por meio do meu trabalho voluntário, veio a inspiração para poucos anos depois eu escolher a profissão de comunicólogo e ainda de atuar na área de rádio e TV. 

Dez anos depois, celebramos a Década do Voluntariado, e mais uma vez, uma rede de organizações e projetos do mundo inteiro se reuniram para divulgar suas práticas e ações voluntárias. Nesta ocasião, eu atuava como palestrante-voluntário em um Centro de Voluntariado, fomentando e orientando sobre os primeiros passos para a escolha de uma atividade voluntária. 

No ano de 2021, marcado pela pandemia, uma rede potente e dedicada de ajuda e apoio marca os meus 20 anos de atuação voluntária! Hoje, além das iniciativas pessoais e individuais, atuo junto ao Programa de Voluntariado Corporativo organizado na empresa de telecomunicação onde trabalho! 

A prática do voluntariado me fortaleceu, me transformou, me levou para outras realidades, me deu a oportunidade de praticar a minha cidadania e de ser solidário e fraterno. 

Se por um lado em 2021 nós estávamos isolados, seguimos solidários e atuando nas práticas voluntárias:  costurando e distribuindo máscaras, gravando vídeos de histórias para crianças ou músicas para jovens, mobilizando recursos para pessoas em vulnerabilidades, apoiando e mentorando alunos para não desistirem dos estudos, organizando campanhas para atender os mais vulneráveis, realizando visitas online em abrigos e asilos. Estas e muitas outras ações aconteceram em todas as partes do mundo, reforçando que para o bem não existem barreiras geográficas ou culturais. Voluntários usaram as mídias sociais ou aplicativos de comunicação como ferramenta de mobilização, engajamento e divulgação de suas ações.

Nas últimas duas décadas, os movimentos e redes promotoras do voluntariado facilitaram o encontro de voluntários com causas e projetos, promovendo aprendizados e trocas de experiências ao redor de todo o mundo.

Voluntários tiveram um papel importantíssimo, em 2021, ao mostrar, que apesar de todos os desafios, encontram forma e energia para realizar! As organizações e os movimentos de promoção do voluntariado têm e terão um papel cada vez mais relevante para educar e fortalecer a sociedade para que as ações sejam contínuas, relevantes e realizadas com qualidade e dedicação.

 Promover o voluntariado é como lançar uma pedra no meio de um lago, a onda no começo é pequena, quase imperceptível, mas ela vai se espalhando, com o tempo e ocupa toda superfície do lago!

Inevitavelmente, enfrentaremos novas crises e precisaremos ser cada vez mais perseverantes e criativos, e praticar mais e mais atividades voluntárias!” 

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

A dimensão ética da cidadania e do voluntariado

Por Reinaldo Bulgarelli, educador, consultor, voluntário, professor, palestrante, autor ou coautor de livros em suas áreas de atuação: direitos humanos, sustentabilidade, responsabilidade social, voluntariado, investimento social, diversidade, equidade e inclusão.

Saber quais são as motivações e causas apontadas pelas próprias pessoas voluntárias é um encontro com a diversidade que nos caracteriza como pessoas e a diversidade de motivações e causas que abraçamos. Mas, e o propósito? É também tão plural quanto as motivações e causas? Neste ponto, precisamos refletir sobre o que é voluntariado.

Utilizo como conceito de voluntariado a seguinte ideia: “A pessoa voluntária transcende sua condição cidadã. Em gesto de total liberdade, por vontade própria, por entender que é fundamental para si e para a comunidade, envolve-se numa ação solidária e transformadora. Para alcançar os objetivos a que se propõe, a pessoa voluntária disponibiliza o seu tempo, seus conhecimentos, seus valores, suas habilidades, sua energia, seus recursos financeiros, para pessoas, situações ou causas que tenham total sintonia com o projeto de humanidade expresso na Declaração dos Direitos Humanos e suas atualizações.”

Escrevi isso no início dos anos 2000, quando estávamos realizando um grande esforço para ampliar a cultura de voluntariado no País. Entendo que conseguimos, apesar do muito que falta para sermos mais voluntários, termos mais ações práticas de voluntariado, mais organizações acolhedoras de voluntários e mais qualidade na intervenção na realidade. É outro tema para o qual muitas pessoas se dedicam.

Um divisor de águas no mundo entre antigas práticas de voluntariado e as atuais, no meu entender, foi a combinação planetária que fizemos, como humanidade, no final dos anos 1990. A ONU – Organização das Nações Unidas nos reuniu, pessoas, organizações e estados, para criarmos e colocarmos em prática as Metas do Milênio. Hoje temos os ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, pensando na construção de uma realidade mais digna para todas as pessoas, sem deixar ninguém para trás, até 2030. Nossas motivações pessoais para o voluntariado, que passam por questões religiosas, políticas, visões de mundo das mais variadas, à esquerda ou à direita, encontram nos ODS algo em comum a ser compartilhado.

Ser voluntário, assim, é agir para além do que é esperado de nossa cidadania, da obrigação que temos no dia a dia, em tudo que somos e fazemos, para que esse projeto de mundo, que tem por base direitos humanos, se concretize nos atuais ODS. A direção é uma só e visa garantir que a vida possa se expressar com dignidade num mundo sustentável. A dimensão ética da cidadania e do voluntariado está dada.

Cidadania é a obrigação de perceber-se parte numa rede de relações interdependentes, praticando, beneficiando-se e ampliando direitos que tornam a coletividade melhor. O voluntariado deve ser também prática de cidadania, apesar de ir além do esperado, por olhar o todo, por fazer a parte, mas de olho no mundo melhor que cada gesto está construindo. Se estamos numa rede de relações interdependentes, voluntariado não age para ’tapar buraco‘, fazer porque outros não fazem, fazer para que outros não façam, tudo isso enquanto o mundo melhor não surge de algum milagre. O voluntariado, quando atua na direção do desenvolvimento sustentável, já é o mundo melhor acontecendo!

Na medida em que as pessoas conseguem se articular em torno de uma agenda comum, algo de diferente já está acontecendo. Antes mesmo de transformar a realidade, as pessoas se transformam ao se unirem em torno do bem comum e na colaboração, sabendo que suas ações estão interligadas e compondo um propósito compartilhado de impactar positivamente o mundo. Transformar transformando-se é o que acontece já no primeiro passo de alguém na direção do mundo, para além do próprio umbigo, do projeto de vida individual, do exercício obrigatório da cidadania em todas as relações e dimensões da vida.

Voluntários são, antes de tudo, pessoas que querem resolver as coisas, tirar problemas do caminho para deixar a vida fluir. E a vida é plural e compartilhada. Raramente, vamos encontrar um voluntariado solitário e silencioso. Mesmo quando individual, não é isolado, desarticulado e a comunicação, não o silêncio, é que gera o senso de pertencimento a algo maior. Se a pobreza e a desigualdade chamam mais a atenção de muitas pessoas voluntárias, motivos não faltam para isso, mas a dimensão ética presente nesta visão de trabalhar pelo desenvolvimento sustentável gera a compreensão de que tudo faz sentido. Atuar no campo ambiental, educacional, da ciência, da saúde, das artes e cultura, com gente pobre ou gente rica, é tudo parte do mesmo esforço para tornar o mundo mais sustentável para todas as pessoas.

Quando um valor pessoal não dialoga com a ideia de um mundo melhor para TODAS as pessoas, contrariando o que está no artigo primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos – Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos – há um problema para essa pessoa que quer ser voluntária. Não há voluntariado que não se comprometa com essa combinação básica, estruturante, que fizemos em 1948. Pode ser qualquer tipo de ação, mas não será voluntariado se não respeitar a vida e, assim, todas as pessoas em sua diversidade tão rica e enriquecedora. 

Se a motivação inicial não levava em consideração um propósito tão maior do que o simples gesto de dar o primeiro passo em direção ao mundo, com certeza o que fará ficar, fazer e, mais que isso, dizer-se uma pessoa voluntária. Veja que as pessoas dizem que SÃO voluntárias e não que fazem voluntariado. É a pluralidade de motivações e causas em torno do propósito maior de promover o desenvolvimento sustentável que torna o voluntariado uma prática tão bonita e essencial para o mundo.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Os grandes desafios do século XXI para o voluntariado

Por Kelly Alves do Carmo, cientista Social, mestra em Gestão para a Sustentabilidade, possui MBA em Recursos Humanos e é especialista em responsabilidade social, projetos sociais e Terceiro Setor.

O conceito que utilizamos para definir trabalho voluntário na Pesquisa Voluntariado no Brasil é de influência mais humanista e atual: ’Serviço ou atividade voluntária é doar tempo e trabalho de maneira espontânea e sem remuneração para a comunidade, para projetos sociais, para programas assistenciais, para causas, para eventos e situações emergenciais. Pode ser individual, organizada por grupos ou por empresas”. Porém, no Brasil o voluntariado nasce como uma forma de lidar com os primeiros desafios sociais, que vão surgindo com a convivência entre os nativos da terra, os europeus e, posteriormente, com os negros escravizados.

De fato, o voluntariado brasileiro expressa o impacto da Igreja Católica no processo de colonização, na benemerência cristã, na imposição de dogmas religiosos aos povos originários e também nos primeiros serviços de saúde neste território. Era uma ação para lidar com a dor imediata dos primeiros conflitos e desigualdades sociais nessa relação. E, conforme o Brasil vai se desenvolvendo, as desigualdades sociais vão se ampliando, bem como as ações voluntárias e, assim, mantém ao longo da sua história os resquícios da influência cristã, de forte teor católico.

Depois de cinco séculos, a Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 traz um número surpreendente: 54 milhões de brasileiros são voluntários, 20 milhões de forma regular. Aquelas ’obras‘ que surgiram como a ação de alguém que estava em uma situação de magnanimidade cristã ou generosidade gratuita, com o objetivo de abrandar a fome, diminuir as desigualdades de acessos à saúde ou educação, evoluiu para a organização de grupos, movimentos sociais, se fortalecendo e construindo programas de voluntariado cheios de motivações, causas e propósitos. A pesquisa aponta que mais de 97% das pessoas acreditam que o trabalho voluntário é um exercício de cidadania e um processo transformador da realidade.

A pesquisa elucida que 74% dos brasileiros que praticam o voluntariado apontam que a principal motivação de sua atuação é a solidariedade e 88% afirmam que o voluntariado contribui para a cultura de paz e colaboração para o bem comum; 35% dizem que a sensação de ajudar ao próximo e 25% a percepção de estar fazendo algo relevante são os principais causadores de satisfação do trabalhador voluntário.

Ser voluntário é reconhecer que há um problema, um desafio e, com seu tempo, com seu trabalho e conhecimento, ser parte dessa solução. É acreditar que sua atuação faz a diferença e isso gera e retroalimenta a motivação, a paixão por causas e propósito. O engajamento é o reconhecimento que você está conectado a algo ou alguma coisa. Essa conexão pode ser racional ou emocional, pode ser individual ou coletiva, pode ser entre pessoas, uma causa comum ou institucional, mas o mais importante é que ela deve gerar valor compartilhado e resultados positivos. Por vezes, o voluntário nem tem tanta consciência deste valor na sua atuação, por vezes é uma bandeira de luta, de ativismo, militância que realmente motiva o seu viver.

O grande desafio do século XXI, com tantas pautas, tantos problemas e desigualdades, é gerar engajamento nos programas de voluntariado, bem como a permanência dos voluntários. Umas das principais dicas dos especialistas é estimular o ativismo, demonstrar o quanto a sua ação e o seu trabalho voluntário impactam naquela realidade e, consequentemente, na vida de outras pessoas. Um ponto de atenção apontado pela pesquisa é a necessidade de motivar as pessoas, demonstrar que elas fazem a diferença e apoiar a continuidade das ações.

Em 2021, na sua terceira edição, a pesquisa marca que as principais causas dos voluntários brasileiros são: público em geral (36%), famílias e comunidade (35%), crianças, adolescentes e pessoas em situação de rua (25%), um aumento significativo para as causas da pessoa com deficiência (9%), causas dos animais (9%) e meio ambiente (6%). 

Muitos programas romantizam a ação do voluntário e os impactos do voluntariado, porém há um chamamento da sociedade para promover dinâmicas de escuta, analisar a realidade que a pessoa e/ou a instituição estão inseridas, ouvir as expectativas da comunidade e construir coletivamente esses programas e projetos. Impactar positivamente no local que está inserido, mas fazendo correlações com o macro, que pode ser a cidade, o estado, o país ou o mundo. Um dos exemplos disso são os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, demonstrando de forma clara e objetiva quais são os maiores problemas do planeta e que todos nós somos responsáveis e devemos contribuir com a solução.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Voluntariado Empresarial

Por Rafael Medeiros, graduado em Relações Internacionais e mestre em Filosofia. Trabalhou com voluntariado e ativismo entre 2013 e 2021. Atualmente é Head de Pessoas & Cultura na Rede Brasil do Pacto Global.

Tornar-se voluntário é uma decisão pessoal importante. Ela é motivada pelo desejo de apoiar causas e cuidar de outras pessoas, nas mais variadas situações. Esse desejo surge quando uma pessoa se sente intimamente ligada à causa de alguém ou de uma instituição. E, assim, se disponibiliza para contribuir com seu tempo e talento. Historicamente, foi por meio da filantropia que o voluntariado surgiu. No Brasil, seria impossível contar a história das Santas Casas sem falar do papel do voluntariado no apoio ao cuidado das pessoas vulneráveis. 

Nos anos 2000, o voluntariado ganhou novas modalidades. Tornou-se parte da estratégia de instituições globais, governos e empresas privadas. A necessidade de um planeta sustentável produziu um novo contexto cultural, econômico e político. O voluntariado deu um passo à frente: para além da filantropia, passou a ser considerado um meio de implementação da sustentabilidade no mundo. 

Em 2015, países e empresas se comprometeram com os ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Eles formam a Agenda 2030, uma política global baseada no voluntarismo de chefes de Estado e de governo, juntamente com empresas e ONGs, para realizar impacto social mensurável em diversas áreas: desde a redução da pobreza, equidade de gênero, passando pelas questões climáticas e de anticorrupção. No componente de pessoas dessa política global, o voluntariado é altamente estratégico.

O desafio de ser um meio de implementação da Agenda 2030 é grande. Traz aos programas de voluntariado a necessidade de estarem alinhados com o maior valor social possível, contribuindo com os ODS de forma tática. Em outras palavras: significa direcionar o voluntariado para impactar as metas certas, de maior impacto.

As empresas têm um papel fundamental nesse desafio. A pandemia da covid-19 pressionou os números da pobreza, da desigualdade e da injustiça no mundo. E também mostrou a fragilidade de sistemas políticos para lidar, ao mesmo tempo, com a vulnerabilidade da vida e a manutenção de direitos democráticos. No Brasil, as empresas recuperaram a força da filantropia no auge da pandemia, realizando doações em larga escala e colaborando com ONGs localmente. Muitos programas de voluntariado corporativo se adaptaram, continuando suas atividades em diversas comunidades. 

Esse episódio demonstrou que as empresas possuem alta capacidade de acelerar impactos sociais em momentos de crise. Essa capacidade de aceleração deve estar à serviço da Agenda 2030, mesmo depois da pandemia. O voluntariado corporativo é um meio disponível para essa aceleração, um implementador do componente social do negócio. 

Em 2022, o melhor dos mundos, literalmente falando, será com as organizações se comprometendo publicamente com metas ODS mais ambiciosas, já que a pandemia piorou o contexto socioambiental no Brasil e no mundo.

A escolha por um ODS é pautada na capacidade de medir o resultado que importa, isto é, escolher o ODS certo, e saber como impactar a partir do core business. Já que as organizações investem cada vez mais em programas de voluntariado corporativo, cada vez mais robustos, com pessoas capacitadas para mobilizar outras, assim como estratégias e metas permanentes, por meio desses programas totalmente alinhados, teremos empresas e pessoas que podem acelerar e impactar positivamente a Agenda 2030.

Redes e movimentos de voluntariado no Brasil e Mundo

Por Andréa Martini Pineda, pesquisadora no Centro de Estudos em Administração Pública e Governo (CEAPG) da EAESP-FGV e doutoranda em Administração Pública e Governo na Fundação Getúlio Vargas.

Voluntariado: do bem individual para o bem coletivo! A frase com que Che Guevara definiu o trabalho voluntário está imortalizada em um monumento de Havana, Cuba, e é um lembrete à população: “el trabajo voluntario es una escuela creadora de conciencia, es el esfuerzo realizado por la sociedad y para la sociedad como un aporte individual y colectivo”. Seja por motivações religiosas ou culturais – como em países anglo-saxões, onde a tradição filantrópica é bastante enraizada – em todo o mundo, um em cada cinco adultos se voluntariou ao longo da última década (Charities Aid Foundation, 2011). 

No Brasil, a filantropia existe desde a colonização portuguesa, com a ação voluntária sempre associada à caridade e ao assistencialismo. Apenas a partir da década de 1980, as organizações sociais ampliaram sua atuação como produto dos movimentos sociais surgidos durante e após a ditadura militar (1964 – 1985). 

Desta forma, olhando a história dos últimos 30 anos de voluntariado no Brasil, identifico quatro ‘ciclos de solidariedade’: um primeiro iniciado em meados da década de 1990, após a elaboração da Constituição Federal; um segundo bem demarcado em 2001, com o Ano Internacional do Voluntário; um terceiro na década passada, considerada ‘a Década do Voluntariado’; e, finalmente, o que estamos vivendo desde o início da Pandemia da covid-19, com a mobilização e ações voluntárias no campo da saúde e doações financeiras

A elaboração da “Constituição Cidadã” de 1988 reconheceu o papel da sociedade civil e do setor privado no desenvolvimento do País, considerado um marco no 3º Setor. Nesse período, dissemina-se a ideia de cidadãos mais ativos, comprometidos com o espaço público coletivo, e menos uma visão assistencialista. Não por acaso, segundo o IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2004), 62% das entidades do setor surgem a partir da década de 1990, como algumas instituições estruturantes para o campo: a Abong – Associação Brasileira das Organizações Não Governamentais, em 1991, o GIFE, Grupo de Fundações de Institutos e Empresas, em 1995, e a ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos, em 1999.

Nesse contexto fértil da década de 1990, com carisma e sabedoria, a então primeira-dama Ruth Cardoso imprime uma visão mais profissional à área social (muito distante da ideia de ’primeiro damismo’). Em 1997, o Programa Voluntários da Comunidade Solidária, presidido por ela, apoiou a criação de 20 Centros de Voluntários pelo País, sendo o primeiro deles na cidade de São Paulo. 

Presidido por Milú Villela e onde tive a felicidade de ser voluntária por quase 10 anos, o CVSP – Centro de Voluntariado de São Paulo foi a ponte entre quem queria ser voluntário e as organizações sociais na cidade de São Paulo. Em 20 anos, mais de 211 mil pessoas foram orientadas por palestrantes-voluntários como eu e mais de 1.200 organizações sociais se cadastraram no site do CVSP buscando voluntários. 

Entre 2000 e 2006, uma parceria entre o CVSP e o SESI – Serviço Social da Indústria realizou formações sobre Responsabilidade Social Empresarial para 2.868 participantes de todo o estado de São Paulo. Coincidentemente, representando o SESI nessas ações estava minha mãe! O voluntariado sempre foi um valor em nossa família: ainda na década de 1960, minha avó, mãe e tias eram voluntárias na Feira da Bondade, realizada anualmente pela APAE de São Paulo -, e eu sigo transmitindo esse valor aos meus filhos. Apesar de ter começado a me voluntariar no CVSP ainda muito jovem, essa experiência impactou minhas escolhas profissionais e foi transformadora na minha maneira de ver (e estar) o mundo. 

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Referências:

CHARITIES AID FOUNDATION. CAF World Giving Index 10th Edition. Charities Aid Foundation, [S. l.], 2011. 

IPEA; IBGE. As Fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil: 2002. Rio de Janeiro. 

CHARITIES AID FOUNDATION. CAF World Giving Index 10th Edition. Charities Aid Foundation, [S. l.], 2011. 

IPEA; IBGE. As Fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil: 2002. Rio de Janeiro. 

 Tradução da autora: “O trabalho voluntário é uma escola que cria consciência. É o esforço da sociedade e para a sociedade como contribuição individual e coletiva”.

Os Movimentos de voluntariado pelos ODS

Por Camile Rebeca Bruns, coordenadora Voluntária de Mobilização do Movimento Nacional ODS Santa Catarina, mestranda em Administração, especialista em Responsabilidade Social Empresarial e graduada em Serviço Social.

Começo esse texto refletindo sobre ’O que é ser voluntário?’. Se procurarmos no Google, vamos encontrar a seguinte definição: que não é forçado, que só depende da vontade; espontâneo; que se pode optar por fazer ou não”. Para mim, voluntária do ODS – Movimento Nacional Objetivos de Desenvolvimento Sustentável Santa Catarina há 13 anos, ser voluntária é mais do que essa definição básica. É uma escolha, é comprometimento, uma forma de entregar meu melhor tempo para um bem comum, capacidade de entregar meu trabalho gratuito numa causa na qual eu acredito. Uma forma de inspirar pessoas e organizações em prol de uma causa que transforma vidas e o planeta. Ser voluntário é doar e receber. 

Neste Movimento, somos mais de 1.000 voluntários, que estão juntos contribuindo para o alcance dos ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, definidos na Assembleia Geral da ONU – Organização das Nações Unidas, em 2015, para serem atendidos até 2030 a fim de contribuir com um planeta melhor para se viver. Nesta agenda, o trabalho voluntário é primordial, pois é por meio das pessoas que conseguimos inspirar outras pessoas que estão à frente de organizações e empresas a atuarem em prol desses objetivos. 

Porém, não é fácil envolver o voluntariado em uma agenda tão complexa como esta. Um dos grandes desafios está nas pessoas entenderem que não apenas as empresas e organizações possuem objetivos para atuarem, mas também nós, como indivíduos e inseridos em uma comunidade, temos como impactar nas metas a partir das nossas ações mais simples, como manter um consumo mais consciente no nosso dia a dia ou agir com ética diante de qualquer situação cotidiana. Contagiar positivamente as pessoas que moram, que trabalham conosco ou que convivem diariamente a conhecerem os ODS e agirem de forma a contribuir cada vez mais com as metas dessa Agenda.

Manter o engajamento dos voluntários também é desafiador. Diante da realidade do Movimento ao qual participo, há também dificuldades em capacitar e desenvolver lideranças voluntárias que queiram atuar inspirando pessoas e organizações para um mundo mais sustentável.

Mas podemos perceber que os acontecimentos dos últimos tempos impactaram de forma positiva e também negativamente a Agenda 2030. Do ponto de vista negativo, estamos vivenciando situações que afetaram a saúde da população, eventos climáticos que aumentaram ainda mais a situação de vulnerabilidade das pessoas, impactando nos desastres e insegurança alimentar e hídrica, dentre tantas outras questões que se agravam todos os dias. Positivamente, do ponto de vista da mobilização da sociedade em prol das questões socioambientais, participando mais ativamente de espaços de controle social, sendo voz mais ativa para os temas. 

Se analisarmos a situação de pandemia vivenciada desde o início de 2020, o trabalho voluntário foi essencial para muitas pessoas na garantia de alimentação diante de doações mobilizadas por voluntários, deslocamento, apoio psicológico entre outras questões relevantes. Tivemos diversos exemplos de empresas mobilizando voluntários e impactando positivamente nas comunidades onde estavam inseridas, realizando parcerias com organizações locais e identificando as urgências daquela população nas quais as propostas de soluções a empresa e seus colaboradores poderiam se envolver. 

A sociedade vem cobrando uma atuação mais socialmente responsável das empresas e os ODS são uma ferramenta poderosa para mobilizar recursos a fim de maximizar os impactos positivos e minimizar os impactos negativos. Considerar uma atuação em prol dos ODS é não deixar de considerar que ele é trilhado por pessoas e para pessoas e, sendo assim, é um caminho para todos. 

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Tutela e emancipação: dois caminhos para o Voluntariado

Por Bruno Barcelos, consultor em projetos nas áreas de ESG – Environmental, Social and Governance (em português Ambiental, Social e Governança), Sustentabilidade, Investimento Social Privado e Voluntariado para iniciativas privadas e públicas do Brasil e Portugal.

O voluntariado cruza-se com vários conceitos, dentre eles a caridade, a assistência, as doações e outros cuja relação aprofundei na minha dissertação de mestrado. Contudo, das palavras que cercam o voluntariado, apenas uma não pode estar de fora: ação. Depois disso, há que se cuidar na relação do voluntariado para fins de tutela ou emancipação dos envolvidos, com a atenção de que a tutela pode ter mais a ver com a manutenção das desigualdades estruturais do que com a sua resolução. 

As bases coloniais influenciaram a constituição conceitual e prática da caridade institucional no Brasil. A revisão historiográfica permite identificar a chegada das ordens religiosas com a finalidade colonial, portando consigo os valores a serem implantados, com ou sem consentimento das populações originais, que de protagonistas do seu território precisaram estabelecer novas relações sociais junto aos viajantes, e identificadas como pessoas assistidas, analfabetas, com necessidade de ensino e catequese, e pobres em moral e cultura, sob o discurso dos que invadiam. 

A pauta civilizadora era tal que, ao buscar fincar no novo mundo uma réplica dos seus modelos de gestão monárquica, eclesiástica e comercial, foi necessário também trazer consigo as irmandades que cuidariam dos efeitos colaterais da sua própria ação: os modelos urbanos e sociais que implementavam à maneira da metrópole, carregavam a pobreza, doenças, a peste, e sistemas desiguais que demandavam a assistência aos vulneráveis e doentes, executadas principalmente pelas Santas Casas de Misericórdia. 

A partir daí, o modelo de assistência social varia conforme os padrões de gestão do Estado, influenciado pelas variações na relação do governo com a igreja. Basicamente, tornava o doador um cidadão virtuoso perante as instituições que integrava, e isso carregou o conceito de voluntariado com características que até hoje vigoram. Sendo a caridade mais ligada à benevolência da igreja e a filantropia à sociedade civil. 

Portanto, o termo caridade, apesar de originalmente significar ’amor‘, cresceu ligado à noção de ’desvalido‘. Ou seja, os atos de caridade, seriam destinados a aqueles que são desprotegidos por ’paternidade‘ – ou paternalismo. E podemos reparar até hoje que a figura do coitado desvalido é tão desempoderada e, ao mesmo tempo, utilitária, que, nessa lógica, aos ricos pedir esmola em sua função ’era‘ considerado virtuoso. Dito isso, a figura utilitária do pobre para salvação dos ricos é uma equação comum na concepção de caridade, e é importante ter isso no radar ao aplicar esse termo: a ação de voluntariado que se pratica coloca doador e recebedor em posição de igualdade ou é um exercício enobrecedor do doador? 

Remetendo a Dilene Nascimento: “a filantropia pode ser explicada, grosso modo, como a laicização da caridade cristã, ocorrida a partir do século XVIII, e que teve nos filósofos das luzes seus maiores propagandistas.” Provavelmente, uma diferença entre esses dois conceitos seja que a filantropia pode conceder ao doador maior protagonismo do seu ato, em relação ao donatário, conferindo utilidade a publicitação das suas obras, para fins de destaque social e intercâmbio de ideias. Felizmente, no Brasil, a Filantropia junto ao Investimento Social Privado evolui para práticas estruturantes que buscam a emancipação e o impacto. 

Por fim, uma palavra transversal aí tem sido a doação, e mais profícuo que problematizá-la é enquadrá-la como ação necessária, pontualmente, como uma ferramenta das relações de voluntariado de continuidade. Com a doação é possível alcançar grandes números de engajamento e benefício, e ela é, muitas vezes, uma porta de entrada para o voluntariado transformador. 

O consenso é que: doação, filantropia, caridade e voluntariado, são termos que coexistem e farão muito se apontarem para uma dinâmica social libertadora. 

Referências:
NASCIMENTO, Dilene Raimundo. Liga Brasileira contra a Tuberculose: um século de luta. Fundação Ataulpho de Paiva — Rio de Janeiro, Quadratim/FAPERJ, 2001, 156p.

O Voluntariado Empresarial e o investimento social privado

Por Patrícia Loyola, diretora de Gestão e Comunicação da Comunitas, responsável pelo projeto BISC de investimento social corporativo.  

Aprendi o valor do voluntariado nas empresas pelas quais passei. Confesso que até ingressar no meu primeiro emprego, não tinha o hábito de doar meu tempo, trabalho e talento em benefício de terceiros. Em minha trajetória profissional, tive inúmeras experiências como voluntária empresarial, desde atuações mais pontuais como reforma de espaços e limpeza de computadores revitalizados para doação, até ministrar aulas e mentorar jovens de comunidades vulneráveis de forma periódica. Os benefícios para mim como voluntária foram de diversas ordens, com inúmeros aprendizados e realizações.

Para além do impacto positivo no voluntário, os dados mostram que o voluntariado empresarial representa uma importante colaboração na construção do perfil do voluntariado em nosso País e tem ganhado amplo espaço na última década. Os dados da pesquisa BISC – Benchmarking do Investimento Social Corporativo, liderada pela Comunitas, acompanham desde 2008 essa agenda com diversas empresas. Em sua última edição, foram 324 empresas e 17 institutos/fundações empresariais.

Na última década, o voluntariado corporativo na Rede BISC passou por transformações significativas. Em 2010, os processos de acompanhamento dos programas careciam de informações cruciais para o planejamento e gestão: 20% das empresas não relataram o valor investido nesses programas; 30% não informaram sobre o número de voluntários e 94% sequer estimaram o número de horas trabalhadas pelos envolvidos.

Com o passar dos anos, tanto os programas quanto seus indicadores de gestão foram intensificados. Na última década, os investimentos da Rede BISC em programas de voluntariado variaram entre R$ 11,6 e R$ 16,6 milhões.  Ainda nesse período, o percentual de colaboradores envolvidos a cada ano variou de 8% a 15% (mediana), percentual aquém do parâmetro internacional de 22% na média de 18 países, segundo o relatório Global Impact at Scale – 2020. (https://cecp.co/thought_leadership/global-impact-at-scale/).

Em 2017, houve um significativo recuo no voluntariado empresarial, o que foi considerado pela Rede BISC como uma consequência do impacto da crise econômica e, consequentemente, os desligamentos em massa de colaboradores e, portanto, o acúmulo de trabalho e funções. Tal realidade, ainda que momentânea, acabou por diminuir, em alguma medida, o ’clima‘ para a atuação voluntária.

No ano seguinte, os indicadores voltaram a subir e, em 2019, a pesquisa destacou a importância do envolvimento da liderança nas ações de voluntariado. Ao mesmo tempo em que houve um crescimento expressivo do envolvimento dos colaboradores, a participação intensa das lideranças em atividades voluntárias quase triplicou em três anos. Chegando a 2020, vivenciamos incontáveis desafios gerados pela covid-19 e, portanto, o voluntariado com seu forte teor presencial foi prejudicado. Naquele ano, o número de colaboradores voluntários da Rede BISC caiu 35% em relação ao ano anterior. Por outro lado, a crise sanitária fortaleceu estratégias como formação de rede de colaboração entre voluntários, voluntariado digital e doação casada, apesar de ter feito decrescer a liberação de horas de trabalho. O pro bono também ganhou força na pandemia. Essa modalidade é contabilizada na pesquisa BISC como a contribuição das empresas em forma de bens e serviços. 

Visando apoiar as empresas em suas auto avaliações dos programas e refletir sobre as possibilidades de aprimoramentos futuros, o BISC construiu com a rede cinco dimensões relacionadas aos indicadores de qualidade listados a seguir por ordem decrescente de notas atribuídas no BISC 2020 aos programas de voluntariado empresarial:  Desenho e gestão (8,7), Envolvimento institucional (8,6), Alianças estratégicas (8,0), Comunicação e mobilização (7,0) e Monitoramento, controle e avaliação (6,6). 

Certamente, há espaço de melhoria em todas essas dimensões, no entanto, é no campo do monitoramento e da avaliação que as empresas apresentam as maiores dificuldades. Talvez, esse seja um ponto de atenção para que os programas de voluntariado sejam cada vez mais pensados e estruturados como instrumento estratégico para as empresas e suas contribuições sociais em âmbito local, regional, nacional e em agendas globais, tais como os ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a agenda ESG – Environmental, Social, and Governance.  

O voluntariado empresarial é caracterizado pela relação de ganha-ganha, na qual a empresa amplia o engajamento de seus colaboradores e abre frentes de capacitação prática a eles; o profissional vivencia maior realização e senso de propósito, ao mesmo tempo que tem a chance de desenvolver novas habilidades. Os beneficiários são fortalecidos em capacidades tão diversas quanto o leque de ações implementadas. Razões pelas quais vale a pena seguir investindo nessa prática para que os próximos dez anos sejam de ainda mais avanços e conquistas. 

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Voluntariado e os grandes eventos da década

Por Felipe Pimenta de Souza, relações-públicas, pós-graduado em comércio internacional, mestre em Desenvolvimento Sustentável Territorial, especialista em responsabilidade social corporativa, voluntariado e megaeventos internacionais.

No decorrer da evolução da humanidade, os eventos se caracterizavam como ferramenta de integração social e de lazer, de comunicação, para fins religiosos e militares etc. A origem dos eventos remonta ao período paleolítico, porém são os Jogos Olímpicos da antiguidade que detêm um papel importante por mobilizar, para a época, grande número de participantes e espectadores, sendo realizados por 293 edições, até serem proibidos em 393 d.C. pelo imperador romano Teodósio.

Na atualidade, os grandes eventos ganham força a partir da realização das Exposições Universais, que tiveram seu início em 1851, em Londres (Inglaterra), e pela retomada dos Jogos Olímpicos, em 1896, em Atenas (Grécia).  Diferentemente do passado, os grandes eventos apresentam uma característica: profissionalização, além da possibilidade de atuação voluntária.

No início do século XX, os serviços auxiliares de alguns grandes eventos foram assumidos por militares e instituições parceiras, como os escoteiros. Neste estágio, o apoio institucional destacava-se comparado à ‘participação voluntária individual’ (Pena et al., 2014). Neste contexto, acontece o primeiro grande evento esportivo no Brasil: os Jogos Olímpicos Latino-Americanos de 1922, envolvendo oito países, seis modalidades esportivas e contando com a participação de 186.000 espectadores. Fazendo parte da Feira Internacional que comemorou o centenário da Independência do Brasil, o evento contou com voluntários da Associação Cristã de Moços (ACM). Já em 1950, é realizada a Copa do Mundo de Futebol no Brasil e, em 1963, acontecem os IV Jogos Pan-americanos, em São Paulo – ambos sem relatos oficiais de voluntários.

A partir da década de 1970 e 1980, os eventos esportivos, principalmente os Jogos Olímpicos, mudam de status, tornando-se ‘megaeventos’ por uma série de razões: os avanços nas telecomunicações permite o alcance para uma audiência global e o patrocínio de grandes empresas impulsiona a profissionalização de muitas competições, além da inserção de novas modalidades. À medida que os eventos se tornam maiores, mais complexos e mais caros para serem realizados, a atividade voluntária se mostra uma possibilidade promissora para organizadores e cidades-sedes, principalmente, pelo aspecto econômico (Chappelet, 2016).

No Brasil, entre os anos de 2011 e 2021, aconteceu a chamada ‘década de ouro’ dos megaeventos, em que o país recebeu manifestações que dificilmente irão se repetir, sintetizada na frase ‘once-in-a-lifetime experience’. A visibilidade gerada pelos XV Jogos Pan e Parapan-americanos, de 2007, organizados no Rio de Janeiro, é um fator-chave para a decisão de escolha dos megaeventos. Para padrões internacionais, a cidade – e de certa forma o país – correspondiam aos principais critérios impostos pelas entidades internacionais responsáveis pela escolha.

De um ponto de vista conceitual, para a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), megaeventos apresentam “duração limitada, que tenham alcance global em termos de público, audiência e cobertura de mídia, além de exigirem significativo investimento público e que tenham impacto na população das cidades-sedes”. Os eventos da ‘década de ouro’ que se encaixam nesta definição da OCDE são prioritariamente a Conferência Rio+20, a Copa do Mundo FIFA 2014 e os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. Porém, outros grandes eventos também se destacam, como os Jogos Militares Mundiais de 2011, a Copa das Confederações 2013, a Jornada Mundial da Juventude 2013 e a Copa América 2019.  

Em 2012, a Conferência Rio+20, da Organização das Nações Unidas – ONU, realizada em comemoração aos 20 anos da Conferência Rio 92, colocou a cidade do Rio de Janeiro em uma espécie de megaevento-teste, já que entrou nos holofotes da mídia internacional. Em relação ao Programa de Voluntariado, 1.191 pessoas foram selecionadas, principalmente jovens provenientes de escolas públicas fluminenses e do ensino médio, alunos de educação técnica, universitários de todo o país e pessoas com deficiências (apenas 4% do total).

A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) 2013, evento trienal da Igreja Católica reunindo jovens com o pontífice, causou frenesi pela organização, engajamento e mobilização jamais acontecidos no Brasil, durante a primeira viagem internacional do Papa Francisco. Para participar do evento, inscreveram-se 80 mil diocesanos, como são conhecidos os voluntários atuantes na Jornada. Destes, 60 mil foram selecionados, sendo 7.500 estrangeiros.

Em função da realização do Pan 2007 e dos Jogos Militares, que mobilizaram cerca de 20.000 e 2.267 voluntários respectivamente, surgiram estudos sobre o perfil e análise da atuação dos voluntários em grandes eventos, como o trabalho de Nolasco (2008) e de Nakane (2011). À época, tais estudos serviriam para contribuir com melhorias para os futuros eventos, já que questões operacionais e de gestão se mostraram insatisfatórias, sem contar a importância de preservar a memória da atuação voluntária nestas edições.

Tendo como objetivo compreender as grandes transformações de programas de voluntariado no decorrer da última década, a Pesquisa sobre Voluntariado no Brasil 2021, realizada com 1.546 voluntários pelo Instituto Datafolha, em oito capitais brasileiras, corrobora com dados sobre a percepção do engajamento dos voluntários nos grandes eventos realizados no país.

Quando questionados se os grandes eventos contribuíram para aumentar o engajamento dos brasileiros no trabalho voluntário, 48% dos entrevistados indicaram que os eventos não contribuíram e para 36% contribuíram um pouco. Apenas 13% dos entrevistados indicaram que os eventos contribuíram muito para o engajamento. 3% não souberam opinar.

Utilizou-se a mesma pergunta para questionar como as situações emergenciais humanitárias – como os desastres causados nas cidades de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), no estado de Minas Gerais – influenciaram no aumento do engajamento. Para 49% dos entrevistados, as situações emergenciais influenciaram muito para aumentar o engajamento no trabalho voluntário. Para 34% influenciaram um pouco, ao passo que 15% acreditam que não influenciaram e 2% não souberam responder.

Se por um lado 99% dos voluntários concordam que “o trabalho voluntário leva as pessoas a conhecerem outra realidade”, contraditoriamente o caso dos megaeventos não se mostra como fator de engajamento para atuação voluntária, mesmo que diversos investimentos públicos tenham sido realizados, inclusive em capacitação de voluntários, além da mobilização de milhares de pessoas: 6.156 voluntários na Copa e 50 mil nos Jogos Rio 2016, segundo dados oficiais.

Em 2022, após 100 anos do primeiro grande evento esportivo realizado no País, em uma perspectiva positiva, novos dados sobre o voluntariado e megaeventos surgem. Novos estudos focados na temática dos grandes eventos da ‘década de ouro’ merecem emergir, buscando, assim, compreender os seus legados.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Referências:

Tradução livre do autor de: OCDE, 2021. Implementing the OECD recommendation on Global Events and Local Development.

CHAPPELET, J-L. (2016). Jeux Olympiques. Raviver la flamme. Opinion: Lausanne.

NAKANE, A. et al. (2011). Voluntariado: A Essência da Hospitalidade como Fator Crucial para Elevada Performance dos Megaeventos Esportivos no Brasil.

NOLASCO, V. et al. (2008). Pesquisa comparativa entre voluntários dos Jogos Pan-Americanos Rio 2007 e voluntários dos Jogos Olímpicos de Atenas 2004. In: DaCOSTA, L. (Org.). Legados de megaeventos esportivos. Brasília: Ministério do Esporte, 2008.

PENA, Bianca B. et al. (2014). Renovação do Voluntariado – Legado de Megaeventos Esportivos. Editora Multifoco: Rio de Janeiro.

Relatório observa uma queda nas doações de grandes fundações dos EUA a partir de 2020

A Candid e o Center for Disaster Philanthropy (CDP) divulgaram um novo relatório, Philanthropy and COVID-19: Examining two years of giving , que detalha a filantropia relacionada à covid-19 em 2021.

A terceira avaliação da Candid e do CDP dos dados filantrópicos relacionados à Covid-19 observam um declínio preocupante nas doações de grandes fundações dos Estados Unidos, mesmo enquanto comunidades enfrentam dificuldades para se recuperar dos efeitos da pandemia. O novo relatório destaca a necessidade de maior apoio filantrópico para recuperação a longo prazo, e o CDP fornece medidas ​​que os financiadores podem adotar pensando em revigorar suas estratégias para a recuperação dos danos causados pela pandemia:

  • Aumentar o apoio às comunidades mais vulneráveis;
  • Fornecer financiamento flexível;
  • Implementar filantropia baseada em confiança;
  • Financiar o mais local e de base possível;
  • Comprometer-se com a transparência compartilhando dados.

Alguns dados interessantes do estudo apontam que 18% do financiamento à Covid-19 foi explicitamente designado como financiamento flexível ou apoio geral. Além disso:

  • As organizações de saúde, serviços humanos e educação receberam as maiores parcelas de financiamento.
  • Para financiamento doméstico com foco nos EUA, 27% da dinheiro doado foi designado para identidades raciais e étnicas. Destes, 71% não indicaram uma identidade específica, mas, em vez disso, foram amplamente designados para “equidade racial” ou “comunidades de cor”.
  • 22% dos doadores norte americanos alocaram suas doações financeiras para organizações de fora dos Estados Unidos.

Outro capítulo do relatório se dedica a apontar como a pandemia impactou a filantropia em outros países, um deles o Brasil. O IDIS, foi uma das fontes escolhidas como estudo de caso para a publicação que cita, também, o Fundo Emergencial para a Saúde – Coronavírus Brasil criado pelo IDIS, BSocial e Movimento Bem Maior ainda em 2020 e que captou R$ 40,4 milhões para ajudar hospitais em 25 estados brasileiros contra a Covid.

O relatório destaca também a publicação “Perspectivas da Filantropia no Brasil em 2022”, mostrando algumas das tendências mapeadas.

Acesse o estudo completo clicando aqui 

O desafio da estruturação dos Programas de Voluntariado

por Clarissa Martins, gerente de Programas Corporativos e Saúde Organizacional na Phomenta, responsável pelo desenvolvimento e implementação de programas de voluntariado corporativo de habilidades (pro bono).

 O voluntariado é uma importante ferramenta para o Terceiro Setor. De acordo com dados da Abong divulgados em 2021, 70% das Organizações Não Governamentais (ONGs) brasileiras atuam quase integralmente com trabalho voluntário. Independentemente do papel que o voluntariado tem na organização, se ele é realizado para tarefas pontuais e específicas ou se ele é o principal vínculo das pessoas com a ONG, uma coisa é certa: a profissionalização da gestão dos programas de voluntariado é uma tendência e já se mostrou essencial para as organizações.

Fato é que estruturar um programa de voluntariado não é fácil. Exige tempo e dedicação da equipe da ONG. Vejo isso como o principal desafio para as organizações. A profissionalização do voluntário acaba sendo mais uma tarefa, dentre tantas outras, que a ONG precisa dar conta de fazer. E, se as organizações do Terceiro Setor já atuam em um contexto de recursos limitados, o cenário fica ainda mais desafiador devido às consequências da covid-19. De acordo com o estudo o Impacto da COVID nas Organizações da Sociedade Civil (OSCs) Brasileiras, da Mobiliza, 65% das ONGs apontam diminuição significativa de acesso a recursos financeiros e 40% delas mencionam estresse e sobrecarga da equipe. 

Apesar do desafio, investir na estruturação de um programa de voluntariado ainda vale a pena e destaco aqui três vantagens: 

  1. Programas de voluntariado atraem e retêm mais pessoas: estruturar um programa exige pensar em toda a jornada do voluntário na ONG, desde como as pessoas ficarão sabendo das vagas até como os voluntários serão acompanhados e reconhecidos. Com isso, a organização passará a ter uma postura ativa na divulgação de vagas e poderá chegar a cada vez mais pessoas. Além disso, com os voluntários sabendo o que se espera deles, para quem reportar, recebendo feedback e sendo envolvidos em ações de integração e reconhecimento, são maiores as chances de que permaneçam na organização por mais tempo. 
  2. Possibilita que o voluntariado seja mais estratégico para a ONG: normalmente relacionamos a atividade voluntária com as ações mais operacionais de uma organização, como fazer hortas, pintar muros e brincar com os beneficiários. Porém, o voluntariado pode ir além e também ser uma fonte de conhecimento especializado em áreas que a organização não tem equipe interna fixa, como, por exemplo, recursos humanos, marketing e gestão de dados. Refletir sobre qual apoio a organização necessita é um excelente exercício para ampliar o campo de visão sobre o quanto o voluntariado pode agregar para as ONGs. 
  3. Maior proteção para a organização: o trabalho voluntário é regulado pela Lei nº 9.608/1998, que define, entre outros aspectos, que se trata de um trabalho não remunerado e que não gera vínculo empregatício. Para a organização estar juridicamente protegida, é necessário que seja firmado, entre voluntário e ONG, um termo que esclareça essa relação. A profissionalização do voluntariado pressupõe que haja uma ou mais pessoas responsáveis por esta gestão e seus processos. Dessa forma, tem-se maior garantia que as exigências legais estão sendo cumpridas dentro da ONG. Ainda que a profissionalização do voluntariado demande tempo e dedicação da ONG, é importante relembrar que o trabalho voluntário é uma forma de se ter mais pessoas atuando nas organizações.

Estruturar um programa exige muito no início, mas pode trazer excelentes resultados no médio e longo prazos. Além disso, vale ressaltar que a estruturação pode ser feita aos poucos, respeitando-se o momento e a disponibilidade da organização.

Referências
https://mobilizaconsultoria.com.br/o-impacto-da-covid-19-sobre-as-oscs-brasileiras/
https://abong.org.br/wp-content/uploads/2021/05/Remuneracao-de-dirigentes-das-OSC.pdf

Voluntários: luzes em tem tempos de escuridão!

Por Ricardo Martins, fundador e presidente da ONG Olhar de Bia e fundador da Rede Conectados do Terceiro Setor, voluntário por missão e vocação. 

Missão ou vocação?  Ser voluntário é atender ao chamado maior que nos coloca para doar o que temos de mais precioso: nosso tempo! Nossas expertises, conhecimentos e a nossa história! Doar o que temos de melhor para outras pessoas ou causas. 

Em tempos de pandemia, nos colocamos na linha de frente sem medo, ou melhor, se o medo existiu fomos com ele mesmo. E de uma forma tão particular formamos e demos musculatura a uma rede de atores, a Conectados do Terceiro Setor. 

De uma maneira muito simples e com informalidade indivíduos e organizações, as INGs (Indivíduos Não Governamentais) e as ONGs (Organizações Não Governamentais) se uniram para ajudar! Algumas organizações bem estruturadas, inclusive na gestão de seus voluntários, mas outras apenas grupos de trabalho, com muita vontade de estar junto, de apoiar e de doar trabalho, tempo e recursos nesses tempos tão desafiadores de pandemia e distanciamento social. Desejo de ser a diferença em um mundo tão indiferente. A rede se formou não estamos sozinhos, reunimos pessoas empáticas, que descruzaram seus braços para fazer o bem!  

Não havia necessidade de formalizar, de assinar compromissos e de medir resultados: eram tempos de realizar, de atender as demandas, de prover e conter as necessidades e os resultados eram sorrisos e agradecimentos. O grupo foi chamado de os doidos do bem! Mas depois foram reconhecidos como luzes em tem tempos de escuridão! Com os Conectados, conseguimos ter na prática que para fazer o bem de fato, não é necessário termos tantas e tantas regras, leis, letramento que, infelizmente, afastam quem quer apoiar e bate à porta para ajudar em tempos de emergências. 

Agora, um novo momento! Construímos uma rede de confiança, pessoas com o mesmo propósito, que, apesar de fazerem o bem por caminhos diversos, seja na educação, na assistência, meio ambiente, sustentabilidade, etc., possuem valores comuns, e ainda o desejo de diminuir desigualdades, trazer qualidade de vida e justiça para todos. É momento de dar condições aos projetos e ao movimento, que estava na informalidade décadas, a profissionalização. A força do voluntariado vai construir isso! São gestores, advogados, contadores, assistentes sociais, publicitários, administradores e mentores que, neste novo tempo, trarão condições de estruturar, por meio de legislações e treinamentos, a melhoria contínua da rede para seguir apresentando e trazendo o melhor para quem necessita, com urgência de ser atendido e acolhido. 

Que a pesquisa do Voluntariado no Brasil perceba que quem vem para o voluntariado, de maneira organizada ou na informalidade, tem a finalidade de cuidar de gente, construir um mundo cada vez melhor! É ouvir sua Vocação, realizar sua Missão, começando sempre pelo AGORA.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Acesse o site da Pesquisa Voluntariado no Brasil

Transmissão ao vivo: Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2022, saiba como participar

International audience: announcement follows bellow

 

A 11ª edição do Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais já tem data: 15 de setembro. Neste ano, além do evento presencial em São Paulo exclusivo para convidados, a programação será também transmitida ao vivo. 

Para acompanhar, basta se inscrever gratuitamente clicando aqui.  

A filantropia passou a ocupar o noticiário nacional e a sociedade cobrou por comprometimento e resultados. Avançamos, aceleramos soluções por meio das conexões e desafiamos o ditado ‘sozinho se vai rápido e juntos se vai longe’.

Nunca avançamos tanto, e em tão pouco tempo. A mobilização causada pela pandemia mostrou a potência da colaboração. Poder Público, empresas de todos os portes e segmentos, organizações da sociedade civil e indivíduos se uniram. Intensificaram parceiras pré-existentes e criaram novas pontes.

Por isso, o tema deste ano será COLABORAÇÃO. No Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2022 vamos mostrar como é possível irmos ‘rápido e juntos’. Conheça aqui a programação completa.

PALESTRANTES CONFIRMADOS

Entre os palestrantes já confirmados estão Marcilio Pousada (CEO da  REDE – RaiaDrogasil), Celso Athayde (fundador da CUFA),  Ana Buchain (dir. executiva de pessoas, marketing, comunicação e sustentabilidade da B3), Atila Roque (diretor da Fundação Ford Brasil), Flavia Rosso (gerente de impacto social no Ifood) e Mafoane Odara (líder de Recursos Humanos para América Latina na Meta). 

Além de convidados internacionais como Atti Worku (co-CEO do African Visionary Fund), Melissa Berman (Fundadora e CEO da Rockefeller Philanthropy Advisors),  Neil Heslop (CEO da Charities Aid Foundation) e Agustín Landa (Diretor Fundador da Lanza e Representante da Revista Alliance na América Latina). 

REALIZAÇÃO E APOIO

A realização é do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social , em parceria com o Global Philanthropy Forum e a Charities Aid Foundation, com apoio prata da Ford Foundation; e apoio bronze de de Ambev, B3 Social, BNP Paribas Asset Management, Fundação Arymax, Fundação José Luiz Egydio Setubal, Instituto Sicoob, Movimento Bem Maior, Raia Drogasil e Santander.

Neste ano o fórum também terá um parceiro de mídia, a Alliance Magazine – sediada na Inglaterra, é a maior revista sobre filantropia do mundo -, que fará a cobertura do evento e transmitirá o evento em inglês ao vivo em seu canal do YouTube.

The internacional audience will be able to attend the Brazilian Philanthropy Forum online, on Alliance Magazine YouTube channel. The sessions will happen from 1 p.m. to 10 p.m. (BST), with English translation. The program is available on the event´s website: www.idis.org.br/forum/en/  

FÓRUM BRASILEIRO DE FILANTROPOS E INVESTIDORES SOCIAIS

O Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais oferece um espaço para a comunidade filantrópica se reunir, trocar experiências e aprender com seus pares, fortalecendo a filantropia estratégica para a promoção do desenvolvimento da sociedade brasileira. O evento já reuniu mais de 1.500 participantes, entre filantropos, líderes e especialistas nacionais e internacionais. Em nosso canal do YouTube estão disponíveis listas com as gravações de todas as edições. Confira!

Assista também ao vídeo comemorativo de 10 anos do Fórum!

 

O Programa Brasil Voluntário da Copa das Confederações e da Copa do Mundo (2013-2014)

Por Thérèse Hofmann Gatti Rodrigues da Costa, doutora em Desenvolvimento Sustentável pelo CDS/UnB, coordenou a etapa de capacitação do Programa Brasil Voluntário do Ministério de Esportes na Copa do Mundo 2014.

Ser voluntário é um ato de mão dupla, pois você doa e recebe na mesma proporção. A pessoa doa o próprio tempo, o conhecimento que tem, a experiência em determinado assunto. E, ao ser voluntário, há ganhos na oportunidade de interagir com outras pessoas, de receber outros conhecimentos e de ter como retorno a vivência de uma nova experiência. Mais do que tudo, ao ser voluntário, cada um tem a satisfação de simplesmente fazer o bem.

Em 2013 e 2014, o Brasil recebeu dois grandes eventos mundiais de futebol, que foram a Copa das Confederações e a Copa do Mundo. Para fazer frente ao grande número de visitantes que o País estimava receber, o governo federal da época organizou ações de voluntariado público para atuar em áreas externas aos estádios de futebol e com ações mais diversificadas, do que se estabeleceu ser o programa de voluntários da FIFA no Brasil. Estando à frente do Decanato de Extensão da Universidade de Brasília, naquele momento recebemos a proposta de ser parceiros do Ministério do Esporte no desafio de organizar a capacitação do programa Brasil Voluntário. 

Apresentamos ao Ministério do Esporte, em conjunto com o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, um projeto integrado de ensino, pesquisa e extensão para a capacitação dos voluntários. As metodologias desenvolvidas, tanto para a ensino a distância (EAD) quanto para a capacitação presencial, foram inovadoras e inéditas à época. Os projetos propiciaram várias inovações em termos de capacitações em grande escala: ensino a distância, capacitações presenciais simultâneas, logística de organização das atuações, desenvolvimento de material didático sobre o tema, metodologia inovadora e a certificação digital inédita, nos moldes estabelecidos pelo Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), que foi disponibilizada pela Universidade de Brasília.

O desafio que tivemos ao coordenar a capacitação, primeiro nas seis cidades-sede (Salvador, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza) da Copa das Confederações e depois nas 12 cidades-sede (Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo) da Copa do Mundo, foi de uma complexidade ímpar. A experiência adquirida com estes dois eventos nos habilitou a encarar outros desafios posteriores de forma muito mais serena. 

Tivemos grandes aprendizados e contamos com parcerias inestimáveis das universidades públicas, estaduais e federais de cada uma das cidades-sede. Foram sete universidades parceiras na Copa das Confederações e 17 na Copa do Mundo. Grupos de voluntários ligados a movimentos religiosos somaram-se a nós, sendo também parceiros fundamentais para o sucesso dos eventos. 

Inestimável, e super acertada também, foi a parceria que fizemos com o Corpo de Bombeiros de cada cidade sede. Capitaneados pelos oficiais do Corpo de Bombeiros de Brasília, a atuação na capacitação em primeiros socorros e segurança realizada presencialmente em cada cidade – e que contou com a atuação direta dos oficiais das corporações locais – foi um sucesso total. As capacitações de Ensino a Distância, realizadas no portal Brasil Voluntário em plataforma moodle especialmente, customizada para os eventos e depois as capacitações presenciais, permitiram aos cidadãos uma formação não só para atuar nas Copas, mas para a vida. Nas palavras de vários voluntários, registradas em vídeos ao longo das capacitações, toda a experiência adquirida naquele momento já vislumbrava que poderia ser utilizada para outros momentos da vida deles. 

A idade mínima para participar nos eventos da Copa foi de 18 anos. Tivemos cidadãos das mais diferentes idades, engajados nos eventos. Famílias inteiras se disponibilizando para atuar, pais e filhos fazendo a capacitação em conjunto, foram momentos realmente indescritíveis.

Creio que como um dos legados temos o sentimento de um momento de cidadania plena. Quem foi capacitado para ser voluntário e atuou nas Copas vivenciou uma grande satisfação de poder fazer o bem, de ajudar turistas, de conhecer pessoas diversas nos eventos, de poder mostrar para o mundo que o brasileiro é acolhedor, cordial, honesto, profissional e que ama o país. 

Percebo que houve uma grande e positiva exposição da Lei do Serviço Voluntário. Cito a lei 9.608 de 1998, vigente à época e desconhecida de muitos até aquele momento, que abriu caminho para outras atuações posteriores e para o aprimoramento da legislação sobre o tema.

Apesar de várias tentativas de estigmatizar o voluntário à época, por conta de questões políticas daquele momento, tentando associar o voluntário a um ’otário‘, o que vimos foram milhares de cidadãos conscientes do seu papel e com autoestima muito elevada, rechaçando qualquer pecha que pudesse menosprezar a importância do papel que estavam desempenhando.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Acesse o site da Pesquisa Voluntariado no Brasil

O Voluntariado nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos em 2016

Por Any Bittar, consultora na área de sustentabilidade e sistema agroflorestal. Foi gerente de parcerias de voluntários do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016.


Quando falamos de voluntários, sempre procuramos uma definição, uma forma de sintetizar essa atividade tão multifacetada. Tem uma frase que usei inúmeras vezes em apresentações pelo Brasil do Programa de Voluntários Rio 2016 que acredito evidenciar o espírito do voluntário: “Ser voluntário é deixar de acompanhar para participar, é deixar de ver para viver, é deixar de assistir para construir” – Rafael Alves de Lima (voluntário Rio 2016)

Considerando o tema voluntariado em grandes eventos, encontramos algumas características diferentes de outros programas, pois logo de início é apresentada a jornada do voluntário, uma série de procedimentos para as diversas etapas a serem realizadas até o evento. Costumo fazer um paralelo com a jornada do herói, onde o protagonista precisa sair de sua zona de conforto e superar vários desafios até alcançar o seu objetivo final. 

Dada a complexidade dos grandes eventos, etapas como: divulgação, inscrição, seleção, engajamento e retenção dos voluntários se tornam atividades desafiadoras. Nelas, a interação das informações do banco de dados para melhor adequação de perfil dos voluntários e das atividades propostas é um trabalho árduo e complexo, com necessário suporte de tecnologia e comunicação, que, ao final, se mostra extremamente recompensador. 

Lidar com essa experiência na dimensão dos últimos grandes eventos que aconteceram no país, como os esportivos: Pan 2007, Copa 2014 e Jogos Olímpicos e Paralímpicos 2016 deixaram um legado de transformação no movimento de voluntariado no Brasil, pois com o número expressivo de participantes, e estamos lidando na casa dos milhares, estes se tornaram multiplicadores do conceito da jornada do voluntário, quer seja na organização em diversas instituições ou pela atuação individual. 

É muito comum encontrar pessoas em atividades distintas de voluntariado com itens dos grandes eventos, como pins, bonés, casacos, mochilas, etc., comentando com entusiasmo e saudosismo a sua experiência, sensibilizando outros participantes. É uma situação contagiante de alegria e expectativa para todos, na qual não só a atividade realizada é descrita, como também as fases de engajamento. Foram inúmeras vezes que vivi esse contentamento!

O que sinto falta no Brasil é do apoio institucional para a criação de organizações que mantenham esse círculo virtuoso vivo. A partir das experiências e dos vultosos bancos de dados criados, poder-se-ia customizar as informações e interagir no desenvolvimento da jornada do voluntário de acordo com o porte, localização e perfil dos eventos.  

Outro ponto que gostaria de salientar desses grandes eventos foi a participação de pessoas com deficiência no voluntariado. Se no início foi um desafio, tanto na comunicação quanto na alocação da atividade, paulatinamente as imagens dos voluntários em atuação foram mostrando o sucesso da iniciativa e inspirando novas participações. Nos Jogos Rio 2016, tivemos o primeiro Programa de Voluntários Pessoas com Deficiência Intelectual com atuação no Parque Olímpico, que contou com uma jornada exclusiva estruturada em parceria com instituições e empresas e ainda um programa de Voluntariado Empresarial, estruturado e muito bem-organizado, mostrando que é possível, por meio do voluntariado promover a inclusão e o respeito à diversidade.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Acesse o site da Pesquisa Voluntariado no Brasil

Um convite urgente para mudar as práticas de financiamento

 

O Catalyst 2030, rede global que atua em rede para tornar o mundo melhor e mais justo para todos, lançou uma carta aberta destinada a doadores e financiadores de organizações não-governamentais com um apelo para mudanças em suas práticas, tornando-as mais eficazes e melhorando o impacto social sustentável. 

A ação tem como objetivo reunir 1.000 assinaturas em todo o mundo, chamando atenção a esta importante questão. Até 25 de maio, mais de 500 organizações de 60 países já haviam assinado a petição.

Nós do IDIS, assinamos a carta e convidamos você, membro de uma organização não-governamental, a se juntar a nós neste chamamento. Esta é uma oportunidade para acelerar a mudança social, tornando as práticas de financiamento mais eficazes para o setor. 

“Para ter alguma esperança de tornar o mundo um lugar melhor, trabalhando para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, devemos enfrentar de forma mais eficaz as causas dos problemas por meio de mudanças transformadoras nos sistemas. Um número crescente de financiadores e organizações percebeu que agora é a hora de avançar no progresso global e encontrar novas maneiras de apoiar a mudança, mudando as práticas e normas atuais de financiamento no setor social”. Catalyst 2030.  #ShiftingFundingPractices

 

Conheça o site da iniciativa.

 

CONHEÇA A CARTA ABERTA E ASSINE VOCÊ TAMBÉM

Um Convite Urgente para Mudar as Práticas de Financiamento

Estamos agora numa fase da nossa viagem civilizacional onde o nosso mundo enfrenta um conjunto de desafios globais em cascata e interrelacionados que ameaçam o futuro das pessoas e do planeta.  Desde a pobreza endêmica, a desigualdade racial e de gênero, a extinção de espécies, e o desmatamento, até o fascismo crescente, e a crise climática, a combinação destes desafios concorrentes e sobrepostos sinaliza a necessidade urgente de transformar fundamentalmente os sistemas entrincheirados subjacentes a estes grandes problemas. Para termos alguma esperança de alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e inverter a trajetória destrutiva que as pessoas e o planeta enfrentam, temos de abordar com mais eficácia as causas profundas de problemas complexos, em vez de tratar os sintomas.  Isto é possível se transformarmos políticas, práticas, costumes, mentalidades, dinâmicas de poder e fluxos de recursos para alcançar um impacto duradouro ao nível local, nacional, e global.  Este é o trabalho conhecido como mudança de sistemas.  É uma perspectiva abrangente à mudança social que procura abordar as características complexas, em grande escala e profundas, das questões sociais.   Um aspecto chave da mudança de sistemas é a colaboração sustentada.  A verdadeira mudança de sistemas ocorre quando múltiplos atores entre setores, disciplinas e grupos sociais – incluindo financiadores e líderes de movimento – trabalham em conjunto para objetivos comuns ao longo de prazos prolongados.Embora encorajemos os financiadores a explorar diferentes oportunidades de financiamento de projetos que possam conduzir ao bem social, incluindo os que oferecem algum retorno financeiro aos investidores, a realização de mudanças eficazes nos sistemas, em particular os muitos aspectos que necessitam de financiamento de doações, exigirá uma poderosa mudança em relação às abordagens filantrópicas tradicionais onde:

1 – os financiadores tendem a confiar nos conhecimentos empresariais e acadêmicos para compreender o impacto social em vez de centrarem a liderança e a experiência vivida daqueles que estão mais próximos das questões que procuramos abordar;
2 –
a maior parte do financiamento é direcionado para aliviar os sintomas de sistemas falidos e não para o trabalho a longo prazo de compreensão, abordagem e mobilização da mudança para abordar as causas profundas;
3 –
o financiamento específico do projeto é concedido em loteamentos de curto prazo, o que também envolve frequentemente papelada excessiva, dinâmica de poder transacional, e uma dependência excessiva em métricas com curto espaço de tempo para avaliar o sucesso; e
4 –
processos e critérios de candidatura podem levar a uma concorrência inútil entre organizações em vez de incentivar os tipos de colaborações necessárias para mudar os sistemas.Um número crescente de financiadores e organizações estão descobrindo que existe uma oportunidade em tempo real para avançar no progresso global e modelar novas formas de apoiar a mudança através da transformação das atuais práticas de financiamento do setor social.  Estas mudanças necessárias abrangem múltiplos tipos de financiadores, incluindo financiamento de filantropia privada, governos, e organismos multilaterais.  Os seguintes princípios descrevem o que nós, um grande grupo de organizações da sociedade civil e inovadores para a mudança de sistema, bem como muitos líderes do pensamento filantrópico, acreditamos ser as práticas mais críticas e eficazes que os financiadores precisar adotar à medida em que lidamos com os problemas complexos que o nosso mundo enfrenta atualmente.  Convidamo-los a considerar a adoção das práticas transformadoras de financiamento abaixo indicadas.  Dado o poderoso papel dos financiadores e doadores em influenciar o trabalho e o âmbito das organizações que trabalham com questões sistêmicas, estas mudanças permitirão e capacitarão melhor o sector social e fomentarão colaborações multisetoriais que trabalham para os tipos de mudanças de sistemas que são urgentemente necessárias.  

PRINCÍPIOS

1 – Dê Financiamento Plurianual e Irrestrito: Abordar as causas profundas dos problemas sistêmicos interligados requer uma adaptação e aprendizagem contínuas a longo prazo. Contar com organizações que tem fundos operacionais gerais durante vários anos (pelo menos três a cinco anos, e de preferência mais tempo) permitem-lhes a flexibilidade necessária para adotarem a abordagem iterativa e a longo prazo para enfrentar grandes problemas sistêmicos, complexos e de longo prazo.  Este tipo de investimento flexível liberta as organizações para se adaptarem às mudanças nas condições e permite que as organizações sem fins lucrativos se concentrem no seu trabalho de missão crítica em vez de se concentrarem na origem das doações do próximo ano.  Se um financiador só pode oferecer doações restritas a projetos, torná-las plurianuais e garantir que cobrem os custos reais diretos (incluindo salários do pessoal) e indiretos da entrega do impacto (tais como alugueis de escritórios e equipamento).  Considerar providenciar mais do que o suficiente para que estes custos permitam que as organizações sem fins lucrativos aumentem um excedente e reservas.

2 – Investir na Capacitação.  Boas ideias não são suficientes.  Ajude os seus parceiros de programa a construir a capacidade organizacional central e a responder ao que eles dizem que mais precisam.  As organizações sem fins lucrativos precisam construir um conjunto diversificado de capacidades, seja na sua organização ou através dos seus parceiros, para trazer força coletiva e sustentabilidade ao seu trabalho ao longo do tempo.  Os financiadores que impõem restrições aos custos gerais limitam a capacidade das organizações para alcançar um impacto social ótimo.

3 – Redes de Fundos: As redes são ferramentas nas nossas caixas de equipamentos de mudança social que apoiam as partes interessadas a tomar medidas de colaboração e a desenvolver iniciativas estratégicas que incluem múltiplos atores que fazem parte da solução.  As redes são também uma excelente fonte de capacitação para os participantes, incentivando a colaboração, experimentando novas abordagens, e permitindo que as correções de curso aconteçam de forma mais rápida e eficiente.  Investir em infraestrutura e capacidade de coordenação das organizações para colaborar, construir redes, e trabalhar em conjunto de forma mais eficiente e eficaz.

4 – Criar Relações Transformativas ao invés de Transacionais: Precisamos evoluir a partir das relações de poder corrosivo que têm caracterizado muitas interações entre financiadores e beneficiários até hoje. Para alcançar a mudança transformacional, precisamos praticar um modelo de parceria em que todos nós trazemos ativos e doações para a mudança em questão. O dinheiro é um desses ativos, tal como o conhecimento da comunidade, o poder das pessoas, as relações, os conhecimentos, o poder econômico e o poder político. O trabalho eficaz de mudança dos sistemas depende de todos estes trunfos.  Requer também sensibilidade partilhada para ouvir, aprender, humildade, e colaboração. Os financiadores podem abdicar de parte do seu poder para construir o nosso poder coletivo para o impacto.

5 – Construir e Partilhar Poder: Os líderes sem fins lucrativos e de movimento não têm estado tradicionalmente presentes em salas onde governos e empresas tomam grandes decisões estruturais. Isto é especialmente verdade para organizações lideradas por pessoas negras, indígenas e de outras etnias, bem como para as lideradas por mulheres, jovens e pessoas com deficiência.  Os financiadores podem ajudar a reequilibrar estas injustiças. Podem consegui-lo através da partilha do poder com e da construção de poder para o setor social, dando mais recursos diretamente a nível local à organizações com liderança local e propriedade local, e fazendo investimentos mais robustos em organizações conduzidas por líderes de cor próximos.  É necessário conceber estruturas e espaços mais inclusivos para a tomada de decisões. Estes espaços devem encorajar o apoio geral ao funcionamento e ao desenvolvimento de capacidades para ajudar os líderes a ganhar políticas e práticas que façam avançar os ODS na sua arena de influência.  É também importante que os financiadores estejam abertos ao financiamento de novos empresários sociais e jovens empresários em início de carreira.

6 – Sejam transparentes e reativos: Traga humildade à sua concessão e reconheça os desequilíbrios de poder nas suas relações com os parceiros do programa. Comunique a sua viagem de equidade com os seus beneficiários. Seja absolutamente claro quanto às suas prioridades e expectativas.  Seja rápido a dizer não, se não for um bom ajuste, e responda em tempo hábil. A urgência dos nossos desafios não exige menos de todos nós.

7 – Simplificar e agilizar a papelada: As organizações sem fins lucrativos passam muito tempo redigindo propostas de doações, relatórios para satisfazer os requisitos dos financiadores, ao mesmo tempo que realizam o difícil trabalho de alteração dos sistemas e cumprem as condições regulamentares. Os financiadores podem ajudar a devolver tempo, simplificando os processos de candidatura, coordenando com outros doadores a due diligence e relatórios, e alinhando os relatórios com uma mentalidade de mudança de sistemas.  A elaboração de relatórios sobre o trabalho de mudança de sistemas é muitas vezes mais complexa e matizada do que a listagem de resultados a curto prazo ligados a projetos individuais. Como métodos adicionais de avaliação do impacto, os financiadores podem estar mais abertos a histórias como exemplos de progresso. Podem perguntar aos beneficiários quais as mudanças no sistema veem ao longo do tempo, e podem falar com os beneficiários sobre o que está funcionando nos seus esforços e o que não está.

8 – Oferecer apoio para além do cheque: Os financiadores têm mais para oferecer do que apenas dinheiro. Seja um conector.  Faça ligações úteis para os parceiros beneficiários a outros possíveis financiadores e organizações de pares, seja curioso e atento às suas necessidades, e crie oportunidades para os mostra-los e mostrar seu trabalho em canais a que tenha acesso.  Apoie redes que construam ligações fortes e forneçam plataformas de colaboração em vez de competição.

9 – Colaborar com outros financiadores: Tal como as organizações sem fins lucrativos precisam tecer redes para alcançar escala, os financiadores precisam construir ecossistemas de investidores no trabalho de mudança de sistemas. Partilhar conhecimentos, conexões e expertise com outros doadores; aumentar a eficiência através de ações coordenadas; abrir portas para os seus beneficiários e caminhar juntos como parceiros.  Ligue-se aos financiadores que estão investindo em áreas semelhantes e responsabilizem-se uns aos outros por pensarem amplamente sobre o seu ecossistema de financiamento e por terem a intenção de incluir líderes e organizações que, histórica e sistemicamente, têm tido dificuldades em acessar os fundos dos doadores.

10 – Adote uma Mentalidade Sistêmica em suas Doações: Os financiadores devem abraçar uma mudança de mentalidade dos sistemas com os seus beneficiários para abordar o(s) problema(s) prioritário(s) escolhido(s).  O objetivo geral é mudar significativamente as condições que mantêm o problema no lugar.  Isto implica identificar, compreender, e abordar as causas profundas do(s) problema(s) que está(ão) a abordando.  Esta mentalidade estende-se também a pensar de forma diferente sobre a avaliação e compreensão do impacto num horizonte a mais longo prazo.  Muitos financiadores podem apontar para alguns destes princípios onde estão liderando ou fazendo progressos.  No entanto, um progresso parcial, embora valha a pena, não será suficiente se quisermos responder à urgência das complexas necessidades às quais nos deparamos.  Apelamos aos líderes do setor filantrópico e aos diferentes tipos de financiadores para que se comprometam a adotar todos estes princípios de forma significativa dentro das suas organizações, de modo que o nosso compromisso partilhado e a nossa capacidade de alcançar uma mudança social duradoura seja acelerada.Especificamente, pedimos aos financiadores que se comprometam com os seguintes passos concretos e práticos para mostrar o seu apoio a estes princípios:

1 – Tomemos o Diagnóstico do Financiador/Doador sobre a mudança dos sistemas de financiamento, encontrado aqui https://bit.ly/3qLJTt1. Esta é uma ferramenta abrangente concebida para apoiar e informar a trajetória de mudança para mais filantropia baseada em mudanças de sistemas.  Desenvolva ações concretas que tomarão como base as recomendações da ferramenta, trabalhe para melhorar a sua pontuação durante o próximo ano ou dois, e comprometa-se a retomar o Diagnóstico de Financiador/Doador para avaliar o seu progresso.

2. Faça mudanças para os elementos-chave da mudança dos sistemas de financiamento, tais como o aumento do financiamento concedido a grupos que utilizam abordagens de mudança de sistemas, o aumento do percentual das suas doações que fornecem apoio central sem restrições, e o aumento do percentual das suas doações que são compromissos de financiamento plurianuais.

3. Revisite e racionalize os seus processos de concessão de doações.  Identifique pelo menos uma forma de incorporar mais perspectivas ou informações de líderes próximos para ajudar a moldar as suas decisões de doações.

4. Responsabilize-se por estes princípios, convidando regularmente os seus beneficiários a darem o seu feedback, quer seja através de uma pesquisa anônima aos beneficiários que desenvolve, um Relatório de Percepção do Beneficiário, uma pesquisa aos funcionários, ou outros mecanismos de feedback que crie para convidar a participação.   *Muitos dos princípios desta carta são derivados de três fontes: Embracing Complexity, um relatório colaborativo da Catalyst 2030, Ashoka e McKinsey & Company que refletiu as perspectivas de muitos empresários sociais em todo o mundo; The Trust Based Philanthropy Project; e os princípios da Filantropia Baseada na Equidade Racial.Estamos ansiosos para trabalhar com você em nossa jornada compartilhada para criar soluções duradouras para muitos dos maiores problemas que as pessoas e o planeta enfrentam hoje.

 

Você concorda com esses princípios? Assine já. 

 

O IDIS é membro fundador do Catalyst 2030 Brasil.

Voluntariado nas respostas às crises de emergência

Por Monica Exelrud Villarindo, especialista em gestão de voluntários e voluntariado em desastres. Foi diretora do Programa de Voluntários da Cruz Vermelha Americana e coordenadora do Programa de Voluntariado da ONU-Organização das Nações Unidas no Brasil. 

Os voluntários são indivíduos que desejam participar e colaborar com o bem-estar da sua comunidade local e global. Atualmente, não existem fronteiras para o voluntariado. Os voluntários são pessoas que têm empatia e sentem o dever de ajudar aqueles que estão em situação de risco, desigualdade, emergência ou simplesmente desejam ser úteis à sociedade. Os voluntários de desastres, sejam os que respondem a emergências naturais ou causadas pela humanidade, são pessoas que estão prontas, em um piscar de olhos, a enfrentar situações de risco e a dar o seu máximo para salvar ou aliviar o sofrimento de outras vidas. Os voluntários são a espinha dorsal das respostas emergenciais e tem a capacidade de mobilizar grandes números de pessoas rapidamente.

O voluntariado brasileiro vem crescendo a cada ano e demonstrando sua capacidade de se mobilizar rapidamente mediante às inúmeras emergências que ocorreram nos últimos anos. Os voluntários são a chave para trazer alívio e conforto para as vítimas de desastres e emergências humanitárias. Eles se mobilizam para ajudar a resgatar vítimas, alimentar as vítimas e os socorristas, coletar e trazer doações, dar assistência médica e psicológica, etc. São inúmeras as áreas de colaboração dos voluntários e, muitas vezes, eles até abrem suas casas para abrigar as vítimas. 

O voluntariado tem sido essencial nas respostas das crises de emergência no Brasil, mas ainda existe uma grande desorganização nesse modelo de assistência. A maioria das pessoas sente a necessidade de ajudar, quer ajudar, mas não sabe como e aonde ir para colaborar de uma forma estruturada: simplesmente se jogam para fazer o que acham ser o necessário e muitas vezes isso traz duplicidade de trabalho, tumulto e pode atrapalhar o trabalho dos socorristas. 

Não existe metodologia e rede estruturada de voluntariado para responder a emergências e desastres humanitários, e não existe uma coordenação por parte dos governos locais. As emergências e desastres, mesmo de forma organizada, são um caos e difíceis de responder; o sofrimento se torna ainda maior quando esta assistência é desordenada.

Na última década, houve certo avanço do voluntariado para situação de emergência no Brasil, pois a cultura do voluntariado se expandiu na sociedade brasileira e várias organizações da sociedade civil estão mais aptas a agir rapidamente e tem sido essencial para a assistência imediata das vítimas. Já há uma sensação de que as consequências da crise climática e do aquecimento global estão no nosso dia a dia e as pessoas estão mais alertas a ajudar em casos de emergência, mas isso não quer dizer que estejam mais preparadas. Pode-se e deve-se preparar as comunidades para estarem organizadas a responderem prontamente e adequadamente a desastres.

As doações também são essenciais nas emergências e, muitas pessoas, encontram nas doações a melhor forma de ajudar, mas isso também demanda coordenação, espaço correto de armazenamento, triagem, local e organização da distribuição e, inclusive, o diagnóstico correto das demandas e necessidades. Doações descoordenadas também podem causar mais caos. Foi o que aconteceu nas enchentes de 2022, na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Muitas roupas doadas foram deixadas em um local inadequado, tornaram-se um risco à saúde pública e foram queimadas por ordem judicial. Acabou sendo um desperdício de logística e de trabalho voluntário. 

Em emergências, as doações são extremamente necessárias e, assim como o voluntariado, é necessário ter planejamento para o recebimento desta ajuda, para que assim não seja desperdiçada. Muitas vezes o próprio voluntariado pode organizar as doações financeiras, elas são eficientes, pois ajudam a comprar o que realmente é necessário para as vítimas, evitam grandes despesas de logística e, principalmente, ajudam a economia local a se restabelecer após o desastre. 

Os voluntários são vitais para as respostas a emergências de qualquer natureza. Precisamos estar conscientes do valor imensurável dessa ajuda e priorizar a organização, a orientação, a valorização e o apoio a estes fantásticos colaboradores.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Acesse o site da Pesquisa Voluntariado no Brasil

Os valores humanos da década do voluntariado

Por Maria Elena Pereira Johannpeter, empreendedora social, inovadora e reconhecida por diversas premiações nacionais e internacionais, fundadora da Parceiros Voluntários Rio Grande do Sul e uma das coordenadoras da Década do Voluntariado. 

“Quando estamos conectados com os valores humanos e espirituais, começa uma verdadeira aventura, a satisfação de sermos nós mesmos e de podermos usar nossas aptidões para ajudar outras pessoas. São experiências gratificantes. É isso que nós, os voluntários, fazemos: disponibilizamos nossa energia e aptidões pessoais como um pequeno presente para o mundo e o que recebemos como retorno vai além das palavras.” Flávio Lopes Ribeiro, brasileiro, coordenador do Projeto do Voluntariado da Organização das Nações Unidas (ONU) em El Salvador. 

As celebrações pelo décimo aniversário do Ano Internacional dos Voluntários (AIV+10) culminaram, na Assembleia Geral das Nações Unidas, com o lançamento do primeiro exemplar do Relatório Mundial do Voluntário.

Asha-Rose Migiro, vice-secretária-geral da ONU, em nome do secretário-geral Ban Ki-moon, reconheceu a dedicação dos voluntários e seus esforços para cumprir os objetivos da ONU. “Como a população mundial já ultrapassou os sete bilhões”, declarou, “precisamos estimular o potencial de todas as pessoas para que colaborem com as questões voluntárias”. 

Enfatizando a contribuição do voluntariado para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e requerendo pessoas concentradas em uma abordagem holística, na Resolução A/RES/66/67, a Assembleia Geral da ONU estabeleceu o caminho para o futuro do voluntariado. A resolução ressalta a importância da participação de pessoas e de empresas para a obtenção do desenvolvimento sustentável. 

A coordenadora executiva, Flávia Pansieri, declarou que o objetivo principal das celebrações de 2011 foi promover uma mudança: o voluntariado deixou de ser considerado como fator secundário e passou a ser reconhecido como caminho principal.

Na Assembleia Geral da ONU, foi lançado o primeiro documento sobre a situação do voluntariado global, o “Relatório sobre a Situação do Trabalho Voluntário – Universal Values for Global Well-being (Valores Universais para o Bem-estar Global)”. Helen Clark, administradora do Programa de Desenvolvimento da ONU (United Nations Development Program – UNDP), observou que há elos muito fortes entre o voluntariado, a paz e o desenvolvimento humano, os quais ainda não foram amplamente reconhecidos pelos Governos.

Nessa década, é criada a Rede Brasil Voluntário. Os Centros de Voluntariado integrantes da Rede Brasil Voluntário (RBV) eram: Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo.  A Rede Brasil Voluntário e a Rede Paulista de Centros de Voluntariado se uniram, em 2011, e organizaram, além da Pesquisa, a Conferência Internacional do Voluntariado, tendo como parceiro o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Programa de Voluntariado das Nações Unidas (VNU). A Conferência ocorreu em paralelo à feira ONG Brasil 2011 e proporcionou um ambiente de diálogo e articulação intersetorial. Mais de 500 organizações de todos os estados brasileiros e redes de apoio ao voluntariado da Argentina, Colômbia, Peru, Panamá, Chile e Uruguai marcaram presença no evento das comemorações da Década do Voluntariado, em São Paulo.

Certamente, o maior legado foi a Pesquisa Voluntariado no Brasil 2001+10, organizada pela Rede Brasil Voluntário. Realizada pelo IBOPE Inteligência, a pesquisa mostrou que um em cada quatro brasileiros com mais de 16 anos já fez ou faz trabalho voluntário, ou seja, eram cerca de 35 milhões de pessoas em ação. 

As entrevistas foram realizadas com 1.550 voluntários, nas regiões Nordeste, Norte/Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país e apontaram que:

  • 25% da população faz ou fez serviço voluntário;
  • A maioria (67%) dos que fazem serviço voluntário trabalha;
  • A dedicação ao serviço voluntário é de 4,6 horas/mês, em média;
  • 39% realizam o serviço voluntário com crianças e adolescentes;
  • 62% dos voluntários usam a internet e 53% participam de redes sociais.

Atualmente, em 2022, o Voluntariado já está implantado na cultura brasileira, tanto no comportamento quanto nas leis brasileiras. Além da Lei 9608/98, que reconhece o Serviço Voluntário, em 2014, a Lei 13.019, criou os instrumentos jurídicos: o Termo de Fomento, o Termo de Colaboração e o Acordo de Colaboração. O Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC) veio aperfeiçoar o ambiente jurídico e institucional das OSCs e suas relações e parcerias com o Estado.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

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Potencialidades e complexidades do voluntariado

Por José Alfredo Nahas, superintendente da Organização Não Governamental Parceiros Voluntários, líder da equipe Executiva.

Estamos olhando do jeito certo para o voluntariado? Se você gosta de cinema, provavelmente já fez esse exercício: depois de assistir a um filme, chegou em casa, leu uma ou mais resenhas a respeito dele e, nessa pesquisa, descobriu que a obra era muito mais profunda e incrível do que pareceu na primeira vez.

Normal. Nem sempre o maior valor das coisas está na superfície visível. É preciso de tempo, de vivência e de experimentar diferentes perspectivas para enxergar todas as faces de um trabalho. 

Essa dinâmica, aliás, não se limita à arte. E é justamente por isso que vou tomar o raciocínio emprestado para tratar de um tema completamente diferente, mas que também precisa de um segundo olhar para ser bem compreendido: o voluntariado.  

Provavelmente, não há nenhum entre os 209 milhões de brasileiros que veja o trabalho voluntário de forma negativa. As pessoas reconhecem o valor que existe em alguém disponibilizar o seu tempo, conhecimento e emoção para o bem do outro sem pedir nada em troca. 

No imaginário coletivo, contudo, o voluntariado surge muitas vezes como uma boa ação eventual e voltada a tarefas de baixa complexidade operacional. É o caso clássico de mutirões para pintar as paredes de uma escola, recolher o lixo após um evento ou fazer reparos técnicos em uma organização social. 

Não há nada de errado com as ações desse tipo. O problema está em retratá-las de forma caricatural, simplista, e depois usar a caricatura como representação universal do trabalho voluntário. 

É desse percurso que nasce a ideia perigosa de que o trabalho voluntário é uma ação nobre, mas de baixo impacto e sem valor estratégico. Essa visão não é só equivocada: é injusta, porque desvaloriza o esforço de milhares de organizações e de milhões de pessoas engajadas na causa. 

Aqui, há duas distinções fundamentais a fazer:

Primeiro, separar o voluntariado de ocasião do voluntariado organizado. Esse último, à diferença do que pode sugerir o senso comum, é empreendido com metodologia, estratégia, comprometimento e visão de médio e longo prazo. Implica diálogo intenso com a comunidade e escolha criteriosa do que, quando e como fazer para gerar alto impacto. 

Segundo,identificar a potência dos programas de trabalho voluntário não apenas como atividade fim, mas como atividade meio. Essa é a parte menos óbvia e que exige mais atenção e reflexão. 

Quando uma empresa, por exemplo, mobiliza um mutirão de voluntários para pintar as paredes de uma escola, é mais fácil enxergar o impacto da ação como uma atividade fim. Na primeira batida de olho, já se percebe a nobreza da atitude das pessoas que colaboraram e os benefícios pontuais de ter uma escola de cara nova e mais convidativa. 

Assim como no Cinema, contudo, o valor das coisas não se esgota na superfície visível. Por trás daquela tarde de trabalho, provavelmente há uma empresa ou organização da sociedade civil que desenvolveu uma iniciativa muito mais ampla – com a criação de um comitê de voluntariado, entrevistas com colaboradores, capacitação, processos de escuta com a comunidade, formação de parcerias e muito mais. 

Ao longo deste trabalho continuado e organizado, mas distante dos holofotes, é seguro dizer que o empreendimento gerou um enorme valor para a sociedade e para todos os envolvidos, ainda que de outra natureza. 

O voluntariado, quando entendido como meio, é uma estratégia poderosa para criar e disseminar conhecimento, articular redes de cooperação, estabelecer relações de qualidade entre diferentes atores, engajar os mais variados públicos e despertar o espírito cidadão e o empreendedorismo social nas pessoas.

Em resumo, é uma alavanca eficiente particularmente para empresas que querem melhorar relacionamento com comunidades e com seus colaboradores, além de ajudar a desenvolver territórios. E, também, uma forma comprovada de fortalecer a teia social do País.   

Nada disso, diga-se, é trivial. Afinal, uma empresa é incapaz de prosperar no longo prazo se não cultivar boas relações dentro e fora das suas dependências; e, para enfrentar seus principais desafios, um país precisa de um tecido social forte e coeso, em que o governo, empresas, OSCs, escolas e indivíduos somem forças para aplacar as vulnerabilidades da população. Apenas juntos podemos endereçar certas conquistas como nação. 

Reconhecer a complexidade do voluntariado e investir nas suas potencialidades, portanto, é muito mais do que um aprendizado. É muito mais do que um segundo olhar para ampliar a compreensão. É um ato de cidadania, em que todos ganham e ninguém perde.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

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O papel do voluntário nas situações emergenciais

Por Leonard de Castro Farah, Capitão BM, cofundador da HUMUS BR, especialista em Redução de Risco e Desastres pela ONU e UNESCO.

Não se trata de você! Atualmente, estamos vivenciando um processo intenso de desastres relacionados a eventos naturais extremos no Brasil. Fortes chuvas, grandes deslizamentos, rupturas de barragens, muitas vezes associadas a pequenos sismos, grandes incêndios florestais. Todos esses eventos estão cada vez mais frequentes e preocupam muito a todos da sociedade, já que eles, assim como um vírus, não escolhem quem vão atingir.

Recentemente, vimos em Petrópolis uma cidade inteira ser devastada por um dia de chuva forte. E não foi só o morador em situação de risco que foi atingido: foi toda uma sociedade. 

O grande problema começa após a eclosão. O caos se instala! É inerente ao ser humano querer ajudar, a vontade de fazer algo, de partir para a ação, que parece, num primeiro momento, ser o melhor a ser feito, tem consequências desastrosas. O Sr. João sai da sua casa em seu carro e, sem saber das necessidades, recolhe roupas usadas, alguns quilos de alimento não perecíveis, produtos de higiene e vai para a cidade.

Chegando na cidade devastada, após percorrer vários quilômetros, tem que abastecer. Vai para um hotel e tenta encontrar um restaurante para comer algo. Quase todos fechados, pois os que não foram atingidos diretamente pelo evento não abriram, já que seus funcionários morreram, estão desaparecidos ou não foram trabalhar, pois perderam parentes e amigos e estão tentando entender todos os danos causados na cidade. Com fome, ele vai ao supermercado da cidade: poucos estão abertos e ele tenta comprar algo para comer, mas as filas longas das pessoas desesperadas já se formam. Ele fica horas ali para comprar um simples lanche e sai rodando a cidade sem saber onde entregar as doações. 

Não acha nenhum posto de recolhimento e acaba se dirigindo a um quartel de bombeiro ou a um posto policial. Lá, não tem praticamente ninguém, somente uma pessoa para tentar orientar aqueles que chegam. Sem ter estrutura para receber os materiais, ele pede que aquele voluntário deixe as doações ’Naquele canto ali mesmo’.

Está formado o ciclo do Caos. Iguais ao senhor João existem milhares que fazem a mesma coisa, lotando os hotéis, acabando com o combustível da cidade e comprometendo a logística, já que carretas não chegam por conta dos deslizamentos. As pessoas que perderam as casas não têm para onde ir, devido aos hotéis lotados de turistas do caos. Falta abastecimento de água na cidade, o lixo não é recolhido, doenças começam a se proliferar.

As pessoas precisam compreender que não se trata do que você quer fazer, mas, sim, do que a cidade precisa. Muitas vezes, a logística para se encher um carro com água e levar até uma cidade a 500 km de distância é muito mais prejudicial do que se você doasse o valor do combustível para uma instituição que você confia.

As ações de doações podem, sim, atrapalhar. Imagine toneladas de roupas espalhadas sem organização alguma, sujas e ficando num canto qualquer. Não adianta recolher os alimentos em um local se você não tem como fazer o escoamento para onde precisa.

O voluntário precisa entender qual é o seu papel no ciclo do desastre e onde está a lacuna que ele pode preencher. O caos se dá pelo fato de que a oferta de produtos é menor do que a demanda ou porque os produtos não chegam e os sistemas de fornecimento de insumos básicos são interrompidos ou porque há um crescimento vertiginoso das pessoas no local. Isso, por exemplo, é o que acontece com a questão dos refugiados.

Portanto, ajudar em um desastre requer qualificação, treinamento e, acima de tudo, um entendimento do que deve ser feito em todas as etapas de resposta, reconstrução, preparação e capacitação.

Por mais que tenhamos receio de doar quantias em dinheiro, temos que refletir que instituições sérias irão utilizar esses recursos da melhor maneira para socorrer quem precisa.

O voluntariado no Brasil para situações de desastres ainda é muito incipiente e se resume à doação de cestas básicas, geladeiras, fogões e outros materiais. As pessoas precisam entender que os eventos naturais continuarão a acontecer e irão, cada vez mais, prejudicar as comunidades vulneráveis. Diminuir a exposição e vulnerabilidade é fundamental. 

Ser voluntário é doar de coração para que a sua ajuda possa fazer a diferença na vida de quem precisa. É colocar em mente que não se trata do que você quer, e sim do que o outro precisa.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

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WGI 2021 mostra as mudanças no mapa de doações no mundo

Pela primeira vez, 5 das principais economias ocidentais saíram do Top 10 dos países
mais generosos. Por outro lado, houve recorde no número de pessoas que ajudaram um desconhecido: mais de 3 bilhões de pessoas.

Acesse a pesquisa completa do World Giving index 2021 gratuitamente clicando aqui.

 

Segundo o World Giving Index (WGI) o país mais generoso em 2021 é a Indonésia, com uma pontuação de 69, acima dos 59 na última vez em que um Índice anual foi publicado em 2018, quando também ficou em primeiro lugar. Mais de oito em cada 10 indonésios doaram dinheiro este ano e a taxa de voluntariado do país é mais de três vezes a média global. Em segundo lugar vieram o Quênia e em terceiro a Nigéria.

 

O Ranking Global de Solidariedade é uma iniciativa da organização britânica Charities Aid Foundation (CAF), representada no Brasil pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social. Conduzido desde 2009, já entrevistou mais de 1,6 milhão de pessoas e faz a cada uma delas três perguntas: você ajudou um estranho, doou dinheiro a uma organização social ou fez algum tipo de trabalho voluntário no mês passado? Nesta edição, foram incluídos os dados de 114 países, representando mais de 90% da população adulta global. Foram entrevistadas pessoas acima de 15 anos, nível de confiança da pesquisa é de 95%.

 

A pesquisa deste ano destaca o impacto do lockdown em países que por anos lideraram o ranking da generosidade:  Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Irlanda e Países Baixos tiveram todos uma queda significativa em suas pontuações. Apenas Austrália e Nova Zelândia, onde a pesquisa foi realizada nas semanas anteriores ao início da primeira onda da pandemia, mantiveram-se entre as 10 primeiras colocações.

 

Confira o gráfico dos países mais generosos do mundo. (Fonte: World Giving Index 2021)

 

Um ponto a se destacar em tempos de coronavírus, é o número recorde de pessoas que relataram que ajudaram um desconhecido em 2020. Segundo a CAF, 55% da população adulta do mundo ajudou um desconhecido no ano passado, o equivalente a mais de 3 bilhões de pessoas. Seis dos 10 países que mais se destacaram em relação a esta variável estão localizados na África.

 

Também cresceu o número de pessoas que doaram dinheiro em 2020, atingindo o maior patamar nos últimos cinco anos – 31% -, enquanto os níveis de voluntariado em 2020 permaneceram relativamente inalterados em nível global.

 

Neste ano, o Brasil ficou em 540 lugar no ranking, subindo 14 posições em relação aos dados de 2018 e 20 posições em relação a sua posição média nos últimos 10 anos.

 

Segundo Paula Fabiani, CEO do IDIS “A generosidade no mundo aumentou, em especial nas economias com pessoas em situação de maior vulnerabilidade. Este movimento de cuidar do próximo e realizar doações precisa continuar para enfrentarmos os efeitos perversos da pandemia e acelerar a melhoria do bem-estar de quem mais precisa”.

 

Para Neil Heslop, diretor executivo da CAF, o World Giving Index deste ano revela o potencial não aproveitado de apoio às organizações sociais como resultado do lockdown em todo o mundo, em especial nos países desenvolvidos.

 

Para ele, a generosidade sem dúvida salvou muitas vidas, mas para instituições sem fins lucrativos que dependem de eventos de arrecadação de fundos, de doações espontâneas em dinheiro ou de um exército de voluntários, o fechamento de economias teve um impacto profundo e será duradouro.

 

A CAF ainda destaca no relatório deste ano que ainda há um grande trabalho a ser feito para reconstruir sociedades devastadas pela perda de recursos para as organizações sociais.

DESTAQUES DA EDIÇÃO

  • Vários países subiram no índice e fizeram sua primeira aparição no top 10, incluindo Nigéria, Gana, Uganda e Kosovo – mas embora suas pontuações gerais de doações tenham aumentado um pouco, sua ascensão no Índice foi impulsionada também pelo declínio de outros países.

 

  • Comunidades em todo o mundo se mobilizaram para ajudar os cidadãos conforme a pandemia se instalou, resultando nos maiores números de ‘ajudou a um estranho’ desde que o índice foi lançado pela primeira vez em 2009.

 

  • Mais da metade (55%) dos adultos do mundo – ou 3 bilhões pessoas – relataram ajudar alguém que não conheciam em 2020. O Brasil atingiu seu recorde neste indicador, com 63% de brasileiros ajudando um estranho.

 

  • Da mesma forma, mais pessoas doaram dinheiro em 2020 do que nos últimos cinco anos (31%). O Brasil também teve o seu melhor percentual dos últimos 5 anos com 26% brasileiros doando para uma organização.

 

  • Os níveis de voluntariado em 2020 permaneceram praticamente inalterados em nível global, assim como no Brasil (15%).

 

  • O Japão ocupou o último lugar do WGI, como o país menos generoso do mundo.

 

  • No relatório especial do 10º aniversário do WGI, divulgado em 2019, os Estados Unidos da América foram o país mais generoso do mundo na década anterior e sete das 10 nações mais generosas estavam entre as mais ricas do mundo.

 

Acesse a pesquisa completa do World Giving index 2021 gratuitamente clicando aqui.

 

 

Confira os resultados da Pesquisa Doação Brasil 2020

Promovida pelo IDIS, a Pesquisa Doação Brasil 2020 é o mais amplo estudo sobre a prática da doação individual no País. Os resultados da segunda edição, realizada pelo instituto de pesquisas Ipsos, revelam o impacto da longa crise econômica e da pandemia sobre a doação dos brasileiros. Ao comparar os dados de 2015 com os de 2020, vemos que a doação encolheu no Brasil, em todas as suas formas, desde a doação em dinheiro, até a doação de bens e de tempo (trabalho voluntário).

 

Baixe a publicação completa: bit.ly/doacaobr2020

Visite o site pesquisa: https://pesquisadoacaobrasil.org.br

 

Enquanto em 2015, 77% da população havia feito algum tipo de doação, em 2020, o percentual ficou em 66%. Quando se trata de doação em dinheiro, a proporção caiu de 52% para 41%. E no caso de doações para organizações/iniciativas socioambientais, a redução foi de 46% para 37%.

Sobre os achados da Pesquisa, Paula Fabiani, CEO do IDIS, comenta: “Apesar da queda das doações, a Cultura de Doação se fortaleceu nos últimos cinco anos. A sociedade está mais consciente da importância da doação e tem uma visão muito mais positiva das organizações da sociedade civil e seu trabalho. As classes mais privilegiadas demonstraram maior grau de solidariedade e responderam à crise de 2020 doando mais.

Cerca de 650 pessoas acompanharam o evento de lançamento pelo Zoom e ao vivo pelo YouTube do IDIS. Desde então, a pesquisa tem sido destaque na imprensa nacional.

Assista ao evento de lançamento na íntegra:

 

Pesquisa Doação Brasil 2020

 

INFLUÊNCIA DA RENDA

Ao analisar a composição dos dados, fica claro que as alterações se deram por conta da prolongada crise econômica dos últimos anos, agravada pela pandemia e pelo cenário de incerteza para o futuro. Observamos que a doação de dinheiro para organizações/iniciativas socioambientais encolheu muito entre as classes menos favorecidas (de 32% para 25% entre 2015 e 2020, na faixa com renda familiar até 2 salários mínimos) e cresceu significativamente entre as classes com mais alta renda (de 51% para 58%, nas classes com renda familiar entre 6 e 8 salários mínimos, e de 55% para 59% entre as classes com renda familiar acima de 8 salários mínimos). Essas classes doaram mais em 2020 do que haviam feito em 2015.

 

VALOR DA DOAÇÃO

Em 2020, menos brasileiros doaram a organizações da sociedade civil e o valor doado caiu. Em 2015, a mediana* do valor anual doado por pessoa era de R$ 240 e em 2020, caiu para R$ 200.

Essa redução teve forte impacto sobre o montante total das doações. Em 2015, o valor total doado pelos indivíduos foi de R$ 13,7 bilhões, o que correspondia a 0,23% do PIB. Em 2020, somou R$ 10,3 bilhões, equivalentes a 0,14% do PIB desse ano.

(*) A mediana é preferida para estimar o valor total doado porque ela considera os valores mais praticados pela sociedade e despreza os valores extremos, ou seja, as doações muito altas ou muito baixas, que deturpam a média.

 

CAUSAS MAIS SENSIBILIZADORAS

O efeito da pandemia mudou as prioridades dos brasileiros, quando se trata de causas. Enquanto em 2015 Saúde e Crianças ocupavam os primeiros lugares na preferência dos brasileiros, em 2020, o Combate à Fome e à Pobreza foi citado por 43% da população como sendo a causa mais sensibilizadora, seguida por Crianças, Saúde e Idosos.

Duas outras causas também ganharam muitos adeptos nos últimos cinco anos – o Combate ao Abandono e Maus-tratos de Animais, e os Moradores de Rua. Ambas haviam pontuado muito pouco em 2015, mas aparecem no ranking de 2020, em quinto e sexto lugar, respectivamente.

 

PERCEPÇÃO SOBRE A DOAÇÃO

Apesar do encolhimento na prática, a população brasileira vê de forma cada vez mais positiva a doação. Mais de 80% da sociedade acredita que o ato de doar faz diferença, e entre os não doadores, essa concordância atinge 75%.

O conceito de que a doação faz bem para o doador cresceu significativamente, de 81% para 91% da população, atingindo uma maioria quase absoluta.

Outro aspecto positivo é que a ideia de que o doador não deve falar que faz doações está perdendo força. Em 2015, ela contava com a concordância de 84% da população e, em 2020, o percentual caiu para 69%. Este é um ponto especialmente importante porque o falar sobre a doação estimula sua prática, traz inspiração, esclarece temores e desperta o interesse de outras pessoas.

 

PERCEPÇÃO SOBRE AS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL

A opinião dos brasileiros sobre as organizações da sociedade civil, mais conhecidas como ONGs, evoluiu muito nos últimos cinco anos.

A noção de que as ONGs são necessárias no combate aos problemas socioambientais recebe a adesão de 74% da população, enquanto em 2015, essa concordância estava em 57%.

A afirmação ‘Percebo que a ação das ONGs leva benefícios a quem realmente precisa’ conta com a concordância de 67% da população, e em 2015, esse índice era de 47%.

O reconhecimento de que as ONGs fazem um trabalho competente é indicado por 60% da população, e em 2015, só 44% pensavam desse modo.

O maior destaque, porém, fica com o crescimento da confiança nas ONGs. 45% da população concorda que as ONGs deixam claro o que fazem com os recursos que aplicam. Em 2015, apenas 28% se mostravam de acordo com a afirmação.

OUTROS DESTAQUES

A longa crise econômica que o País atravessa afetou muito as doações;

Parte da população mais pobre, que doava em 2015, deixou de doar e passou a precisar de doações;

Em compensação, as classes de maior renda doaram mais em 2020 do que em 2015;

A doação é vista de forma muito positiva pela população como um todo, e aumentou a percepção de que as pessoas devem falar que fazem doação;

A imagem das ONGs melhorou muito junto à sociedade brasileira.

 

Baixe a publicação completa: bit.ly/doacaobr2020

Visite o site pesquisa: https://pesquisadoacaobrasil.org.br

 

Escute também o podcast “Aqui se Faz, Aqui se Doa” sobre a pesquisa:

REALIZADORES E APOIADORES

A Pesquisa Doação Brasil é uma iniciativa coordenada pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, realizada pela Ipsos e com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento BID, Fundação José Luiz Egydio Setúbal, Fundação Tide Setúbal, Instituto ACP, Instituto Galo da Manhã, Instituto Mol, Instituto Unibanco, Itaú Social, Mercado Pago e Santander.

Pesquisa Voluntariado no Brasil 2011: uma década de voluntariado

O voluntariado faz parte da história do Brasil e tem suas raízes em 1543, na fundação da Santa Casa de Santos. Desde então, vem se transformando. As organizações se multiplicaram, a atividade foi regulamentada, empresas passaram a promover programas de voluntariado, a tecnologia permitiu a atuação dos voluntários à distância.

As pesquisas sobre voluntariado realizadas em 2001 e 2011 mostraram como o brasileiro é sensível ao tema do voluntariado e como tem o desejo de colaborar com causas comunitárias, faltando apenas as organizações se prepararem para recebê-los e aproveitarem todo o potencial que eles oferecem.

Certamente, o maior legado foi a Pesquisa Voluntariado no Brasil 2001+10, organizada pela Rede Brasil Voluntário. Realizada pelo IBOPE Inteligência, a pesquisa mostrou que um em cada quatro brasileiros com mais de 16 anos já fez ou faz trabalho voluntário, ou seja, eram cerca de 35 milhões de pessoas em ação. 

Baixe aqui os resultados da edição 2011 

 

Assista ao vídeo realizado em 2011, na comemoração da Década do Voluntariado.

 

Assista também ao evento de lançamento da pesquisa 2021:

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 é uma realização do IDIS e do Instituto Datafolha. Foi elaborada e coordenada por Silvia Naccache, com apoio dos consultores Kelly Alves do Carmo e Felipe Pimenta de Souza. Sua viabilização teve o suporte de organizações que acreditam na importância do avanço do voluntariado no Brasil, e participam dessa rede de apoiadores, Ambev, Bradesco, Fundação Itaú Social, Fundação Telefônica Vivo, Raízen, Sabesp, Sicoob e Suzano.

 

Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 | Artigos e Destaques

Para olhar mais de perto para os resultados da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, convidamos integrantes e especialistas do terceiro setor para contribuir expandindo e enriquecendo esse conhecimento através de artigos sobre a temática.

A série de conteúdos escritos busca analisar e compreender os achados do estudo. Confira:

*Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Confira outros conteúdos relevantes:

Tenha acesso a pesquisa completa, acesse o site: www.pesquisavoluntariado.org.br

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 foi elaborada e coordenada por Silvia Naccache, com apoio dos consultores Kelly Alves do Carmo e Felipe Pimenta de Souza

Para dúvidas relacionadas à pesquisa entrar em contato via pesquisavoluntariado2021@gmail.com

O voluntariado é inerente ao desejo humano de ajudar os outros sem benefícios pessoais

2001: o Ano Internacional do Voluntário

Por Heloisa Coelho, foi fundadora e diretora do Rio Voluntário, central de voluntários do Rio de Janeiro e coordenadora do Ano Internacional do Voluntário.

¨Houve um incêndio na floresta e, enquanto os bichos corriam apavorados, um beija-flor ia do rio para o incêndio levando uma gotinha de água no bico. O leão perguntou: ¨Ô beija flor, você acha que vai conseguir apagar o incêndio sozinho? E o beija – flor respondeu:¨Não sei se vou conseguir, mas estou fazendo a minha parte¨.

Essa fábula contada pelo sociólogo Herbert de Souza, o inesquecível Betinho, como metáfora da solidariedade é muito inspiradora e nos mostra que em momentos de crise humanitária as pessoas percebem a importância de contribuir e o Voluntariado ganha mais força, valor e visibilidade. Ao sair de sua zona de conforto e lidar com pessoas que têm problemas distintos dos seus, quebram-se paradigmas e preconceitos, a sociedade se oxigena e tem início o verdadeiro jogo do ganha-ganha social. 

O exercício do voluntariado é inerente ao desejo humano de ajudar outras pessoas sem exigência de benefícios pessoais. 

As Igrejas, de modo geral, foram fundamentais nesse processo de fomento à generosidade e à solidariedade, ao criarem instituições filantrópicas, que durante séculos lideraram ações voluntárias em prol dos mais necessitados. No Brasil damos como marco inicial do Voluntariado a fundação da primeira Santa Casa da Misericórdia, no ano de 1543, na Capitania de São Vicente, em São Paulo.

Em meados dos anos 80, um novo Voluntariado originário dos movimentos sociais e Organizações Não Governamentais (ONGs) surge no cenário nacional, culminando com o Programa de Voluntariado liderado pela Comunidade Solidária, organização do terceiro setor,  presidida pela Dra. Ruth Cardoso, que possibilitou a criação de Centros de Voluntariado (Centro de Voluntariado de São Paulo, Parceiros Voluntários, RIOVOLUNTÁRIO, dentre outros) em busca da melhoria da qualidade dos processos de gestão e promoção do voluntariado. Em 1998, é promulgada a Lei do Serviço Voluntário, Lei 9.608, garantindo a não vinculação empregatícia dos voluntários com as instituições sociais onde prestavam serviço. 

Em Resolução da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), assinada por 126 Estados-Membros, 2001 foi declarado Ano Internacional do Voluntário, dando o impulso definitivo para que o Voluntariado emergisse forte e organizado em todo o mundo.  O voluntariado é e sempre será unanimidade em tempos de polarização.

Com o surgimento de novas tecnologias e da internet, novas formas de participação cidadã foram oferecidas à população, ocasionando um aumento considerável do público masculino em ações voluntárias, que nos séculos anteriores haviam sido desempenhadas majoritariamente por mulheres. 

Temos testemunhado também o empenho de Empresas em enfrentar o desafio que os novos conceitos de Responsabilidade Social Empresarial (RSE) lhes impõem e demandam. O Voluntariado Empresarial nasce nesse ambiente comprometido com o diagnóstico e soluções para os graves problemas sociais brasileiros.

Regimes democráticos têm como premissa fortalecer a sociedade civil e motivá-la a participar das micro e macro decisões a serem tomadas no país. A igualdade de gênero, etnia, ao lado do respeito à liberdade de expressão, a opção sexual, política, entre outras, só prosperam por meio de uma participação ativa dos cidadãos, baseada na tolerância e na reciprocidade. 

O momento presente, pós-pandemia da covid-19, vem sendo considerado como favorável à retomada de um voluntariado comprometido e consciente, baseado nas iniciativas de sucesso das últimas décadas, que certamente permitirão à população brasileira colaborar mais efetivamente, por meio de ações voluntárias,  para a superação da pobreza e das desigualdades, crescentes, no Brasil, potencializando e integrando essa gigantesca força voluntária, num projeto de construção de uma nação mais justa e igualitária.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

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Voluntariado no Brasil: 2001 Ano Internacional do Voluntário

Por Ana Maria Warken do Vale Pereira, diretora e consultora de programas de Voluntariado e Responsabilidade Social na empresa WVP Consultoria e Treinamento, fundadora do IVA (Instituto Voluntários em Ação).

Como dizemos sempre que falamos sobre voluntariado, essa prática é bastante antiga no Brasil, mudando suas características segundo o momento histórico que vivemos.

De uma forma bastante resumida, podemos dizer que o voluntariado começou como uma prática bastante assistencialista onde quem tinha mais dava ao que menos tinha ou nada tinha. Eram distribuídas as sobras dos mais abastados: sobra de comida, de roupa, de dinheiro e até mesmo de atenção e carinho. Era o voluntariado das sobras.

Tivemos ainda uma importante época do voluntariado no Brasil quando se preocupou em criar organizações que pudessem atender as necessidades da população na área da saúde, com a criação das Santas Casas de Misericórdia: os primeiros hospitais filantrópicos. Também as escolas de iniciativa religiosa que eram criadas igualmente como organizações filantrópicas podem ser citadas como iniciativas voluntárias.

Tivemos também a época do voluntariado político, onde a falta de oportunidades de participação da população na definição dos destinos do país e das cidades motivou o engajamento voluntário na luta pela liberdade e pelos direitos do cidadão. Enfim, o voluntariado sempre foi presente e com características diferentes, conforme o momento histórico que vivenciávamos.

A partir dos anos 90, tivemos um marco importante do voluntariado no Brasil fruto do trabalho do sociólogo Herbert de Souza, que utilizando toda a sua capacidade de mobilização criou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela vida, conhecida como a campanha contra a fome.

Betinho, como ficou conhecido, virou um símbolo da cidadania e, nesse rastro, o voluntariado deu uma importante guinada no Brasil, passando a ser considerado uma forma de exercício da cidadania.

O voluntariado passou a ser visto como uma forma de sermos cidadãos plenos, cumprindo com nossos deveres e recebendo nossos direitos como cidadãos que somos.

Como exercício de cidadania, o voluntariado deixou de ser o voluntariado das “sobras” e se tornou em um aspecto importante da vida do cidadão.

No final dos anos 90, surgiu a iniciativa do Conselho da Comunidade Solidária, criada pela então primeira-dama do país, Dra. Ruth Cardoso, para apoiar e mobilizar iniciativas que contassem com o apoio de empresas, indivíduos e organizações públicas, dando visibilidade e fortalecendo um setor da sociedade já existente, mas ainda pouco reconhecido e visível: o terceiro setor e suas organizações não governamentais.

O Conselho da Comunidade Solidária iniciou um processo de motivação para a criação de Centros de Voluntariado nas capitais do país e esses centros foram importantes focos de conhecimento, estudos e disseminação da prática do voluntariado, como forma de exercício da cidadania. As ações voluntárias que até então eram exercidas de forma anônima ganharam rostos e visibilidade, mostrando o que era realizado e o que ainda poderia ser feito com a adesão de mais pessoas a essa prática. O trabalho realizado pelos centros de voluntariado, sem dúvida, disseminou essa prática e multiplicou as pessoas que o realizavam.

Como a prática do voluntariado crescia rapidamente e a ideia era que essa cultura fosse cada vez mais difundida no mundo, a Organização das Nações Unidas (ONU) decidiu que 2001 seria o Ano Internacional do Voluntário.

No Brasil, os Centros de Voluntariado organizaram uma extensa programação que deu muita visibilidade ao tema e, em Santa Catarina, não foi diferente. Lideradas pelo Instituto Voluntários em Ação, muitas organizações se reuniram e mobilizaram suas ações para que pudessem mostrar que o voluntariado não era importante apenas na área de assistência social, mas em atividades da área da educação, meio ambiente, cultura e artes, saúde e outras tantas foram realizadas dando muita visibilidade ao tema, deixando um legado de prática voluntária cada vez mais crescente e mais diversificada.

As pesquisas sobre voluntariado realizadas em 2001 e 2011 mostraram como o brasileiro é sensível ao tema do voluntariado e como tem o desejo de colaborar com causas comunitárias, faltando apenas as organizações se prepararem para recebê-los e aproveitarem todo o potencial que eles oferecem. Nesse sentido, podemos afirmar que os Centros de Voluntariado exerceram um importante papel, não só capacitando pessoas para o voluntariado, mas principalmente capacitando as organizações do terceiro setor para recebê-los e aproveitarem todo o seu potencial para o trabalho. 

Com o crescimento da utilização da tecnologia em todas as áreas da sociedade, o voluntariado também ganhou uma forte colaboração com a prática do voluntariado online, o que acontece com bastante frequência aumentando ainda mais as possibilidades de o voluntário engajar-se e dar sua contribuição para a melhoria da sociedade onde vive.

Voluntariado: uma escolha que transforma

Por Carola Matarazzo, diretora-executiva do Movimento Bem Maior. 

A palavra “voluntário” veio do latim e já tinha em sua origem o significado de “agir por vontade própria”. Agora, penso ser mais do que justo também associarmos esse termo à “escolha de estar no mundo”, quando falamos de alguém que decide destinar, sem remuneração, parte do seu tempo, do seu conhecimento e do seu amor para, simplesmente, servir a uma causa importante. 

Quem faz essa escolha vai além de ser empático. Depois de se identificar com a necessidade do outro, dá um passo adiante e age de maneira simpática, com afinidade e com muita disposição para prestar o apoio. Costumo dizer que um sentimento especial surge como se fosse um “fogo sagrado” no peito que te move a querer ajudar mais.

Além de auxiliar quem precisa, os voluntários percebem que a prática altruísta faz muito bem a eles próprios. Não há nenhum exagero em dizer que dádivas aparecem pelo caminho. Durante os trabalhos, há uma enorme troca de aprendizados, com cada encontro trazendo experiências novas, provocando emoções diversas e gerando estímulos para seguir adiante.

Um doador, quando contribui destinando dinheiro (e é fundamental que isso vire uma rotina!) para alguma causa, está ajudando a mudar o mundo. Mas, talvez, ele não consiga ver de perto o impacto que a sua contribuição faz na vida dos outros. Já, ao se envolver diretamente nas atividades, é possível ter a chance de olhar nos olhos de quem está sendo ajudado e, por exemplo, receber um sorriso como agradecimento. O simples ato de fazer algo que possa ser maior que você e pensar no coletivo é transformador.

Em um país como o Brasil, principalmente, as ações emergenciais são extremamente necessárias e auxiliam muito a minimizar o sofrimento. Quando há, por exemplo, fortes chuvas que provocam deslizamento de terras, é preciso mobilização para levar o apoio o mais rápido possível. Ficamos todos consternados. Agora, não podemos parar por aí. 

Sem ações estruturais, o deslizamento de terras pode se repetir no próximo verão. Além disso, também devemos ficar consternados todos os dias com as tragédias persistentes em nossa sociedade, como a injustiça social. Não podemos encará-la com normalidade.

Os voluntários podem se envolver em filantropia ou em caridade – ambas estão relacionadas à generosidade, ao desejo de fazer o bem ao próximo, mas elas têm proporções e significados diferentes, apesar de muitas pessoas confundirem os conceitos. 

A filantropia exerce um importante papel em uma sociedade democrática, que é o de buscar cortar as raízes dos problemas e resolver questões mais sistêmicas. Já as iniciativas de caridade miram em eliminar os sofrimentos causados por esses problemas, de forma pontual.

Por quase 20 anos, trabalhei como voluntária na Liga Solidária e posso dizer, com clareza, que aprendi muito mais do que eu servi nesse período. Ao longo da minha trajetória, vejo que a solidariedade está muito ligada à questão cultural. Eu nasci em uma casa onde o trabalho voluntário era altamente enaltecido. Quando criança, eu me lembro de estar ao lado da minha mãe vendendo cartelas de bingo para a Fundação Dorina Nowill para Cegos. Iniciativas assim sempre foram naturais em minha vida. 

Esse foi um legado que recebi e procuro passar adiante. Sei que voluntariado não é uma questão de se mostrar mais ou menos bondoso ou de ter mais ou menos horas livres (claro, cada um atua dentro das suas possibilidades). Mas é, sim, uma decisão feita por quem escolheu servir como uma condição, como uma forma de viver. Espero que o comportamento solidário seja enraizado na cultura brasileira para construirmos um país mais justo.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Acesse o site da Pesquisa Voluntariado no Brasil

Anuário de Desempenho de Fundos Patrimoniais

Agradecemos o seu interesse em participar do “Anuário de Desempenho de Fundos Patrimoniais 2022”. Esta publicação, realizada pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e Coalizão pelos Fundos Patrimoniais Filantrópicos, pretende contribuir para que os gestores de fundo patrimoniais brasileiros tenham material para refletir, aprimorar e avaliar a performance de seus endowments.

Antes de iniciar o preenchimento do formulário online, sugerimos que baixe aqui o formulário em Word completo (baixe aqui). Mas, atenção, somente serão aceitos as respostas via o formulário abaixo.

O Anuário de Desempenho de Fundos Patrimoniais 2022 é uma realização do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento Social e da Coalizão pelos Fundos Filantrópicos, com apoio de  1618 Investimentos, Fundação José Luiz Egydio Setubal, Fundação Maria Cecília Souto Vidigal,Pragma Gestão de Patrimônio, Santander e Umane.

 

Saiba mais sobre fundos patrimoniais:

 

 

 

Santa Casa de Santos e o Voluntariado brasileiro celebram 480 anos

Por Nanci Fernandes Loureiro, Presidente da Associação dos Voluntários Santa Casa de Santos (AVOSC) e Eliana Lopes Feliciano diretora de humanização Santa Casa de Santos.

Braz Cubas, fidalgo português e líder do povoado do porto de São Vicente, posteriormente vila de Santos, auxiliado por outros moradores, iniciou em 1542 a construção da Santa Casa da Misericórdia de Santos, o mais antigo hospital brasileiro, inaugurando-o em novembro de 1543. Braz Cubas chegou com Martim Afonso de Souza nessa missão colonizadora de nosso país; era neto de Nuno Rodrigues, fundador e mantenedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, daí seu empenho na construção do hospital no povoado. 

Tendo prestado quase cinco séculos de assistência, a Santa Casa da Misericórdia de Santos participou de todos os ciclos da história de nossa pátria. Cuidou dos fundadores desta Nação – os navegantes lusos, colonos, nativos e escravos. Atendeu aos bravos bandeirantes e aos pobres condenados. Tratou igualmente de nobres e de vassalos do Império Português e do Brasil Imperial. Serviu ao encontro de heróis da Independência e da Abolição da Escravatura, de tradicionais monarquistas e de inflamados republicanos. Cuida de patrões e de operários, de empregados e de desempregados. Ponto de união entre todos os segmentos da sociedade, é local de encontro de seus membros quando tomados pela dor e pela doença.

A Santa Casa da Misericórdia de Santos serviu para a prática e o ensino da Medicina quase três séculos antes da fundação da primeira Faculdade de Medicina no país. Ciência e muito humanitarismo se praticou em suas enfermarias.

E tem em sua história o marco zero do voluntariado no Brasil: o berço dos primeiros grupos de voluntários, atuantes até hoje, se formalizou com a fundação da AVOSC – Associação de Voluntários da Santa Casa de Santos. Ela foi criada em meio à epidemia de gripe asiática, em 1957, quando a instituição precisou recrutar pessoas para auxiliar nas tarefas que não precisavam de formação profissional devido ao grande número de funcionários afastados, acometidos pela doença. Muitas pessoas de boa vontade atenderam ao apelo.  Assim, teve início a história da AVOSC, cujos voluntários são conhecidos como “amarelinhos”, devido à cor de seus uniformes. Atualmente, o grupo é formado por 92 voluntários, que acolhem os pacientes, suprindo suas carências com o fornecimento de enxovais, materiais de higiene, empréstimos de bengalas, muletas, entre outras necessidades. A AVOSC é a grande parceira nos projetos de humanização hospitalar da Santa Casa de Santos eesde 2002, o voluntariado e a Comissão de Controle de Qualidade do hospital atuam de forma integrada com o objetivo de assegurar índices satisfatórios na prestação dos serviços hospitalares.

Além do apoio nas doações de recursos materiais, os voluntários da AVOSC levam solidariedade e humanismo nas visitas realizadas nas unidades de internação e a meta é proporcionar as condições para o bem-estar do paciente no hospital, pois em muitas circunstâncias apenas uma palavra amiga e o calor humano são o que mais importam.

Neste ano de 2022, o Brasil comemora os seus 200 anos de independência e a Santa Casa de Santos e o Voluntariado brasileiro celebram 480 anos.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Acesse o site da Pesquisa Voluntariado no Brasil

Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 é destaque no JN

Representados nos mais diversos segmentos, desde organizações educacionais a instituições que atuam em causas emergenciais humanitárias, eles coordenam campanhas de distribuição de alimentos, resgatam animais, contribuem para mobilizações ligadas à saúde, compartilham seus conhecimentos.

Os voluntários doam seu tempo, energia e talento em prol de causas em que acreditam. São essenciais para que organizações da sociedade civil atinjam suas missões e, durante a pandemia, fizeram a diferença e impactaram positivamente a vida de milhares de pessoas.

No dia 27 de abril, foi lançada a Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, a terceira edição desse estudo que apresenta um retrato brasileiro do tema, indica tendências e analisa  mudanças. O lançamento contou com a participação ao vivo de mais de 400 pessoas.

No mesmo dia, o estudo foi destaque no Jornal Nacional que chamou a atenção, principalmente aos números e significados do voluntariado empresarial. A coordenadora da pesquisa, Silvia Naccache, entrevistada pelo veículo, comentou, ainda, sobre os dados da pandemia: mesmo com o isolamento social, 47% dos voluntários passaram a fazer mais atividades solidárias.

A pesquisa foi elaborada e coordenada por Silvia Naccache, com apoio dos consultores Kelly Alves do Carmo e Felipe Pimenta de Souza. Sua viabilização teve o suporte de organizações que acreditam na importância do avanço do voluntariado no Brasil e participam dessa rede de apoiadores, Ambev, Bradesco, Fundação Itaú Social, Fundação Telefônica Vivo, Raízen, Sabesp, Sicoob e Suzano. IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – e Instituto Datafolha assinam a realização.

Os resultados completos estão disponíveis em www.pesquisavoluntariado.org.br.

 

O Voluntariado em 2021: boas notícias em tempos desafiadores

Por Silvia Maria Louzã Naccache, empreendedora social, palestrante, conteudista e consultora na área de Voluntariado, Responsabilidade Social, Desenvolvimento Sustentável e Terceiro Setor. 

Como é bom ser porta voz de boas notícias em tempos tão difíceis e desafiadores!

A boa nova é que em 2021, 34% dos brasileiros, com mais de 16 anos, praticaram o voluntariado!  

No perfil do voluntário há equilíbrio na questão de gênero, 51% mulheres, 48% homens e 1% trouxe outras respostas. A idade média de maior destaque ficou nos 43 anos. 

Voluntários tem o desejo de fazer o bem, gostam de poder impactar positivamente a vida das pessoas e com isso o voluntariado vem sendo percebido e reconhecido como uma experiência transformadora para quem recebe e para quem faz.

Impossível não registrar os aprendizados e os reflexos da pandemia no voluntariado, o apoio aos programas de assistência, a participação nos movimentos de mobilização, o atendimento a novos grupos populacionais, a doação de recursos, a adoção ou ampliação do voluntariado a distância ou online. Na pandemia 47% dos voluntários passaram a fazer mais atividades, a participar e contribuir ainda mais. 

A solidariedade impulsionou 74% das pessoas para as ações de voluntariado. Foi esta a maior motivação: ajudar o outro.  Se por um lado voluntários buscam fazer uma atividade com o propósito ou a causa com que tem forte identificação, o urgente, mobilizou as pessoas para a ação: fome, pobreza e desigualdades. Atender famílias, comunidade e pessoas em situação de rua tiveram destaque entre os públicos beneficiados pelas ações. (36% – o público geral; 35% – famílias e comunidades; 25% – pessoas em situação de rua).

Os voluntários encontram algumas dificuldades em suas atividades tais como, lidar com as pessoas que nem sempre estão verdadeiramente empenhadas em fazer o bem; lidar com as impotências, e demandas que vão além do que conseguem realizar; a frustação com a constância, a fidelização das pessoas ao projeto e ainda, o preconceito com algumas causas e públicos! A informalidade dos programas de voluntariado ainda é uma realidade: apenas 45% dos voluntários tem conhecimento sobre a lei do serviço voluntário no Brasil e apenas 18% assina o termo de adesão ao serviço voluntário. Isso aponta o vasto campo de trabalho para organizações que fomentam o voluntariado inclusive as online: 84% dos voluntários desconhecem as plataformas e sites de promoção ao voluntariado.

Satisfação com a própria atividade voluntária segue alta, mesmo com os desafios enfrentados: no tipo de atividade, no retorno recebido e no apoio para realizar a atividade. A nota teve uma média de 9,1, em uma escala de 0 a 10. 

As menores notas foram por não receberem o apoio financeiro necessário para realizar a ação e ainda a falta de capacitações e formações. 

A pesquisa apontou um conhecimento sobre o que é voluntariado.  Segundo os voluntários, doação de recursos não é voluntariado, mas doadores e voluntários formam uma rede de apoio, se complementam, onde cada um contribui como pode e com o que pode: dinheiro, objetos ou tempo. 

Todos podem ser voluntários! Mas quais são as habilidades necessárias para fazer trabalho voluntário? No voluntariado existe a possibilidade de trazer as habilidades para realizar a ação, mas também por meio das práticas desenvolver talentos. Existe um consenso entre os voluntários:  engajamento, comprometimento e colaboração são essenciais!  

O voluntariado empresarial também nos trouxe a boa notícia! O reconhecimento do seu poder de engajamento para as práticas voluntárias!  15% dos voluntários se mobilizaram pelos programas de voluntariado corporativo.  O voluntariado aparece como parte das boas práticas do ESG/ASG e as empresas ocupando todos os espaços da comunidade.

Ações e omissões desenham o futuro da nossa sociedade! Apoiar uma causa, dedicar-se ao voluntariado é a maior prática de cidadania. O Brasil nunca foi tão desigual! A pesquisa voluntariado no Brasil 2021 mostra que brasileiros não paralisaram. Eles se organizaram e se estruturaram para seguir atuando! 21% passaram a usar ferramentas online para fazer atividades voluntárias durante a pandemia, com destaque para o apoio psicológico, a escuta. 

O voluntário é agente de reconstrução do nosso país! Atua com intencionalidade, empatia, resiliência. Compartilha conhecimento, experiências e expertises. 96% dos voluntários concorda que a atividade voluntária os inspira a ser uma pessoa melhor e 89% concorda que a atividade voluntária é a melhor forma de auxiliar a sociedade.

Unidos e em colaboração vamos construir um país mais justo, igualitário, e por meio da solidariedade e do voluntariado deixar um legado para as gerações futuras.

Dúvidas sobre a pesquisa ou metodologia, procurar por: pesquisavoluntariado2021@gmail.com

 

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

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História do Voluntariado no Brasil: de 1543 ao bicentenário da independência

Por Maria de Fátima Alexandre, Mestre em Administração, docente de cursos de especialização e pesquisadora do Núcleo de Estudos Avançados em Terceiro Setor (NEATS) da PUC-SP.

Desde sempre, no Brasil e no mundo, voluntário é a pessoa que ajuda outras pessoas sem exigir benefícios próprios diretos. O que tem mudado, e muito, é a forma de exercer o voluntariado e o entendimento da função social dessa ação. Na linha do tempo brasileira, identificamos grandes momentos que impactaram quem exerceria a atividade voluntária e como ela se daria no contexto da sociedade. 

O primeiro movimento voluntário revela ações marcadas pela benemerência, num amplo período que perdurou no Brasil Colônia, Império e Primeira República, até início do século XX. Pouco mais de quatro décadas depois do descobrimento do Brasil, a então colônia funda sua primeira Santa Casa, gerida pela Irmandade de Misericórdia, uma instituição de assistência criada em Portugal alguns anos antes, de acordo com os costumes e ensinamentos cristãos. O capitão-mor Braz Cubas criou a Casa de Saúde próxima ao Porto de Santos com o apoio de doações para o tratamento “da gente do mar e forasteiros” que necessitassem de socorro. 

Este marco do voluntariado no país, multiplicado em outras instituições de abrigo e assistência a necessitados, geralmente vinculadas à Igreja Católica, representava o ideário da caridade cristã, expressa na forma de assistência social. Frente à ausência de políticas públicas efetivas, as irmandades religiosas, mantidas em grande parte pelas famílias da elite, exerciam importante papel na assistência, em especial aos que estivessem “caídos em desgraça”, “desvalidos” e às crianças abandonadas. Refletindo os valores e costumes da época, o voluntariado era exercido predominantemente por mulheres, em tom religioso, paternalista e rigorosamente moralizador.  

O século XX trouxe mudanças sociais, econômicas e políticas que, provocando profundas transformações na sociedade brasileira, naturalmente fizeram evoluir o agir voluntário, acompanhando esses movimentos. A Cruz Vermelha e o Escotismo, movimento composto por voluntários, chegaram ao país no início do século XX dando um novo impulso à missão de ajuda ao próximo. A partir da década de 1930, o Estado passa a assumir papel mais atuante frente às necessidades da população, inicialmente pela proteção dos direitos do trabalhador e gradativamente gerando políticas públicas de assistência e bem-estar social. As ações voluntárias, embora ainda essenciais para o atendimento das necessidades básicas de significativa parcela da população, passam a ser vistas como suplementares e não mais um sistema paralelo à atuação do Estado. 

Com o golpe de 1964, o país mergulhava em 21 anos de ditadura militar, sendo os anos de chumbo os mais repressivos e violentos no embate criado entre Estado versus sociedade civil. Esse foi o período em que tivemos o chamado voluntariado combativo, com organizações de defesa de direitos civis, os movimentos estudantis e as alas progressistas da Igreja Católica, alinhadas com a Teologia da Libertação, lutando contra a desigualdade e as injustiças sociais. Traziam grandes questionamentos sobre o papel da sociedade frente às causas sociais e à garantia de direitos humanos, ao mesmo tempo que atos institucionais e outros instrumentos do governo procuravam reprimir e centralizar o poder.

Esse cenário foi se modificando a partir da década de 1980 com a expansão das organizações do Terceiro Setor e com a Constituição de 1988, fortalecendo a sociedade civil e sua capacidade de participação cidadã. Iniciava-se a construção de um novo voluntariado, mais crítico em relação às ações de benemerência e mais disposto ao alinhamento com o Estado face à complexidade e o tamanho dos desafios, especialmente os ligados à imensa desigualdade social brasileira. O setor empresarial, chamado à mobilização pelos conceitos emergentes de Responsabilidade Social Empresarial, também estruturou seu voluntariado organizacional, estimulando os colaboradores à participação em ações sociais com a parceria de organizações da sociedade civil. No final do século, a Pastoral da Criança, com seus líderes comunitários contribuindo efetivamente para a queda da mortalidade infantil e a Ação da Cidadania Contra a Fome, do sociólogo Betinho no IBASE tiveram papel expressivo na mobilização nacional: todas as pessoas poderiam se sentir solidárias e aptas a participar da mudança social.

Na virada do milênio, a cultura de um novo voluntariado foi fortalecida pelos Centros de Voluntariado do Conselho da Comunidade Solidária, num esforço nacional para mostrar que o voluntariado não é acionado pelo sentimento de culpa, mas que o exercício de cidadania que ele proporciona pode trazer prazer e ser uma atividade qualificada e eficiente.

Decorridos 22 anos do século XXI, os desafios sociais continuam crescentes e, muitas vezes, nos pegam de surpresa, como o isolamento social causado por uma pandemia que exigiu que os voluntários encontrassem novas formas de acolher quem foi mais atingido. Além dos desafios atuais, não sabemos o tamanho dos que nos esperam no futuro, mas sabemos sim que voluntários estarão presentes doando sua energia, tempo e talento na construção de novas relações até que todos, sem exceção, possam exercer o seu direito a uma vida plena.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

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Pesquisa Voluntariado no Brasil 2001: conheça a primeira edição histórica

O voluntariado faz parte da história do Brasil e tem suas raízes em 1543, na fundação da Santa Casa de Santos. Desde então, vem se transformando. As organizações se multiplicaram, a atividade foi regulamentada, empresas passaram a promover programas de voluntariado, a tecnologia permitiu a atuação dos voluntários à distância.

Em 2001, no Ano Internacional do Voluntário, aconteceu a primeira edição da Pesquisa Voluntariado no Brasil. Dez ano depois, foi realizada a segunda pesquisa, celebrando a Década do Voluntário. Seguindo a série histórica, surgem os resultados de 2021, ano profundamente marcado pela pandemia de Covid-19 e pelo fortalecimento da cultura de doação.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil apresenta um retrato do engajamento do brasileiro – quem são os voluntários, onde atuam e quais suas motivações.

Baixe aqui os resultados da edição 2001

Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021: acesse o site

Assista também ao evento de lançamento da pesquisa 2021:

 

 

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 é uma realização do IDIS e do Instituto Datafolha. Foi elaborada e coordenada por Silvia Naccache, com apoio dos consultores Kelly Alves do Carmo e Felipe Pimenta de Souza. Sua viabilização teve o suporte de organizações que acreditam na importância do avanço do voluntariado no Brasil, e participam dessa rede de apoiadores, Ambev, Bradesco, Fundação Itaú Social, Fundação Telefônica Vivo, Raízen, Sabesp, Sicoob e Suzano.

 

 

O Voluntariado Empresarial no Brasil na última década pelas lentes do censo CBVE

Por Carolina Muller, Gestora da Secretaria Executiva do Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial (CBVE) e Gerente de Projetos no Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (CIEDS).

Os últimos 10 anos foram marcados por uma velocidade sem igual no nosso modo de agir, pensar, sentir, consumir e se movimentar por este planeta. É neste cenário de volatilidade, transformação e imprevisibilidade que vamos aqui falar do voluntariado empresarial corporativo e de sua evolução, considerando nesta análise a série de Censos realizados pelo CBVE – Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial, e que vem, desde 2015, evidenciando um crescimento sustentado e qualificado do voluntariado corporativo empresarial enquanto ferramenta estratégica de desenvolvimento de pessoas, comunidades e instituições. 

Programas cada vez mais estratégicos, institucionalizados, gerenciados por indicadores próprios e alinhados aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), vem dando a tônica de uma rede que cresceu em capacidade de mobilização e com resposta às demandas da sociedade, especialmente diante de cenários emergenciais, como o vivenciado a partir da Covid-19. Momento em que a rede cresceu em 185% o número de pessoas alcançadas pelas suas ações.

Considerando uma leitura ampla do cenário, o primeiro Censo, em 2015, evidenciou a necessidade de identificação e a disseminação de boas práticas, traduzida como demanda por construção de conhecimento sobre voluntariado empresarial, focado preliminar e principalmente nas múltiplas dimensões e possibilidades do seu fazer. Já em 2016, foi possível perceber movimentos em busca de maior organicidade, alinhamento estratégico e aplicação de ferramentas de gestão, dando início a busca pela definição de processos e instrumentos de monitoramento e avaliação. Uma trajetória ainda em curso, que ganhou forma à medida em que áreas dedicadas à gestão dos programas de voluntariado foram sendo criadas. 

Neste mesmo tempo, duas grandes tendências surgiram: o alinhamento das ações de voluntariado empresarial aos objetivos estratégicos das empresas; e o crescimento do desenvolvimento de ações voluntárias fora do horário comercial. Nesse cenário, o exercício cada vez maior na construção de sistemas próprios para a gestão das atividades de voluntariado emergiu como tendência significativa de investimentos específicos para resolução das demandas de cada organização, e principalmente, de seus colaboradores – maior valor e motor do voluntariado empresarial. A necessidade de seguir buscando por indicadores de impacto decorrente da ação voluntária ficou evidente, motivando o próprio CBVE a iniciar sua própria jornada de desenvolvimento de indicadores íntegros para qualificar a gestão e melhor apurar resultados dos programas de voluntariado

 Nestes dois períodos – 2015 e 2016 – as áreas de Educação e Geração de Renda concentraram o maior número de atividades de voluntariado da #rede. A pactuação global em torno dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o fortalecimento da perspectiva de interdependência no qual se assentam seguiram alinhando os esforços para o cumprimento da Agenda 2030 e se consolidaram como ponto de partida e também de chegada das ações voluntárias.

A partir de 2018, quando o Censo passou a ser bianual, o alinhamento dos Programas de Voluntariado e suas ações ao plano estratégico das empresas se fortaleceu. Quase 95% das associadas declararam realizar este alinhamento, passando a ser fundamental que as ações e programas de voluntariado empresarial estejam conectados aos objetivos e planos estratégicos das instituições, como forma de fortalecimento e perenidade das ações, precursor do movimento ESG que vem a ser incorporado nas organizações. 

E neste aspecto a Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 e seu estudo sobre o voluntariado empresarial na última década, elaborado e coordenado por Silvia Naccache traz reflexões para que as empresas, ao cumprirem sua responsabilidade social e metas ESG, também levem essas qualidades aos programas de voluntariado junto a seus colaboradores, destacando o movimento voluntário como deflagrador de soft skills, com destaque para a flexibilidade para lidar com adversidades. Destaque também para o número de voluntários engajados por e em programas de voluntariado corporativos, 15%, dos quais 58% atuam com frequência definida.

Paralelamente, o surgimento do coronavírus arrastou de uma só vez as corporações ao isolamento social e à necessidade da transformação digital. O voluntariado, tão dependente e alimentado de toques, abraços e olhos nos olhos, precisou se reinventar e redescobrir novas formas de alcançar os mais necessitados.

Estar em ação mantendo protocolos sanitários foi desafiador, e migrar do presencial para o virtual foi e segue sendo um calibrador de prerrogativas e possibilidades de estar e atuar em um “novo normal”, ainda mais demandante de recursos e intervenções de proteção e promoção social. 

Agora, com a possibilidade do retorno presencial, intercalando presença e tecnologia em modelos híbridos de operação, seguimos certos de que jamais voltaremos ao que era antes, não sendo possível, nem desejável, ignorar o muito que aprendemos sobre conexão e ganhos de agilidade. Não só pelo alargamento da presença da tecnologia em nossas vidas, mas também pelas emergências humanitárias às quais nos ligamos. 

Alinhavar o agora a um futuro melhor, garantir o essencial à preservação da vida e da dignidade hoje, garantir assistência humanitária aos que mais precisam, unificaram-se como a demanda prioritária dos programas de voluntariado empresarial, renovando o desafio de pensar a assistência, aqui entendida como garantia de acesso aos mínimos sociais.

Nessa jornada, como #rede, nos posicionamos como espaço de partilha, que trabalha para #inspirar você, nosso leitor, a também aceitar o desafio de fazer de nosso mundo um lugar melhor! Nesse sentido, seguimos ainda mais próximos, acelerando inovações e aprendizagens no cumprimento do chamado global para não deixar ninguém para trás. 

 

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Acesse o site da Pesquisa Voluntariado no Brasil

O que os dados nos contam sobre o impacto da pandemia no voluntariado?

Por Pamela Ribeiro, coordenadora de projetos especiais no GIFE e integrante do comitê coordenador do Movimento por uma Cultura de Doação. 

Durante a pandemia do coronavírus, vimos aparecer diversas  pesquisas e estudos no setor social, todos atentos aos impactos da Covid-19, no engajamento cívico de empresas e pessoas em resposta à emergência. E o que esse conjunto de dados nos conta sobre os efeitos da pandemia no engajamento cívico no Brasil? Isso é o que este artigo pretende, pelo menos em partes, responder.

A pesquisa “Brasil Giving Report 2021”, realizada pela Charities Aid Foundation (CAF) e pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, mostrou uma pequena redução do engajamento cívico em geral do brasileiro durante o primeiro ano de pandemia: as atividades de doação e voluntariado caíram de 78% em 2019 para 72% em 2020. O engajamento com o voluntariado em Organizações da Sociedade Civil (OSCs), que vinha estável no patamar de 43% desde 2017, caiu para 41% em 2020. Já o voluntariado para igrejas ou outras organizações religiosas registrou uma oscilação ainda maior, de 44% em 2019 para 40% em 2020. 

Quando olhamos para o voluntariado corporativo, o cenário não foi muito diferente. Dados da pesquisa “Benchmarking do Investimento Social Corporativo” (BISC 2020)”, da Comunitas, mostram que houve uma queda de 35% no número de colaboradores voluntários em 2020 em relação a 2019. O crescimento no engajamento das empresas observado tanto no Censo GIFE 2020 quanto no BISC 2020, por meio de um aumento expressivo no volume dos investimentos sociais, não foi observado no voluntariado.

Portanto, o primeiro ano de pandemia parece ter sido marcado por uma redução no engajamento dos brasileiros em atividades voluntárias, o que pode ser explicado, de acordo com o BISC 2020, pelo impacto natural que o isolamento social teve em atividades presenciais.

Porém, os dados apontam também para uma ressignificação do engajamento cívico dos brasileiros durante a pandemia. Os dados do BISC 2020 mostram um crescimento na formação de redes de colaboração entre voluntários (de 65% em 2019 para 82% em 2020), no estímulo ao voluntariado digital (de 55% em 2019 para 82% em 2020) e na doação casada funcionário-empresa (de 18% em 2019 para 36% em 2020). A pesquisa “Voluntariado na Educação”, realizada pelo Itaú Social em parceria com o Instituto Datafolha e divulgada em dezembro de 2021, aponta uma tendência semelhante quando mostra que 47% dos respondentes disseram que houve um aumento de doação de alimentos neste período. Aqueles que foram impedidos de se dedicar ao trabalho voluntário presencial, aderiram ao voluntariado digital ou outras formas de doação, como a doação de dinheiro e de bens, como mostram as pesquisas.

O mais recente estudo sobre o tema – Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 – realizado pelo Instituto Datafolha e pelo IDIS, retrata um cenário um pouco diferente do observado no primeiro ano de pandemia. Segundo a pesquisa, o percentual de pessoas que declararam ter aumentado suas atividades voluntárias (47%) durante a pandemia foi superior ao percentual dos que declararam uma redução (34%). Destes, a maioria (61%) se engajou na distribuição de alimentos, roupas, medicamentos, cestas básicas, livros e brinquedos.

Portanto, o que os dados nos contam é que, apesar de uma retração inicial, os números de voluntariado parecem ter voltado a crescer, mostrando uma tendência de reacomodação da prática, que se concentrou em ambientes virtuais e no enfrentamento aos efeitos mais imediatos da pandemia. Nesse sentido, a pandemia parece ter impulsionado novas formas de engajamento cívico e novas experiências de doação, ampliando as possibilidades e o potencial do voluntariado no Brasil.


Referências:

Brasil Giving Report 2021
Benchmarking do Investimento Social Corporativo (BISC) 2020
Voluntariado na Educação

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Acesse o site da Pesquisa Voluntariado no Brasil

Brasil, um país cada vez mais voluntário

Por Luisa Gerbase de Lima, Gerente de Comunicação no IDIS

Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 traz cenário positivo
e aponta caminhos para evolução por meio da participação de empresas

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 traz excelentes notícias. Em apenas duas décadas, o número de pessoas que já praticou alguma atividade voluntária em algum momento de sua vida mais que triplicou, passando de 18% para 56% da população. O número de voluntários ativos também é notável – mais de um terço da população (34%). Em outras palavras, são 57 milhões de brasileiros e brasileiras que doaram, em 2021, seu tempo, talento e energia em prol de uma causa em que acreditam e fizeram a diferença na vida dos beneficiados pela ação. E por que fazem? A grande motivação foi a solidariedade, indicada por 74% dos voluntários.

Vibramos com os números, mas não podemos dizer que são surpreendentes – vão ao encontro de achados de outras pesquisas que mostram o fortalecimento da Cultura de Doação e do voluntariado. No World Giving Index 2021, estudo global da britânica Charities Aid Foundation (CAF), promovido pelo IDIS, o Brasil ficou em 54º lugar entre 114 nações. Este ranking de solidariedade contempla atitudes como doação de dinheiro, ajuda a estranhos e voluntariado e, em termos absolutos, subimos 14 posições em relação a 2018 e 20 posições em comparação à média dos 10 anos anteriores.

Outro levantamento, a Pesquisa Doação Brasil 2020, realizada pelo IDIS e com foco em doação individual de dinheiro a causas, mostra que, apesar da queda nos índices de doação, há uma tendência de amadurecimento da sociedade – mais de 80% dos entrevistados concordam que o ato de doar faz diferença e, entre os não doadores, essa concordância atinge 75%. O conceito de que a doação faz bem para o doador também cresceu significativamente entre 2015 e 2020, de 81% para 91% da população, atingindo uma maioria quase absoluta. Mais um aspecto positivo é que está perdendo força a ideia de que o doador não deve falar que faz doações. Em 2015, a afirmação contava com a concordância de 84% da população e, em 2020, o percentual caiu para 69%. Este é um ponto especialmente importante porque o falar sobre doações estimula sua prática, traz inspiração, esclarece temores e desperta o interesse em outras pessoas.

É neste contexto que o voluntariado se desenvolve no Brasil e nota-se que, apesar de a pandemia e o isolamento social terem abalado estruturas, exigindo rápidas readequações, fomos capazes de enfrentar estes desafios – 47% dos voluntários passaram a se dedicar mais, e 21% começaram a fazer atividades voluntárias online como apoio psicológico e ações ligadas à educação.

Tais avanços não são, de forma alguma, espontâneos. São fruto de trabalho e investimento de inúmeras organizações e indivíduos. Estudos e pesquisas geraram dados e reflexões; a prática nos permitiu aprender com as experiências exitosas e, também, com os erros; o aprimoramento do ambiente regulatório trouxe bases mais sólidas e a tecnologia nos permitiu ultrapassar barreiras e contribuiu para conectarmos pessoas e saberes.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 traz um retrato de onde estamos, indica pontos de atenção e possíveis caminhos para seguirmos evoluindo. Manter o crescimento do número de voluntários é sempre desejável, mas o grande desafio é transformar essa tendência em uma prática rotineira – temos 34% de brasileiros voluntários atualmente, mas apenas cerca um terço deles fazem isso regularmente, com frequência definida. A resposta para essa transformação está em um outro número – apenas 15% dos voluntários dizem participar de programas empresariais, indicativo de potencial enorme que pode ser explorado.

Quando unimos o investimento social corporativo com os anseios individuais, encontramos um campo fértil para ações solidárias de empresas junto ao seu público interno e aí moram os programas de voluntariado corporativo. Os resultados possíveis dessa união são muitos, indo além do impacto social gerado e da criação de uma rotina de atuação. Melhoria do clima organizacional, aumento do sentimento de pertencimento, oportunidade de desenvolvimento de competências, fortalecimento de laços entre colaboradores, aprofundamento do relacionamento com a comunidade da empresa, contribuição à estratégia de impacto e investimento social privado corporativo, atração de talentos e contribuição à reputação da marca junto a outros stakeholders são alguns dos benefícios de ações solidárias envolvendo os colaboradores. Tais programas integram também a agenda ESG (sigla para Environmental, Social and Governance, no português, Ambiental, Social e Governança), cada vez mais considerada nas tomadas de decisão de investidores. Ao promover programas de voluntariado corporativo, todos ganham.

A generosidade no mundo aumentou, em especial nas economias com pessoas em situação de maior vulnerabilidade. Este movimento de cuidar do próximo e realizar doações, seja de tempo ou de recursos, precisa continuar para enfrentarmos os efeitos perversos da pandemia e acelerar a melhoria do bem-estar de quem mais precisa. Estamos indo na direção certa e vamos avançar.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 foi elaborada e coordenada por Silvia Naccache, com apoio dos consultores Kelly Alves do Carmo e Felipe Pimenta de Souza. Sua viabilização teve o suporte de organizações que acreditam na importância do avanço do voluntariado no Brasil e participam dessa rede de apoiadores, Ambev, Bradesco, Fundação Itaú Social, Fundação Telefônica Vivo, Raízen, Sabesp, Sicoob e Suzano. IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – e Instituto Datafolha assinam a realização.

Acesse os resultados completos da pesquisa